O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (1ª parte)

É importante ler antes:

Memorial da Amazônia – trilogia

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

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Capítulo II

O VÔO DA ANDORINHA

…é importante ler antes o “Memorial da Amazônia – trilogia” e o “Capítulo I – completo”.

O dia estava claro, luminoso, naquela manhã de verão. Nenhuma nuvem. Cavu, que na linguagem dos pilotos de teco-teco da região quer dizer céu de brigadeiro. Azul, sem nuvens.

Há poucos minutos, a bordo de um bimotor “hirondelle” da TABA, decoláramos do campo de Itaituba, município do Sudoeste do Estado do Pará, já fronteira ocidental com o Estado do Amazonas. Itaituba era a Meca do garimpo de ouro no Brasil. Um município enorme, o segundo maior do mundo em extensão territorial, só perdia para o vizinho, Altamira, para onde nos dirigíamos.

Possuía um dos aeroportos mais movimentados do Brasil. Perto de quatrocentos pousos e decolagens por dia. É bem verdade que a quase totalidade era de pequenos aparelhos de um ou dois motores e poucos assentos, mesmo assim, arrancados para poder levar mais carga. Deixavam-se apenas o do piloto. Os passageiros, sempre garimpeiros em busca da fortuna, que se arranjassem por cima da mercadoria mal arrumada: ferramentas, motores e depósitos plásticos com combustível que por aqui chamam de carotes. Não raras vezes, um defunto sem caixão, envolto em rede suja.

O município tinha perto de quinhentos campos de pouso, quase todos clandestinos. Meras clareiras. Os pilotos, verdadeiros ases da aviação. Ali, não se fazia pouso, mas queda controlada. As decolagens nos campos de garimpo, dada a exigüidade das pistas, com mata alta nas cabeceiras, e o costumeiro excesso de carga e passageiros, por vezes exigia que se amarrasse com corda grossa em um tronco, o avião pela cauda e, após imprimir força máxima ao motor, o cabo era cortado com machado. Operações heróicas que quase sempre davam certo.

Pois bem, voltemos ao nosso tranqüilo vôo de linha, com direito até a comissário de bordo, refrigerante e sanduíche de queijo. O destino era a cidade de Altamira, a pouco mais de uma hora de vôo. O avião, um FH Fairchild 250, para trinta passageiros, da TABA – Transportes Aéreos da Bacia Amazônica que, apesar de velho, era bonito, elegante, asa alta, com dois motores turbo-hélices, que ainda nos tempos em que pertencia à falida Paraense Transportes Aéreos, foi rebatizado de “hirondelle”.

Essa criação da Mendes Publicidade foi tão feliz que por muito tempo pensei serem de fabricação francesa. Sempre achei o avião a cara de uma “hirondelle”, mesmo antes de saber que queria dizer andorinha. Acho que por uma remota nostalgia de Ícaro, se costumavam batizar aviões e companhias aéreas com nomes de pássaros. Desde a Condor, com seus quadrimotores Junkers, anfíbios, aos albatrozes da FAB – Força Aérea Brasileira. Creio que justamente por serem anfíbios, a preocupação maior teria que ser com a hidrodinâmica. Definitivamente eram muito feios, como que talhados a facão por um carpinteiro apressado. Até que fazia sentido: nada mais desastrado e desengonçado do que um pouso de albatroz.

Já o nosso “hirondelle”, não: era, como se disse, elegante por fora e bem arrumado por dentro, isso, já, de novo, graças à criatividade local, pois fora construído pensando-se em vôos de curta distância, entre cidades próximas européias. Esguio, não possuía porão de carga nem banheiro. As dimensões amazônicas e brasileiras obrigaram a PTA a improvisar um sanitário na traseira e um espaço para carga na dianteira, sujigado lado a lado por redes de cordas grossas, presas ao chão e ao teto do avião por ganchos de metal, formando um corredor entre os passageiros e a cabine de comando.

