EDUARDO BESOURO – Capítulo II (6ª parte)

É importante ler antes:

MEMORIAL DA AMAZÔNIA – TRILOGIA

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (1ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (2ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (3ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (4ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (5ª parte)

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Capítulo II

EDUARDO BESOURO

continuação da 5ª parte do C apítulo II

…é importante ler antes a 1ª, a 2ª,  a 3ª, 4ª e a 5ª partes.

As pessoas que vinham de fora eram tentadas a achar que esse Besouro era apelido. Não, era nome próprio mesmo, afinal, ele era filho do seu Besouro. Pessoa das mais consideradas na cidade. Antes dessa avalanche de progresso trazida pela estrada Transamazônica, na falta do médico do SESP – Serviço Especial de Saúde Pública, criado ainda pelos americanos no tempo da guerra, para cuidar da saúde dos seringueiros, e assim garantir seu suprimento de borracha, era ele, seu Besouro, quem receitava e aviava medicamento para o povo. Era dono da única botica do local e, apesar de muito gordo era ágil. Tocava muito bem violão e, com sua voz de tenor, o maior seresteiro de Altamira. Ainda, nas horas vagas, fazia as vezes de Coletor de Rendas do Estado.

Eduardo era ágil, lépido, cabelos castanhos, magro, comprido, não muito alto, mas de qualquer maneira a cima da média da cidade, que naquele tempo, um metro e setenta ou setenta e cinco centímetros de altura, já estava de bom tamanho. Desde novo sempre foi um menino de cidade. Cidade pequena de interior, isto é, o limbo, a meio caminho da mata, do Xingu de nossa paixão, e da Capital. Nunca saiu para caçar, pescar, pegar tracajá de mergulho, ou mesmo aventurar-se rio acima no rumo dos seringais. O máximo que chegara subindo o rio eram as praias de verão das cachaçadas de domingo. Ponta de cima do Arapujá, praia do Padeiro, das Curicas, do Bacabal e do Gorgulho da Rita e, de canoa, no rumo de baixo, o limite foi o poção do Morro do Forte e a ponta de baixo da Ilha do Arapujá. Uma hora de viagem, se muito. De remo.

Eduardo Besouro era o meu melhor amigo.

Os pais da moçada de Altamira, que tinham alguma posse, mesmo com sacrifício, mandavam os filhos estudar em Belém tão logo completassem o curso primário no Grupo Escolar. Os mais pobres não tinham esta chance.

É curioso como o que agora chamam classe média (muito a cima da média, talvez com pudor de se dizer rica mesmo), para nós, eram os remediados. Nem pobres nem ricos. Funcionários públicos, do Banco da Borracha, Banco do Brasil, pequenos comerciantes, médios fazendeiros, médicos, dentistas e oficiais, mestres de ofício mesmo, como ourives, padeiros, mecânicos etc.

Seu Besouro, apesar de muitos filhos, tinha lá suas posses. Era uma moçada bonita e muito inteligente. Nunca soube por que não mandara o Eduardo para a escola secundária na Capital. Não sei por que, mas isso me deixava com uma espécie de remorso. Era como se tivesse uma dívida para com ele. Eu, com todas as oportunidades de estudar, não aproveitava. Era um péssimo aluno. Ele, mais inteligente do que eu era um autodidata. Devorava todos os livros e revistas que apareciam por lá. Por minha vez, impus-me um compromisso, não assumido, inconsciente mesmo, de, todas as vezes que fosse a Altamira, levar-lhe o maior número de livros que conseguisse, alguns, nunca cheguei a ler, senão a orelha. Revistas, não muitas, pois estas já chegavam com atraso até em Belém: O Cruzeiro e Seleções do Readers Digest. Esta última, com matérias frias, curiosidades e alguma literatura resumida. Lia com voracidade, embora considerasse as revistas muito reacionárias. Não sei como, mas aprendeu inglês. Tinha apenas uns três livros no idioma de Sheakspeare, inclusive um do próprio: Rei Lear, que lia e citava com péssima pronúncia, no original, só para me sacanear. Também funcionava como meu alter ego e regulador da minha consciência. Um moderador.

