TIPO ASSIM…FOLHETIM! – apresentação

TIPO ASSIM…FOLHETIM!

Apresentação.

Sempre tive a maior bronca de certos sestros. Desde a primeira vez que ouvi tipo assim, tomei um susto. Pensei que era caso isolado, mas não. Logo se espalhou como um rastilho, tipo assim, uma epidemia.

Depois, ou ao mesmo tempo, grassou o gerundismo importado pelas graças do telemarketing. Pirei. O senhor pode estar se dirigindo ao box número três que eu vou estar providenciando uma ficha para o senhor estar…para!

Sestro, vício de linguagem, muleta, e sei lá mais o quê. Nunca fui muito bom no vernáculo. No início cheguei até a pensar que essa mania era incultura, pobreza de vocabulário, essas coisas.

A gente não devia ficar velho. E não é aquela coisa de eterno jovem. É não viver muito, mesmo. Até para não lembrar, encabulado, do que nós mesmos aprontamos. Hoje, até, e principalmente, nas universidades é comum e irritante: …aí eu fiz a seguinte colocação, porque eu, enquanto professora, a nível de mulher etc.

Há alguns anos (no meu tempo é horrível) era assim: Gente! O que o companheiro está dizendo e muito lúcido. É válido, e perfeitamente inserido no contexto.

É bem verdade que, naqueles tempos, pra compensar, havia jazz e bossa. Um cantinho, um violão, nosso amor e uma canção, e diz que fui por aí.

Quando os meus contemporâneos dizem que hoje não tem mais nada disso fico triste. Tem, sim senhor, e muito, e é ótimo. De repente, o cara é que está na corriola errada, ou nem tem. Ouve as musicas erradas, em companhias chatas. Burguesmente chatas. Ficou rico. Vai ver, virou rentista. Reclama do cheiro de mijo do banheiro do boteco. E conheço muita gente que chegou a esse ponto ainda com pouca idade. Velho.

Felizmente só tenho setenta anos. Ou, terei no próximo dia dez de novembro.

A música, como ademais toda a arte, é contemporânea das gerações subseqüentes. É cumulativa, nunca excludente. É verdade que a história registra épocas de maior ou menor riqueza cultural. Mesmo no auge do obscurantismo, da noite de mil anos, a arte florescia intramuros em palácios e conventos medievais, na lira dos menestréis, no mundo não cristão.

As ditaduras são inimigas da arte. A arte, por definição, é libertária, subversiva. O artista, músico, ator, pintor, escultor, escritor, poeta e seus seguidores vivem no Parnaso, onde não há fronteiras e flanam acima das mazelas pequenas dos que querem ser donos do mundo. Donos das gentes. Houve um general de Hitler, acho que foi Hermann Goering, que disse que quando ouvia a palavra cultura, instintivamente levava a mão ao revólver. Si non è vero è bene trovato.

Por isso, há que aderir, independentemente de cronologia, ao bom, ao belo e ao bem, até porque, como disse o Belchior “é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”, apesar de se saber que “há perigo na esquina”.

Os jovens de hoje, com suas cucas maravilhosas, como dantes, em botequins maravilhosos, estão aí para provar que toda a arte é contemporânea. Basta citar a letra que Vinícius de Moraes pôs na obra de Johann Sebastian Bach, Jesus alegria dos homens: “uma rosa não é só uma flor / uma rosa é uma rosa/ é uma rosa/ é a mulher recendendo de amor”.

Saravá Paulinho Mosca, Gilberto Gil, Caetano, Chico, Noel, Cartola, Tom, Waldemar, Mestre Isoca, Nilson, Paulo André e Rui Barata.

Voltando à história dos sestros. Em Altamira, todo ano aparecia um novo. E não era coisa de intelectual. Era chulo, mesmo. Pelo menos dois ficaram na minha memória.

“Estou acordado pra ladrão”.