Tão logo cruzamos o rio Tapajós e a inacabada estrada Santarém-Cuiabá, que segue quase margeando o curso do rio, no sentido Norte-Sul, o comandante Camargo estabilizou o vôo em baixa altitude. Meu assento, junto à janela na segunda ou terceira fila, logo a baixo da asa, dava-me uma visão privilegiada da paisagem: algumas roças, uns poucos e pequenos campos de gado, cuja formação recente era denunciada pelos espigões das árvores maiores, calcinadas, com os galhos erguidos para o céu como braços. Não arderam de todo quando as labaredas, após a coivara, fizeram o serviço de limpeza e enriquecimento do solo com as cinzas. Não se conhece método mais eficaz de que o fogo para remoção da floresta e aproveitamento do solo para a agricultura ou pecuária. Não, dessa mata equatorial, úmida e renitente. E, assim mesmo, é preciso aproveitar o tempo certo, da estiagem, para tocar fogo antes das chuvas, que ameaçam botar a perder todo o trabalho do ano. Logo a seguir, após as primeiras gotas do inverno, é preciso plantar. Antes, eram a mandioca, o feijão e o milho e, por vezes o arroz, consorciados. Depois da colheita, deixava-se a terra a descansar e a mata logo se recompunha. Anos mais tarde, se se quisesse, poder-se-ia voltar ao mesmo local, que já havia muita massa verde para de novo derrubar, queimar e plantar. Sempre foi assim, desde os índios. Desde os machados de pedra e, depois, os de aço.

Agora, não, os tempos são outros. Tempos de tecnologia, de motosserra, de gado, de progresso. Até as antigas culturas de subsistência e venda de feira foram relegadas a segundo plano. Feijão, arroz, milho e mandioca são coisas de agricultor pobre.

O sonho atual é criar gado, ser fazendeiro. Não se pode perder tempo. Há que substituir a mata por capim, e logo. É bem verdade que formar um pasto em região de mata virgem dá muito trabalho. Serão anos cortando a juquira que é o mato de folha larga que nasce em meio ao capim e, se deixar, logo vira capoeira de novo. É a mata querendo retomar seu espaço. A terra em busca da vocação original: ser mata. Vai perder a batalha para os tratores, para o avaré que é a grande roçadeira de juquira, para o correntão, que puxado por dois tratores possantes vai derrubando e revirando tudo como um monstro ciclópico, facilitando o trabalho de exércitos de motosserras que se contam às centenas e, algumas vezes, aos milhares. São como gafanhotos gigantes, que nunca chegam à saciedade. Por fim, vai perder para o herbicida químico seletivo que mata toda planta de folha larga deixando só o capim. Vai perder para o progresso. É inexorável!

E o “hirondelle” voa baixo. Agora não mais se vê vestígio da mão do homem. Nem roça, nem pasto, nem estrada.

É, a civilização ainda vai custar a chegar por aí. Manto verde. Nessa altura, baixo, como voamos, dá para divisar algumas árvores mais altas e frondosas que se destacam. Castanheiras, samaumeiras e, aqui e ali, a explosão de cores do pau d’arco, que lá para o Sul, chamam de ipê. Amarelos uns, roxos outros. Lembro-me agora que a florada do pau d’arco coincide com a desova dos tracajás e tartarugas cá para essas bandas dos altos rios. De agosto para setembro.

O comissário traz o lanche. O de sempre: guaraná e sanduíche.

O dono da companhia aérea era uma figura lendária. Coronel Gibson. Autoritário e com idéias bem definidas sobre tudo. Coisas e pessoas. Não admitia aeromoças. “Tripulação de avião é coisa para macho”. “De mais a mais eu não vou pagar diária de hotel em pernoite para essa corja fornicar”. “Não, às minhas custas”. “Quem quiser que procure mulher na zona”.

Nunca soube exatamente a idade do coronel. Devia ser bem velho, mas era rijo como um touro. Lutara na Segunda Grande Guerra como aviador de caça. Chegou a fazer quatro missões de combate. Mas não foi fácil a escalada até tornar-se o famoso “Capitão Cheira Cano” das Forças Aliadas na Cicília.

Tudo começou com o recrutamento de jovens aviadores brasileiros para treinamento na base americana do Panamá. Capitão Gibson, que já não era tão jovem assim, alistou-se como voluntário. Esses oficiais, todos, pertenciam ou pertenceram ao Exército, pois era bem recente a criação da FAB. Conta-se que, no tal treinamento na base do Panamá, ninguém queria passar a “pronto” nos famosos caças NA T – 6, ou apenas “te meia” como eram conhecidos. Cometiam, propositalmente, erros grosseiros, para livrar-se de uma guerra que ainda não lhes dizia respeito. Isso obrigava aos inspetores americanos vigilância redobrada para coibir a malandragem. Tal não acontecia com o capitão Gibson. Era sempre o mais atento, diligente e esforçado. Pois bem, não foi aprovado.

Desligado da esquadrilha de caça reapresentou-se como voluntário para o serviço de apoio em terra. E, como guerra é guerra, na hora do pega-pra-capar, faltou piloto, e lá estava ele voando em combate. Deixou seu nome na campanha da Itália.

