O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (3ª parte)

É importante ler antes:

Memorial da Amazônia – trilogia

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (1ª parte)


{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}{}

Capítulo II

O VÔO DA ANDORINHA

continuação da 2ª parte do C apítulo II

…é importante ler antes a 1ª e a 2ª partes.

Ainda bem que não era com o avião, pensei. Olhei para os demais passageiros e tive pena. Aquelas figuras fellinianas, patéticas, não haviam entendido nada. Ou sequer ouviram. Estavam estáticas, com as mãos crispadas nos braços das poltronas, como que aguardando a qualquer momento o desastre inevitável. Olhei pela janela e ganhávamos altura exatamente em cima da ilha do Arapujá em frente a Altamira. Seguíamos rumo à outra margem do rio Xingu. À Terra dos Assurinins. As luzes de apertar os cintos estavam apagadas. Pedi licença ao passageiro ao lado para um dedo de prosa com o comandante Camargo, quando o garimpeiro bamburrado, antes risonho, persignou-se, segurou forte o meu braço.

– Pelo amor de Deus, meu senhor, o que é que está acontecendo? Já vamos cair? Me leve com o senhor!

– Calma, amigo, não esta acontecendo nada, está tudo bem, apenas um doido de bicicleta estava atravessando a pista. O senhor não viu? Já vamos pousar.

Menti deslavadamente, inventando essa história. Ele respirou fundo, relaxou e abriu um sorriso de agradecimento. Ainda o vi contando minha versão aos outros passageiros, enquanto eu entrava no corredor de carga. Já na cabine de comando, contei o fato ao Camargo.

– Quase acertaste, disse rindo. Eram bois, e muitos. E ainda vamos ter que dar prioridade de pouso ao jato da Vasp que está chegando. Vamos ficar dando voltas na área de escape por pelo menos mais uns vinte minutos. Aliás, isso é um pouco menos do que nossa autonomia de combustível. Este vôo deveria vir via Santarém, mas o único distribuidor da Petrobrás que ainda vende fiado para nós é o Mansur, isto porque é o agente da Taba em Altamira.

Sentei no banquinho atrás do piloto, que eles chamam de jump seat e, enquanto dávamos voltas e mais voltas esperando nossa vez de pousar, ia deliciando-me com o que via em baixo: pasto, estradas mal ajambradas e, pelo menos uma dúzia de carretas com toras de madeiras.

Mogno, pensei, ou cedro, ipê, sei lá o quê, são tantas as madeiras nobres nessas matas… Mas, e os assurinins, por onde andarão?

Na minha juventude, da porta de casa, em Altamira, nossa casa chamava-se “Meu Sossego” e ficava na rua de frente, debruçada sobre o rio Xingu. Lá longe, na outra margem, por trás da ilha do Arapujá, azulada, via-se a serra dos assurinins. Índios arredios e ferozes. Não atacavam, mas não queriam conversa com cristão. Ninguém entrava na área deles impunemente. Nunca cheguei a ver nenhum. Dizia-se que alguns tinham olhos azuis, descenderiam de holandeses, que andaram estabelecendo feitoria mais abaixo, para as bandas de Souzel, ainda no tempo do Brasil colônia.

Aquando da represália dos portugueses, muitos embrenharam-se nas matas e foram viver com os índios. Até onde isso era verdade, também nunca soube. Dizia-se, naquela época, que não eram tão grandes como os xipaias e caiapós, mas eram muito fortes. Seus arcos eram famosos, raro era o cristão que conseguia arredondá-los.

Diz-que chegavam a lançar três a quatro flechas de uma só vez! Na guerra, tão grosso era o arco de paxiúba, que tinham que deitar de costas no chão, prendê-lo com os pés, puxar a corda com as duas mãos e ao mesmo tempo flexionar os joelhos. Diz-que até lanças pesadas eram atiradas assim. Chegavam a furar casco de ubá. Eu disse diz-que.

O certo é que eu acreditava em tudo isso e muito mais. O homem mais corajoso que conheci foi seu Sabazão, um negro forte, gentil nos gestos elegantes e discretos, pai do meu amigo Nhôca, que morava lá, sozinho, botando roça e pescando.

…continua

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
Esse post foi publicado em Capítulo II - todos os direitos reservados. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s