A ESTRADA PARA SANTARÉM – Capítulo I (3ª parte)

Leia antes:

Memorial da Amazônia – trilogia

A ESTRADA PARA SANTARÉM  – Capítulo I (1ª parte)

A ESTRADA PARA SANTARÉM – Capítulo I (2ª parte)

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continuação da 2ª parte do C apítulo I

…é importante ler antes a 1ª e a 2ª partes.

 

Capítulo I

A ESTRADA PARA SANTARÉM

 ***

Não houve sobrosso quando o Adão, um belo dia, chegou com a notícia de que não encontrara a fumaça dos já agora laureados mateiros.

 

As coisas sempre aconteceram por lá sem pressa ou precisão. Relógio nunca fez falta. Calendário, sim, mas aquele tipo de folhinha destacável, só para saber se é domingo ou dia santo de guarda. A hora do dia se marca pelo sol, e esse não falha. Nem em dia de chuva. De resto, é a sazonalidade. O tempo das coisas. Estações, apenas duas. E bastam. Inverno é tempo de chuva, de safra da castanha, de rio cheio, sem cachoeiras, tempo de escoar a produção e abastecer as colocações. O verão é tempo de produzir borracha. De rio seco, encachoeirado. Tempo de folguedo, de praia, de tracajá e de arrancar ovo de tracajá, de preparar roçado, broca, derruba, queima e coivara. Uma semana de atraso, não é atraso.

 

Na quarta-feira seguinte, o Adão saiu bem cedo. Voou mais de hora e meia e nem sinal de fumaça. Atribuiu ao nevoeiro que estava baixo, ao rés da mata, e que é abundante nas primeiras horas da manhã por aquelas paragens. Voltou para reabastecer e esperar que o sol esquentasse e assim poder voar por baixo da camada de nuvens. Não tinha mais pressa, o dia estava perdido mesmo, agora era ele é quem iria se atrasar com os gateiros. Ninguém ia estranhar mesmo, e o combustível era da prefeitura, cada vez mais generosa com o sucesso da expedição rumo a Santarém.

 

***

 

Uma semana cravada se passara desde que o João Pezinho mandara uma expedição atrás dos homens. Isso, somado às duas que o Adão não via sinal de fumaça, quase fechava o mês sem notícias. Durante todo esse tempo, o avião do Adão já estava por conta da prefeitura. Não que ele, de vez em quando, não desse uma escapadela no rumo dos gateiros.

 

A apreensão foi tomando conta da cidade até virar comoção. Não se falava em outra coisa. Altamira não tinha rádio, TV ou jornal. O assunto criava corpo e alma nos bares, na feira, nas calçadas e na beira do rio, com as lavadeiras.

 

O padre Guilherme logo aproveitou a oportunidade para iniciar uma novena na igreja matriz. Inventou até pregação em novena, coisa que nunca se viu. Novena é novena. Missa é missa. Toda vez, ao fim da função, as pessoas saíam cabisbaixas, banhadas em lágrimas e já maldizendo o João Pezinho que inventara a jornada rumo ao desconhecido, à qual ele, padre Guilherme, sempre fora contrário. Ainda mais quando soube que os homens obedeceriam a um tal guia espiritual invocado no terreiro de macumba do Juvenal, única explicação plausível para estarem no rumo certo. Isso só podia ser coisa do Demo, que eles lá chamavam, cruz credo!, de Exu.

 

Bendito Pezinho que nos livrou de mais essa, assumindo, sozinho, a paternidade da empreitada.

 

Nem uma vez a família dos homens compareceu à novena, o que, na visão do reverendo, equivalia a uma confissão de culpa. Apenas, todas as noites, desde que os homens saíram, costumavam rezar o terço com alguns vizinhos, e um responso ao glorioso São Raimundo Nonato padroeiro do Piauí.

 

Havia dois dias que o Maciel, com o caminhão de dez rodas da prefeitura, se demorava de prontidão no sítio do João Pezinho, na colônia do igarapé dos Panelas, de onde os homens tiraram rumo para o começo da jornada.

 

O João estava inconsolável. Não falava com ninguém e quase não comia. O dia, quando raiava, já o encontrava no mato, na esperança de topar com os companheiros de volta.

 

Mil conjeturas passavam pela cabeça dos mais antigos, menos ataque de índios. Não, para aquelas bandas. Se fosse para o outro lado, ou subindo os rios Xingu e Iriri, seria a primeira hipótese.

…continua

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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