Mais no chão do que nos céus. Contam-se dele algumas proezas memoráveis.

De que, certa feita, ao comandar, por ser o mais antigo, a tropa de aviadores brasileiros em um desfile conjunto notou que os pelotões de cada país ao passar em frente ao palanque das autoridades cantavam, bem ao gosto das paradas americanas, o hino de sua Força Aérea.

Ora, a FAB não tinha hino ainda, era uma arma recente no Brasil. Todos sentiam que a situação seria no mínimo vexatória. Foi aí que entrou a criatividade do capitão: – Atenção, pelotão! Ao meu comando: “Oh! Jardineira porque estás tão triste/ Mas o que foi que te aconteceu/ Foi a Camélia que caiu do galho/ Deu dois suspiros e depois morreu…”.

E a marchinha de carnaval brilhou garbosa em solo estrangeiro.

De repente sou sacudido por uma leve turbulência e o avião sobe um pouco. Paro de comer minha ração de pão dormido com queijo de coalho e olho atento pela janela. Vejo uma enorme extensão de terra negra, queimada e queimando, com alguns troncos, os mais grossos ainda em brasa e outros apenas fumegando. Acho que o vento está terral, pois a fumaça sobe no rumo leste, na mesma direção em que voamos.

O aparelho para de subir e se estabiliza. Pelos meus cálculos, entre três e quatro mil metros de altura. No solo calcinado, apesar da altitude em que voamos, dá para ver uma quantidade enorme de troncos e árvores inteiras que não arderam, apenas sapecaram. Parece que uma gigantesca caixa de fósforos foi aberta de boca para baixo. Lembrei-me de um antigo jogo muito comum na minha infância, chamado pega-vareta.

Geralmente, queimada em mata virgem dá pouco trabalho para a coivara, a não ser, quando se é surpreendido por uma chuva inesperada, em plena estiagem, pois os galhos mais finos e a ramagem não pegam fogo de todo e dá um trabalhão para sair juntando-os em grandes fogueiras e requeimá-los com a ajuda de ramas de látex coalhados que chamamos aqui de sernambi. Aliás, hoje em dia, nas roças mais próximas das cidades, o que se usam mesmo, são pedaços de pneus velhos deixados nas estradas ou borracharias, quando não, óleo queimado. Os grandes troncos, de madeira mais dura, como acapu, maçaranduba, pau d’arco, matamatá, sucupira, macacaúba, muiracatiara e outros, podem ficar no meio do roçado que pouco atrapalham a planta e a colheita.

Estou falando de roçado, aquele de plantar com a enxada e a família colher com a mão. Feijão, mandioca, milho, jerimum e melancia; muita melancia, pra comer e pra dar, mas quase sempre sobra e apodrece na roça. A melancia da segunda safra é mais doce. Porque, dizem, é geralmente plantada de cócoras, isto é, as sementes já vêm adubadas com as fezes das melancias que se comeram na primeira safra e que se defecaram a esmo em meio à plantação.

Mas o roçado parece não ter fim. Agora sim, da para divisar, lá longe o fogaréu na borda da mata, que mais parece um recorte fino de bico de renda de malha miúda, densa, de um vermelho vivo, de sangue vivo, como se fosse a bainha de uma cortina branca ao mesmo tempo diáfana e opaca a fechar a boca de cena do resto do mundo.

Ali deveria haver um acero para que o fogo não chegasse à mata. Não havia. Ali deveria ser a borda da mata, e é. Eu sei por saber. Já vi muita queimada de roçado. E, olha que também já vi muito roçado grande. Dez, vinte e até cinqüenta tarefas. Todo mundo dizia que eu era bom em calcular tamanho de roça, desde quando fui fiscal rural do Banco de Crédito da Amazônia.

Quando o financiado dizia haver derrubado trinta tarefas, eu chegava com minha trena e, mesmo antes de medir, subia em um toco, dava uma espiadela e já sabia se havia mais, ou menos. Às vezes, só de farra, propunha uma aposta com o caboclo, nem que fosse um capão. Só perdi uma vez, e por pouco. De qualquer maneira quem sempre perdia era mesmo o capão que terminava na panela. Quem perdia entregava o galo. Quem ganhava, pagava a cachaça, e tudo acabava à boca da noite, em algazarra à beira do rio, do igarapé ou mesmo da cacimba, em banho de cuia.

