DE COMO APRENDI A AMAR E NÃO TEMER A CRISE

Marituba, 01.01.009
Vamos começar pelo fim. Primeiro a proposta, depois, a análise. A solução está na pobreza. É, essa massa informe, de pelo menos trinta milhões de brasileiros despossuidos de carteirinha, devidamente identificados, localizados, até rastreados nos diversos programas de bolsa isso, bolsa aquilo, que pululam país a fora. Perdão, no caso, país a dentro.  Está nas mãos do presidente Lula sufocar a tal crise, pelo menos no Brasil, que é o que nos interessa no momento, já no início, enquanto é, de fato, apenas uma marolinha. Não adianta pretender surfar na tsunami que se aproxima. Não, com uma prancha de isopor, de pegar jacaré.
Pois bem, peguem-se esses trinta milhões de pobres (e certamente há muitos mais), e, destine-se a cada família, um bônus extra, a fundo perdido, de quatro mil reais. Pronto, é isso. Simples como tudo que funciona.
Isso é fortalecer o andar de baixo. A tal base da pirâmide. Inverter o foco. Por lenha no fogo para aquecer o caldeirão da economia nacional.
Chegamos a essa conclusão na última reunião do Conselho Superior do Uriboca à beira do igarapé, aqui em Marituba, onde moro. Presentes os conselheiros Manoel, velho parceiro, sócio, pescador e motorista, Seu Antonio, para os íntimos, Maracajá, para os mais íntimos, Maraca, o General, motorista do caminhão da Associação dos Horticultores do Uriboca e Abacatal e o professor Jonathas, velho porraloucadaesquerdaetilica.com.br como gosta de se apresentar.
Claro que todos queriam saber de onde sairia essa grana toda. O Manoel, que sempre foi bom de conta, totalizou: 120 bilhões de reais. E arrematou – cara, nem sei quantos zeros tem.
– Micharia, eu disse. Até que pensei como tu, mas depois que ouvi o presidente do Banco Central, Henrique Meireles dizer que o Brasil tinha 198 bilhões de reservas para enfrentar essa parada respirei aliviado. Nem me lembro se falou que eram reais ou dólares, mas não importa, 198 bilhões em qualquer das duas moedas continuam sendo muita grana. E nós a temos!
Antes que pudesse, da maneira mais simples possível, defender minha tese, o velho Maraca, com um olhar vago, começou a falar como se fosse para ninguém:
– Aí, eu pagava a conta do mercadinho do Bareta, aumentava o rancho, levantava mais um quarto para a Piquixita com o filho dela… e, logo, todos começaram a sonhar e fazer planos, quase no mesmo sentido. Nessa hora, o Manoel, leitor inveterado de livros e jornais, matou a charada.
– Aí o Bareta, recebendo e vendendo mais para uma penca de fregueses, trocava aquela fobica velha por uma picape decente, aumentava a padaria e comprava um freezer para vender frango que sempre foi o seu sonho. Mas a primeira coisa que faria era telefonar pra Dona Rute do meio-a-meio Ponto Certo e mandar dobrar o pedido de mercadoria.
Sem ninguém incentivar, ou explicar nada, General entrou no clima.
– O Ceará da loja de material de construção lá do mercado de Marituba ia rir para as paredes.
Ouviu-se um pigarro e o professor porraloucadaesquerdaetílica, sempre desmancha-prazeres, depois de um alentado trago da minha cachaça especial quebrou o encanto.
– Baixa a bola negrada, isso não é para o nosso bico. Essa grana é pra banco, Chevrolé, Ford, Toyota, Vale do Rio Doce, Votorantin, Sadia e outras de peso, e pra isso, ainda é pouco. É um saco sem fundo. Temos é que nos preparar para o pior.
Quando o papo já estava para desanimar tive que intervir e defender minha tese:
– Presta a atenção professor, agora falando sério, as elites financeiras do mundo deram com os burros nágua. Essa história de que o mercado se autorregulamenta, que o juro do capital é sagrado, que o mundo teria que seguir sua cartilha, policiado por um feixe de siglas de agências, prepostos, comitês etc. foi para o brejo. Empurraram goela a baixo do Fernando Henrique, o Armínio Fraga e na goela do Lula, o Henrique Meireles para, em nome dos Sohos e Morgans e da Banca Internacional garantir que o deles seria pago em dia custasse o que custasse e, ainda mais, com a aura de austeridade que a burguesia nacional, burra, mas se locupletando das migalhas coonestava. O Governo, por intermédio das tais bolsas, garantiu uma fagulha do butim para aumentar a renda do andar de baixo. Agora é a hora. O inimigo está atarantado, provou do próprio veneno. Mas não tenhamos dúvidas, ele logo vai se reorganizar e cobrar a conta. Se aquela grana suada do povo brasileiro (198 bi!) for para o andar de cima, babau, já era, toma descaminho como tantas outras vezes, mas se for, como sonhamos, para o andar de baixo, vira consumo produtivo, vira emprego e renda, lubrifica as engrenagens da economia e, claro, o andar de cima, ao fim e ao cabo, vai lucrar, crescer de maneira sustentável. E isso é muito bom. É saudável.
No início, a classe média de passeata vai torcer o nariz, não vai entender. Vai achar que é mais “dinheiro do Governo” na mão de vagabundo que não produz, que esse dinheiro teria que ir para salvar as empresas, mas no fundo sabe-se que não tem dinheiro que chegue para empresa que não tem consumidor. E o povo pode ter a certeza de que nem um centavo, de real ou dólar, irrigado na base da pirâmide terminará entesourado em um paraíso fiscal a espera de as coisas se acomodarem.
– Falou bonito, disse o Maraca. Essa última parte eu não entendi muito bem, mas parece que agora até o professor concorda.
O professor Jonathas tomou mais um trago de cachaça, tirou gosto com manga verde com sal, encheu nossos copos, inclusive o dele já vazio e, como a propor um brinde mudo para si mesmo, falou solene:
“Pero hay que tener cojones”
andré costa nunes