Tínhamos a mesma idade e estudamos juntos desde o primeiro ano primário no GEA – Grupo Escolar de Altamira. Aliás, ele estudava, eu vadiava. Naqueles tempos não havia, ou mesmo se cogitava de curso maternal, jardim de infância e outras modernidades. Não, em Altamira. A idade mínima para ingressar na escola pública era sete anos. As primeiras letras, a Cartilha do ABC, aprendiam-se em casa, já a tabuada, esta, as contas de somar, diminuir, multiplicar e dividir, até o algarismo nove, eram na escola. No primeiro ano. Somar e diminuir eram fáceis. O diabo, pelo menos para mim, eram multiplicar e dividir. Tinha-se que decorar em casa, para ser sabatinado em sala de aula, pela professora, a peso de palmatória, a qual, para fazer justiça, a professora Celi, minha madrinha, quando foi nomeada diretora, aboliu, deu fim, por considerá-la por demais cruel e humilhante. Substituiu-a por uma régua, pesada, de acapu. Não sei qual doía mais, se a régua, ou a palmatória. Esta, pelo menos, tínhamos a esperança de que a qualquer momento se partisse ao meio, pois, dizia a lenda, e acreditávamos, bastava que se matasse um piolho no furinho do meio que toda palmatória tem, para que ela se quebrasse no primeiro bolo, em um determinado ângulo. E o que não faltava na escola era piolho. A palmatória era velha, carcomida pelo tempo e uso. Vivia dependurada por um barbante, na parede atrás da mesa da diretora como se fosse um objeto de decoração e intimidação e, o tal furinho no meio, sempre pensei fosse o lugar de algum antigo prego para aumentar o castigo das gerações anteriores que sempre viviam alegando: hoje é moleza, no meu tempo… Só depois, muito tempo depois, vim a descobrir, que era a ponta do compasso de ferro, rústico e rombudo que o Chico Carpinteiro usava para traçar a circunferência do instrumento de tortura infantil.

Certo dia, bebendo cachaça na beira do igarapé, já muitos anos depois, comentando o fato às gargalhadas com o próprio Chico, ele disse que aquela palmatória e as muitas que fazia para escola e casas de família eram pequenas e leves, de cedro.

– Queria que vocês vissem as que eu fazia para a polícia. Só âmago de tatajuba, maçaranduba, pau d’arco, pequiá e acapu.

Aliás, a polícia as usava, muito menos para arrancar alguma confissão de ladrão ou criminoso, como por mero castigo acessório à pena, que o delegado mesmo imputava. Quando não era ele, era o cabo Dorneles. Todo mundo achava justo, inclusive nós outros. Afinal, fôramos criados sendo castigados com palmatória por qualquer malfeito que fizéssemos, quer fosse banhar-se no rio sem permissão, roubar figo do quintal do seu Zé Cabeça, ou quando éramos apanhados comendo a cabrita do Genu. Não sei por que a unidade usada no castigo era sempre a dúzia. Dependendo da gravidade da falta, mas para nós nunca passava de uma dúzia. Meia dúzia pelo banho no rio, uma dúzia pela cabrita do Genu.

Na polícia, dizia-se, começava com cinco. Havia preso que levava até dez dúzias de bolo. Às vezes, os víamos passando com as mãos inchadas para se tratar no posto do SESP.

Pois é, como disse, o Eduardo Besouro era o meu melhor amigo. Quando eu chegava de Belém, no tempo em que não havia avião, e a viagem era feita exclusivamente nos navios gaiolas do SNAAPP – Serviço de Navegação da Amazônia e Administração do Porto do Pará, estatal que sucedeu a Amazon River e a Port of Pará, dos ingleses, fato que só acontecia uma vez por mês, quando não falhava, já o encontrava no porto de Vitória a me esperar. Sempre resmungando:

– Porra, esta merda de navio atrasou pra caralho. Estou aqui desde ontem! Meu pai vai me matar. – Falava de uma maneira como se eu tivesse culpa. Mesmo assim, terminava me desculpando.

Depois vieram os Catalinas, aviões anfíbios da Panair do Brasil, duas vezes por semana, pousando bonito, riscando as águas espelhadas do Rio Xingu. E, quando fizeram o campo de pouso, os aviões maiores: DC3 da Paraense Transportes Aéreos e da Cruzeiro do Sul.

