CORAGEM DE MAMAR EM ONÇA.03

CORAGEM DE MAMAR EM ONÇA.03
andré costa nunes

De repente se passaram três anos.
Dia 30 de maio faz três anos que abrimos o Terra do Meio Restaurante Rural.

Não cabe o lugar comum “parece que foi ontem”. Não. Foram três anos,
mesmo. Nunca trabalhei tanto e com tanto prazer. Por vezes me
descobria menino. Adolescente, pleno de juventude e tesão. Lato sensu,
claro. Mas que passou rápido, passou. Aliás, como tudo que é
imensamente gostoso.

Tipo assim… orgasmo!

É claro que nem tudo foram flores. Houve tempo de angústias, de
solidão. Cheguei a fechar por uns dias. Odiei-me por isso, mas já me
esqueci. A porção boa, romântica, picaresca, prevaleceu. Esbanjou.

Empreender com ousadia, irresponsabilidade, partir pro foda-se, com
poesia, a perseguir um sonho é a minha cara.

E o pior, ou melhor, é que este certamente não será o último. Outros
sonhos estão permanentemente em gestação. Se terei tempo de pari-los,
é irrelevante. O sonhar é a essência.

Durante esse tempo não abri mão das minhas bandeiras. Velhas
bandeiras, novas lutas. O majestoso Xingu, o singelo Uriboca. Aquele a
espernear contra as grandes empreiteiras. O Uriboca e o Uriboquinha, frágeis, pequenos,
a lutarem contra a Máfia do Lixo.

Se por vezes pareci fraco, acovardado, terá sido apenas síndrome de I-Juca Pirama, como a dizer “me aguardem”. Don Quixote e o Curupira são
meus ícones.

Eu e a Esther agradecemos o apoio, as críticas, os elogios, os papos, não, os longos papos na beira do lago, à sombra da palha. Agredecimentos de montão, que não caberiam aqui, a toda galera do Facebook, do Twitter, do site do restaurante e deste blog.

Enfim, o Terra do Meio, como aquela outra, mesopotâmica, entre os rios
Xingu e Iriri, da minha paixão e da qual sou oriundo, tem uma única
missão:

FAZER AS PESSOAS FELIZES.

Tipo Assim…

Este slideshow necessita de JavaScript.


Largatudoevemtimborapracá!

Publicado em Boca de Forno!, Terra do Meio | 9 Comentários

DIAS DAS MÃES – TERRA DO MEIO

DIA DAS MÃES

Domingo, dia 13, é Dia das Mães. Sábado também. Otimista incorrigível, acredito em casa cheia de amigos. É bom fazer reserva.

Ah, e tem maloca nova!

www.terradomeio.com.br

Obrigado,

André Costa Nunes
fone – 3277 2975

Publicado em Boca de Forno! | Deixe um comentário

À BEIRA DO XINGU

À BEIRA DO XINGU

andré costa nunes

Havia acabado de chover naquela tarde em Altamira. Chuvinha besta de agosto pra setembro. Nesta época floresce o pau d’árco, que no Sul chamam de Ipê. Explode em copas de cores muito vivas quebrando a imensidão verde da mata. Roxo e amarelo. Mais amarelos do que roxos. É também quando as tartarugas e tracajás sobem às praias para desovar. Exatamente depois de uma chuvinha como essa, os machos, capitaris sobem à praia para, diz-que, com a ponta do rabo, curto, grosso e pontiagudo, traçar um risco delimitando o sítio seguro até onde as fêmeas podem fazer as covas e depositar os ovos. Ali seria o ponto em que as águas do inverno não atingiriam. Pelo menos até a eclosão dos ovos.

Alguns esparsos barcos, pequenos, rabudos, cheios de passageiros, alguns com guarda-chuvas, principalmente mulher barriguda ou com criança verde no colo, cruzam o rio e a tarde, em quase toda a extensão da Rua da Frente.

Vêm do Baixo, da Ilha da Fazenda, embora o movimento maior seja com a Terra dos Assurinins, na margem direita do Xingu, esses não passam por ali. Contornam a parte de cima da Ilha do Arapujá. São voadeiras velozes, e até balsas atravessando carros e gente. Caminhões e carretas de madeireiros. Automóveis. Progresso.