Isso se aprende fácil com a repetição do mister. Eu aposto, sem medo de perder, cem capões, como essa roça tem mais de vinte mil tarefas… Para o relatório do Banco, nem ia precisar fazer aquela conta de chegar que sempre fazia, pra ajudar o cabra autor dessa proeza a receber a parcela do financiamento correspondente à etapa de plantio. Passava para o sistema métrico decimal e lá estariam: mais de cinco mil hectares. Ou ainda como diz o locutor da TV para o povo entender: cinco mil campos de futebol. “Isso não é roça pra legume”, diria o Tio Raimundinho. – “Isso é arranco de pata de boi, meu sobrinho. É o progresso chegando”.

O avião sacudiu um pouco, subiu numa corrente ascendente e entramos na cortina de fumaça. Pedi licença ao passageiro do lado, passei pelo corredor da carga e cheguei à cabine. O comandante Camargo era meu amigo.

– Isso é nuvem ou é fumaça?

– Fumaça, amigo, muita fumaça. Mas, já vamos sair dela. Essa é das pequenas, a temporada de queimadas apenas está começando. É uma desgraça. Não consta nos manuais de meteorologia, e olha que eu fiz curso até em Toulouse, na França. Fecha aeroportos, causa desastres nas estradas, pára a navegação nos rios e, por incrível que pareça, às vezes até no próprio grande rio Amazonas.

– Pelo menos dá para te guiares pelo radar.

– Que nada, sabes como é o Coronel, ele acha que isso é frescura. Quando se reclama, ele começa a velha cantilena: no meu tempo…

– E porque esse apelido de Capitão Cheira-Cano?

– Isso faz tempo, segunda guerra, na Itália, certa vez, enquanto ele estava ausente, o pelotão que comandava, ocupou uma aldeia e encontrou uma adega repleta de vinho. Resolveram fazer uma festa. De carnaval, claro. Embandeiraram a pracinha com papel higiênico, que naquele tempo vinha em pacotes, como hoje vêm os guardanapos de lanchonete e era estrepado por um arame com uma argola em uma das pontas pra pendurar em qualquer prego cabeçudo. Gastaram quase todo o estoque.

Continuou.

– No meio da algazarra, algum soldado bêbado mais afoito, deu uma rajada de metralhadora para o ar. Justamente quando vinha chegando o jipe do capitão. Instados, ninguém se acusou. Não deu outra, o capitão saiu cheirando o cano de todas as metralhadoras, até achar o culpado. E quando viu as bandeirolas de papel higiênico, ficou possesso. A punição constou até em boletim. A partir daí, haveria racionamento. Cada soldado teria direito a apenas seis folhas por dia para limpar o traseiro, sendo: três para o grosso, duas para o fino e uma para o brilho.

O céu de novo cavu à nossa frente.

– Camargo, o que é isso aí em baixo? Cadê a floresta?

– É pasto, amigo, muito pasto.

– Então estamos prestes a pousar em Altamira.

– Que nada, cara, ainda temos uns trinta minutos de vôo.

Pedi para ele voar o mais baixo possível e voltei para meu posto de observação e devaneios… De fato, o avião baixou, creio, para menos de quinhentos metros. Pasto, muito pasto. Uma lindeza. Dava até para ver os bois. Branquinhos! Acho que nelore. O curioso é que os campos são homogêneos, tudo verdinho, sem aquela visão fantasmagórica das árvores calcinadas como a clamar aos céus por alguma ressurreição impossível. Nem troncos, nem tocos. O fogo, a motosserra e os tratores foram competentes. Aqui e ali, um igarapé ou grotão barrado, formando pequenos açudes de margens nuas, sem vegetação: aguada para o gado.

Isso sim é empreendimento empresarial. Senti orgulho da minha terra. O progresso veio para ficar em Altamira.

O terreno levemente ondulado conferia à paisagem uma imagem de Estado desenvolvido. Lembrava o Paraná, Santa Catarina, Argentina, o vale do Mississipi-Missouri, que eu nunca vi, mas deve ser assim. Principalmente depois que os pioneiros caubóis desistiram de brigar por umas terras horríveis, vermelhas, com aquela ravina rala e rebolos de garrancho a rolar, tangidos pelo vento, a caçar milhares de búfalos – que depois soube serem bisontes – e criar gado, bonito, também vermelho, e tudo gordo. Devia ser ração do governo e mais tarde de Hollyood, porque pasto que é bom, não se vê na tela.

