A BORBOLETA AZUL

DIVAGAÇÕES

A BORBOLETA AZUL

andré costa nunes

Uriboca, 07.01.2007

Uma coisa é ver uma borboleta fugaz, aqui e ali a passar no caminho, na rua, na praça, no parque, no jardim. Até mesmo, para quem viaja pelos rios e têm olhos de ver, aos milhares, nas praias de rios, várzeas, lagos. Deve haver também nas praias de mar. Não sei, essa não é minha.

No Xingu dizia-se que elas anunciavam o fim do verão. Todas amarelas. Pequenas, sem ser miúdas. Variando da gema de ovo ao amarelo esverdeado. Vivo, mas monocromático. Belas porque toda borboleta o é. Beleza plástica que compõe e enriquece a paisagem. Dá vontade de rir, de ser feliz. De correr pelo meio delas e fazê-las esvoaçar como se faz nos ninhais de gaivotas.

Outra coisa é ver e acompanhar uma borboleta azul. São solitárias. Não voam em bandos. Mesmo aqui, nas cabeceiras do rio Uriboca, na beira d’água, aparece uma de cada vez. Duas, no máximo, três. Pelo menos que eu visse. Não, que sejam escassas, mas acho que é pura opção de viver. Não são ariscas e nem se importam com barulho. Moderado, é claro.

Papo de beira, viola.

Certa vez uma chegou a pousar no meu braço. Faz muito tempo. Foi a glória. Depois disso quando elas apareciam saídas da mata para vôos por sobre a água, ficava como besta com o braço estendido na esperança de outro gesto daqueles de intimidade. Sonhei que pudéssemos fazer amizade, assim como fiz com um bando de macacos enxeridos que pululam no entorno de casa. Coisa de caboco sonhador. Ter uma borboleta como xerimbabo.

Fui criado no interior em meio a xerimbabos de todo tipo. Acho que isso se aprende com os índios. Não sei se é exatamente assim, mas xerimbabo, no meu ver, era diferente de ter um animal de estimação ou decorativo. Isso, todo mundo tem, ou quer ter. Papagaio, arara, hamster, furão, até cachorro e gato. Sem falar em passarinhos canoros em gaiolas ou poleiros. Esses então, de gaiolas, não fazem o menor sentido para o índio que vive rodeado deles enchendo o saco com trinares e cantares desde que o dia amanhece.

Xerimbabo é o animalzinho que perdeu a mãe, quase sempre morta na caçada de subsistência. É o filhote de anta, de caititu, de macaco, de arara, mutum, jacamim, jacu, até jaboti. Órfãos trazidos para casa por pena e que são criados junto à comunidade. Dentro de casa. Morrem de velhos. Ninguém come xerimbabo.

Isto é, eu queria fazer de uma borboleta, meu xerimbabo. De certa maneira acho que consegui. É bem verdade que usei um ardil ensinado pelo Messias do Museu Goeldi. Espalhava, aqui e ali, cascas de frutas. Logo, logo, apareciam. Uma, duas, três. Não mais. Casca de abacaxi é o prato preferido.

Gostava de pensar, de manhã cedo, quando chegava à maloca da beira do igarapé e elas apareciam, que era por minha causa. Mas quando. Elas estavam lá porque era a casa delas. Eu é que era o visitante eventual. Acho até, que quem estava sendo observado era eu, embora, por vezes me desse ares de estudá-las. Seus hábitos, modo de viver, de morar, de voar. Não exatamente como um pesquisador, ou, mesmo, entomologista. Nunca, mas nunca mesmo, insetólogo.

A borboleta azul não é um inseto. É uma entidade do reino da encantaria. Existe para mundiar. Para que o céu tenha um paradigma de cor. De azul. De azuis.

Um dia, faz tempo, vieram os homens do Museu com uns puçás de filó e umas caixas com tampas de tela e outros, diz-que, apetrechos de campo. Por assim dizer, pesquisadores. Não dei permissão, nem encompridei o papo.

De repente imaginei “minha” borboleta azul espetada por um alfinete sujigando uma minúscula etiqueta com um número sobre um fundo de cortiça fina.

Coleção.

Ou pior. Dissecada sobre uma lâmina de vidro, na ponta de um microscópio.

Estudar.

Mas estudar o quê? Pra quê? se a borboleta azul, mesmo de longe, se mostra em toda sua inteireza? Por que malinar com quem está quieto?

Houve um tempo que outros homens caçaram muitas outras borboletas azuis. Venderam suas asas a peso de ouro. O mundo logo acusou o golpe. Ficou gris. Será que vocês não notaram, meu deus! Que de uns tempos para cá o céu empalideceu? Qualquer curupira sabe o motivo. Com a drástica diminuição das borboletas azuis o céu perdeu o referencial. Não, que não haja, hoje em dia, belos tons de azuis e até de outros matizes, artificiais criados pelas mentes maravilhosas desses químicos das indústrias, verdadeiros alquimistas cibernéticos. Cores tais, que fascinam nosso olhar.

Olhar cibernético.

Azul virtual.

A essa investida a borboleta azul conseguiu sobreviver. Em bolsões ou refúgios de mata densa. Ah! Eu esqueci de contar que ela é habitante de mata densa. É muito pávula. Não fica por aí borboleteando descampados, campos e capoeiras. Não habita mocambos. Dá-se ares de nobreza. Sua morada são palácios e catedrais. A mata alta. Folga nas águas límpidas, também virgens, das grotas e igarapés.

Fumaça, muita fumaça. O progresso avança, o pasto avança e a borboleta azul foge. Ou morre. Mais morre do que foge. Ela não suporta fumaça. Sofre, não só com razia que o fogo inflige na mata, sua catedral, seu palácio, sua morada, mas principalmente com a fumaça inevitável e renitente. Por maior que seja a queimada, sempre é infinitamente menor do que a área que a fumaça alcança. Cada vez há menos refúgios.