Nunca fiz essa travessia por ali, nem andei de balsa ou voadeira veloz, moderna com capota e poltrona. Não, por qualquer sentimento de aversão ou preconceito, mas talvez por falta de oportunidade. Aquela parte não está nas minhas lembranças, na minha história.

Debrucei-me na mureta ainda molhada do cais à espera do resto da turma. O primeiro a chegar foi o Dimas do Seu Carlos Soares. Logo depois, juntos, vieram o Élio do Miguez, o Sabá do Janga, o Eduardo Besouro e o Zé do Mané Paulo. Sobrenome por lá era desse jeito. Identificava o cabra e a cepa.

Não foi o encontro efusivo da turma de moleques de sempre. Dizíamos que nunca iríamos envelhecer. Até ensaiamos descer lépidos a escada escorregadia, íngreme e estreita colada ao paredão que ia dar na praia ainda larga da seca de verão. Não deu. Era preciso ter cuidado. Os moleques estavam grisalhos. Avós.

- E aí, Deca? – Instigou o Eduardo, quebrando o silêncio.

Deca era eu, seguindo a regra, Deca do Anfrísio. Fiz cara de paisagem, como se tivesse concatenando as idéias. O próprio Eduardo veio em meu socorro.

- Vou encaminhar a discussão e vocês corrijam ou acrescentem o que for relevante.

- “Encaminhar a discussão”  é coisa de comuna ou petista, ainda tentou brincar o Sabá do Janga. Ninguém riu. O Eduardo fez que não ouviu e continuou.

- Sempre sonhamos com o progresso de Altamira. Achamos que a nossa era a geração da transformação. Vocês vibraram, eu, não, quando a ditadura chegou com a Transamazônica. Projeto pronto e acabado. Desenvolvimento. Não fomos ouvidos nem cheirados, mas tudo bem, iríamos sair do isolamento, do marasmo, da pobreza.

Passaram de cambulhada por cima de nós, do povo de Altamira. As máquinas foram recebidas com aplausos e fanfarra. Junto com elas veio a escória republicana da dissolução dos costumes. Gente, muita gente. “Gente sem terra para uma terra sem gente”. “Ocupar para não entregar”. E outras baboseiras em que muitos de nós embarcaram desde a primeira hora. Os novos donos, a ensinar o que sabíamos, tinham nomes, caras e funções definidas. Autoridades. A nova confraria. Empreiteiras, madeireiros, grileiros, pistoleiros, corruptos e corruptores. Gente experiente em comprar gente. Gente disposta a se vender. Como se disse, autoridades.

O resultado foi a desconstrução. O latifúndio, os grileiros, os madeireiros, os corruptos, os corruptores, o desmatamento. Tudo isso escoltado e coonestado por prefeitos, deputados, senadores, governadores, juízes, cartorários et caterva. E a Sudam. Ah! A Sudam. Essa merece ser contada em um capítulo a parte. E se contará. Um monumento à rapinagem e à impunidade. E a dissolução dos costumes ganhou. A mata perdeu. A Amazônia perdeu. Perdemos nós.

Por fim, mas não menos importante,  esse processo sombrio, trouxe uma semente de amanhã. Os colonos. Desassistidos e desvalidos. Os que resistiram à volúpia da grilagem latifundiária e conseguiram ficar e amanhar a terra. Foi muito difícil, mas o trabalho honesto está vencendo e, não pela pata do boi, do correntão ou da moto-serra. A região se prepara para ser o maior produtor de cacau orgânico do Brasil. A engrenagem desta economia primária criou uma nova geração de agricultores, estudantes, professores, doutores, empresários. Do bem, do bom, do belo. A decisão de pais renitentes que conseguiram ficar no trabalho duro, as caminhadas de léguas em busca das primeiras letras, deu frutos.

Mas ainda não o poder.

Este pertence às estruturas carcomidas de um sistema que acreditávamos agonizante. Por si e por seus beleguins. A hora era de reconstruir: mais dia, menos dia, essa nova geração haveria de assumir as rédeas do próprio destino. Vitória, Brasil Novo, Uruará, Souzel, Altamira, São Félix, enfim, o Vale do Xingu.

De repente, não mais que de repente, BELO MONTE. A grande hidrelétrica a estrangular o Rio e sujigar as gentes.

Houve um tempo, logo que anunciaram o projeto, em que chegamos a nos ufanar. Orgulho besta de colonizado. Quando a ficha caiu, Inez era morta.

