NEGA JURA – Capítulo II (8ª parte)

2009 Novembro 20
por André Costa Nunes

É importante ler antes:

MEMORIAL DA AMAZÔNIA – TRILOGIA

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (1ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (2ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (3ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (4ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (5ª parte)

EDUARDO BESOURO – Capítulo II (6ª parte)

EDUARDO BESOURO – Capítulo II (7ª parte)

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Capítulo II

NEGA JURA

continuação da 7ª parte do C apítulo II

…é importante ler antes a 1ª, a 2ª,  a 3ª, 4ª, a 5ª,  6ª e a 7ª partes.

No meio de uma enorme nuvem de poeira vermelha chegavam os colonos. Os que vinham mais de perto, como do Maranhão, ou mesmo de Goiás, lotavam caminhões cobertos com toldo de zinco ou lona, e, os bancos, meras tábuas enfileiradas e presas, como dessem, no taipá, que é como se chamam as laterais das carrocerias de madeira, aquelas com dobradiças que se abrem para baixo a moda de portas, para facilitar a descarga. Outros havia que nem isso tinham.

Os flagelados se acomodavam com suas bagagens em cima da carga geral como podiam. Muitos eram trabalhadores errantes em busca de emprego sem qualificação nas frentes de trabalho. Alguns eram chamados de barrageiros. Ali não havia barragem, mas muita mata a derrubar. A maioria era de colonos em busca de assentamento na colonização planejada pelo governo. Estes vinham do Sul em ônibus fretados. Não raro oriundos de cooperativas agrícolas estabelecidas e consolidadas como a Cotrijuí do Rio Grande. Gente branca, loura, olhos de gato, gazos. Descendentes de italianos, alemães, polacos e outros que tais, experimentados no trato da terra. Outra cultura. Um choque de civilização, produção e produtividade, àquelas gentes ignorantes e indolentes.

O contato com os nativos e agricultores atrasados do norte e nordeste teria efeito multiplicador. Quando não, até por osmose ou miscigenação. Clarear e melhorar a raça.

Esses tinham prioridade nos assentamentos da colonização simétrica traçados nas pranchetas dos gabinetes de Brasília por quem nunca sequer havia sobrevoado a região. Quadrados, retângulos e losangos perfeitos. Ainda hoje é bonito de ver nas fotografias dos satélites. Qualquer pessoa. Basta acessar o “google earth” na Internet. É de graça. A grande estrada reta e os travessões também retos. Estes, perpendiculares ou oblíquos àquela, mas sempre paralelos entre si. Fossem riscados por uma criança, o pai orgulhoso diria:

- Esse menino tem futuro. Vai ser arquiteto.

De repente, deu certo e ele acabou traçando, como diz o Eduardo, “esta merda de projeto”. “Como se a natureza não conhecesse curvas. A Terra não fosse redonda, mas um imenso planisfério como na concepção medieval. As águas, os baixões, rios e igarapés, meros canais de irrigação traçados pelo esquadro do Supremo Arquiteto do Universo, como que por displicência, já que Ele, que é onisciente, houvesse cumulado uns lotes com dois, três, cursos d`água e outros tantos torrados”.

“As estradas, apenas as de penetração às áreas centrais, porque, as grandes vias, com um pouco de bom senso, dava para ver que já estavam prontas. Os rios”.

A crítica do Eduardo Besouro era no mínimo ferina. Nada escapava.

No início, quando os colonos chegavam, eram o gozo da população local. Todos iguais. Ruivos, literalmente. Da cabeça aos pés. Cabelo, sobrancelha, pestana, bigode e barba, se houvesse, roupa e tudo o mais. A poeira vermelha, como um talco, insidioso, permeava tudo. Não havia mala, sacola ou valise, por mais hermeticamente fechada que se supusesse imune, dias e dias ao ataque do tal pó “bruno avermelhado”, orgulho do Eduardo Besouro.

Em uma dessa levas, quase ninguém notou, por ruiva também, desembarcou uma negra. Juraci da Silva Lemanski. “Isso lá é nome de preto?”, tempos depois comentou o Zé Osmar. “Juraci vá lá, Silva, também, mas Lemanski é dose…”.

Juraci, muito magra, alta, esbelta, gazela, desceu acompanhada do marido, Guilherme Lemanski e, no colo, todo embrulhado, agasalhado como era possível, a filha recém nascida. Dois meses no máximo. Saltou amparada pelo motorista do INCRA. Esticou as pernas, enquanto o marido em meio a enorme burburinho tentava achar as tralhas, tão perdidas como pareciam estar as pessoas, ele inclusive.

O local do desembarque era um barracão sem paredes e coberto de palha. Alguém arranjou um lugar no único banco existente. Apenas uma tabua corrida na soleira, e tomava quase toda a frente do barraco. Não tinha encosto, e as pernas, barrotes toscos de madeira roliça, enterrados no chão de terra batida. De terra batida também era o chão daquele arremedo de estação rodoviária.

Juraci sentou-se, semblante resignado e determinado, ajeitou a criança no colo para amamentar. Seios pequenos, cobertos pudicamente com um cueiro também ruivo do pó da estrada.

Neste momento, Dona Waldice do Tonico que observava a chegada dos forasteiros, vendo aquela cena, aproximou-se com seu jeito de mãezona, e condoída disse:

- Meu Deus, minha filha, essa criança é muito verdinha, você vem de longe? Qual é a idade desse anjo?

- Rio grande do Sul. Respondeu resignada sem levantar a vista e arrematou. Cinqüenta dias.

Waldice levou a mão à boca num gesto de espanto. Determinada, dirigiu-se ao Dirceu, também gaúcho, de Canguçu encarregado do INCRA cedido pela CEPLAC.

- Para onde vocês estão levando estes pobres coitados?

- Para o travessão do 70. E temos que nos dar pressa, pois daqui pra frente é de caminhão. E mesmo assim se tudo der certo só vamos chegar à boca da noite. Se chover, temos que dormir na estrada em qualquer atoleiro. O alojamento daqui, não cabe mais ninguém. Está botando gente pelo ladrão. Isso é uma maldade que estão fazendo com os conterrâneos, mas fazer o que?

- Essa mulher com essa criança não vai! É um crime.

- Mas… ainda tentou argumentar o Dirceu. Waldice nem tomou conhecimento, e, dirigindo-se ao filho, determinou:

- Demétrio, vai pegar o jipe do Corró. Eles vão pra minha casa. O marido pode ir pra poder escolher o lote do assentamento.

A casa da Waldice era grande. Três ou quatro quartos, mas tinha, além do marido, Tonico, mais onze filhos. Fora alguns agregados.

Nesse meio tempo, Guilherme, marido de Juraci, acabara de tirar do bagageiro do ônibus, os poucos breguessos da família e, atento àquela prosa sobre seus destinos, separou alguma roupa para a mulher e uma trouxa com as tralhas da criança, inclusive o bolo de cueiros cheios de cocô e mijo que, acabrunhado envolvia nos lençóis e toalhas na vã tentativa de dissimular o odor que exalava. O resto, como pode, ele jogou na carroceria do caminhão. Nenhum dos dois pronunciou palavra.

Antes de subir pelo taipá traseiro, apenas trocou um olhar com a mulher. Mudo, carregado de todo o discurso do mundo. Olhar de ternura, amor e resignação. Não disse sequer que voltaria para buscá-los. Não era necessário. Waldice captou toda a emoção da cena. Engoliu o nó da garganta e fazendo das tripas coração com a voz embargada quebrou o enlevo.

- Vamos, minha filha, o jipe chegou, te avia. Pelo visto ainda temos que lavar muita roupa. Não te preocupes, no rio Xingu o que não falta é água e, em casa, o que não falta é cueiro. Como você se chama?

- Juraci. Jura. Nega Jura.

Ainda ficou um tempo olhando para o marido que também a fixava da traseira do caminhão, até que ambos, marido e caminhão foram tragados pela poeira vermelha, senhora de todos os destinos.