Marituba, 01.01.2009

Vamos começar pelo fim. Primeiro a proposta, depois, a análise. A solução está na pobreza. É, essa massa informe, de pelo menos trinta milhões de brasileiros despossuidos de carteirinha, devidamente identificados, localizados, até rastreados nos diversos programas de bolsa isso, bolsa aquilo, que pululam país a fora. Perdão, no caso, país a dentro.  Está nas mãos do presidente Lula sufocar a tal crise, pelo menos no Brasil, que é o que nos interessa no momento, já no início, enquanto é, de fato, apenas uma marolinha. Não adianta pretender surfar na tsunami que se aproxima. Não, com uma prancha de isopor, de pegar jacaré.

Pois bem, peguem-se esses trinta milhões de pobres (e certamente há muitos mais), e, destine-se a cada família, um bônus extra, a fundo perdido, de quatro mil reais. Pronto, é isso. Simples como tudo que funciona.

Isso é fortalecer o andar de baixo. A tal base da pirâmide. Inverter o foco. Por lenha no fogo para aquecer o caldeirão da economia nacional.

Chegamos a essa conclusão na última reunião do Conselho Superior do Uriboca à beira do igarapé, aqui em Marituba, onde moro. Presentes os conselheiros Manoel, velho parceiro, sócio, pescador e motorista, Seu Antonio, para os íntimos, Maracajá, para os mais íntimos, Maraca, o General, motorista do caminhão da Associação dos Horticultores do Uriboca e Abacatal e o professor Jonathas, velho porraloucadaesquerdaetilica.com.br como gosta de se apresentar.

Claro que todos queriam saber de onde sairia essa grana toda. O Manoel, que sempre foi bom de conta, totalizou: 120 bilhões de reais. E arrematou – cara, nem sei quantos zeros tem.

