EDUARDO BESOURO – Capítulo II (7ª parte)

É importante ler antes:

MEMORIAL DA AMAZÔNIA – TRILOGIA

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (1ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (2ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (3ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (4ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (5ª parte)

EDUARDO BESOURO – Capítulo II (6ª parte)

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Capítulo II

EDUARDO BESOURO

continuação da 6ª parte do C apítulo II

…é importante ler antes a 1ª, a 2ª,  a 3ª, 4ª, a 5ª e a 6ª partes.

Quando passamos pela Rua da Frente, o Lotinho exultou, a nossa velha barranca e ladeira para o rio, não mais existia. Em seu lugar, uma avenida asfaltada, reta e plana, com cais de arrimo, mureta, calçada para footing e Cooper, bares e restaurantes. Uma verdadeira beleza de encher os olhos.

Mais uma vez notei que o meu amigo ficou decepcionado com meu deslumbramento. Não falou, mas fez ar de amuo. Algum tempo depois comentou como para si mesmo:

– Absoluta falta de criatividade, desconhecimento, menosprezo pela sub-raça nativa. Projeto e dinheiro a rodo tangidos pelos ventos da ditadura para as empreiteiras aliadas. A orla daqui, não desbarranca, porra! As águas servidas e pluviais de Altamira correm para trás, para o igarapé que a circunda. Quase chorei quando cortaram as mangueiras da rua da frente. Parece que a cidade ficou nua, banguela, sem alma.

Fiz que não ouvi. Mudei de assunto.

Chegamos ao Meu Sossego. Nossa casa vazia, paredes manchadas pela umidade, mas limpa, com lençóis cobrindo os móveis. Obra do zelo da madrinha Benedita que permaneceu habitando aquele casarão que outrora fervia de vida, de gente, de alma, de risadas.

Foi surpresa. Quase matei a velha preta de emoção. Seus olhos marejaram. Disse-lhe que iríamos almoçar fora e que depois teríamos todo o tempo do mundo para por os assuntos em dia. Deixei a mala no quarto da frente que um dia fora meu, e saí ainda ouvindo seus protestos, que deveria antes tomar um banho, descansar, que iria fritar um peixe, essas coisas de madrinha de antigamente. Quando cheguei à calçada notei que o Eduardo havia despachado o Lotinho.

– Vamos andar a pé um pouco. Quero ver se te lembras de umas coisas.

Dobramos a esquina da rua do SESP, passamos pela frente da casa da dona Mundica do Miguez, do seu Zé Pinheiro, do seu Alberto Soares e da dona Marica no canto da segunda rua. Tudo habitado por gente estranha. Cumprimentamos por puro hábito de morador de cidade do interior. Pretendia visitar os parentes. Primos em pencas que ainda moravam por lá e mais a Coló do cartório, a Mãe Maroca, o Augusto Mário, a Marluce, o Chico Capivara, a Waldice, a Nair, a Azimar, a D. Lili, enfim, um monte de gente, mas o Eduardo tinha outros planos, pelo menos naquele momento.

O sol ainda não estava quente o suficiente para escaldar o cimento da calcada. Sentamos ali mesmo, na esquina, em frente ao casarão do Zé Burlamaqui que fora do pai dele, doutor Juca, por sua vez, filho do senador José Porfírio, ex-dono de todo o Vale do Xingu.

A esquina ficava na segunda rua, a apenas uma quadra do início da cidade, por onde se saía e entrava na fervilhante rodovia Transamazônica. A poeira vermelha parecia um espesso fog através do qual mal se divisavam as barracas que a ladeavam. Bruno-avermelhado. Fog do inferno. À entrada da cidade, a rua era cheia de quebra-molas, lombadas que a prefeitura mandara fazer para diminuir a velocidade dos veículos numa vã tentativa de evitar que a poeira tomasse conta de vez da cidade. Olhando-se para o outro lado via-se toda a extensão da segunda rua. Preservada do jeito que me lembrava dela há décadas. Nenhuma casa de dois pavimentos, acho, até, que Altamira, pelo menos que eu me lembre, só tinha casa térrea. A casa do seu Zé Rodrigues, do Ubirajara, do seu Demétrio, o cartório na sala da Coló, a casa da Sinhá, da Minha Pureza, do bispo, que me perseguia e eu invariavelmente dava o troco.

Ainda hoje me pergunto se ele de fato acreditava ganhar o Paraíso com toda aquela postura rabugenta, fascistóide.