PREPOTÊNCIA E COVARDIA (recordações)

2009 Novembro 19
por André Costa Nunes

Lafayette,

Minha comunicação via internet aqui em Altamira está péssima, mas vou te relatar, da maneira mais sucinta possível, começando pelo fato, cujas imagens deves ter visto pelos noticiários, o que aconteceu no encontro Xingu vivo para sempre, de 19 a 23 de maio de 2008 promovido por dezenas de ONGs e associações:

PREPOTÊNCIA E COVARDIA

No segundo dia do evento, vinte de maio, no Ginásio Poliesportivo de Altamira, a programação previa, após o intervalo para o almoço, em uma inversão da ordem de apresentações e debates, o tema Belo Monte e outras hidrelétricas planejadas para o Xingu. Debate este que se pretendia racional e técnico.

- O primeiro a falar, com insuspeitada competência técnica e equilíbrio, foi o professor Osvaldo Sevá da UNICAMP, autor de um alentado estudo sobre as diversas alternativas propostas para as hidrelétricas do Xingu e seus efeitos e impactos sócio-ambientais.

-  O segundo foi o Sr. Paulo Fernando Vieira Souto Resende, coordenador de estudos da AHE de Belo Monte Centrais Elétricas Brasileiras S.A. – ELETROBRÁS.

A prepotência

- O Sr. Paulo Fernando, debaixo de esparsas vaias, como, aliás, era de se esperar, pois o circo não fora armado para ele, muito pelo contrário, tinha o objetivo explícito de unir forças contrárias a construção da barragem, portanto, o que dissesse seria irrelevante, mas pelo menos um simulacro de democracia.

- A fala do senhor Paulo foi um primor de arrogância e prepotência. Falou como nos bons tempos ditatoriais, ou melhor, falou a fala do trono.

- Procurou diminuir os argumentos do professor Sevá e, em outras palavras, deixou claro que a decisão estava tomada. Disse isso, repito, de maneira arrogante e soberba. Com a sutileza de um elefante em loja de louças.

- As vaias foram inevitáveis, mas comedidas.

- Em seguida falou um representante do movimento dos atingidos por Barragens de Tucurui – MAB. Um discurso inflamado e contundente. Em um determinado momento usou a termo GUERRA!

Fechou o tempo. Como se fosse uma palavra-de-ordem, uma senha, que sinceramente acreditamos que não foi, os caiapós ensandecidos, facões em punho, liderados pelas índias, mais belicosas que os homens, partiram para cima do grupo de palestrantes e organizadores, inclusive o bispo dom Erwin da prelazia do Xingu. Buscavam especificamente ao representante da ELETROBRAS.

Foi uma cena de barbárie explícita. Deprimente e covarde. Sobrou até para os apaziguadores.

Repórteres e cinegrafistas corriam para registrar a cena. Organizadores estáticos, inermes, não conseguiam conter a turba, até porque, a ameaça pairava também sobre eles.

Nas arquibancadas repletas de estudantes adolescentes e crianças, choro, pânico, pavor.

No chão da quadra, um homem, o senhor Paulo da Eletronorte espezinhado, retalhado.

Sangue, muito sangue. A camisa retalhada e arrancada a facão. Os farrapos nas pontas das lanças como alegorias de um ritual macabro.

Não sei exatamente como e porque parou. Talvez porque a simples visão daquele sangue fosse suficiente para saciar tanta sandice.

O dia anterior

Creio que os acontecimentos descritos fossem de certa maneira previsíveis.

19 era o dia da abertura do evento. Perto de mil índios e índias, de diversas etnias apresentaram-se em grupos separados, um de cada vez. Dançavam armados de facões e bordunas e pintados para a guerra. Não confraternizavam com não índios, nem entre si.

O ponto alto foi a apresentação dos caiapós chefiados pelas evoluções da india Tuíra que dezenove anos atrás, em encontro semelhante, foi manchete de todos os jornais do mundo quando ameaçou com um facão o diretor da Eletronorte. A cada evolução da guerreira seguiam-se aplausos da platéia. O mote era o mesmo: a hidrelétrica de Belo Monte na Volta Grande do Xingu, naquele tempo com o nome de Cararaô.

Ali já estava identificado o inimigo: a Eletrobrás, Eletronorte e quem mais fosse a favor da barragem. Desenhava-se assim o previsível desfecho do dia seguinte.

Por fim, como se costuma dizer, “entre mortos e feridos escaparam todos”. Por pouco a tragédia não foi maior.

A luta do movimento Xingu vivo para sempre era legítimo antes e o será depois desse encontro

“yo no creo en brujas, pero que las hay, hay”

André Costa Nunes, de Altamira.

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A BORBOLETA AZUL

2009 Novembro 13
por André Costa Nunes

DIVAGAÇÕES

A BORBOLETA AZUL

andré costa nunes

Uriboca, 07.01.2007

Uma coisa é ver uma borboleta fugaz, aqui e ali a passar no caminho, na rua, na praça, no parque, no jardim. Até mesmo, para quem viaja pelos rios e têm olhos de ver, aos milhares, nas praias de rios, várzeas, lagos. Deve haver também nas praias de mar. Não sei, essa não é minha.

No Xingu dizia-se que elas anunciavam o fim do verão. Todas amarelas. Pequenas, sem ser miúdas. Variando da gema de ovo ao amarelo esverdeado. Vivo, mas monocromático. Belas porque toda borboleta o é. Beleza plástica que compõe e enriquece a paisagem. Dá vontade de rir, de ser feliz. De correr pelo meio delas e fazê-las esvoaçar como se faz nos ninhais de gaivotas.

Outra coisa é ver e acompanhar uma borboleta azul. São solitárias. Não voam em bandos. Mesmo aqui, nas cabeceiras do rio Uriboca, na beira d’água, aparece uma de cada vez. Duas, no máximo, três. Pelo menos que eu visse. Não, que sejam escassas, mas acho que é pura opção de viver. Não são ariscas e nem se importam com barulho. Moderado, é claro.

Papo de beira, viola.

Certa vez uma chegou a pousar no meu braço. Faz muito tempo. Foi a glória. Depois disso quando elas apareciam saídas da mata para vôos por sobre a água, ficava como besta com o braço estendido na esperança de outro gesto daqueles de intimidade. Sonhei que pudéssemos fazer amizade, assim como fiz com um bando de macacos enxeridos que pululam no entorno de casa. Coisa de caboco sonhador. Ter uma borboleta como xerimbabo.

Fui criado no interior em meio a xerimbabos de todo tipo. Acho que isso se aprende com os índios. Não sei se é exatamente assim, mas xerimbabo, no meu ver, era diferente de ter um animal de estimação ou decorativo. Isso, todo mundo tem, ou quer ter. Papagaio, arara, hamster, furão, até cachorro e gato. Sem falar em passarinhos canoros em gaiolas ou poleiros. Esses então, de gaiolas, não fazem o menor sentido para o índio que vive rodeado deles enchendo o saco com trinares e cantares desde que o dia amanhece.

Xerimbabo é o animalzinho que perdeu a mãe, quase sempre morta na caçada de subsistência. É o filhote de anta, de caititu, de macaco, de arara, mutum, jacamim, jacu, até jaboti. Órfãos trazidos para casa por pena e que são criados junto à comunidade. Dentro de casa. Morrem de velhos. Ninguém come xerimbabo.

Isto é, eu queria fazer de uma borboleta, meu xerimbabo. De certa maneira acho que consegui. É bem verdade que usei um ardil ensinado pelo Messias do Museu Goeldi. Espalhava, aqui e ali, cascas de frutas. Logo, logo, apareciam. Uma, duas, três. Não mais. Casca de abacaxi é o prato preferido.

Gostava de pensar, de manhã cedo, quando chegava à maloca da beira do igarapé e elas apareciam, que era por minha causa. Mas quando. Elas estavam lá porque era a casa delas. Eu é que era o visitante eventual. Acho até, que quem estava sendo observado era eu, embora, por vezes me desse ares de estudá-las. Seus hábitos, modo de viver, de morar, de voar. Não exatamente como um pesquisador, ou, mesmo, entomologista. Nunca, mas nunca mesmo, insetólogo.

A borboleta azul não é um inseto. É uma entidade do reino da encantaria. Existe para mundiar. Para que o céu tenha um paradigma de cor. De azul. De azuis.