E não precisava sequer fazer sentido no assunto. Tipo assim: amanhã cedo vamos pescar. Tô acordado pra ladrão, porra, vê se acorda cedo. Temos que pegar as iscas ainda no escuro, tô acordado pra ladrão.

Só quem se deu mal nessa história foi o Manoel de Fátima, que insistia que era Fátimo. Masculino. Moleque, escroto e rebelde, mas que dessa vez agiu sem nenhuma maldade quando foi dar um recado inocente que o pai dele mandou ao prefeito.

Em outro ano, quando cheguei para as férias de fim de ano, o sestro era…

…e o fumo entrando”.

– Pois é, Deca, nós nos preparando pra caçar, e o fumo entrando, quando o sacana do Bebeto, e o fumo entrando, chegou com uma ruma de cachorro, e o fumo entrando.

É claro que isso tudo tem nada a ver com o blog, talvez, um pouco com o título.

Folhetim é uma forma de literatura, popular, ou não, comum nos séculos dezenove e vinte. Era muito usada pelos jornais, geralmente nos rodapés, nunca ultrapassando um terço da página.

Romances e novelas publicados aos pedaços, como cabiam no espaço que lhes era destinado, e, continuando, no outro dia. Prendia e fidelizava o leitor.  Machado de Assis foi um freqüente escritor de folhetim.

Vezes havia, que a novela cabia inteira naquele dia, era o caso de Nelson Rodrigues na Última Hora do Rio de Janeiro, com A vida com ela é, e Ronaldo Barata, no Jornal do Dia, em Belém.

Reconheceu-se depois, que essas obras, ministradas em gotas, iniciaram muitas gerações no gosto pela literatura. Gosto de ler e gosto de fazer.

Neste blog, a cada semana, estarei “postando” um capitulo de algum romance de minha autoria (só tem dois publicados), ou, mesmo, e preferencialmente, algum que esteja a escrever. No momento, três, ao mesmo tempo, o que demonstra indisciplina e falta de método, de acordo com os manuais mais bem postos e bem postados do mercado.

Nestes, aceitam-se interferências, correções, sugestões, além de crítica construtiva, aliás, crítica mesmo, esse negócio de crítica construtiva é a maior frescura.  Isso é a minha cara.

Detesto freqüentar clubes ou espaços ditos sociais de condomínios só porque têm estatutos, regulamentos, xerife. E, o que é pior, a mulher do xerife. O local perfeito para freqüentar, ainda é o boteco. Boteco tem que ser democrático, até por uma questão de sobrevivência.

Voltando ao título do blog. Não sei por que quis usar um sestro. Desses que conheci e relatei, vocês hão de convir que:

Tipo assim…folhetim é mais bonitim.

Bem vindos e indos…

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
Esse post foi publicado em Apresentação do Blog. Bookmark o link permanente.

7 respostas para TIPO ASSIM…FOLHETIM! – apresentação

  1. josé roberto balestra disse:

    André, repare não. Já deixei um comentário hoje por aqui, mas estou fuçando e revirando seus escritos, feito um porco-caruncho que chafurda os moles da lama pra ver se acha mais e mais pro corpo; no meu caso… pra alma. Tenho que na seca casca de laranja dependurada sobre os fumos diários do fogão de lenha é que está o poder maior de queima de seus óleos.

    Fiquei deveras entusiasmado com os seus temas, notadamente as coisas lindas do Pará.

    Repare não. Mas vou continuar “chafurdando” tudo por aqui…

    abs

  2. Elaine Ramos disse:

    Eita cabra pai dégua esse André Avelino da Costa Nunes, taí uma coisa que eu não imaginava que veria… Um blog do Mano Velho. Mais uma vez ele me surpreendeu!
    A saudade de cabra fela da P… E toda sua curriola é grande e a distancia também, mas esse blog há de “estar diminuindo” essa saudade e distancia. Nós aqui de Sampa (Eu e o Gordo Cabeção), que somos do proletariado estamos vibrantes com mais essa de nosso Mestre, afinal a “plebe é rude e ignara”.
    André Nunes é mesmo o fute, e nos orgulhamos muito de mais esse passo dele, claro que com a participação importantíssima de nosso Mano Lafa.
    Sucesso meus queridos.
    Saudades
    Elaine e Rodrigo