  Mais uma vez o Xingu e mais uma geração serão sacrificados em holocausto ao desenvolvimento, diz-que, do Brasil. Eu disse diz-que. E nem se deram ao trabalho de nos convencer. Ficou o entendimento de que o interesse maior era das empreiteiras e de suas tenebrosas circunstâncias. Da outra vez era a ditadura. Agora, em pleno Estado Democrático de Direto. Vai começar tudo outra vez.

E chegará o dia em que, o capitari buscará, com seu rabo grosso e pontiagudo aquela praia, a mesma praia que, por 10, 30, 100 anos indicou o caminho para que as suas crias fossem depositadas e gestadas e não mais a encontrará, inundada que está pela grande barragem.

Agora, cadê praia? cadê ovos? cadê vida?

Não houve discussão. Ninguém contestou, ou sequer acrescentou palavra, apenas, o Élio, quando se levantou, balbuciou para si mesmo: – É isso aí.

Os seis, agora bem mais velhos, subiram devagar a escada do cais. Silentes, com um gosto amargo na boca e um sorriso amarelo, despediram-se apenas com um aceno.

Publicado em Batalhas Renitentes | Com a tag , , , , | 8 Comentários

TERRA DO MEIO: Feliz todos os dias

Dois de janeiro de 2012, primeira Segunda-feira do ano, como de tradição, teve a Confraternização de Fim de Ano do Restaurante Rural TERRA DO MEIO.

Aproveitamos, logo, para agradecer a companhia de todos os clientes, amigos e parentes que foram nos visitar em 2011. Valeu!

Esta Confraternização é dos funcionários, é da comunidade Terradomeioense. Ali estão os bisnetos, netos, filhos, sobrinhos, maridos e mulheres, pais, mães de todos os que nos acompanham, há mais de 40 anos, às margens desse lago que encanta.

Teve brindes, sorteios, danças, bingo, amigo invisível e alegria.

E alegria da molecada, que é sempre o melhor!

FELIZ 2012!

Este slideshow necessita de JavaScript.

Publicado em Terra do Meio | 4 Comentários

Cartas do Xingu – Delenda Altamira – 1

CARTAS DO XINGU

Delenda Altamira – 1

André Costa Nunes

14.11.2.011

Tocar um restaurante rural na periferia de Belém, mesmo na beira do rio Uriboquinha, em meio a floresta, pássaros, gente boa, papos sem fim, banho de igarapé, licor de jamburana, é tudo de bom. Mas cansa. Ainda mais aos setenta e dois anos de idade.

Dizem que o homem para se sentir realizado tem que fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Ditado besta, mas tenho quatro filhos, plantei muitas árvores, escrevi poucos livros. Meia dúzia, se muito. Continuo escrevendo livros, plantando árvores e colhendo netos. E, como disse, tocando o Restaurante Rural Terra do Meio, em Marituba. Mas longe de me sentir realizado.

Em meio a estes devaneios bate o telefone. Era a professora Ivonete, aliás, Doutora Netinha, para os íntimos e para todo mundo, da Universidade Federal do Pará, convidando-me para proferir a palestra de abertura da Semana de Literatura no auditório do Campus de Altamira. Mandaria as passagens. O tema seria a Historia e histórias de Altamira no ano de seu centenário. Caiu a sopa no mel.

Desde que saiu a sentença irreversível(?) para a construção da hidrelétrica de Belo Monte que planejo uma viagem ao Xingu, mais exatamente a Altamira, com incursões necessárias rio acima e rio abaixo e Transamazônica. Não exatamente viagem sentimental como sempre faço para rever parentes, amigos de hoje e de sempre, o rio, a Ilha do Arapujá, as praias, as cachoeiras, a lua. Faz dez dias que estou aqui. Era lua cheia quando cheguei.

A minha gente, o rio, as praias, a lua, tudo no lugar. Como sempre. Apenas o velho casarão da família, o Meu Sossego, fora demolido pelo novo proprietário, o senhor Silvério Fernandes, rico empresário financiado da Sudam e vice-prefeito de Altamira. Teria ouvido um boato que pretendiam tombar como patrimônio histórico. Ele se adiantou e o “tombou” antes. Estava no seu direito. Acho até que nem precisava se incomodar com isso, não faz o perfil da administração municipal, “desenvolvimentista”, andar se preocupando com essas coisas.