Um dia, faz tempo, vieram os homens do Museu com uns puçás de filó e umas caixas com tampas de tela e outros, diz-que, apetrechos de campo. Por assim dizer, pesquisadores. Não dei permissão, nem encompridei o papo.

De repente imaginei “minha” borboleta azul espetada por um alfinete sujigando uma minúscula etiqueta com um número sobre um fundo de cortiça fina.

Coleção.

Ou pior. Dissecada sobre uma lâmina de vidro, na ponta de um microscópio.

Estudar.

Mas estudar o quê? Pra quê? se a borboleta azul, mesmo de longe, se mostra em toda sua inteireza? Por que malinar com quem está quieto?

Houve um tempo que outros homens caçaram muitas outras borboletas azuis. Venderam suas asas a peso de ouro. O mundo logo acusou o golpe. Ficou gris. Será que vocês não notaram, meu deus! Que de uns tempos para cá o céu empalideceu? Qualquer curupira sabe o motivo. Com a drástica diminuição das borboletas azuis o céu perdeu o referencial. Não, que não haja, hoje em dia, belos tons de azuis e até de outros matizes, artificiais criados pelas mentes maravilhosas desses químicos das indústrias, verdadeiros alquimistas cibernéticos. Cores tais, que fascinam nosso olhar.

Olhar cibernético.

Azul virtual.

A essa investida a borboleta azul conseguiu sobreviver. Em bolsões ou refúgios de mata densa. Ah! Eu esqueci de contar que ela é habitante de mata densa. É muito pávula. Não fica por aí borboleteando descampados, campos e capoeiras. Não habita mocambos. Dá-se ares de nobreza. Sua morada são palácios e catedrais. A mata alta. Folga nas águas límpidas, também virgens, das grotas e igarapés.

Fumaça, muita fumaça. O progresso avança, o pasto avança e a borboleta azul foge. Ou morre. Mais morre do que foge. Ela não suporta fumaça. Sofre, não só com razia que o fogo inflige na mata, sua catedral, seu palácio, sua morada, mas principalmente com a fumaça inevitável e renitente. Por maior que seja a queimada, sempre é infinitamente menor do que a área que a fumaça alcança. Cada vez há menos refúgios.

Restam guetos.

Aqui na nascente do rio Uriboca é um desses guetos. Não é dos grandes, mas há proteção. Pelo menos é o que ela pensa.

Mais adiante, bem perto daqui, há outro, muito maior, exatamente quatrocentas vezes maior. Gosto de pensar ou sonhar que ali está cheio delas. Livres, leves, soltas. Todas primas da minha borboleta azul.

De repente, com uma certa apreensão,  me dou conta de que ela poderia, de puro enfaro voar em busca deste outro sítio. Procurar sua turma. Confraternizar. Afinal, lá, como cá, tem árvores altas e muitos igarapés. Inclusive este um, o Uriboca, que corre para aquelas matas. Matas de uma antiga fazenda da Pirelli, hoje, área de proteção ambiental.

Desanuvio o semblante. Ela não vai fazer isso. Já se disse que é solitária. Não é de corriola.

Vai ficar aqui e gozar com a minha cara.

Certa vez eu cheguei aqui à maloca, meio bêbado. Não estava eufórico o que indica que o porre não era de comemoração. Devia ser de fossa, não me lembro bem. Era fim de tarde. Havia chovido. Ainda tinham gotas renitentes agarrando-se nas pontas das folhas da mangueira e das palhas dos açaizeiros.

Sentei desajeitado na beira do assoalho da maloca, já descalço, com os pés balançando, quase triscando a água. Não sei como consegui sentar-me com as duas mãos ocupadas: na esquerda segurando um caneco de alumínio vazio com o polegar pelo lado de dentro.

Na direita esganando pelo gargalo uma garrafa de uísque pela metade.

Ela surgiu na minha frente. Não achei nenhuma graça. Estava disposto a fazer um balanço da vida. Naquele momento etílico, vida miserável. Sem sentido. Se eu deixasse de existir, minha ausência preencheria uma lacuna.

A tal borboleta azul começos a voar na minha frente. Ia quase de uma margem a outra. Uma, duas, dez vezes.

De repente me dei conta que ela estava mangando de mim. Se fazendo também de bêbada. Voava aos soluços e nunca conseguia traçar um caminho reto.

Como todo porre.

Entendi a mensagem. Enchi o caneco esvaziando a garrafa, fiz-lhe um brinde. Bebi de gute-gute, até o fim e, ali mesmo dormi.

A_Borboleta_Azul

Minha neta, a Leila, gostava de ver as braboletas, como chamava. Quantas histórias e lendas de braboletas eu inventei. Ela acreditava piamente em todas. E no curupira, na matinta pereira, no mapinguari. Sempre preferiu essas histórias de mato, de assombração, de bicho do fundo. Eu gostava de contar. Acho, até, que tudo que queríamos era contrariar os psicólogos infantis e sua onda do politicamente correto.

O tempo passou. O tempo sempre passa, não sei por que, creio que é de pura sacanagem. E chega rápido, de surpresa, quase de emboscada.

Um certo fim de semana, Leilinha chegou para dormir aqui no sítio. Depois dos salamaleques de praxe disse-lhe que cedo iríamos à maloca na beira do igarapé para ver as braboletas azuis. Ela olhou bem nos meus olhos, ficou séria e disse:

- Vovô presta atenção, não é braboleta, é borboleta.

O tempo passou.

SÁBADO, AQUI, VAI ROLAR A FESTA!

2009 Novembro 10
por André Costa Nunes

Estão bolando festa por aqui, no TERRA DO MEIO – restaurante rural.

Vai ser sábado, dia 14 de novembro próximo…

…veja o que escreveu o Lafa, no seu blog:

É SÁBADO, DIA 14/11 !!!

EDUARDO BESOURO – Capítulo II (7ª parte)

2009 Novembro 8
por André Costa Nunes

É importante ler antes:

MEMORIAL DA AMAZÔNIA – TRILOGIA

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (1ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (2ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (3ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (4ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (5ª parte)

EDUARDO BESOURO – Capítulo II (6ª parte)

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Capítulo II

EDUARDO BESOURO

continuação da 6ª parte do C apítulo II

…é importante ler antes a 1ª, a 2ª,  a 3ª, 4ª, a 5ª e a 6ª partes.

Quando passamos pela Rua da Frente, o Lotinho exultou, a nossa velha barranca e ladeira para o rio, não mais existia. Em seu lugar, uma avenida asfaltada, reta e plana, com cais de arrimo, mureta, calçada para footing e Cooper, bares e restaurantes. Uma verdadeira beleza de encher os olhos.

Mais uma vez notei que o meu amigo ficou decepcionado com meu deslumbramento. Não falou, mas fez ar de amuo. Algum tempo depois comentou como para si mesmo:

- Absoluta falta de criatividade, desconhecimento, menosprezo pela sub-raça nativa. Projeto e dinheiro a rodo tangidos pelos ventos da ditadura para as empreiteiras aliadas. A orla daqui, não desbarranca, porra! As águas servidas e pluviais de Altamira correm para trás, para o igarapé que a circunda. Quase chorei quando cortaram as mangueiras da rua da frente. Parece que a cidade ficou nua, banguela, sem alma.

Fiz que não ouvi. Mudei de assunto.

Chegamos ao Meu Sossego. Nossa casa vazia, paredes manchadas pela umidade, mas limpa, com lençóis cobrindo os móveis. Obra do zelo da madrinha Benedita que permaneceu habitando aquele casarão que outrora fervia de vida, de gente, de alma, de risadas.

Foi surpresa. Quase matei a velha preta de emoção. Seus olhos marejaram. Disse-lhe que iríamos almoçar fora e que depois teríamos todo o tempo do mundo para por os assuntos em dia. Deixei a mala no quarto da frente que um dia fora meu, e saí ainda ouvindo seus protestos, que deveria antes tomar um banho, descansar, que iria fritar um peixe, essas coisas de madrinha de antigamente. Quando cheguei à calçada notei que o Eduardo havia despachado o Lotinho.

- Vamos andar a pé um pouco. Quero ver se te lembras de umas coisas.