Agora, os tempos são outros. Tempos de progresso, da Transamazônica que logo, logo vai estar asfaltada, e de Altamira a Belém vai ser um pulo. Menos de mil quilômetros. Com o novo campo de pouso é tempo de Hirondelle, até de jato puro, o BOEING 737 da Vasp.

***

– Porra, Deca, parece que estás surdo? Eu estou te contando que o filho da puta do Souzinha comeu tua namorada e tu, nem seu Souza.

– Deixa de falar merda, a Marina não é disso, tu sabes.

– Ih! Cara, e quem está falando da Marina? Estou falando é da Socorro.

– A Socorro não é minha namorada. Tu sabes que ela é puta da boate do Tufi, do Cachorro Quente. Bem que poderia ser, mas ela não quis me dar exclusividade.

– Mas, da outra vez que estiveste aqui, andavas pra cima e pra baixo de mãos dadas com ela. Levaste para a novena. Correu o boato que, diz-que, ias até casar.

-Postura meramente ideológica. Queria sacanear com o bispo, o Dom Clemente, que sempre viu em mim a imagem do Cão, e com o juiz, o doutor Hélio, que decretou que as putas tivessem hora para sair às ruas. Um dia chegou até a me abordar. Me fiz de desentendido – quem? O senhor está falando da Socorro, minha noiva? – ele, de preto ficou branco, e se desmanchou em desculpas. Logo comigo que sei que ele é veado e sou o único cara nesta merda de cidade que não tem nenhum tipo de preconceito.

– Eu também não tenho, tu sabes.

– Serias capaz de enfrentar os padres, teu pai e essa sociedade hipócrita e casar com uma puta?

– Claro! E como é que tu pensas que se povoou todo esse vale do Xingu? Quantos dos nossos amigos não são filhos de ex-putas? Tirante as nossas mães, sobram poucas. E, principalmente, se fosse um pitéu como a Socorro. Por falar nisso, vais por lá hoje?

– Vamos?

O Eduardo tinha um jeito maroto de rir. Nunca uma risada desbragada. Não se sabia se era risada mesmo ou deboche.

***

As malas desceram.

– Tens muita bagagem? – perguntou. Antes que respondesse, já foi pegando outro carrinho para me ajudar.

A estação de passageiros do aeroporto era pequena, singela, mas muito bonitinha. Bem cuidada, circundada de jardins, grama aparada, flores, que nesta latitude amazônica de quase zero, não têm estação certa para florir. Acho que desabrocham obedecendo a uma sazonalidade própria, ao sabor dos caprichos da natureza. Durante todo o ano tem flor. Os agrônomos da Embrapa devem ter alguma justificativa técnica para isso. Juro que é chute. Eles devem estar errados. Essas explicações doutas são umas merdas. Não têm poesia. Não há sonho. Não há beleza. “Não necessariamente nessa ordem”.

Antigamente, antes do progresso, da construção da rodovia Transamazônica era um campo pobrezinho, feio, de terra batida, um barraco de palha a guisa de abrigo. O João Bodega era o guarda-campo, cuja função resumia-se em bater o mato em volta do barraco, espantar animal na hora do pouso e, diz-que, tomar conta de meia dúzia de tambores de gasolina para alguma emergência dos aviões da FAB. O que se sabe mesmo é que era de grande valia para as avionetas que faziam contrabando de peles de fantasia. Onça, gato maracajá e ariranha.

Um amigo meu, o Milico, fez fortuna com esse negócio. Dizem que chegou a ter um batalhão de mais de quatro mil gateiros, que era como se chamavam os caçadores. O Mansur, também foi outro que enricou fornecendo para um grande contrabandista de Fortaleza. Quando não de avião, as peles iam de caminhão escondidas em baixo de cargas de madeira. Depois da estrada, claro.

Pegamos a bagagem. O saguão do aeroporto estava apinhado de gente. Não conhecia quase ninguém. O Eduardo, alguns. Eram, em sua grande maioria, gente da colonização da Transamazônica. Do INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, das cooperativas do Sul, das grandes empreiteiras, mineradoras, e grileiros. Muitos grileiros. Gente experiente nessas coisas de comprar e vender terras. Comprar e vender cartórios. Comprar e vender juizes, autoridades, políticos. Comprar e vender gente. Fazer documentos de propriedade seculares, roídos, amarelados, com cadeia dominial e tudo. São muito competentes.