Restam guetos.

Aqui na nascente do rio Uriboca é um desses guetos. Não é dos grandes, mas há proteção. Pelo menos é o que ela pensa.

Mais adiante, bem perto daqui, há outro, muito maior, exatamente quatrocentas vezes maior. Gosto de pensar ou sonhar que ali está cheio delas. Livres, leves, soltas. Todas primas da minha borboleta azul.

De repente, com uma certa apreensão,  me dou conta de que ela poderia, de puro enfaro voar em busca deste outro sítio. Procurar sua turma. Confraternizar. Afinal, lá, como cá, tem árvores altas e muitos igarapés. Inclusive este um, o Uriboca, que corre para aquelas matas. Matas de uma antiga fazenda da Pirelli, hoje, área de proteção ambiental.

Desanuvio o semblante. Ela não vai fazer isso. Já se disse que é solitária. Não é de corriola.

Vai ficar aqui e gozar com a minha cara.

Certa vez eu cheguei aqui à maloca, meio bêbado. Não estava eufórico o que indica que o porre não era de comemoração. Devia ser de fossa, não me lembro bem. Era fim de tarde. Havia chovido. Ainda tinham gotas renitentes agarrando-se nas pontas das folhas da mangueira e das palhas dos açaizeiros.

Sentei desajeitado na beira do assoalho da maloca, já descalço, com os pés balançando, quase triscando a água. Não sei como consegui sentar-me com as duas mãos ocupadas: na esquerda segurando um caneco de alumínio vazio com o polegar pelo lado de dentro.

Na direita esganando pelo gargalo uma garrafa de uísque pela metade.

Ela surgiu na minha frente. Não achei nenhuma graça. Estava disposto a fazer um balanço da vida. Naquele momento etílico, vida miserável. Sem sentido. Se eu deixasse de existir, minha ausência preencheria uma lacuna.

A tal borboleta azul começos a voar na minha frente. Ia quase de uma margem a outra. Uma, duas, dez vezes.

De repente me dei conta que ela estava mangando de mim. Se fazendo também de bêbada. Voava aos soluços e nunca conseguia traçar um caminho reto.

Como todo porre.

Entendi a mensagem. Enchi o caneco esvaziando a garrafa, fiz-lhe um brinde. Bebi de gute-gute, até o fim e, ali mesmo dormi.

A_Borboleta_Azul

Minha neta, a Leila, gostava de ver as braboletas, como chamava. Quantas histórias e lendas de braboletas eu inventei. Ela acreditava piamente em todas. E no curupira, na matinta pereira, no mapinguari. Sempre preferiu essas histórias de mato, de assombração, de bicho do fundo. Eu gostava de contar. Acho, até, que tudo que queríamos era contrariar os psicólogos infantis e sua onda do politicamente correto.

O tempo passou. O tempo sempre passa, não sei por que, creio que é de pura sacanagem. E chega rápido, de surpresa, quase de emboscada.

Um certo fim de semana, Leilinha chegou para dormir aqui no sítio. Depois dos salamaleques de praxe disse-lhe que cedo iríamos à maloca na beira do igarapé para ver as braboletas azuis. Ela olhou bem nos meus olhos, ficou séria e disse:

- Vovô presta atenção, não é braboleta, é borboleta.

O tempo passou.

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Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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8 respostas para A BORBOLETA AZUL

  1. Alzira disse:

    Pedi a Deus que me desse uma reposta dele para um pedido muito especial ver uma borboleta azul Seria o meu “sim”, vindo deSua parte Aqui, na minha região não tem borboletas azuis, mas hoje de manhã, em minha calçada, encontrei uma caixa com duas borboletas azuis estampadas!
    Agradeci a Deus por tamanha bênção e dai encontrei este texto belíssimo do André e tornei a agradecê-lO por sua bondade e gentileza. Borboletas azuis, presente do Céu!

  2. Claudia Barreto disse:

    Amei….vc ver a natureza como eu…eh como um espirito…a natureza tem vida e ela se comunica com a gente,mas temos que ser sensiveis para entedenter o que ela quer nos falar.

  3. vitoria da silva marcos ferreira de camargo wilhan vieira gustavo disse:

    nao goste nao ela é como as outra

  4. acas paloma soares fereira disse:

    ela nao é tao feia eu queria ver ela brilando nao só azul

  5. Grazi. disse:

    Lindo, amei.

  6. Ricardo disse:

    Que bonito! Hoje, 16/03/2011, fui visitar um hotel fazenda em Barra do Piraí/RJ e quase infartei quando me deparei com essa borboleta! MARAVILHOSA!!!! Nunca tinha visto! Conhecia uma também azul com a borda da asa preta e por coincidência no caminho tornei a ver e me perguntei se existia borboleta mais linda que àquela!! Não demorou muito pra eu constatar que existia sim!!! A boboleta azul!!!! Razoavelmente grande, voo tranquilo e solitário!!! Sobrevoou minha cabeça como se especulasse alguma coisa!!!! Fiquei implorando que ela chegasse mais perto mas não teve jeito!!!! Um mimo de Deus!!!!

  7. Amei! Aliás amo a todos que de certa forma tem alguma afinidade com borboletas azuis. Temos uma escolinha que chama-se Borboleta Azul e todos me perguntam porque escolhi este nome… Talvés por querrer algo diferente que fosse transformador da relidade, algo bonito e ao mesmo tempo real. Na realidade não sei. Acredito que seja algo inconsciente de minha psiquê.

    Abraços.

  8. CJK disse:

    Que crônica mais linda!

    Abraços, boa noite.

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