Dobramos a esquina da rua do SESP, passamos pela frente da casa da dona Mundica do Miguez, do seu Zé Pinheiro, do seu Alberto Soares e da dona Marica no canto da segunda rua. Tudo habitado por gente estranha. Cumprimentamos por puro hábito de morador de cidade do interior. Pretendia visitar os parentes. Primos em pencas que ainda moravam por lá e mais a Coló do cartório, a Mãe Maroca, o Augusto Mário, a Marluce, o Chico Capivara, a Waldice, a Nair, a Azimar, a D. Lili, enfim, um monte de gente, mas o Eduardo tinha outros planos, pelo menos naquele momento.

O sol ainda não estava quente o suficiente para escaldar o cimento da calcada. Sentamos ali mesmo, na esquina, em frente ao casarão do Zé Burlamaqui que fora do pai dele, doutor Juca, por sua vez, filho do senador José Porfírio, ex-dono de todo o Vale do Xingu.

A esquina ficava na segunda rua, a apenas uma quadra do início da cidade, por onde se saía e entrava na fervilhante rodovia Transamazônica. A poeira vermelha parecia um espesso fog através do qual mal se divisavam as barracas que a ladeavam. Bruno-avermelhado. Fog do inferno. À entrada da cidade, a rua era cheia de quebra-molas, lombadas que a prefeitura mandara fazer para diminuir a velocidade dos veículos numa vã tentativa de evitar que a poeira tomasse conta de vez da cidade. Olhando-se para o outro lado via-se toda a extensão da segunda rua. Preservada do jeito que me lembrava dela há décadas. Nenhuma casa de dois pavimentos, acho, até, que Altamira, pelo menos que eu me lembre, só tinha casa térrea. A casa do seu Zé Rodrigues, do Ubirajara, do seu Demétrio, o cartório na sala da Coló, a casa da Sinhá, da Minha Pureza, do bispo, que me perseguia e eu invariavelmente dava o troco.

Ainda hoje me pergunto se ele de fato acreditava ganhar o Paraíso com toda aquela postura rabugenta, fascistóide.

A igreja, a praça… devaneio maior, seu Carlos Soares, a casa Primavera escrita no frontispício, em baixo-relevo, “fundada em 1.917”. Depois a casa do seu Salim e a dos pretos Batista. Que moças lindas, negras, roliças. Nunca me deram bola, mas comi todas elas na solidão do imaginário.

O Eduardo, até então calado, despertou-me das reminiscências, como se as adivinhasse.

- Eu estava lembrando o mesmo que tu. Estavas com cara de bobo. Acho que eu também. Lembras, quando à boca da noite, as famílias punham as cadeiras na calçada para prosear? Lembras de como acabou esse hábito?

- Sei, lá, cara. Os tempos, a violência, sei lá.

- A chegada da televisão. Por isso é que te trouxe aqui. Aqui que nos reuníamos todas as noites depois da janta. A partir das sete, sete e meia, a turma toda. Olhar fixo nas pessoas sentadas nas cadeiras das calçadas. Invariavelmente cadeiras de vime. Hábito secular da prosa, do convívio. As crianças na rua brincando de roda… O Zé do Mané Paulo, até fazia contagem regressiva: dez, nove…dois, um, zero…plim, plim. “E agora, Malu, mulher”. Naquele tempo, a novela começava às oito, eu acho. Era nosso espetáculo para abrir a noite. Caíamos na gargalhada, quase aos gritos, com aquela cena, como que orquestrada e exaustivamente ensaiada. Todos, ao mesmo tempo, em toda a extensão da rua, até onde a vista alcançava, recolhiam suas cadeiras para a sala. E a prosa, por mais interessante que fosse, ficava interrompida. Mal se falava nos intervalos. Aqui ainda não passava comercial. Eram listas e números, chamados de padrão. Não sei por quê.

Cada pedaço daquela rua trazia um mundo de recordações. Aquela parte da cidade funcionava como um tipo de trincheira resistindo à invasão de forasteiros que elevara em pouco tempo a população de sete mil habitantes da nossa infância para algo indefinido, mas bem acima dos cem mil.

Antes, um desenho organizado, esquadrejado. Quatro ou cinco ruas paralelas ao rio Xingu e outras tantas perpendiculares e, claro, paralelas entre si. Uma praça, uma igreja, uma escola pública, o GEA, Grupo Escolar de Altamira, que ensinava as primeiras letras e ia até a quarta série. Foi a base intelectual para muitos doutos e doutores. Não para mim. Ali, não aprendi nem a ler nem a fazer conta. As professoras diziam, e todos acreditavam, inclusive eu, que era um caso perdido. Rude, desatento e preguiçoso. Hoje tenho uma versão mais generosa a meu respeito.

Além do que foi citado como “equipamento urbano” tínhamos principalmente uma enorme mata, dois igarapés e toda uma beira de rio que considerávamos só nossa. A beira e o rio. Durante o inverno, as águas grandes permitiam a navegação das embarcações que abasteciam os seringais e de lá traziam a produção de borracha e castanha. Era uma espécie de concessão que fazíamos à invasão de nosso território. E de mais a mais, eram só uns quatro meses por ano, época em que o rio estava muito cheio e sem praias. Hoje, no entender do Eduardo, como se disse, definitivamente contra o progresso, reina a degradação. A periferia da cidade está cheia de favelas.

- Nossos igarapés estão poluídos, viraram esgotos a céu aberto e a mata está acabando. Virando pasto. A beira do rio, diz ele, foi conspurcada por embarcações pesadas, balsas e empurradores a transportar minério, madeira, gado, sem respeito algum pelo Xingu e pelo seu povo. Querem ensinar o que sabemos e levar o que temos, repetia quase como uma jaculatória. E não é só a paisagem que modifica, é o povo, a mente, os rios. É a agressão irresponsável e criminosa à própria Pacha Mama. A mata resiste como pode, mas sabe que vai perder. Minério não dá duas safras. É riqueza fugaz e, mesmo assim, no durante. O depois é o buraco. O durante para os outros e o buraco pra nós. É gente com tu, cego aos desígnios de teu povo e de tua própria terra, que valida este caos predador e sem volta. Felizmente, para ti, não vais viver para ver o legado que deixaste para teus filhos e netos. A natureza não reclama, se vinga.

Touché.

Ainda tentei meio sem jeito argumentar fazendo graça:

- Relaxa cara, não se faz omelete sem quebrar os ovos. Estás me estranhando? E falei como se fala a um cão brabo na presença de estranho:

- Sou eu, cara, André, amigo. E hoje nem é domingo. Não precisavas gastar, conspurcar, validar, ou mesmo invocar a Pacha Mama. Eu me contentava com os nossos curupira e mapinguari.

- Não são a mesma coisa… disse isso e entrou em profundo silêncio, como que magoado.

Acho que esperava de mim alguma outra postura, afinal, na infância, adolescência e juventude tínhamos todas as afinidades do mundo. É bem verdade que ele adorava me contradizer, armar discussão, na maioria das vezes, de pura sacanagem, mas na essência enriquecia o papo e o argumento. Muito cedo já éramos de esquerda, fosse lá o que isso, naquela época, quisesse dizer. Mas no embate com os “alemães”, racistas, anti-semitas, fascistas, reacionários, exploradores de qualquer natureza, estávamos unidos na defesa de nossas convicções. Ainda não bem uma ideologia, coisa que só veio depois da “diáspora”. Ele permaneceu esquerda, eu entrei para o Partido Comunista. Ele ficou em Altamira, eu ganhei o Mundo.

Em tempo: chamávamos de alemão a qualquer adversário, até de futebol. Coisas da geração do pós guerra.

Nos demos uma trégua. Aos poucos, e com grande sacrifício, seu semblante foi se desanuviando. Tacitamente concordamos em nos atermos às reminiscências.

– Lembras do bispo? O D. Clemente não largava do teu pé. Disse, como uma deferência, uma gentileza, para com o amigo que se desgarrara da rota do bem. Vendido? Não chegava a tanto, mas sentia toda sua inquietação pelo que me fizera, na sua ótica, mudar tanto a ponto de fugir da discussão. Definitivamente eu não era mais o mesmo.

A simples lembrança das implicâncias do bispo devolveu-nos o bom-humor.