É, mas lá eles tinham uma grande vantagem, não tinham a floresta amazônica para atrapalhar o progresso. Queria ver eles construírem aquelas estradas de ferro cortando o país em tempo recorde tendo que rasgar uma mata como esta. Deve ter havido aqui e ali um pouco de mata por lá também. Mas, foi até bom, pois virou dormente.

Também não entendo como aquela nação cresceu tanto só com construções de madeira e, o que é pior, madeira branca, fraca, pinho, que qualquer vento mais forte põe no chão como cartas de baralho. Assim se fez e se fazem casas, igrejas, palacetes, fortes apaches, mansões e até, repito, dormentes de estrada de ferro.

Nenhuma construção, monumento de pedra e cal, permanente, a não ser na parte do México tomada aos hispânicos. Parecia, e de certa maneira ainda parece, um gigantesco acampamento provisório. Qualquer vento mais forte ou o sopro do lobo-mau de Os Três Porquinhos do conto infantil põe a baixo. Quando pegam fogo, não fica nem alicerce. Dá pra varrer as cinzas.

Deve ser um bom modelo. À moda protestante, da Reforma, do gótico. Primeiro ganhar dinheiro, não interessa como, depois, é só importar: madeira da América do Sul, madeira e gente da África, gente, arte e cultura da Ásia e da Europa. Até castelo. Pedra por pedra. E fazer uma grande nação. É, mas nós vamos chegar lá. Dizem que o Brasil é o celeiro do mundo, isso sem contar com a Amazônia. Reserva técnica.

O diabo é que eles são góticos e nós ficamos do lado do Vaticano, do barroco. Do pecuniam pecunia non parit, enquanto os do Norte, da Reforma, eram do labor improbus omnia vincit.

Começo a observar meus companheiros de viagem. Gente comum. Um deles, de bermuda, barba por fazer, sobraçando uma boroca com alça em volta do pescoço, sandália de enfiar nos dedos, absorto em seus pensamentos. Outro, também hirsuto, tez amarela, quase esverdeada, de vez em quando, tremendo de frio, apesar do calor quase insuportável pela pane nos refrigeradores da cabine de passageiros – isso é frescura, no meu tempo… diria o coronel Gibson, dono da companhia aérea – deixava bem claro aos demais ser uma crise de malária. Todos ali já haviam tido ou ainda a tinham crônica, por mal tratada.

A malária, passada a crise, dá a impressão de que se está curado. Volta todo mês e são mais três a cinco dias de sofrimento e deixa um rastro de desânimo e apatia apesar de aparência saudável. O plasmódio se instala no baço e vai acabando com os glóbulos vermelhos do sangue.

Quando o caboclo é branco, logo se nota, pela cor, que está muito doente, amarelo-esverdeado, coitado… mas, se é negro, cafuzo ou índio, no intervalo entre as crises, nada se nota externamente. Afinal, todo mundo sabe que o caboclo é mesmo indolente.

Vívax e falcípara. Terçã maligna. Palavras comuns. Não impressionam ninguém por estas bandas. São quase meio milhão de casos todos os anos. Nos garimpos, nas roças, nas cidades do interior e não raro nas capitais, principalmente nas periferias. Não há vacina. Dizem que não haverá, a não ser por acaso. É doença de país de gente pobre. Não vale o investimento em pesquisa dos grandes laboratórios.

Mais dois passageiros, que, nota-se, viajam juntos. Não se falam. Cinturas engrossadas pela cinta recheada abraçam pesadas valises contra o peito. Não as largam nem quando vão ao exíguo banheiro. Fazem esforço para que pareçam leves. Todo mundo sabe que são mulas levando ouro do garimpo para as operadoras de São Paulo.

O meu vizinho da poltrona ao lado, olhos arregalados, é todo alegria. Vira e mexe, quer puxar assunto comigo. É também um tipo comum na região. Garimpeiro bamburrado. Entre pulseiras, relógios, anéis, medalhas e cordões grosseiros dando voltas e mais voltas ao pescoço, deve carregar perto de meio quilo de ouro.

Vai para casa. Será a atração da pequena cidade no interior do Nordeste. O orgulho da família. Venceu na vida, enricou. Comprará casas, fazenda, carro novo, montará um comércio, empregará a família, sofrerá com a seca, sentirá tédio, venderá fiado, será roubado, falirá, voltará.

– E la nave va

…continua …exatamente às 20:00hs!

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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Uma resposta para O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (1ª parte)

  1. Céli disse:

    Já ouvi dizer que TABA tb é sigla de outro nome: TRANSPORTE AÉREO BASTANTE ARRISCADO!

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