A igreja, a praça… devaneio maior, seu Carlos Soares, a casa Primavera escrita no frontispício, em baixo-relevo, “fundada em 1.917”. Depois a casa do seu Salim e a dos pretos Batista. Que moças lindas, negras, roliças. Nunca me deram bola, mas comi todas elas na solidão do imaginário.

O Eduardo, até então calado, despertou-me das reminiscências, como se as adivinhasse.

– Eu estava lembrando o mesmo que tu. Estavas com cara de bobo. Acho que eu também. Lembras, quando à boca da noite, as famílias punham as cadeiras na calçada para prosear? Lembras de como acabou esse hábito?

– Sei, lá, cara. Os tempos, a violência, sei lá.

– A chegada da televisão. Por isso é que te trouxe aqui. Aqui que nos reuníamos todas as noites depois da janta. A partir das sete, sete e meia, a turma toda. Olhar fixo nas pessoas sentadas nas cadeiras das calçadas. Invariavelmente cadeiras de vime. Hábito secular da prosa, do convívio. As crianças na rua brincando de roda… O Zé do Mané Paulo, até fazia contagem regressiva: dez, nove…dois, um, zero…plim, plim. “E agora, Malu, mulher”. Naquele tempo, a novela começava às oito, eu acho. Era nosso espetáculo para abrir a noite. Caíamos na gargalhada, quase aos gritos, com aquela cena, como que orquestrada e exaustivamente ensaiada. Todos, ao mesmo tempo, em toda a extensão da rua, até onde a vista alcançava, recolhiam suas cadeiras para a sala. E a prosa, por mais interessante que fosse, ficava interrompida. Mal se falava nos intervalos. Aqui ainda não passava comercial. Eram listas e números, chamados de padrão. Não sei por quê.

Cada pedaço daquela rua trazia um mundo de recordações. Aquela parte da cidade funcionava como um tipo de trincheira resistindo à invasão de forasteiros que elevara em pouco tempo a população de sete mil habitantes da nossa infância para algo indefinido, mas bem acima dos cem mil.

Antes, um desenho organizado, esquadrejado. Quatro ou cinco ruas paralelas ao rio Xingu e outras tantas perpendiculares e, claro, paralelas entre si. Uma praça, uma igreja, uma escola pública, o GEA, Grupo Escolar de Altamira, que ensinava as primeiras letras e ia até a quarta série. Foi a base intelectual para muitos doutos e doutores. Não para mim. Ali, não aprendi nem a ler nem a fazer conta. As professoras diziam, e todos acreditavam, inclusive eu, que era um caso perdido. Rude, desatento e preguiçoso. Hoje tenho uma versão mais generosa a meu respeito.

Além do que foi citado como “equipamento urbano” tínhamos principalmente uma enorme mata, dois igarapés e toda uma beira de rio que considerávamos só nossa. A beira e o rio. Durante o inverno, as águas grandes permitiam a navegação das embarcações que abasteciam os seringais e de lá traziam a produção de borracha e castanha. Era uma espécie de concessão que fazíamos à invasão de nosso território. E de mais a mais, eram só uns quatro meses por ano, época em que o rio estava muito cheio e sem praias. Hoje, no entender do Eduardo, como se disse, definitivamente contra o progresso, reina a degradação. A periferia da cidade está cheia de favelas.

– Nossos igarapés estão poluídos, viraram esgotos a céu aberto e a mata está acabando. Virando pasto. A beira do rio, diz ele, foi conspurcada por embarcações pesadas, balsas e empurradores a transportar minério, madeira, gado, sem respeito algum pelo Xingu e pelo seu povo. Querem ensinar o que sabemos e levar o que temos, repetia quase como uma jaculatória. E não é só a paisagem que modifica, é o povo, a mente, os rios. É a agressão irresponsável e criminosa à própria Pacha Mama. A mata resiste como pode, mas sabe que vai perder. Minério não dá duas safras. É riqueza fugaz e, mesmo assim, no durante. O depois é o buraco. O durante para os outros e o buraco pra nós. É gente com tu, cego aos desígnios de teu povo e de tua própria terra, que valida este caos predador e sem volta. Felizmente, para ti, não vais viver para ver o legado que deixaste para teus filhos e netos. A natureza não reclama, se vinga.

Touché.

Ainda tentei meio sem jeito argumentar fazendo graça:

– Relaxa cara, não se faz omelete sem quebrar os ovos. Estás me estranhando? E falei como se fala a um cão brabo na presença de estranho:

– Sou eu, cara, André, amigo. E hoje nem é domingo. Não precisavas gastar, conspurcar, validar, ou mesmo invocar a Pacha Mama. Eu me contentava com os nossos curupira e mapinguari.