- Ele ia visitar a minha mãe só pra falar de mim. E a velha, que era uma artista, endossava sua decepção. Apenas se permitia dizer algumas frases feitas:

- É assim mesmo, D. Clemente, eu não sei onde essa juventude anda com a cabeça. E olhe que criei esse rapaz na fé, temente a Deus. Foi batizado, fez a primeira comunhão, o senhor mesmo o confirmou na crisma. Ainda tenho esperança que isso vai passar.

- Mas D. Francisquinha, um comunista no meu rebanho, e logo filho de vocês, é demais para mim. Onde foi que erramos?

Depois, como se não bastasse, veio o caso da freira. Irmã Maria das Dores. Chamada apenas de irmã Das Dores.

- Tu foste namorar logo uma freira da congregação do bispo! E ainda apelidaste de Los Vampiros.

- Pensa bem, cara, isso lá é nome de qualquer agremiação? Congregação dos Adoradores do Preciosismo Sangue de Cristo? É no mínimo macabro. E além do mais, ela nem era freira. Era noviça. Ainda não tinha feito os votos perpétuos.

- Por tua culpa nem chegou a fazer.

- Minha, não! Do bispo. Tu sabes que não houve nem namoro. Nunca peguei na mão. Ela era uma graça. Eu vivia na beira do rio em frente a casa das freiras na esperança de vê-la na janela. Quando ela sabia que eu estava lá, vira e mexe, passava pela janela. Nunca respondeu a meus acenos, mas sorria. Isso era demais para mim. Como se é bobo quando se é jovem. Não passou disso o tal namoro. O mais perto que cheguei foi na missa. Ia todo dia. E comungava, sem me confessar, para desespero do bispo.

- Como mesmo que ele ficou sabendo, se tu dizes que não teve nem mão na mão?

- Só soube muito tempo depois, já em Belém, ela, por causa dessa merda, deixou o hábito e era professora no Colégio Santo Antonio, onde eu também lecionei.

- E aí, tava magoada, rolou transa, conta tudo.

- Não deu samba. Estava casada, feliz, e ainda disse que há males que vem para o bem. Que Deus escreve certo por linhas tortas, essas coisas. Batemos um longo papo na escadinha do cais do porto, perto do colégio. Foi ela, a idiota que contou, em confissão, para o nazi-fascista do bispo. Confessou tudo o que não fez e que eu sonhava que fizesse. Foi deportada e confinada no sítio dos padres na Cachoeirinha. Lá perdeu o cabaço para o padre Guilherme. – Daí pra frente, para o bispo, passei a ser a própria imagem do Cão. Herege, ateu, comunista comedor de criancinha.

- E o caso da Mariá? Lembro-me vagamente, estavas puto.

- Isso tem preâmbulo, tenho que te lembrar de alguns antecedentes.

- Porra, adoras encompridar uma história. Afinal, comeste ou não comeste?

- Claro que não, Mariá nunca me falou ao pau, e além disso, ela era mais séria do que porco mijando. Ali, que eu saiba, pra comer tinha que casar. Acho que nesse ponto a nossa geração foi muito prejudicada. Na época do Frizan, do Franduiá, do Juarez, do Olivete, do Tobias, do Áureo, antes de nós, as moças eram mais liberais, independentes. As de hoje, nem se fala. Parece que liberou geral. A graça é beijar na boca. No carnaval de Salvador, um motorista de táxi que eu sempre pegava, disse que quando sai no trio elétrico chega a beijar mais de cem gatas. Na boca! Para mim isso é totalmente incompreensível. Não, que não goste, mas meu saco estouraria na décima. Beijo na boca é petição inicial, e, de pau mole é coisa para ator de novela ou veado. Já, na nossa geração, as moças eram todas metidas a cabaçudas. Namorar na porta. Uma escapadela para um amasso era um deus nos acuda.

- Vá lá, continua, porra, e a Mariá?

- Te lembras que a família dela era apadrinhada dos padres. Moravam vizinhos da casa paroquial. Era a família católica por excelência. Mãe, avó, irmãos, todo mundo vivia em função da igreja. Zelavam até pela casa do bispo. A Mariá, meio loura, bonitinha, sempre fez o papel de Nossa Senhora na representação das pastorinhas ou nos autos de natal. Era a imagem da candura. O xodó do D. Clemente. Fora desse contexto ela até que era gente boa. Simples, simpática, parecia não se dar conta da aura que os padres criaram em torno dela. Pois bem, um belo dia, passando pela porta da Minha Pureza, mãe dela, me chamou:

- Deca vais passar pela igreja, por favor, leva estas castanhas cristalizadas pra Mariá. Essa menina precisa se alimentar, come como um passarinho.

– No caminho comi logo umas duas quando topei com ela na porta da igreja. Trazia nos braços uma ruma de paramentos litúrgicos para engomar. Apenas, na maior inocência, como estava com as mãos ocupadas, pediu-me que pusesse duas castanhas em sua boca. Aliás, linda boca, carnuda. Nessa hora, chegou o D. Clemente e nos pegou no flagra. Fazendo, como te contei, exatamente, nada. Apopléctico, aos berros, com aquela voz rouca, nasalada e sotaque alemão carregado gritou: Andrré, non! Pelo amorr de deus! Com Marriá, non! Ela é uma santinha. Tenha piedade.

- Acho que até hoje ela está sem entender.

O Eduardo durante todo esse tempo ouviu em silencio e, por fim, quase sussurrando falou:

- És um bom filho da puta. Acabaste com duas das mais gratas fantasias que alimentava desde aqueles tempos. A da freira e a da Mariá.

E as reminiscências continuaram vagando alheias ao burburinho da cidade em construção, ou melhor: reconstrução. O progresso chegara como uma avalanche, uma enxurrada de algum dique que se houvesse rompido sem dar tempo de avisar aos moradores a jusante. Isso era toda a angústia do Eduardo. Acho que foi ele quem primeiro cunhou o termo desconstrução. Não, no sentido da interpretação filosófica de Jaques Derrida, mas no de remexer estruturalmente no que está pronto e harmônico sem se importar com o resultado final.

De uma certa maneira, fiquei impressionado com a erudição autodidata do amigo. Decididamente ele também não era mais o mesmo. Mudara, no meu conceito, para muito melhor. Eu também mudei. Na ótica dele e, desgraçadamente na minha também, para pior.

Caminhamos, agora debaixo de sol de rachar, mais duas quadras e atravessamos a praça da matriz em direção à beira do rio. Sentamos bem no meio da praça em um banco de concreto.

- Lembras do coreto?

- Estava pensando exatamente nele. Falei baixinho.

- Acho que um vendaval de incultura, de obscurantismo, varreu o país tangido pela prepotência fardada que nos impuseram por todos esses anos. Falou o Eduardo de novo com aquele semblante sombrio que me deixava sem graça.

- Estás prolongando por demais tua amargura. Diria até que a estás alimentando. Por vezes essa postura nos embota a mente, o humor, o viver. A vida há que ser embalada pelo bom, pelo belo, pelo bem.  Não que esqueçamos que existem ou existiram o mal, o feio e o mau. Mas essa lembrança não pode servir de mote para a amargura presente ou pregação e culto ao pessimismo endêmico.

- E dá para ser otimista?

- A velha Francisquinha dizia ao meu pai: “em longo prazo pode até ser que o pessimista tenha razão, mas o otimista se diverte mais no caminho”.

- Filosofia de almanaque, barata. Nunca te aprofundaste mesmo em nenhum assunto. Sempre foste um especialista em generalidades.

- Voltando ao coreto. Lembras-te das retretas?

- Ninguém chamava retreta.

- Sim, porra, mas esse é o nome. Hoje tu estás um saco. Se me lembro bem tinha o Chiquito na bateria, o irmão Fernandes, o Edson no clarinete, o Chiquinho no saxofone e não sei quem mais.

De repente o Eduardo entrou em sintonia.

- Lembras da sacanagem que a gente fazia no arraial? ficávamos em frente aos músicos que tocavam instrumentos de sopro, tuba, flauta, sax, trombone, trompete, clarinete, chupando limão. Os caras salivavam tanto que não saía o som. Era uma cuspideira infernal. O cabo Dorneles, depois de alguns dias, já ficava de olho em nós para pegar no flagra. Quando a gente chegava ele ia logo revistando. Um por um, atrás de limão. Não precisava mais. Bastava a mímica de chupar limão ou mesmo mostrar a língua e começava a salivação. Quem foi que inventou essa merda?