  3. Ana Lucia disse:

    Mal comecei a ler, já estou apaixonada e morrendo de orgulho.
    Adoro ler e ouvir tudo que esse Tio, tão especial, tem a dizer.
    Essa ideia maravilhosa, que tem a cara do Lafa, é simplesmente brilhante.
    Veio para aplacar um pouco nossa saudade, que é imensa.
    Logo que puder vou trazer a Mamãe e vou ler tudo pra Ela.
    Como eu, tenho certeza que ela vai adorar.
    Parabéns Tio, por mais essa iniciativa que nos faz sentir tão orgulhosos.
    Não só da tua inteligencia mas também da tua força de realização,
    da tua capacidade de se renovar, recriar, reinventar.
    Tio você é Phoda!!!!!
    Te Amo .
    Ana Lucia.

  4. Equipe 3 pontos disse:

    Tipo assim, gerundiar é o atual esquema linguistico do pais. Lembro-me de quem em meu antigo fotoblog, eu treinava a boa grafia, e passei a falar como tal. Utilizando o tu, estarás etc e tal
    Porém, minha irmã (aquela dos coiotes) reclamou! Dizendo que eu mudava muito com a regionalidade das pessoas em que me envolvo. Pois bem… acabei largando mão do bom portugueis e to falando tipo assim. É irracional a forma que as pessoas pensam. Elas só querem ofender. Só querem tirar sarro, só querem gerundiar tipo assim, porque todo mundo fala assim, e o pensamento da gente se transforma e cai na rede gerundista e viciada em verbear o inverbeável.
    É certo que, antigamente, haviam nas bancas aquelas Sabrinas e suas histórias de amor, e que nunca deveriam sair de moda. Pois só assim, as maes conversariam com os filhos da forma correta, e ao ouvir a bea pergunta: MÃE COMO SE ESCREVE TAL PALAVRA, ela diria, pois ela pratica a leitura da historia de amor que surgia em sua imaginação. Pode ate ser as histórias irreais das novelinhas da globo, que mostram que andar de iate e viajar pra Paris é normal e frequente e que pobre não sabe o que perde, mas pelo menos a imaginação da pessoa que le o romance é que daria a marca da roupa ou do produto que o personagem esta usando.
    Antes fora de moda e culto, do que atual e burro!

  5. Invensão com “s” é sacanagem.

  6. Mestre seja muito bem-vindo.
    Estás devidamente linkado nos Corredores e concordo contigo. Botequim é maior invensão da humanidade – pelo menos – parte dela, pois há xerifes nas esquinas da salvação de almas.
    Pura frescura! Não é mesmo?!
    Abraços e sucesso ao amigo.

    • André Costa Nunes disse:

      Grande VAMP, sou eu, Lafayette.
      O papai ainda está sacando postar no blog, e, claro, responder comentários. Ele ainda virá aqui te agradecer a visita (ou mandará, pra mim, por email, e eu virei aqui 😉 ).
      Ele tá adorando, tipo assim… este papo de livro no blog. 🙂

      (ele ainda não me entregou o presente! Esta semana, quase toda, arriuou de gripe e não deu para pegar)

      Abraços,

      Lafayette

      Ps.: Minha opnião: nunca se preocupe com erro(?) de e nas escritas em blogs. Afinal, só o no blog do Pascoale Cipro Neto há este tipo de cobrança.

      Aliás, este aqui, por exemplo, é feito quando dá, no meio de uma vaga nas nossas vidas, minha e do papai, de correria e pega-pra-capar. Ele escreve, não raro, já meio-pau-meio-tijolo de cansado, e eu, digo pra ele que reviso o texto, mas é só diz-que.

      Revisão profissional mesmo, das postagens sobre o novo livro, só quando, e se quando, for pra impressão na vera.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s