É o progresso, um mal necessário, pois com essa gente indolente daqui, não iríamos a lugar algum. Não se fazem omeletes sem quebrar os ovos, e o resultado já dava para ver. Saltava aos olhos. Principalmente para quem voltava depois de longa ausência. E olha que eu apenas vi um pedaço da realidade do alto do avião e a transformação do aeroporto. Até o páteo de estacionamento dava gosto ver: cheio de automóveis novos, picapes traçadas nas quatro rodas. Tudo novo. Dinheiro correndo solto, das empreiteiras, do Banco do Brasil, da SPEVEA que virou Sudam e do Banco da Amazônia que virou BASA. E quando aquelas mudas que ornavam o estacionamento crescessem iria ficar uma beleza de sombra. E cresciam rápido, já estavam com mais de três metros, e foram plantadas um dia desses. E, não é dessas árvores chinfrins daqui, não. É tudo do estrangeiro. Benjamin ficus, flamboiam, castanhola, acácia, até bordo, aquela uma da bandeira do Canadá. Se duvidar, vão plantar plátanos e baobás do Pequeno Príncipe. É uma pena que por aqui não tenhamos primavera e outono. Seria uma lindeza ver o chão todo alcatifado de flores ou folhas amarelas, tal e qual se vê nos cartões postais das Europas.

É o progresso. Não dou mais nem trinta anos e essa mata já era, não aguenta. Joga a toalha. Eu bem que disse que ainda ia ver esse dia. Quando as estradas chegassem, ninguém segurava o progresso.

***

Esperamos ainda mais meia hora no saguão do aeroporto até que o nosso táxi, que o Eduardo havia combinado, chegasse. Era um carro velho, acho que Rural Willis, do Lotinho, irmão da Maria Arlete. Não que não houvesse opção de outros no ponto, mais novos, modernos, ar refrigerado, mas por uma questão de lealdade, só servia se fosse o Lotinho ou o Panelada, velhos companheiros.

No caminho de casa fomos vendo os sinais do progresso galopante que os novos tempos traziam. Arranco de muito dinheiro e determinação das empreiteiras, madeireiros e grileiros da nova fronteira agrícola que se abria. A cidade parecia um formigueiro. Suas bordas alargavam-se no rumo Sul, até o aeroporto novo de onde saíramos momentos antes. No rumo oeste, atravessara o igarapé Altamira, escalara o morro da Brasília e seguia em busca da Cachoeirinha, o velho sítio dos padres. No rumo Norte, invadiu a várzea do Jaburu até o igarapé do Ambé, no sopé do Morro do Forte. Nessa várzea, antes, ninguém morava, não havia casas, a não ser no verão, quando alguns oleiros e mariscadores faziam seus tapiris, apenas como abrigos do sol e da chuva. À noite, ninguém dormia neles. No inverno toda a várzea se inundava, mal e mal cortada pelo aterro da estrada que levava ao Porto de Vitória. Água preta, mas cristalina, oriunda da foz dos dois igarapés que se uniam. Era linda e piscosa.

Quando da construção da Transamazônica e a conseqüente invasão de levas e mais levas de colonos à espera de assentamento, peões, comerciantes e bordéis, as autoridades do INCRA e da prefeitura, logo trataram de “urbanizar” o Jaburu. Terra plana, vegetação arbustiva, bastava uma patrol e se abriam ruas e ruas. Distribuíam-se lotes urbanos. Pleno verão. Terra de várzea. Seca, rachando. Todo mundo sabendo que quando viessem as águas, os barracos iriam para o fundo.