- Sei lá, acho que foi o Dimas Soares.

- Eduardo, por que não casaste? Porra, cara, que eu saiba, nem ficaste noivo, e Altamira sempre foi pródiga em mulher bonita.

- Não sei, acho que pelo mesmo motivo teu. Não posso me queixar de falta de oportunidade, quando vocês debandavam de volta a Belém, no fim das férias, isso aqui ficava um marasmo só e, sem o grosso da concorrência, o pasto era só nosso, dos que ficavam, pensávamos, mas logo caíamos na real. Primeiro, porque ia também a nata dos pitéus. As filhas do seu Alberto Soares, Marina, Maria Célia, Marli, a Celeste dos olhos de mar. As filhas do Seu Carlos Soares, Maria Altamira, Terezinha, que Zé do Mané Paulo chamava as Araújos, a Maxi do seu Charone, um monumento, banquete para trezentos talheres, a Lelena, falsa magra do Guimarino, as Uchoa, Marli e fulana, as Pedrosas, as filhas do Otávio Torres, mesmo com a brabeza dos irmãos Tavico e Walter. A Gláucia do seu Meirelles, um camafeu. A Eunice da D. Querida.

- Nesse teu inventário, não esquece as tuas irmãs, Altamira e Nadia.

- Não interrompe, porra, está passando um filme na minha cabeça, a Ceucí filha do Barba de Arame, as filhas do Maninho, a Mana, um doce, a Edinaid, a Amélia, tua irmã temporã, tuas primas, a Marluce, a Roxinha, a Marilu, o pessoal de Vitória.

- Sai dessa, as filhas do Áureo, do Frizan, o pessoal de Vitória, Tabosa, Alvarez, Rebelo, não valem, era tudo fedelha, fedendo a mijo.

- É mesmo, viste o mulherão em que se transformou a Martinha de Zé Rebelo, os olhos dela parecem que foram copiados do verde do Xingu.

- Pode parar por aí. O busilis é saber por que não casaste. Todo mundo se deu bem. Dizia-se que o homem que chegasse solteiro em Altamira, não tinha jeito, ou era veado, ou saía casado.

- Pois é, cara, não tenho uma explicação plausível, lógica. A vida não traça roteiros. Às vezes pensamos que temos o controle, que fazemos nosso destino, aí, como diz o Chico Buarque, chega a roda viva e fode tudo.

- Eu que o diga, falei.

- Sabe, amigo, toda essa conversa de cerca Lourenço, além do gostoso que sempre são as reminiscências, é te dar subsídios para uma análise lúcida das transformações galopantes pelas quais está passando Altamira, aliás, todo o Pará e, talvez a Amazônia. Até porque, sei por saber, isso também está acontecendo em toda banda de baixo do Rio Amazonas. Logo, logo, a banda de cima também sucumbirá.

- Ih, cara, agora me deu medo. E eu que estava apenas pensando em uma crônica de costumes, gostosa, da qual fomos testemunhas e personagens, em vez de sair leve, lépido e faceiro, acabo com uma tonelada às costas. Pelo menos por enquanto, por favor, dá um tempo. Passa uma régua nesta última parte. Prometo que vamos voltar ao assunto.

***

…continua

BATALHA NA MATA DA PIRELLI (ecos na web) – XI

2009 Novembro 6
por André Costa Nunes

O que diz o Governo do Estado:

Área da Pirelli – Marcílio Monteiro e Valmir Ortega explicaram aos deputados a importância de ordenar a expansão urbana na área da fazenda Pirelli. “A nota técnica que entregamos aos senhores mostra, com fotos, que a expansão urbana avança sobre a área da fazenda”, disse Marcílio Monteiro. Valmir Ortega explicou que governo tem interesse em preservar a área da Pirelli.

“Temos uma área de 7.531 hectares. Vamos utilizar as antropizadas, que somam 1.897 hectares, destinadas à construção de 8.862 mil casas populares, restando de área preservada 5.634 hectares”, informou Valmir Ortega.

(mais, aqui)

A web é mesmo a salvação da lavoura. A gente encontra as inlógicas deste papo “vamos desmatar, construir casas para salvar a mata!”.

Veja exemplos de como o jogo de palavras vem tratando o grande projeto de desmatamento insuportável, ops, insustentável do PAC estadual.

Em tempo: Profissionais do jornalismo, por favor, quando receberem os releases vamos ter, no mínimo, uma visão racional da notícia!

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As ações planejadas pelo Governo do Estado do Pará para a antiga área da Pirelli, localizada em Marituba, foi o tema central da 41ª Reunião do Fometur (Fórum Estadual de Turismo), na última segunda-feira, no auditório Carlos Rocque da Paratur (Companhia Paraense de Turismo). Na pauta da reunião, ocorreram as apresentações do Plano Habitacional da Sepe (Secretaria de Estado de Projetos Estratégicos) e do Projeto de Criação de Unidades de Conservação da Natureza da Sema (Secretaria de Estado de Meio Ambiente).

Com um projeto inovador, visando a construção de um conjunto habitacional para as pessoas com renda entre zero e seis salários mínimos, a Sepe prevê a implantação de oito mil unidades habitacionais na área da antiga fazenda Pirelli, caso o projeto seja aprovado pelo Governo do Estado. A iniciativa inclui um investimento de cerca de R$ 150 milhões, com contrapartida estadual de R$ 26 milhões. A primeira etapa prevê a construção de três mil lotes urbanizados, além da criação de uma área de proteção permanente, urbanização da área antropizada (modificações provocadas pelo homem no meio ambiente) e regularização fundiária.

Uma outra proposta para a área da Pirelli seria a formação de um corredor ecológico em plena Região Metropolitana de Belém, proporcionando a criação de uma reserva ambiental. Para que esse objetivo se concretize, a Sema elaborou o Projeto de Criação de Unidades de Conservação da Natureza, inserido no Programa Estadual de Ordenamento Territorial da secretaria. Para o técnico da Sema responsável pela apresentação do projeto, Crisomar Lobato, seria uma oportunidade única para a formatação de uma APP (Área de Preservação Permanente) com uma variedade de 348 espécies florais, além de outras raras ameaçadas de extinção.

Decreto – Para atender às metas de contingenciamento voltadas aos órgãos e entidades do Poder Executivo, conforme estabelecido no Decreto n° 1618 e publicado no dia 26 de abril pela governadora do Estado, ficou decidido que as reuniões do Fomentur passarão a ser realizadas no período da manhã na Paratur, com período de duração máxima de duas horas.

Veja, agora, como, no site do Terra, em 03 de março de 2009, a grande idéia, foi tratada.

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Especialistas apontam áreas ameaçadas no Pará

P. Carvalho

Especialistas reunidos no seminário Espécies Ameaçadas e Áreas Críticas para a Biodiversidade no Estado do Pará sugerem ao governo paraense o desenvolvimento de ações emergenciais de conservação em quatro áreas do Centro de Endemismo Belém (CEB) e nas corredeiras próximas da Serra dos Martírios-Andorinhas, no Rio Araguaia. O evento, realizado pelo Museu Emílio Goeldi e Conservação Internacional, teve o apoio da Secretaria de Meio Ambiente do Pará.

De acordo com os cientistas, as quatro áreas do Centro de Endemismo Belém que devem ter prioridade na ação de preservação do governo são: antiga fazenda Pirelli, localidades do litoral paraense e as propriedades do Grupo Agropalma e da empresa Cikel.

O Centro de Endemismo Belém é composto por florestas e ecossistemas localizados ao leste do Rio Tocantins, no Pará, e a Amazônia maranhense. É a região mais ameaçada da Amazônia. Setenta por cento de suas florestas já foram desmatadas. “É urgente agir para conservar remanescentes florestais do CEB existente nessa área”, diz Teresa Cristina Ávila-Pires, herpetóloga, que com a ecóloga Ana Luisa Albernaz, ambas do Museu Goeldi, coordena projeto de pesquisa que busca identificar as áreas críticas para a biodiversidade no Pará.

