NEGA JURA – Capítulo II (8ª parte – fim do Capítulo II)

É importante ler antes:

MEMORIAL DA AMAZÔNIA – TRILOGIA

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (1ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (2ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (3ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (4ª parte)

O VÔO DA ANDORINHA – Capítulo II (5ª parte)

EDUARDO BESOURO – Capítulo II (6ª parte)

EDUARDO BESOURO – Capítulo II (7ª parte)

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Capítulo II

NEGA JURA

continuação da 7ª parte do C apítulo II

…é importante ler antes a 1ª, a 2ª,  a 3ª, 4ª, a 5ª,  6ª e a 7ª partes.

No meio de uma enorme nuvem de poeira vermelha chegavam os colonos. Os que vinham mais de perto, como do Maranhão, ou mesmo de Goiás, lotavam caminhões cobertos com toldo de zinco ou lona, e, os bancos, meras tábuas enfileiradas e presas, como dessem, no taipá, que é como se chamam as laterais das carrocerias de madeira, aquelas com dobradiças que se abrem para baixo a moda de portas, para facilitar a descarga. Outros havia que nem isso tinham.

Os flagelados se acomodavam com suas bagagens em cima da carga geral como podiam. Muitos eram trabalhadores errantes em busca de emprego sem qualificação nas frentes de trabalho. Alguns eram chamados de barrageiros. Ali não havia barragem, mas muita mata a derrubar. A maioria era de colonos em busca de assentamento na colonização planejada pelo governo. Estes vinham do Sul em ônibus fretados. Não raro oriundos de cooperativas agrícolas estabelecidas e consolidadas como a Cotrijuí do Rio Grande. Gente branca, loura, olhos de gato, gazos. Descendentes de italianos, alemães, polacos e outros que tais, experimentados no trato da terra. Outra cultura. Um choque de civilização, produção e produtividade, àquelas gentes ignorantes e indolentes.

O contato com os nativos e agricultores atrasados do norte e nordeste teria efeito multiplicador. Quando não, até por osmose ou miscigenação. Clarear e melhorar a raça.

Esses tinham prioridade nos assentamentos da colonização simétrica traçados nas pranchetas dos gabinetes de Brasília por quem nunca sequer havia sobrevoado a região. Quadrados, retângulos e losangos perfeitos. Ainda hoje é bonito de ver nas fotografias dos satélites. Qualquer pessoa. Basta acessar o “google earth” na Internet. É de graça. A grande estrada reta e os travessões também retos. Estes, perpendiculares ou oblíquos àquela, mas sempre paralelos entre si. Fossem riscados por uma criança, o pai orgulhoso diria:

– Esse menino tem futuro. Vai ser arquiteto.

De repente, deu certo e ele acabou traçando, como diz o Eduardo, “esta merda de projeto”. “Como se a natureza não conhecesse curvas. A Terra não fosse redonda, mas um imenso planisfério como na concepção medieval. As águas, os baixões, rios e igarapés, meros canais de irrigação traçados pelo esquadro do Supremo Arquiteto do Universo, como que por displicência, já que Ele, que é onisciente, houvesse cumulado uns lotes com dois, três, cursos d`água e outros tantos torrados”.

“As estradas, apenas as de penetração às áreas centrais, porque, as grandes vias, com um pouco de bom senso, dava para ver que já estavam prontas. Os rios”.

A crítica do Eduardo Besouro era no mínimo ferina. Nada escapava.

No início, quando os colonos chegavam, eram o gozo da população local. Todos iguais. Ruivos, literalmente. Da cabeça aos pés. Cabelo, sobrancelha, pestana, bigode e barba, se houvesse, roupa e tudo o mais. A poeira vermelha, como um talco, insidioso, permeava tudo. Não havia mala, sacola ou valise, por mais hermeticamente fechada que se supusesse imune, dias e dias ao ataque do tal pó “bruno avermelhado”, orgulho do Eduardo Besouro.