Tinha muitas terras altas, planas, para expandir a cidade, inclusive uma área enorme, onde fora o campo de pouso que a Aeronáutica devolveu à prefeitura depois que construiu outro, afastado do centro, onde se situava o antigo, que a cidade envolveu. Essa área, por ser nobre, foi loteada exatamente pelos nobres ou espertos, e coonestada por prefeitura e cartórios, a quem pagasse mais. Por baixo dos panos, é claro. Enquanto isso, a ocupação da várzea do Jaburu foi armação de caso pensado. Acerto tácito entre autoridades e usuários. Criar a calamidade da enchente onde nunca houve. Enchente, sim, calamidade, nunca. E, que não se alegasse ignorância, pois, como se disse, a água deixa a marca nas árvores, na maior altura que já atingiu. Mas, é fundamental, quando o rio sobe, como faz todos os anos, que se divulguem as imagens comoventes do desastre, principalmente na televisão. Há que comover para angariar verbas públicas para os desabrigados. Decretação de estado de emergência e de calamidade pública. Nesses casos, não se prestam contas das verbas, e se dispensam licitações. É a farra da corrupção, que por um tempo, restringia-se a Marabá, caso emblemático no rio Tocantins: a cidade, originalmente assentada em várzea baixa, por goianos do Planalto Central que desceram os rios Araguaia e Tocantins, todo ano tinha parte alagada, como era de se esperar e, de tempos em tempos, nas grandes cheias, que sempre aconteceram, desde eras imemoriais, ocorria a inundação total do baixão. Descobriram que bastava trombetear calamidade e havia verba sem controle. Pronto, a sopa no mel. Todos os anos, com data marcada, sazonalmente, tem calamidade e a conseqüente verba para as vítimas do flagelo anunciado.

No tempo da ditadura, quando tudo se podia, mesmo, e com total desconhecimento, a qualquer preço, desde os gabinetes refrigerados de Brasília, o Governo Federal decidiu solucionar de vez a questão. Decidiu atender ao clamor das elites do Poder local. Construiu uma nova cidade, bem ao estilo de Brasília. Moderna, amplas avenidas e saneamento de primeira. Assim como Oscar Niemeyer, ou Lúcio Costa, não sei bem, inspirou-se no avião para desenhar a nova capital do país, para Marabá, o escritório fulano de tal, poeticamente, usou a imagem da castanheira, bertoletia excelsa, árvore-símbolo, que fez da região a mais rica do Pará e orgulho dos marabaenses. Assim, o que em Brasília chamam-se quadras e superquadras, em marabá, são folhas. E é muito bonita. Pois bem: fez-se. Logo as autoridades pressentiram que a mamata da calamidade podia acabar e comandaram a resistência. A palavra de ordem passou a ser, ninguém sai da Velha Marabá. Receberam, uns, muito, outros muitos, muito pouco, indenizações, e ficou tudo como dantes no quartel de Abranches. Todos os anos têm flagelados da enchente.

Não dá para generalizar, mas na Amazônia, há que se observar com parcimônia, tudo o que diz respeito a seca e enchente. Respeitar o regime das águas, senhor da vida. Água e floresta, binômio perfeito. Terra alta, terra baixa. Várzea alta, várzea baixa. Água alta, igapós, várzeas, praias, ilhas, margens, paranás, lagos de centro, de beira e de baixão. Tudo inundável. De tempos em tempos, águas grandes. Até a várzea alta vai para o fundo, uma dádiva. E, aí, pode esperar, quando a água baixar, é fartura na certa. O húmus que o rio sedimenta na várzea, na terra alagada, a enriquece, aduba naturalmente com o rico resíduo que trás em seu caudal, e, na água acontece aquela explosão de vida, a piracema. Os peixes invadindo tudo para procriar. É a desova. Os cardumes, aos milhões, buscando rios, igarapés, lagos, igapós, enfim, toda essa imensidão de terra inundada, rasa, quente, ideal para eclosão das ovas. As larvas e alevinos encontram fartura de plânctons, aqueles micro-organismos em suspensão, onde toda a vida aquática começa. Esses peixes se contam aos bilhões. Uma única curimatã expele mais de um milhão e meio de ovos. Tem que ser assim, apenas uma fração infinitesimal irá sobreviver.

A volta aos grandes rios é a farra dos outros peixes, sedentários, ou não, mas que se alimentam dessa profusão de peixinhos recém nascidos, indefesos e, de seus pais, também indefesos, quase inermes na hora da procriação. Tucunarés, pirararas, douradas, aruanãs, pirarucus, piranhas, filhotes, surubins e, não raro, peixes de mesma espécie que comem seus filhotes. E mais, jacarés, gatos-do-mato, onças, raposas, quatis, cobras. Aves, todas. E há muitas. Gaviões de todo o tipo, desde o minúsculo bacurau ao gigante gavião real ou harpia. Patos, marrecas, garças, gaivotas, guarás, mergulhões, jaburus. E o caboclo ribeirinho. A sacanagem é chamá-los de predadores, se apenas estão a desempenhar seu papel na cadeia da vida. Sobreviver.