A antiga Fazenda Pirelli, que há dez anos passou para o Estado, tem uma área de 8 mil hectares no município de Marituba, na Região Metropolitana de Belém. O local, que transformado em depósito de madeira ilegal apreendida pelo Ibama, pode ser usado para a construção de 9 mil habitações populares. O botânico Dário Amaral, que estudou seis fragmentos de remanescentes de floresta primária, incluindo a Fazenda Pirelli, inventariou 330 espécies. Entre as ameaçadas estão cedro, araracanga, pau-amarelo, angelim, maçaranduba.

Na área do Grupo Agropalma, que possui o maior e mais moderno complexo industrial de plantio e processamento de óleo de palma do País, com 106 mil hectares de extensão, estão duas das mais importantes bacias hidrográficas do Centro de Endemismo Belém. Não há nessas áreas, unidades de conservação que garantam a preservação das florestas restantes. Mas o grupo mantém 75 mil hectares de florestas primárias e secundárias de grande importância para a conservação da biodiversidade global. A Conservação Internacional realiza em parceria com o Instituto Peabiru, desde 2007, projeto para que a produção seja ambientalmente adequada e socialmente justa.

Veja esta mesma matéria, com mais outros “dados”, aqui: http://www.conservation.org.br/noticias/noticia.php?id=391, http://www.museu-goeldi.br/museuempauta/noticias/museu_na_midia/06032009/04.html e http://www.istoeamazonia.com.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=1751.

Observe que, em que pese estarem discutindo o assunto, o que é bom, a tal FAZENDA DA PIRELLI, é tratada como… UMA FAZENDA!

Uma mera fazenda, cuja área desde 2001 pertence ao Governo do Estado,  e que foi “…transformado em depósito de madeira ilegal apreendida pelo Ibama…”.

Quem não conheça o local, principalmente para o internauta que está lendo lá em Capanema, no Rio de Janeiro, Porto Alegre ou em Xangrilá, parece que é uma terreno, um gramado lindo de morrer, com aqueles pastos em morrotes, onde o lobo uiva para lua cheia, coisa de novela, de roliúdi!

Que nada! Nada disso mesmo!

É mata! É floresta! Tem bicho lá! Bicho mesmo, paca, tatu, macaco, cobra, tamanduá, formiga-tracuá e ÁGUA, MUITA ÁGUA!

Não estou falando de laguinho, não! É UM MANANCIAL! TEM NASCEDOUROS AOS MONTES! IGARAPÉS! TUDO DENTRO DE MATA…

N  A  T  I  V  A !!!

Grito

Mas nem tudo está perdido, veja o que jovens, já em Janeiro deste ano, estavam falando neste fórum sobre o assunto: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=785498

BATALHA NA MATA DA PIRELLI (o PAC nosso de cada dia) – X

2009 Novembro 6
por André Costa Nunes

Como tem que ser, deve ser, e está previsto lá na Lei nº 11.653, de 7 de abril de 2008, que dispõe sobre o Plano Plurianual para o período 2008/2011, o Estado do Pará fez o seu Plano Pluri Anual, o seu PAC.

A Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Finanças – SEPOF é que comanda o denominado: PPA 2008 – 2011PROGRAMA FINALÍSTICO. Leia-o, estude-o clicando aqui.

Dentro do PPA estadual está o programa DESENVOLVE PARÁ. Um programa que vale, ops, que custará, até 2011, R$ 811.917.302,00 (oitocentos e onze milhões, novecentos e dezessete mil e trezentos e dois reais). Não se esquecendo, é claro, que, conforme diz a dita Lei, tal incremento fincanceiro pode ser alterado, para mais ou para menos, dependendo da Dilma, ops, da necessidade, estudos, namoros, amizades e tudo mais.

Vamos ao que diz o Governo do Estado sobre este programa, dentro do seu PPA, do seu PAC estadual, regional… do seu programa papa-chibé:

Objetivo: Incrementar a competitividade sistêmica da economia, gerando emprego e renda.

Público Alvo: Empresas dos diversos Setores Econômicos

Estratégia de Implementação:
-
Sensibilizar a sociedade para o Novo Modelo de Desenvolvimento;
- Potencializar as micro e pequenas empresas para alavancar a geração de emprego e renda;
- Estruturar e consolidar os Arranjos Produtivos Locais (APL’s) no território, respeitando a diversidade regional como elemento de identidade cultural e potencializador
para a geração de produtos competitivos nos mercados;
- Construir propostas para superação dos gargalos, infraestruturais e tecnológicos, que limitam a competitividade dos produtos paraenses nos mercados nacional e internacional, interagindo permanentemente com as ações do Programa Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento;
- Construir de forma articulada com diversos setores soluções para complementaridade horizontal e vertical das atividades produtivas;
- Gerir a política de fomento, de forma transparente, ambientalmente responsável e vinculada à Política de Inovação para o Desenvolvimento.

Lá dentro do programa DESENVOLVE PARÁ, tem o Projeto BELÉM 400 ANOS (na verdade, é um projeto urbanístico antigo, de todos, dos municípios metropolitanos, com interesse do Estado).

No PAC papa-chibé, o Projeto BELÉM 400 ANOS tem por objetivo, “Induzir o processo de expansão urbana de forma planejada, da região metropolitana de Belém, para área da Fazenda Pirelli” (tal qual).

Como o valor total deste projeto é, para os 4 anos (2008, 2009, 2010 e 2011) de R$ 582.113,00 (quinhentos e oitenta e dois mil, cento e treze reais), fiquei lendo, relendo, matutando, relendo de novo… pô, 15.000 casas por só isso? Até eu apoiaria! Negócio da China! Afinal, a administração pública tem por um dos seus princípios a gestão do dinheiro público, e, cada casa à R$ 38,80 (trinta e oito reais e oitenta centavos), nem o Delfim, nem o plano mais mirabolante do Delfim. Nem barraca de camping, tapiri de ubim !!!

Relendo, vi que os quase 600 mil reais não eram para construir, ainda, nada. Bobagem minha. Está escrito na minha cara: “Induzir o processo de expansão urbana…”. INDUZIR: lat. indúco,is,xi,ctum,cère ‘conduzir para, introduzir, pôr sobre, cobrir, revestir, tirar uma linha, apagar riscando; fig. levar a, determinar, resolver, induzir, enganar, seduzir, iludir’, com alt. de conj.; ver -duz-; f.hist. sXIV enduzir, sXIV enduzer, sXV inducir, sXV induzer, 1708 induzir (Houassis eletrônico).

Só ainda não entendi induzir quem e a que… tipo assim.

A grana mesmo vem do programa HABITAR MELHOR, de R$ 924.401.549,00 (novecentos e vinte e quatro milhões, quatrocentos e um mil e quinhentos e quarenta e nove reais) – calma, já disse, tem acertos, tem acertos…!

Este programa está lá no PAC paraense, e tem, diz-que, por objetivo, “Reduzir o déficit e a inadequação habitacional, garantindo o acesso à moradia digna, prioritariamente às famílias de baixa renda“. E mais:

Público Alvo: Famílias com renda de 0 à 20 salários mínimos.
Estratégia de Implementação: O programa Habitar Melhor será gerenciado pela Companhia de Habitação do Pará e implementado pela Companhia de Habitação do Pará e Secretaria de Desenvolvimento Urbano (ÉGUA, NEM COMPARECEU NA AUDIÊNCIA PÚBLICA DE ONTEM !!!), sendo que as ações específicas como as do PAC serão monitoradas pelo Comitê Gestor e as ações demandas do Planejamento Territorial Participativo – PTP serão fiscalizadas e monitoradas pelo Conselho do PTP.

É isto aí. Estamos aqui, só urubuservando, na ilharga, tariando aqui e acolá…

Ps.: Ainda estou analisando, e isto pode ser papo para outro permeio, o que é, para onde vai e para onde vem no PAC paraoara, dentro do programa DESENVOLVE PARÁ, um tal de: Implementação das Ações do BANPARÁ. Com o objetivo de “Viabilizar o funcionamento e as operações indispensáveis à atividade bancária“. Total da parada: R$ 510.000.000,00 (quinhentos e dez milhões). Mas, já pensei logo “-não seria melhor e mais barato só fiscalizar a gestão?”. Tipo assim… sei não.