Desta vez queria sentir o pulsar da cidade. As notícias que chegavam até mim eram desencontradas e inverossímeis. Nitidamente passionais. Compreensivelmente passionais. O Xingu é assim mesmo, mundia as pessoas, que logo se arvoram em suas guardiãs. Claro que não devia ser assim. Conheço bem esse povo. Qualquer coisinha faz logo um estardalhaço.

Por isso vim e estou aqui há dez dias. Agora posso começar a contar o que vi e ouvi. E garanto a vocês: é bem pior!

Não vou fazer relatórios chatos, circunstaciados, técnicos ou analíticos, até porque, não sei fazer. Faltam-me talento e arte. Vou apenas escrever cartas procurando fugir dos adjetivos e abordando o substantivo. Da maneira mais simples que a minha compreensão puder alcançar.

_______/

O caso da venda do terreno da OAB, Ordem dos Advogados do Brasil

Sucintamente, só para rememorar: a prefeitura deu um terreno para a OAB construir sua sede. A OAB o vendeu.

A verdade há que ser sempre o fato, por exemplo: o copo quebrou. Se foi o vento que derrubou, se foi o menino traquinas que esbarrou, não muda a verdade primária e insofismável. O copo quebrou.

Do mesmo modo, a prefeitura pobre de Altamira, em nome de um povo pobre deu um terreno para a OAB construir sua sede. A OAB não construiu sequer um quartinho e o pôs a venda.

Se foi vendido para um diretor da Ordem, para o João ou para a Norte Energia, por trinta mil, trezentos, ou três milhões de moedas é irrelevante, no meu entender. São questões adjetivas. O substantivo é que, mesmo “legal”, e disso os doutores entendem muito bem, é imoral, torpe, injusto, apropriar-se de um bem público de um povo de todo carente, apenas para especulação imobiliária.

Isso, sabemos nós, e os “doutores” mais ainda, chama-se patrimonialismo definido por Weber. A prática espúria, antirrepublicana da transferência do patrimônio público para propriedade privada. É, acima de tudo, herança absolutista desde sempre que permanece indelével na legislação do século XXI. Não sei se o doutor Claudio Lamachia previu isso quando escreveu a Missão Constitucional da OAB. Se o fez esqueceu de mandar uma cópia para o Pará.

Essa historinha da OAB, não tem nada a ver com o motivo maior das cartas que me propus escrever, mas era uma questão não digerida, uma espinha atravessada na garganta. Não que eu tenha a mínima esperança que a Ordem tenha a decência de devolver ao povo de Altamira o patrimônio “legalmente esbulhado”, se é que tal figura existe, ou mesmo, quem sabe, por ser uma entidade rica e poderosa, construir uma creche, uma praça, uma biblioteca.

Não fora a OAB a vanguarda da Justiça, por vezes várias antecessora da lei, e se poderia invocar em sua defesa que tal prática é useira e vezeira ou, no seu próprio dialeto, consuetudinária. Aqui e alhures.

Até posso entender a atitude singular do advogado que vem para este fim de mundo, zona de fronteira, para se dar bem. Enricar. Pior seria, reconheço, sem eles, mas a Entidade OAB é outra coisa. Um dia se haverá de contar sua luta em defesa das liberdades democráticas. De seus posicionamentos justos contra o Poder, mesmo ao arrepio de convicções e interesses pessoais de seus dirigentes. Enfraquecer a OAB é dar munição aos inimigos do povo. É enfraquecer a democracia.

É madrugada. Chove forte sobre o Xingu, mesmo assim, logo cedo, devo encarar a Transamazônica até Belo Monte para entrevistar o seu Ferreirinha. Ele tem mais de noventa anos e teria, diz-que, acompanhado Jimmi nas peripécias de esconder o filho do David Rockfeller pescando no beiradão do Baixo Xingu. Mas isso é outra história.

Amanhã ou depois cometerei outra missiva da série “Delenda Altamira”.

André Costa Nunes 

Publicado em Permeios | 2 Comentários

AS BAIXADAS DE BELÉM


View Larger Map

AS BAIXADAS DE BELÉM

Do Marajó, do Nilo, de Miami, do Mekong.

Entendamos como baixadas, as terras inundáveis por rios, lagos e mares. Várzea baixa, várzea alta, igapós, baixões, praias e mangues. Fiquemos apenas com os rios. Rios da Bacia Amazônica.