A desova, no início da época da cheia, não é por acaso. As chances de sobreviver e pegar tamanho para escapar é bem maior nesse mundão de terra alagada. Aí, quando as águas voltarem aos leitos dos rios, igarapés e lagos é a fartura do verão. A natureza é sábia no seu equilíbrio biológico. No próximo ano, na mesma época da cheia, haverá piracema. Os que ali nasceram e conseguiram chegar à idade adulta, por algum mistério atávico, voltarão para desovar no mesmo lugar. Mesmo igarapé, baixão, igapó, lago ou várzea. Migram de centenas, por vezes milhares de quilômetros, e voltam. Repito, tem que ser no mesmo lugarzinho. Não serve o igarapé ao lado.

Nessa diversidade infinita de situações, os povos da Amazônia se inserem, quer autóctones, quer colonos, colonizadores. Por adesão. Modificam pouco o meio, pois, pouco há a modificar. Tornam-se, eles também, povo da Amazônia. Fazem roça e casa na terra firme. Barraco de verão, na várzea, na ilha ou na praia. Tosco acampamento, próprio para a água levar na cheia, quando chegar a hora de cumprir sua missão.

A enchente chega, não, como enxurrada, malina, como acontece em outras plagas. Chega como parceira. Cúmplice. Devagar, pedindo licença. É atendida, claro. Não há embates, contestação. É entendimento de compadres. Há até concessões ao povo das palafitas dos furos e paranás que se estabeleceram muito distante da terra alta.

As palafitas são mais comuns no delta do Amazonas e um pouco acima. Área de influência mais forte das marés, onde o mar represa e tufa o Grande Rio. É o entorno da ilha do Marajó, até além do Tapajós. São milhares de furos, lagos, estreitos e ilhas alagáveis. Várzeas e matas de terras baixas, de formação recente. Algumas desaparecem levadas no caudal do rio para se formarem em novas ilhas mais adiante.

É comum o viajante ver os barrancos caírem solapados pela correnteza, mal comparados, por pequenos, baixos e planos, à queda das geleiras no início do verão nas regiões glaciais. Se as terras caídas muito se aproximam do barraco, o caboclo apenas se muda para um teso mais alto. Sem traumas ou espalhafatos.

Nestes tesos a população desenvolve atividades permanentes, como as cidades, as sedes de fazendas, algum roçado e marombas para as grandes cheias que de tempos em tempos acontecem. Fala-se em intervalos regulares de seis ou sete anos, mas de qualquer maneira, sem ser tragédia maior que aquele viver desassistido.

Esses ribeirinhos, geralmente abaixo da chamada linha de pobreza, não precisam muito do progresso para ter qualidade de vida, evoluir, ter autoestima, ser feliz. Bastam-lhe educação e saúde. Não, aquela dos postos e escolas das sedes dos municípios, mas a da constância, ilha a ilha, furo a furo. No dizer modernoso, americanizado da metrópole, assistência “delivery”.

Mas os senhores do Sul, têm outra visão. Como vive dizendo o Eduardo Besouro, eles vieram para ensinar o que sabemos e tomar o que temos.

Em Altamira, perto da cidade, na terra firme e encosta das serras, o que era colônia, se transformou em bairro. Barracos, mansões, acampamentos e repartições públicas, inclusive universidades, da capital e do Sul, em campos avançados.

“Os doutores vieram”, ainda segundo o rabugento Eduardo, para ensinar antes de aprender. Os donos da verdade. De todas as verdades. Já chegaram com as respostas prontas, na ponta da língua. Inclusive respostas para perguntas inexistentes. E o que é mais perverso: já há toda uma geração de educandos de faculdades virtuais, caça-níqueis e, até mesmo universidades públicas, estadual e federal sem qualquer intimidade com o meio. As verdades já vêm empacotadas, formatadas em outra realidade. Até a pesquisa acadêmica, quando há, fica comprometida. Primeiro formula-se a “verdade”, não a tese, depois a pesquisa tem apenas que comprovar essa “verdade” conveniente ao sabor dos modismos pseudo-ideológicos. Decididamente o Eduardo era contra o progresso.

***

…continua

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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