Ps. do ps.: Estou pelejando, mas acho que não vou conseguir decifrar o que vem a ser “Articular informações e atores em torno da temática mineral…” dentro do projeto Implantação do Sistema Estadual de Mineração, também previsto no PAC …tapariu, à bagatela de R$ 211.393,00 (duzentos e onze mil, trezentos e noventa e três reais).

Ps. já meio que puto: “Temática mineral” é foda!

AUDIÊNCIA PÚBLICA – PIRELLI

2009 Novembro 6
por André Costa Nunes

E agora José?

Hoje (ontem), 5 de dezembro do ano da graça de nosso senhor jesus cristo, a Sema, Secretaria Estadual do Meio Ambiente realizou a consulta pública sobre o projeto de construção de 15.000 casas nos terrenos da antiga Fazenda Pirelli, área de preservação ambiental.

Tudo certo como dois e dois são cinco.

O circo foi armado. Convocação de afogadilho. Publicação no
Diário Oficial na sexta-feira dia 30.10, sabendo, de antemão que segunda era feriado.

A SEMMA de Marituba desdobrou-se para convidar algumas entidades e lideranças comunitárias dos quatro municípios afetados: Ananindeua, Benevides e Santa Izabel. Além de Marituba, é claro.

A reunião foi no auditório do IESP – Instituto de Segurança Pública do Pará.
Início às 9 horas, com previsão de entrar pela tarde, e com direito a alentado “coffe brake”.

Os trabalhos começaram atrasados de uma hora, com a presença do Secretário de Estado de Projetos Estratégicos, Dr. Marcílio, Dr. Aníbal Picanço da SEMA, do Prefeito de Marituba, Bertoldo Couto, Dr. Pedro Lisboa do Museu Emílio Goeldi, o promotor público de Marituba, vereadores, líderes comunitários e vários secretários municipais.

Casa cheia. Muita gente em pé. Cinco horas de explanação e debates.

A consulta pública foi um sucesso total. Cumpriu sua finalidade. Formal, legal e democrática.

Foi rejeitada por unanimidade!

E agora José?

André Costa Nunes

BATALHA NA MATA DA PIRELLI (ecos na web) – IX

2009 Novembro 6
por André Costa Nunes

Tem uma lei federal, a Lei nº 11.653, de 7 de abril de 2008, que dispõe sobre o Plano Plurianual para o período 2008/2011 (recomendo ler, estudar mesmo, os anexos dispostos no link da referida lei).

Está lá:

Seção III

Do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC

Art. 11. As ações do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC constantes do Plano Plurianual 2008-2011 integram as prioridades da Administração Pública Federal, e terão tratamento diferenciado durante o período de execução do Plano, na forma do disposto nesta Lei.

Também está lá, pra todo ver. Tá na lei. É lei:

Seção VI

Da Participação Social

Art. 20. O Poder Executivo e o (é “e” e não “ou”, destaque meu) Poder Legislativo promoverão a participação da sociedade na elaboração, acompanhamento e avaliação das ações do Plano de que trata esta Lei.

Parágrafo único. As audiências públicas regionais ou temáticas, realizadas durante a apreciação da proposta orçamentária, com a participação dos órgãos governamentais, estimularão a participação das entidades da sociedade civil.

Art. 21. O Órgão Central do Sistema de Planejamento e Orçamento Federal garantirá o acesso, pela Internet, às informações constantes do sistema de informações gerenciais e de planejamento para fins de consulta pela sociedade.

Parágrafo único. Os membros do Congresso Nacional terão acesso irrestrito, para fins de consulta, aos sistemas informatizados relacionados à elaboração, acompanhamento e avaliação do Plano Plurianual.

Plano Pluri Anual, como se sabe, atualmente, chama-se PAC.

A mensagem do Presidente Lula, no PAC deste seu novo período à frente do Governo Federal tem 124 páginas digitais e muitas palavras. Só precisamos que nosso Presidente lembre destas, pelo menos destas. Tá lá. É dele. Ele disse:

A Estratégia de Desenvolvimento para o Período do PPA e as Políticas Públicas

Com as realizações do período 2003–2006, o Governo do Presidente Lula mostrou compromisso com uma agenda de desenvolvimento que estabiliza a economia, enfrenta a exclusão e a pobreza, reorienta econômica e socialmente o território, fortalece a democracia, a cidadania e o respeito aos direitos humanos e garante ao Brasil um lugar soberano e solidário no mundo. As políticas implementadas nesse período lançaram os alicerces de um desenvolvimento sustentável que permitirá ao Brasil ingressar em um círculo virtuoso capaz de combinar crescimento econômico com redução das desigualdades sociais e respeito ao meio ambiente.

O novo período de governo reafirma o compromisso por um Brasil no qual: o crescimento econômico não esteja dissociado da distribuição de renda e do equilíbrio ambiental; a educação de crianças, jovens e adultos, a promoção da inclusão social e a redução da desigualdade estejam no topo das prioridades nacionais; a existência de infra-estrutura adequada induza os investimentos dos entes subnacionais e do setor privado; o  desenvolvimento da cultura, da comunicação e da ciência e tecnologia sejam vistos como instrumentos do desenvolvimento; a democracia seja aperfeiçoada e ampliada permanentemente; o combate ao preconceito e à discriminação não encontre trégua; brasileiros e brasileiras possam ter garantia de segurança e de respeito aos direitos humanos; a inserção soberana no mundo obtenha êxito, com respeito à independência dos povos e à defesa intransigente da paz. Coerente com esse compromisso, o Plano Plurianual (PPA) 2008-2011 articula e integra as principais políticas públicas para o alcance dos objetivos de governo e dá continuidade à estratégia de desenvolvimento de longo prazo inaugurada no PPA 2004-2007. Para o novo período, o Plano promoverá desenvolvimento com inclusão social e educação de qualidade.

Como forma de viabilizar a Estratégia de Desenvolvimento, o PPA 2008–2011 prioriza:

a) as políticas públicas voltadas para o crescimento e a promoção da distribuição de renda;

b) a elevação da qualidade da educação;

c) o aumento da produtividade e da competitividade;

d) a expansão do mercado de consumo de massa;

e) a utilização da diversidade dos recursos naturais de forma sustentável;

f) a melhoria da infra-estrutura, inclusive urbana (em particular nas regiões metropolitanas);

g) a redução das desigualdades regionais;

h) a segurança e o fortalecimento da democracia e da cidadania.

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O Brasil ingressou em uma etapa de desenvolvimento sustentável, e caberá ao atual período de governo avançar mais aceleradamente rumo a esse novo ciclo de desenvolvimento. Um desenvolvimento de longa duração, com distribuição de renda, combate à exclusão social, à pobreza e às desigualdades sociais e regionais, respeito ao meio ambiente e à nossa diversidade cultural, emprego, segurança e bem-estar social, controle da inflação, ênfase na educação, democracia e garantia dos Direitos Humanos, presença soberana no mundo e forte integração continental.

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2) Promover o crescimento econômico ambientalmente sustentável, com geração de empregos e distribuição de renda

O Brasil vivenciou, no período 2004-2007, um novo modelo de desenvolvimento econômico e social que combina crescimento econômico com melhoria das condições de vida da população e preservação do meio ambiente. Hoje, a economia brasileira reúne condições para uma aceleração do ritmo de expansão da atividade econômica, sem que isso signifique riscos para a estabilidade econômica ou para o meio ambiente.

BATALHA NA MATA DA PIRELLI – VIII

2009 Novembro 6
por André Costa Nunes

Para você ver, e cada vez prestar mais atenção na blogosfera, verdadeira lança de bit e pixel, contra moinhos não tão virtuais assim.

Colhendo ecos na blogosfera sobre a audiência pública do “Refúgio Silvestre” da Marituba, antiga Fazenda Pirelli, leremos o que buia, buiou e buiará lá, ali e acolá.

Observe, leia, debata, lute conclua, reinclua, retorne, dissolva, resolva…

A batalha é renida e será feita por renitentes!