As baixadas fazem parte do rio. São sua área de escape. Seu leito quando as águas se avolumam. Quer pelas cheias sazonais, quer, se próximas ao mar, pelo fluxo das marés. É, digamos, o leito expandido. É nessas águas rasas, quentes, densamente vegetadas, ricas em húmus e plancto, que ocorre a reprodução dos peixes. Onde nasce a vida. Quando as águas refluem, o rio volta para sua calha deixando fértil a terra que ocupou. Normalmente, por igual período, sobe e desce. Comportado. Seguindo as regras que não fez. Só sabe que é assim. E sempre funcionou, desde que o mundo existe como conhecemos.

A ocupação humana das baixadas, tanto para exploração econômica, quando para habitar, só pode acontecer, por empréstimo, ou por esbulho. Também sempre foi assim, repito,  ao longo da história.

 Por esbulho, com grandes obras de engenharia. Cidade do México, a Tenochtitlán dos astecas, a Holanda, o Aterro do Flamengo, a Nova Copacabana, Miami City, Narita, Dubai, o porto de Belém por Percival Farqhuar etc.

Por empréstimo, para morar, só com palafita, como foi no lago de Zurique, na Suíça, na França, em Veneza, no Laos, na China, em Brunei, na Ilha das Onças, em Vila Maiuatá, Afuá, Arumanduba e outras menos importantes. No Amazonas, desde o Marañon até o Marajó.

Alguns povos, simplesmente flutuam. Em ilhas de junco no lago Titicaca ou em sampanas asiáticas.

A ocupação das baixadas de Belém é recente. Primeiro por empréstimo depois por esbulho.

 Esbulho perverso, burro, pobre, excludente, sem qualquer planejamento ou obra de engenharia.

Antes, se ocuparam os tesos e terras altas a partir do Forte do Presépio. Contornavam-se as baixadas. Os igarapés eram as vias por onde os ribeirinhos entravam com suas canoas para negociar, quase sempre por escambo, sua produção nas feiras que se formavam nos barrancos das terras firmes.

À entrada desses canais ficavam as “guritas” coletoras dos impostos. Quando a canoa entrava demandando as feiras, a mercadoria era inventariada. Açaí, azeite de patauá, cumaru, cacau, copaíba, farinha, peixe seco, caça fresca e seca, galinha, pato, marreca, mixira. Deixava em garantia os remos, as falcas e o velame. Assim, desarvorada percorria os igarapés apenas movida a vara. De porto em porto vendendo seu produto.

A prática do escambo, exigia negociação na saída, junto ao coletor dos impostos e do dízimo clerical.

Até se pensou que Belém, na época da borracha, estava pronta para ser uma Veneza Tropical. A malha de canais era perfeita.

Esta feição, com alguma concessão à modernidade, permaneceu assim até quase os nossos dias. Segunda metade do século vinte. Os habitantes tradicionais de Belém, as elites, o clero, comerciantes, militares e funcionários públicos seguiam o estilo português de casa de pedra e cal, adobe e divisórias de taipa. Em terra firme, naturalmente. Pela mesma tradição e origem, os imigrantes nordestinos, ainda poucos, seguiam-lhe o padrão. Pode-se até dizer que, obedecendo à hierarquia vigente, a ocupação era democrática. Os tesos comportavam também ex-escravos, empregados subalternos e despossuídos, de qualquer cultura, não cabana, ribeirinha do Baixo. Da cultura da palafita.

A beirada, o baixão, depois que Farhquar tirou os trapiches da frente de Belém foi ocupado, pouco antes e além do Arsenal de Marinha, por ribeirinhos do estuário do Amazonas. Baixo Tocantins – Baião, Bujaru, Igarapé-Miri, Maiuatá, Acará, Abaetetuba, Amapá – e Marajó, furos e ilhas, que para cá trouxeram seus costumes e tradições, inclusive o hábito de viver e conviver no alagado. Mal comparado teria sido assim também com os holandeses que preferiram fundar Recife nos manguezais da foz dos rios Capibaribe e Beberibe, ao invés das terras altas de Olinda bem ao lado.

 Os ribeirinhos cabanos trouxeram seus costumes de morar em palafitas, em casas leves, cobertas de palha de buçu ou ubim e assoalhadas de paxiúba. Trouxeram também seu patuá, seus hábitos alimentares a base de açaí, farinha, peixe seco e camarão. O tucupi, que até meados do século dezenove, era desconhecido em Belém. E assim se assentaram na orla da maré. Se muito entraram terá sido seguindo os igarapés e furos que ornavam a cidade. O resto, tirante os tesos, era a várzea baixa dos capinzais alagadiços sem fim.