– Não são a mesma coisa… disse isso e entrou em profundo silêncio, como que magoado.

Acho que esperava de mim alguma outra postura, afinal, na infância, adolescência e juventude tínhamos todas as afinidades do mundo. É bem verdade que ele adorava me contradizer, armar discussão, na maioria das vezes, de pura sacanagem, mas na essência enriquecia o papo e o argumento. Muito cedo já éramos de esquerda, fosse lá o que isso, naquela época, quisesse dizer. Mas no embate com os “alemães”, racistas, anti-semitas, fascistas, reacionários, exploradores de qualquer natureza, estávamos unidos na defesa de nossas convicções. Ainda não bem uma ideologia, coisa que só veio depois da “diáspora”. Ele permaneceu esquerda, eu entrei para o Partido Comunista. Ele ficou em Altamira, eu ganhei o Mundo.

Em tempo: chamávamos de alemão a qualquer adversário, até de futebol. Coisas da geração do pós guerra.

Nos demos uma trégua. Aos poucos, e com grande sacrifício, seu semblante foi se desanuviando. Tacitamente concordamos em nos atermos às reminiscências.

– Lembras do bispo? O D. Clemente não largava do teu pé. Disse, como uma deferência, uma gentileza, para com o amigo que se desgarrara da rota do bem. Vendido? Não chegava a tanto, mas sentia toda sua inquietação pelo que me fizera, na sua ótica, mudar tanto a ponto de fugir da discussão. Definitivamente eu não era mais o mesmo.

A simples lembrança das implicâncias do bispo devolveu-nos o bom-humor.

– Ele ia visitar a minha mãe só pra falar de mim. E a velha, que era uma artista, endossava sua decepção. Apenas se permitia dizer algumas frases feitas:

– É assim mesmo, D. Clemente, eu não sei onde essa juventude anda com a cabeça. E olhe que criei esse rapaz na fé, temente a Deus. Foi batizado, fez a primeira comunhão, o senhor mesmo o confirmou na crisma. Ainda tenho esperança que isso vai passar.

– Mas D. Francisquinha, um comunista no meu rebanho, e logo filho de vocês, é demais para mim. Onde foi que erramos?

Depois, como se não bastasse, veio o caso da freira. Irmã Maria das Dores. Chamada apenas de irmã Das Dores.

– Tu foste namorar logo uma freira da congregação do bispo! E ainda apelidaste de Los Vampiros.

– Pensa bem, cara, isso lá é nome de qualquer agremiação? Congregação dos Adoradores do Preciosismo Sangue de Cristo? É no mínimo macabro. E além do mais, ela nem era freira. Era noviça. Ainda não tinha feito os votos perpétuos.

– Por tua culpa nem chegou a fazer.

– Minha, não! Do bispo. Tu sabes que não houve nem namoro. Nunca peguei na mão. Ela era uma graça. Eu vivia na beira do rio em frente a casa das freiras na esperança de vê-la na janela. Quando ela sabia que eu estava lá, vira e mexe, passava pela janela. Nunca respondeu a meus acenos, mas sorria. Isso era demais para mim. Como se é bobo quando se é jovem. Não passou disso o tal namoro. O mais perto que cheguei foi na missa. Ia todo dia. E comungava, sem me confessar, para desespero do bispo.

– Como mesmo que ele ficou sabendo, se tu dizes que não teve nem mão na mão?

– Só soube muito tempo depois, já em Belém, ela, por causa dessa merda, deixou o hábito e era professora no Colégio Santo Antonio, onde eu também lecionei.

– E aí, tava magoada, rolou transa, conta tudo.

– Não deu samba. Estava casada, feliz, e ainda disse que há males que vem para o bem. Que Deus escreve certo por linhas tortas, essas coisas. Batemos um longo papo na escadinha do cais do porto, perto do colégio. Foi ela, a idiota que contou, em confissão, para o nazi-fascista do bispo. Confessou tudo o que não fez e que eu sonhava que fizesse. Foi deportada e confinada no sítio dos padres na Cachoeirinha. Lá perdeu o cabaço para o padre Guilherme. – Daí pra frente, para o bispo, passei a ser a própria imagem do Cão. Herege, ateu, comunista comedor de criancinha.

– E o caso da Mariá? Lembro-me vagamente, estavas puto.

– Isso tem preâmbulo, tenho que te lembrar de alguns antecedentes.

