O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (2ª parte)

É importante ler antes:

Memorial da Amazônia – trilogia

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (1ª parte)

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Capítulo II

O VÔO DA ANDORINHA

continuação da 1ª parte do C apítulo II

…é importante ler antes a 1ª parte.

Volto a olhar pela janela e já diviso algumas estradas, retas, com rastros sinuosos de caminhões que denunciam buracos na pista. São vicinais ou travessões da grande estrada transamazônica, que durante toda a viagem ficou à nossa esquerda. Um caminhão segue destrambelhado levantando uma nuvem de poeira vermelha que os técnicos chamam de bruno-avermelhada, característica de terra roxa de fertilidade excepcional.

O Eduardo Besouro, meu amigo de Altamira, achou esse nome lindo e, de pura sacanagem dizia: – Todo esse tempo a gente com uma maravilha dessas bem debaixo dos pés e nem desconfiava. Quando eu tiver um filho, vou botar esse nome. Bruno Avermelhado. Depois andou mudando para Helicobacter Pilori e, se mulher, Calipígia. Desta última, gostei. Preferência nacional!

Pois é, agora nós estamos ganhando a batalha. Essa floresta já me deu muita raiva. Achava que era coisa de mata de pobre. Paisagem de subdesenvolvido. Animais de subdesenvolvido. Para se entrar na mata, tinha-se que ir abaixado. Aqui e ali, uma maçaroca de capim navalha, tiririca. Espinho japecanga e grota, grotão, baixão, igarapé, igapó. Para mim era um horror.

Depois foi que soube que, desde menino, sofria de escoliose, lordose e o escambau! Não me empatava de fazer nada. Praticava esporte, nadava, pescava e tudo o mais. Mas, abaixar-me, nem nem “>pensar. Bastava um espirro nessa posição e lá vinha a tal crise de coluna. Ficava entrevado por um bom tempo. Muito mais tarde, já na cidade, decidi que só iria ao banheiro, com dois sabonetes. Se um escapulisse, ficava no chão. Não usava meia e nem calçava sapato de cadarço para não ter que me curvar. Meu sonho era usar tênis, cheguei a achar que o tênis sem cadarço foi uma das maiores invenções do século vinte!

Caçar era um martírio. Ainda mais quando alguém cismava de levar cachorro. Correr no mato abaixado para não perder o rumo dos latidos era demais para mim. Bom mesmo era pescar, ou caçar-de-espera. Os companheiros faziam de véspera o mutá debaixo da comidia, que era como chamávamos as árvores que davam frutos ou flores para os bichos comer. Anta, paca, cotia, veado e, quase sempre jaboti. Dava para pressentir a chegada pelo farfalhar nas folhas secas. Aí, era só focar com a lanterna e apertar o gatilho da espingarda. Assim, na covardia, na tocaia, era bem melhor.

Não gostava muito do mutá que a turma fazia: dois dois “>paus amarrados lado a lado abraçando um caule fino a uma altura de uns dois a três metros, para servir de assento e um outro logo abaixo para descansar os pés. Com uma hora nessa posição, e minha minha “>bunda não agüentava. E não se podia fazer barulho para não espantar a caça. Alguns até levavam cabaça ou garrafa para mijar. Resolvia essa questão levando minha rede. Atava, não muito alto, nos galhos de uma árvore, agasalhava-me e, não raro levava um livro e ficava lendo em baixo da coberta sob a luz da lanterna apoiada entre o ombro e a orelha. Para mim, não importava quem chegava primeiro, se a caça ou o sono. Mijar? mijava lá de cima mesmo, fazendo um barulhão danado. Passei a ser péssima companhia para caçadas.

É, definitivamente, essa não é uma floresta na verdadeira acepção da palavra. É apenas mata, o que é diferente de floresta. Floresta é mais civilizada, limpa, menos densa, como a Floresta Negra, a de Sherwood, que dá até para galopar como Robim fugindo do xerife de Nottingham. Tudo isso estava nos livros de minha mãe lá no seringal.

Até os seringais dos ingleses no Sudeste Asiático eram mais civilizados. As seringueiras todas plantadas em linha, uma lindeza. O capataz andava de jipe, em vez de canoa, ubá ou mesmo motor de popa. Isso sim, é que é floresta, não esta porcaria. Aliás, os jornais, a revista O Cruzeiro e até publicações do exterior, chamavam-na apropriadamente de Inferno Verde. Não dá para penetrá-la decentemente. Apenas índios e caboclos acostumados, não sentem essa dificuldade.