Em uma dessa levas, quase ninguém notou, por ruiva também, desembarcou uma negra. Juraci da Silva Lemanski. “Isso lá é nome de preto?”, tempos depois comentou o Zé Osmar. “Juraci vá lá, Silva, também, mas Lemanski é dose…”.

Juraci, muito magra, alta, esbelta, gazela, desceu acompanhada do marido, Guilherme Lemanski e, no colo, todo embrulhado, agasalhado como era possível, a filha recém nascida. Dois meses no máximo. Saltou amparada pelo motorista do INCRA. Esticou as pernas, enquanto o marido em meio a enorme burburinho tentava achar as tralhas, tão perdidas como pareciam estar as pessoas, ele inclusive.

O local do desembarque era um barracão sem paredes e coberto de palha. Alguém arranjou um lugar no único banco existente. Apenas uma tabua corrida na soleira, e tomava quase toda a frente do barraco. Não tinha encosto, e as pernas, barrotes toscos de madeira roliça, enterrados no chão de terra batida. De terra batida também era o chão daquele arremedo de estação rodoviária.

Juraci sentou-se, semblante resignado e determinado, ajeitou a criança no colo para amamentar. Seios pequenos, cobertos pudicamente com um cueiro também ruivo do pó da estrada.

Neste momento, Dona Waldice do Tonico que observava a chegada dos forasteiros, vendo aquela cena, aproximou-se com seu jeito de mãezona, e condoída disse:

– Meu Deus, minha filha, essa criança é muito verdinha, você vem de longe? Qual é a idade desse anjo?

– Rio grande do Sul. Respondeu resignada sem levantar a vista e arrematou. Cinqüenta dias.

Waldice levou a mão à boca num gesto de espanto. Determinada, dirigiu-se ao Dirceu, também gaúcho, de Canguçu encarregado do INCRA cedido pela CEPLAC.

– Para onde vocês estão levando estes pobres coitados?

– Para o travessão do 70. E temos que nos dar pressa, pois daqui pra frente é de caminhão. E mesmo assim se tudo der certo só vamos chegar à boca da noite. Se chover, temos que dormir na estrada em qualquer atoleiro. O alojamento daqui, não cabe mais ninguém. Está botando gente pelo ladrão. Isso é uma maldade que estão fazendo com os conterrâneos, mas fazer o que?

– Essa mulher com essa criança não vai! É um crime.

– Mas… ainda tentou argumentar o Dirceu. Waldice nem tomou conhecimento, e, dirigindo-se ao filho, determinou:

– Demétrio, vai pegar o jipe do Corró. Eles vão pra minha casa. O marido pode ir pra poder escolher o lote do assentamento.

A casa da Waldice era grande. Três ou quatro quartos, mas tinha, além do marido, Tonico, mais onze filhos. Fora alguns agregados.

Nesse meio tempo, Guilherme, marido de Juraci, acabara de tirar do bagageiro do ônibus, os poucos breguessos da família e, atento àquela prosa sobre seus destinos, separou alguma roupa para a mulher e uma trouxa com as tralhas da criança, inclusive o bolo de cueiros cheios de cocô e mijo que, acabrunhado envolvia nos lençóis e toalhas na vã tentativa de dissimular o odor que exalava. O resto, como pode, ele jogou na carroceria do caminhão. Nenhum dos dois pronunciou palavra.

Antes de subir pelo taipá traseiro, apenas trocou um olhar com a mulher. Mudo, carregado de todo o discurso do mundo. Olhar de ternura, amor e resignação. Não disse sequer que voltaria para buscá-los. Não era necessário. Waldice captou toda a emoção da cena. Engoliu o nó da garganta e fazendo das tripas coração com a voz embargada quebrou o enlevo.

– Vamos, minha filha, o jipe chegou, te avia. Pelo visto ainda temos que lavar muita roupa. Não te preocupes, no rio Xingu o que não falta é água e, em casa, o que não falta é cueiro. Como você se chama?

– Juraci. Jura. Nega Jura.

Ainda ficou um tempo olhando para o marido que também a fixava da traseira do caminhão, até que ambos, marido e caminhão foram tragados pela poeira vermelha, senhora de todos os destinos.

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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