– Porra, adoras encompridar uma história. Afinal, comeste ou não comeste?

– Claro que não, Mariá nunca me falou ao pau, e além disso, ela era mais séria do que porco mijando. Ali, que eu saiba, pra comer tinha que casar. Acho que nesse ponto a nossa geração foi muito prejudicada. Na época do Frizan, do Franduiá, do Juarez, do Olivete, do Tobias, do Áureo, antes de nós, as moças eram mais liberais, independentes. As de hoje, nem se fala. Parece que liberou geral. A graça é beijar na boca. No carnaval de Salvador, um motorista de táxi que eu sempre pegava, disse que quando sai no trio elétrico chega a beijar mais de cem gatas. Na boca! Para mim isso é totalmente incompreensível. Não, que não goste, mas meu saco estouraria na décima. Beijo na boca é petição inicial, e, de pau mole é coisa para ator de novela ou veado. Já, na nossa geração, as moças eram todas metidas a cabaçudas. Namorar na porta. Uma escapadela para um amasso era um deus nos acuda.

– Vá lá, continua, porra, e a Mariá?

– Te lembras que a família dela era apadrinhada dos padres. Moravam vizinhos da casa paroquial. Era a família católica por excelência. Mãe, avó, irmãos, todo mundo vivia em função da igreja. Zelavam até pela casa do bispo. A Mariá, meio loura, bonitinha, sempre fez o papel de Nossa Senhora na representação das pastorinhas ou nos autos de natal. Era a imagem da candura. O xodó do D. Clemente. Fora desse contexto ela até que era gente boa. Simples, simpática, parecia não se dar conta da aura que os padres criaram em torno dela. Pois bem, um belo dia, passando pela porta da Minha Pureza, mãe dela, me chamou:

– Deca vais passar pela igreja, por favor, leva estas castanhas cristalizadas pra Mariá. Essa menina precisa se alimentar, come como um passarinho.

– No caminho comi logo umas duas quando topei com ela na porta da igreja. Trazia nos braços uma ruma de paramentos litúrgicos para engomar. Apenas, na maior inocência, como estava com as mãos ocupadas, pediu-me que pusesse duas castanhas em sua boca. Aliás, linda boca, carnuda. Nessa hora, chegou o D. Clemente e nos pegou no flagra. Fazendo, como te contei, exatamente, nada. Apopléctico, aos berros, com aquela voz rouca, nasalada e sotaque alemão carregado gritou: Andrré, non! Pelo amorr de deus! Com Marriá, non! Ela é uma santinha. Tenha piedade.

– Acho que até hoje ela está sem entender.

O Eduardo durante todo esse tempo ouviu em silencio e, por fim, quase sussurrando falou:

– És um bom filho da puta. Acabaste com duas das mais gratas fantasias que alimentava desde aqueles tempos. A da freira e a da Mariá.

E as reminiscências continuaram vagando alheias ao burburinho da cidade em construção, ou melhor: reconstrução. O progresso chegara como uma avalanche, uma enxurrada de algum dique que se houvesse rompido sem dar tempo de avisar aos moradores a jusante. Isso era toda a angústia do Eduardo. Acho que foi ele quem primeiro cunhou o termo desconstrução. Não, no sentido da interpretação filosófica de Jaques Derrida, mas no de remexer estruturalmente no que está pronto e harmônico sem se importar com o resultado final.

De uma certa maneira, fiquei impressionado com a erudição autodidata do amigo. Decididamente ele também não era mais o mesmo. Mudara, no meu conceito, para muito melhor. Eu também mudei. Na ótica dele e, desgraçadamente na minha também, para pior.

Caminhamos, agora debaixo de sol de rachar, mais duas quadras e atravessamos a praça da matriz em direção à beira do rio. Sentamos bem no meio da praça em um banco de concreto.

– Lembras do coreto?

– Estava pensando exatamente nele. Falei baixinho.

– Acho que um vendaval de incultura, de obscurantismo, varreu o país tangido pela prepotência fardada que nos impuseram por todos esses anos. Falou o Eduardo de novo com aquele semblante sombrio que me deixava sem graça.

– Estás prolongando por demais tua amargura. Diria até que a estás alimentando. Por vezes essa postura nos embota a mente, o humor, o viver. A vida há que ser embalada pelo bom, pelo belo, pelo bem.  Não que esqueçamos que existem ou existiram o mal, o feio e o mau. Mas essa lembrança não pode servir de mote para a amargura presente ou pregação e culto ao pessimismo endêmico.

