PAPO DE POLÍTICO É CHATO

Não há nada mais chato de que papo de político. Não estou falando de promessas de campanha, impostação para angariar voto, impressionar eleitor e, com maior ou menor seriedade, explanar suas propostas para governar ou legislar.

Estas são necessárias, democráticas, embora chatas, também. Refiro-me ao dia-a-dia. Ao antes e depois das campanhas. É incrível a rapidez com que eles se acostumam na fantasia como na música do Chico Buarque cujo título vem bem a calhar: Quem te viu e quem te vê. Daí pra frente, não tem volta. Adquirem uma outra personalidade. Não sei se para melhor ou para pior. O fato é que mudam. Quando de partidos ditos ideológicos têm sempre uma resposta teórica, velha, carcomida, formatada na ponta da língua. Uns, com brabeza, outros com candura. Poucos com nobreza. Se de partido burguês, como ademais, hoje todos o são, a política há muito deixou de ser um meio. É um fim em si mesmo. Aí a papo é sempre ao gosto do freguês. Se contrariar o eleitor, perde o voto.

Que papo de político é chato, já se disse e, acho até que é opinião geral, mas quase sempre nos referimos a um ser indefinido, quase abstrato, de outro planeta, mesmo que seja de nossa cidade ou do nosso bairro. Aquele que encontramos no elevador, na padaria. Cumprimentamos com um sorriso burocrático e recebemos outro em troca. Quando aparece na mídia dizemos quase como gabolice: eu conheço esse cara, mora perto de casa. Às vezes até nos queixamos dos buracos da rua e da carestia. Ele sempre é solidário. Concorda e diz uma frase de apoio. Não deixa de ser uma maneira de levar vantagem. A velha lei de Gerson.

Decididamente político não é o meu papo preferido. Bem que me esforço. Sou um ser gregário por natureza. Como se dizia antigamente, sou de corriola. De antes da auto-ajuda, do network marketing. Ser rico a qualquer custo. Ideal americano, japonês, paulista. “Vencedor”. Bem posto e bem postado. Enólogo, Daslu. Charuto havana. Não, sou do boteco, do samba (latu sensu), da cerveja, da cachaça. Como José Marti, “el arroyo de la siera me complace mas que el mar”. Claro que um bom vinho, em um ambiente sofisticado, um piano, tem seu valor, não sejamos radicais. Mas lugar de papo democrático e honesto e o bar. A corriola se desnuda. Ri, goza e é gozada. O mundo tem solução em discursos de no máximo três minutos reverentemente interrompidos pelo bordão da viola ou o trinar do cavaco. Político que tem corriola e freqüenta boteco já merece uma carrada de indulgências plenárias. Expõe-se às críticas mais acerbas, ferinas e, o que é bom, com direito a réplica e tréplica. In vino veritas. E o pior é que tenho um mundo de amigos políticos. De todos os matizes, alguns freqüentadores de botecos. Nenhum evangélico, o que é uma pena, senão, pode parecer preconceito, prática que abomino e me dá urticária.

Sem querer fazer juízo de valor e, como de praxe, até para não perder amigos, salvo raras e honrosas exceções, papo de político é muito chato.

andré costa nunes (30.08.2008)

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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