MEU PERFIL

O nosso perfil deveria ser escrito por outra pessoa. De preferência por várias pessoas. Não vale parente ou amigo de fé. Não tem como o próprio falar de si, sem vitupério, sem cabotinismo, ou, o que é pior, carregar na tinta os seus defeitos. Pura hipocrisia, mas como esta é a regra do jogo vamos lá.

Nasci no quarto número 1 da Santa Casa de Misericórdia de Belém, Pará, claro, pois quem nasceu em Belém da Palestina foi o Outro.

Oitavo, ou nono filho da D. Francisquinha Gomes Castelo Branco da Costa Nunes. Depois de mim vieram muitos mais. Ela teve vinte e quatro. Meus pais moravam em Altamira, ou mais propriamente no Seringal Praia de São José, na confluência do Rio Iriri com o Riozinho do Anfrísio. Este Anfrísio era meu pai. O Iriri é afluente do Rio Xingu (O Xinguzão visto do espaço!).

Com cinqüenta dias de vida cheguei ao seringal. Acho que minha mãe não cumpriu resguardo. Dizem que ela era o Fute, o Cão-chupando-manga. É, porque como nasci em novembro, cinqüenta dias era o tempo exato de viagem para, de Belém, chegar-se ao seringal. Quinze dias só para chegar a Altamira. Daí para cima, dezembro, o rio seco, encachoeirado, eram no mínimo mais dez dias de viagem em embarcação pequena, motor Godilho. Ainda mais com mulher parida a bordo e uma récua de menino na barra da saia.

Cresci morando alternadamente entre o seringal, Altamira e Belém. Desta maneira conclui o curso primário completamente analfabeto. Assim mesmo fui mandado para o Rio de Janeiro tentar o admissão ao Colégio Militar. Não deu outra. Redondamente o milésimo lugar. Havia só cinqüenta vagas.

Fiquei no Rio por mais um ano, Vila Izabel, Rua Maxwell, 412-A, na casa de uma professora capixaba, Mãe Cora. Durante esse ano ela me desemburrou, alfabetizou e, o mais importante, ensinou-me a gostar de ler. Aos onze anos de idade fui apresentado a Monteiro Lobato. Reinações de Narizinho. Não parei mais. Virou mania. Também nunca mais estudei. Aos trancos e barrancos interno no Colégio Salesiano Nossa Senhora do Carmo, já em Belém, de onde fui expulso e, depois, também interno no Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré conclui os cursos ginasial e científico. Sem esta coisa de cursinho ou convênio, passei no Vestibular de Economia da Universidade Federal do Pará. Diz-que em um dos primeiros lugares. Eu disse diz-que!

Pois bem, não concluí a faculdade. Dei como desculpa o tal golpe de 64. Fiz política estudantil, aos dezesseis anos entrei para o Partidão, passei no concurso do Banco de Crédito da Amazônia de onde fui demitido por justa causa. Subversão, naturalmente.

Sou escritor. Romancista. Publiquei três livros. Dois romances, A Batalha do Riozinho do Anfrísio, uma história de índios, seringueiros e outros brasileiros (roman à clef) e A Agenda do Velho Comunista e, ainda, uma obra coletiva, memorialista, com mais sete autores, 1.964 – Relatos Subversivos.

Abri, aqui em casa mesmo, à beira do Rio Uriboca, único rio não poluído de todas as áreas metropolitanas do Brasil, um restaurante rural, o TERRA DO MEIO (www.terradomeio.com.br) para sobreviver, porque, no Brasil, só o Paulo Coelho pode viver de direito autoral. E o pessoal da auto-ajuda, é claro.

Também sou guarda-florestal não remunerado e revel.

Ainda não sei como um currículo tão pobre possa interessar a alguém, portanto, já que você teve a pachorra de ler até aqui, é melhor que vá direto à obra, ou textos que cometi. Acho, modéstia à parte, que são bem mais interessantes. Com meus agradecimentos e escusas,

André Costa Nunes

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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8 respostas para MEU PERFIL

  1. Narla Patricia disse:

    Ola André Nunes…te achei aqui por acaso…pois estou em busca de um amigo de meus pais que a tempos perderam o contato…e aqui em seu documentario vc fez referencia ao Jose do Rego Azevedo, amigao de meu pai…e queria saber se tu tens noticias dele…pois a ultima vez q eles souberam noticias…ele estaria aqui em Recife, eu moro aqui e meus pais estao aqui passando ferias e pediu pra q tivesse como eu acha-lo…o nome de meu pai é Benedito Coelho Ribeiro de Sao Felix do Xingu-Pará e minha Mae Rita …entao se possivel, e se souber algo sobre ele …me mande dizendo no email tudo bem???ha gostei de visitar esse blog, historias excelentes e agora continuar lendo mais essas informaçoes que traz o teu blog…bjim e desde ja agradeço!!

  2. Carlos Remigio disse:

    Olá André, depois da agradável tarde de sábado no Terra do Meio, acompanhado dos deliciosos pratos e seu inteligente papo, passo essa manhã de domingo lendo boa literatura aqui no teu blog.

    Abraços.

  3. Equipe 3 pontos disse:

    Já fiquei fã!

  4. Olá, amigo André. Ainda lembrado de mim? Legal o seu Blog. Mais legal mesmo é saber que você cedeu a esta invencionice (blog) do homem moderno e resolve escrever seus contos aqui.

    Confesso que ainda não li nenhum deles. O Holanda dizia que eu era um cara muito culto, mas não era dado à leitura. Fazer o quê? Casa de ferreiro, espeto de pau…

    Mas pelo que li, confesso, tens um ótimo texto. Gostei muito do estilo. Tanto que prometo visitar este site mais vezes (como ele ainda é recente, não dá para dizer que sou leitor assíduo…)

    Ah, aproveito para lhe fazer o convite para visitar o meu, um pouco mais velhinho, mas que não chega a rivalizar a este. De repente até sai uma dobradinha com artigos seus no meu Blog…

    Um grande abraço!
    Ah, e sucesso!

  5. CJK disse:

    Amigo André,

    Não sei se é o meu navegador, mas quando eu clico para ler a 2a. Continuação, do 1° Capítulo, o que entre é a 1a. continuação, de novo.
    Eu não quero seguir adiante sem ler esta parte.

    Resolva este mistério, por favor, para que eu possa dormir em paz, sabendo o que aconteceu…

    Abraços!

  6. João Barreto Guimaães disse:

    Mano Velho, parabéns.
    Gostei, principalmente do…..folhetim
    Coloca um “h” no “cupando manga”, pois fica mais palatável.
    Abraçãooooooo
    João

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