– E dá para ser otimista?

– A velha Francisquinha dizia ao meu pai: “em longo prazo pode até ser que o pessimista tenha razão, mas o otimista se diverte mais no caminho”.

– Filosofia de almanaque, barata. Nunca te aprofundaste mesmo em nenhum assunto. Sempre foste um especialista em generalidades.

– Voltando ao coreto. Lembras-te das retretas?

– Ninguém chamava retreta.

– Sim, porra, mas esse é o nome. Hoje tu estás um saco. Se me lembro bem tinha o Chiquito na bateria, o irmão Fernandes, o Edson no clarinete, o Chiquinho no saxofone e não sei quem mais.

De repente o Eduardo entrou em sintonia.

– Lembras da sacanagem que a gente fazia no arraial? ficávamos em frente aos músicos que tocavam instrumentos de sopro, tuba, flauta, sax, trombone, trompete, clarinete, chupando limão. Os caras salivavam tanto que não saía o som. Era uma cuspideira infernal. O cabo Dorneles, depois de alguns dias, já ficava de olho em nós para pegar no flagra. Quando a gente chegava ele ia logo revistando. Um por um, atrás de limão. Não precisava mais. Bastava a mímica de chupar limão ou mesmo mostrar a língua e começava a salivação. Quem foi que inventou essa merda?

– Sei lá, acho que foi o Dimas Soares.

– Eduardo, por que não casaste? Porra, cara, que eu saiba, nem ficaste noivo, e Altamira sempre foi pródiga em mulher bonita.

– Não sei, acho que pelo mesmo motivo teu. Não posso me queixar de falta de oportunidade, quando vocês debandavam de volta a Belém, no fim das férias, isso aqui ficava um marasmo só e, sem o grosso da concorrência, o pasto era só nosso, dos que ficavam, pensávamos, mas logo caíamos na real. Primeiro, porque ia também a nata dos pitéus. As filhas do seu Alberto Soares, Marina, Maria Célia, Marli, a Celeste dos olhos de mar. As filhas do Seu Carlos Soares, Maria Altamira, Terezinha, que Zé do Mané Paulo chamava as Araújos, a Maxi do seu Charone, um monumento, banquete para trezentos talheres, a Lelena, falsa magra do Guimarino, as Uchoa, Marli e fulana, as Pedrosas, as filhas do Otávio Torres, mesmo com a brabeza dos irmãos Tavico e Walter. A Gláucia do seu Meirelles, um camafeu. A Eunice da D. Querida.

– Nesse teu inventário, não esquece as tuas irmãs, Altamira e Nadia.

– Não interrompe, porra, está passando um filme na minha cabeça, a Ceucí filha do Barba de Arame, as filhas do Maninho, a Mana, um doce, a Edinaid, a Amélia, tua irmã temporã, tuas primas, a Marluce, a Roxinha, a Marilu, o pessoal de Vitória.

– Sai dessa, as filhas do Áureo, do Frizan, o pessoal de Vitória, Tabosa, Alvarez, Rebelo, não valem, era tudo fedelha, fedendo a mijo.

– É mesmo, viste o mulherão em que se transformou a Martinha de Zé Rebelo, os olhos dela parecem que foram copiados do verde do Xingu.

– Pode parar por aí. O busilis é saber por que não casaste. Todo mundo se deu bem. Dizia-se que o homem que chegasse solteiro em Altamira, não tinha jeito, ou era veado, ou saía casado.

– Pois é, cara, não tenho uma explicação plausível, lógica. A vida não traça roteiros. Às vezes pensamos que temos o controle, que fazemos nosso destino, aí, como diz o Chico Buarque, chega a roda viva e fode tudo.

– Eu que o diga, falei.

– Sabe, amigo, toda essa conversa de cerca Lourenço, além do gostoso que sempre são as reminiscências, é te dar subsídios para uma análise lúcida das transformações galopantes pelas quais está passando Altamira, aliás, todo o Pará e, talvez a Amazônia. Até porque, sei por saber, isso também está acontecendo em toda banda de baixo do Rio Amazonas. Logo, logo, a banda de cima também sucumbirá.

– Ih, cara, agora me deu medo. E eu que estava apenas pensando em uma crônica de costumes, gostosa, da qual fomos testemunhas e personagens, em vez de sair leve, lépido e faceiro, acabo com uma tonelada às costas. Pelo menos por enquanto, por favor, dá um tempo. Passa uma régua nesta última parte. Prometo que vamos voltar ao assunto.

***

…continua

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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