Mesmo em outros lugares, países pobres, onde existem matas, os civilizados não entram se abaixando. Os mateiros vão à frente com grandes facões abrindo picadas, verdadeiras estradas, até para que os carregadores negros, bengaleses, malaios, africanos, possam levar a bagagem na cabeça. Nunca soube, mas ficava intrigado, porque eles não usavam, pelo menos nos filmes do Jim das Selvas, jamaxim, aquele balaio grande atado às costas feito mochila de vime, com uma alça passando pela testa. Ou mesmo carroções, cavalos e mulas, como os americanos na conquista do Oeste.

Pois é, aqui também ainda nem nem “>inventaram a roda. Em toda a carreira do rio, fora de Altamira, nunca vi uma carroça, ou mesmo carrinho de mão, aliás, carroça, nem em Altamira, apenas a da coleta do lixo, puxada por um velho boi, o único, tinha até nome: o boi da carroça.

Nesta mata, não tem nem animal de porte que preste. Elefante, leão, tigre, e, olha que por lá tem até tigre de bengala, gnu, antílope, rena, javali, girafa. Quando muito, o que temos é veado fuboca, veado mateiro, anta, capivara, caititu, queixada e onça mirrada. Preta, vermelha ou pintada. As aves, então, nem se fala. Lá nos livros do seringal, eram de dar inveja. Na verdade acho que nunca vi nenhuma delas. Sonhava com o tordo, o melro, a toutinegra, o choupo, o faisão dourado (imaginava suas asas reluzindo ao sol), o falcão peregrino, a águia, o condor de Castro Alves e, principalmente a cegonha. Eu a chamava de ave-do-cu-de-ferro, pois só fazia ninho nas chaminés e deve ser duro, agüentar todo dia fogo no rabo.

Pois é, nossa mata é bem pobre. As casas daqui, não têm nem chaminé. As paisagens dos livros, nunca falam dessa daqui.

Que beleza não devem ser a pradaria, a estepe, a savana, a charneca. Esta uma, então, nunca pude imaginar, nem depois do cinema em tecnicolor. As paisagens geladas eram minha paixão, até que pude vê-las de perto. Detestei. Definitivamente o frio não é minha praia. Continuo achando-as lindas. Em cartão postal e filme colorido!

Na juventude, adorava andar a cavalo. Altamira não tinha fazendas, grandes várzeas ou campos naturais. Apenas pastos pequenos com algumas reses, suficientes para o abastecimento de leite e carne para a cidade. Carne, uma ou duas vezes por semana. Era o dia de matança. Com exceção das autoridades e pensões, a distribuição era democrática. Ninguém furava a cobrinha, que era como se chamavam as filas. Havia apenas dois preços: carne dianteira e carne traseira.

O magarefe, o Josias ou o Abrão Fima, era o mesmo que matava o boi na roça, repartido ali mesmo em cima do couro recém esfolado, e trazia para o mercado nos caçuás do cavalo, parando no primeiro igarapé para lavar, mal e porcamente, o bucho e as tripas. Não havia papel, sacola, ou mesmo folha de sororoca para embrulhar a carne como em Belém. Apenas, a pesada era furada por uma grande sovela com gancho na ponta, à moda de um anzol reto cuja barbela puxava a embira para fazer um laço ou alça que se levava pendurada no dedo para não sujar a mão, ou no guidom da bicicleta. Ademais, o costume maior era consumir peixe e caça. Galinha era iguaria. Fora dos dias de festa ou resguardo de mulher parida, dizia-se que alguém só comia galinha galinha “>quando um dos dois adoecia. O dono ou a galinha.

Cavalos, só dos colonos, para levar doente, mulher parida, ou cargas, em caçuás. O leite era transportado desde a colônia, em bolsas superpostas como colméias do tamanho das garrafas, lacradas com rolhas de miriti.

Essas bolsas eram feitas de mantas de lona e escanchadas no lombo da montaria, por sobre o que, vinha o pelego que servia de sela para o colono que distribuía o leite de casa em casa para a freguesia. Só cobrava no sábado, quando vinha para a feira.

Voltando aos cavalos. Pela falta de campos, só dava para galopar, nas ruas de Altamira, sob o olhar de reprovação das pessoas que se apressavam em recolher as crianças, nas estradas, e, por vezes, na capoeira do Jaburu, cheia de garranchos e carrapichos, a lanhar o cavalo e nossas pernas. Mais uma vez essa maldita mata a atrapalhar tudo.

***

O avião faz uma inclinação e começa a baixar num grande e suave arco. Vamos pousar em Altamira, pensei. Logo o comissário nos vai pedir para apertar os cintos, apagar os cigarros, levantar as poltronas para posição vertical etc.. De repente o aparelho arremeteu, recolheu o trem de pouso e os flapes e, todo tremendo, começou a subir. Ouviu-se então a voz do comandante, ou o arremedo de voz saída de um velho autofalante com som de taboca rachada, quase inaudível: atenção senhores passageiros, devido a problemas técnicos no aeroporto, tivemos que arremeter e aguardar nova autorização para pouso.

…continua

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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