Só para nos situarmos no tempo estamos falando já, da segunda metade do século vinte, quando esses mesmos capinzais garantiam a produção das vacarias. Diz-que a “bacia leiteira” de Belém.

Então, fiquemos entendidos. Os tesos, a parte alta, enxuta era para os “brancos”. A orla alagadiça, para os cabanos. As baixadas do entremeio, capinzal. Vacaria.

O cabano não se queixava, não havia revolta, pois essa mudança para a periferia alagada de Belém representava uma enorme evolução em sua qualidade de vida em se comparando com a mesma palafita isolada e desassistida de onde procedia. Seu único paradigma.

Navegando um pouco no tempo, fazia toda a diferença a luz elétrica, o grupo escolar, o ônibus velho, a Santa Casa de Misericórdia, o pronto socorro, a água gelada, o sorvete, o cinema, depois a tv e, por fim, o emprego. A cidade.

Mas a população de Belém foi crescendo, não mais mercê dos cabanos primeiros, mas de seus descendentes e de toda sorte de gentes migrantes que costumam inchar as cidades. E aí, naturalmente, mas perversamente, como que por gravidade, os não cabanos, por direito de casta, ou, mesmo, costume, ocuparam a terra seca. E, ainda, antes que o povo se desse conta, o Estado, lato sensu, adonou-se de toda a terra enxuta em volta da cidade. Para si e para apaniguados, por simples herança de patrimonialismo feudal.

Assim, foi usurpada dos cidadãos, sem quê nem pra quê, uma área bem maior que a própria cidade. Belém ficou sitiada, por transferência de domínio, pela Amazon River, a Port of  Pará, a Marinha de Guerra, o Exército Brasileiro, a Aeronáutica, com quase todo o Bairro do Marco, Souza, Marambaia, até a estrada de ferro para a vila de Pinheiro, hoje Icoaraci, e além, no rumo do Coqueiro. E, ainda, o Ministério da Agricultura com a granja Santa Lúcia, o Ipean, depois Embrapa, o Ministério da Educação com Ufra e Ufpa.

 O povo despossuído foi literalmente empurrado para o capinzal alagado. As Baixadas!

Agora, não mais por tradição cultural, mas desgraçadamente, por favelização.

“O sapo pula, não é de boniteza, mas por precisão”, diz o velho adágio nordestino.

Aí, já o fato consumado, entra o Poder Público, não com o planejamento, as tais obras de engenharia, saneamento mínimo e condições de “habitabilidade”, como se fez no campus da Universidade Federal, mas com  remendo desrespeitoso, quase escárnio. As ruas eram, algumas ainda o são, pontes mal ajambradas. Estivas. Antes, tal como o usado pelos beiradeiros dos furos e igapós, apenas um tronco de miriti ou dois caules de açaizeiros sustidos por forquilhas e amarrados de cipó ou embira. Depois, pontes mambembes de tábuas de madeira branca.

Com a chegada do “progresso”, essas estivas, foram sendo substituídas por “ruas” aterradas, primeiro, com caroço de açaí e serragem levados em carroças de burro pelos próprios moradores, depois, lixo da limpeza pública. Agora, já em caçambas da prefeitura. E, pasmem, era disputadíssima a benfeitoria. Sem drenagem, sem saneamento. O chorume a escorrer e a se acumular nos quintais, becos, vielas e em baixo das casas palafitas. A convivência com o miasma já não mais incomoda. As pessoas se acostumam. As marés lançantes, em grande parte, equalizava e drenava os dejetos para os rios através de igarapés urbanos transformados em esgotos a céu aberto.

Muito político se elegeu conseguindo este tipo de aterro para seus redutos eleitorais.

A prática de hoje é a mesma. Apenas trocou-se o lixo (?) por terra e, às vezes, com muita sorte, resto de construção. Já é um avanço.

 As cidades nunca pertenceram ao povo, pelo menos o que, modernamente, com um pouco de esforço, hoje entendemos como povo. Povo, com direito à propriedade, sempre foram as elites econômicas e “culturais”. As terras habitáveis pertenciam ao Governo e este se confundia com a figura do governante. E, “justiça” se faça, qualquer cidadão podia requerer o tamanho de terra que quisesse desde que fosse devoluta.