– Micharia, eu disse. Até que pensei como tu, mas depois que ouvi o presidente do Banco Central, Henrique Meireles dizer que o Brasil tinha 198 bilhões de reservas para enfrentar essa parada respirei aliviado. Nem me lembro se falou que eram reais ou dólares, mas não importa, 198 bilhões em qualquer das duas moedas continuam sendo muita grana. E nós a temos!

Antes que pudesse, da maneira mais simples possível, defender minha tese, o velho Maraca, com um olhar vago, começou a falar como se fosse para ninguém:

– Aí, eu pagava a conta do mercadinho do Bareta, aumentava o rancho, levantava mais um quarto para a Piquixita com o filho dela… e, logo, todos começaram a sonhar e fazer planos, quase no mesmo sentido. Nessa hora, o Manoel, leitor inveterado de livros e jornais, matou a charada.

– Aí o Bareta, recebendo e vendendo mais para uma penca de fregueses, trocava aquela fobica velha por uma picape decente, aumentava a padaria e comprava um freezer para vender frango que sempre foi o seu sonho. Mas a primeira coisa que faria era telefonar pra Dona Rute do meio-a-meio Ponto Certo e mandar dobrar o pedido de mercadoria.

Sem ninguém incentivar, ou explicar nada, General entrou no clima.

– O Ceará da loja de material de construção lá do mercado de Marituba ia rir para as paredes.

Ouviu-se um pigarro e o professor porraloucadaesquerdaetílica, sempre desmancha-prazeres, depois de um alentado trago da minha cachaça especial quebrou o encanto.

– Baixa a bola negrada, isso não é para o nosso bico. Essa grana é pra banco, Chevrolé, Ford, Toyota, Vale do Rio Doce, Votorantin, Sadia e outras de peso, e pra isso, ainda é pouco. É um saco sem fundo. Temos é que nos preparar para o pior.

Quando o papo já estava para desanimar tive que intervir e defender minha tese:

– Presta a atenção professor, agora falando sério, as elites financeiras do mundo deram com os burros nágua. Essa história de que o mercado se autorregulamenta, que o juro do capital é sagrado, que o mundo teria que seguir sua cartilha, policiado por um feixe de siglas de agências, prepostos, comitês etc. foi para o brejo. Empurraram goela a baixo do Fernando Henrique, o Armínio Fraga e na goela do Lula, o Henrique Meireles para, em nome dos Sohos e Morgans e da Banca Internacional garantir que o deles seria pago em dia custasse o que custasse e, ainda mais, com a aura de austeridade que a burguesia nacional, burra, mas se locupletando das migalhas coonestava. O Governo, por intermédio das tais bolsas, garantiu uma fagulha do butim para aumentar a renda do andar de baixo. Agora é a hora. O inimigo está atarantado, provou do próprio veneno. Mas não tenhamos dúvidas, ele logo vai se reorganizar e cobrar a conta. Se aquela grana suada do povo brasileiro (198 bi!) for para o andar de cima, babau, já era, toma descaminho como tantas outras vezes, mas se for, como sonhamos, para o andar de baixo, vira consumo produtivo, vira emprego e renda, lubrifica as engrenagens da economia e, claro, o andar de cima, ao fim e ao cabo, vai lucrar, crescer de maneira sustentável. E isso é muito bom. É saudável.

No início, a classe média de passeata vai torcer o nariz, não vai entender. Vai achar que é mais “dinheiro do Governo” na mão de vagabundo que não produz, que esse dinheiro teria que ir para salvar as empresas, mas no fundo sabe-se que não tem dinheiro que chegue para empresa que não tem consumidor. E o povo pode ter a certeza de que nem um centavo, de real ou dólar, irrigado na base da pirâmide terminará entesourado em um paraíso fiscal a espera de as coisas se acomodarem.

– Falou bonito, disse o Maraca. Essa última parte eu não entendi muito bem, mas parece que agora até o professor concorda.

O professor Jonathas tomou mais um trago de cachaça, tirou gosto com manga verde com sal, encheu nossos copos, inclusive o dele já vazio e, como a propor um brinde mudo para si mesmo, falou solene:

-Pero hay que tener cojones!

andré costa nunes

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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