Que não se entenda por cidadão, o cabano, ou, mesmo, o desvalido de qualquer origem. No mais das vezes, essa transferência de propriedade do Estado se fazia para entidades estatais ou privadas, nacionais, ou não, e, principalmente para as grandes famílias que, como vivandeiras, se acercavam do poder. Herança feudal que, de certa forma, persiste até hoje. Sem projeto e sem nenhum escopo de função econômica ou social, que não a especulação imobiliária. Estes terrenos eram, aí, sim, loteados ou fatiados e, sem o mínimo de critério, vendidos para aquele outro povo excluído da cidadania. O Estado, não fora feito para ele. Era simples, assim. Consuetudinário. Legal, moral, ético, piedoso. Essa prática, não raro, estendia-se pela baixada alagada e já ocupada por gerações de despossuidos.

Muitos dos novos proprietários e gestores, não podem ser responsabilizados por esse legado perverso, pelo tal pecado original, mas quem sabe, um pouco de luz sobre o passado, não torne o entendimento mais generoso quanto a função do capital.

Esta é apenas a realidade, que se há de conhecer. Não pretendemos sugerir soluções técnicas. Esta não é nossa praia, mas sabemos que medidas parciais e pontuais, apenas agravam o problema. No máximo adiam-no para um futuro bem próximo.

Acreditamos, também,  que há soluções e profissionais capacitados para enfrentar o desafio. Sabemos que esbarramos na triste realidade de vivermos em uma capital extremamente pobre, de um Estado colonial espoliado. Pobre de recursos, pobre de vontade e pobre de gestão. Povo pobre. Indesejável.

Não precisa necessariamente ser assim. Isto não é um “karma” que tenha que ser aceito com passividade monástica. Os tempos são outros. Ninguém precisa chafurdar no passado para remoer ódios ancestrais, mas precisa sim, conhecer a História, de maneira crítica para corrigir o presente e projetar um futuro mais justo para o povo, que, ao fim e ao cabo, é a razão maior da existência do  Estado Republicano.

por andré costa nunes

Publicado em Permeios | 2 Comentários

O Congresso Nacional e a Legião Estrangeira

O Congresso Nacional e a Legião Estrangeira

A Legião Estrangeira é uma tropa de elite do Exército Francês, que recruta, ou recrutava, toda a escória do mundo. Não importa a nacionalidade, credo, índole ou mesmo crime cometido antes do alistamento. Ao passar por seus portões, o recruta está anistiado.

Consta que muitos quiseram fugir para se entregar à justiça e pagar pelo crime que havia cometido.

Ainda hoje é assim. Tem até uma página oficial de recrutamento na internet. Em todos os idiomas, inclusive, claro, em português: http://www.legion-recrute.com/pt/

Tomei conhecimento da existência da Legião Estrangeira ainda menino interno no colégio Salesiano Nossa Senhora do Carmo. Devia ter uns doze pra treze anos de idade. O livro chamava-se Beau Geste. Trouxe-o escondido, pois não sabia se constava de um tal de index prohibitarum librorum usado para confiscar, no meu entender, tudo que não fosse escrito por padre.

E dava castigo pesado.

E nem eram livros de sacanagem.

Lembro-me que perdi Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato e uma coleção de gibis.

Adorei Beau Geste. Sonhava entrar para a Legião Estrangeira. Muita aventura, heroísmo e gestos de nobreza nas areias do deserto. Saara. Acho que era a Argélia.

Por algum tempo essa idéia ficou na minha cabeça, quando não, como uma saída para o caso de eu aprontar algum pecado imperdoável ou crime hediondo. É evidente que aos doze anos, xucro, xinguano, não tinha a menor noção do que seria hediondez, mas já me via com aquela farda e, principalmente, com aquele quepe armado com uma cortina a cobrir a nuca, como no desenho da capa do livro.

Quando entrasse para a Legião Estrangeira, todos os meus pecados e malfeitorias estariam perdoados.

***

Ontem, há poucas horas, a Deputada Jaqueline Roriz foi perdoada de todos os pecados e crimes cometidos antes de entrar para o Congresso Nacional.

 Aplausos para a nova legionária!!!

CLAP CLAP CLAP !

 por andré costa nunes

Publicado em Permeios | Deixe um comentário