A TURMA DO LIMBO – Capítulo III (1ª parte)

É importante ler antes:

MEMORIAL DA AMAZÔNIA – TRILOGIA

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA e EDUARDO BESOURO (Capítulo II  – completo)

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Capítulo III

TURMA DO LIMBO

O sol, a esta hora, estava de rachar. Pouca gente na rua. Apenas algum movimento para as bandas do cartório da Coló e nós ali no meio da praça que agora, depois da reforma, terminava em escadaria para a Rua da Frente. Nenhuma brisa soprava da beira do rio. Quem olhasse de longe devia estranhar aquele papo no banco de cimento. Nenhuma sombra sequer. Como se disse, nem gente. O hábito da sesta parece que se impôs também aos forasteiros.

– Estou morrendo de fome. Madrinha Benedita essa hora já deve estar uma fera. Falei quebrando o breve siêncio que se fez.

– Pensei que íamos comer no Tucunaré. Arrematou o Eduardo Besouro.

Diante de minha cara de espanto ele logo acrescentou:

– É o restaurante do Costa, teu sobrinho.

– Nem pensar. A Bené me mata, mas podemos antes dar uma parada por lá e encarar uma cerveja gelada.

– Aí é covardia. Já sei que depois vais tirar o cochilo regulamentar. E rindo ainda perguntou: será que a Nêga Bené descola uma rede pra mim também?

***

Acho que estava quebrado de cansaço. Não havia dormido quase nada na noite anterior. Faltara luz em Itaituba e, sem ar condicionado, ventilador que fosse, e sem mosquiteiro, os carapanãs não me deram sossego até quase a hora do avião.

Acordei, diz-que, do tal cochilo, mais de cinco da tarde. Mais com os psius da madrinha Benedita pedindo silêncio, do que com o conversê dos sacanas na calçada.

Estavam lá, além do Eduardo, o Dimas, o Sabá do Janga, o Zé do Mané Paulo, o Pissirica, o Salinzinho, o Nhôca, o Pedro do Pepito, o Afolemado, o Nêgo Chico e o Élio Miguêz contando presepada. Tinha ainda o Seu Coisa. Acho que ninguém mais sabia ou mesmo se perguntava por que o apelido do Astrogildo era Seu Coisa. Ao vê-lo comecei a rir.

Não sei por que, nos tempos da gandaia, o chamávamos, e ele gostava, de Cara de Buceta. Na frente dos mais velhos passou a ser Cara de Coisa Boa. Depois, Seu Coisa Boa. Ficou Seu Coisa. Elegeu-se vereador com esse nome.   Antes mesmo de me admirar com a rapidez da notícia da minha chegada, lembrei-me de que Altamira já tinha telefone.

– Vai dormir assim na puta-que-pariu. Não sei quem disse, mas era a saudação usual.

Estava de novo em casa e com minha turma. A turma do meio. Do limbo.

Todos maduros, pais de família, mas quando nos reuníamos, perecíamos um bando de meninos saindo do Grupo Escolar chutando lata, pedra e arrancando galho de mangueira, com a intenção de fazer exatamente nada, a não ser sacudir no ar como a chicotar um inimigo imaginário. Da tela do velho cinema do seu Meirelles vinha sempre a inspiração. Zorro ou Dom Chicote. Assim, descemos para a beira do rio, nessa época bastante seco.

A escadaria que dava acesso à praia era estreita, colada ao paredão de concreto, alto, uns cinco metros, do cais de arrimo da tal avenida que fizeram na Rua da Frente. Estreita, com corrimão só de um lado, de cimento cru, e só cabia um por vez.

Seguíamos em fila indiana. O Eduardo, que descia na minha frente, por um breve momento, olhou-me de soslaio. Nada comentou, mas naquele olhar havia toda a reprovação àquilo que chamava de monstrengo desnecessário e mesmo desrespeitoso. Agressão à “nossa” ladeira da beira do rio. Acho que ele aceitaria, no máximo, que se calçassem de pedra bruta, os degraus que se faziam, de enxada, no barro escorregadio, em tempo de chuva, e que desciam sinuosamente, em meio à grama, abrandando a ladeira íngreme. Talvez sonhasse com algum ajardinamento criativo com plantas nativas, próprias de terras alagáveis que resistem às cheias. Piranheira, sarão, seringueira, enfim, plantas de igapó. Talvez sonhasse com sensibilidade, o que é antônimo de ganância, lucro, ditadura. É, tudo isso e muito mais, havia naquele olhar de um átimo.

Sentamos no passadiço de um reboque adernado e escorado por troncos e pranchas, pronto para ser calafetado antes das águas do próximo inverno.

– Vamos lá, Deca. Alimenta o papo. Quais as novidades. Tuas viagens, farras, sacanagens, tudo. Podes mentir a vontade. Depois é nossa vez. Começou provocando o Pedro do Pepito.

– Ei, cara, estás doido? O mundo é o mesmo. As mesmas mazelas. Todos vocês estão cansos de saber. O muro de Berlim caiu, político roubando e botando banca.

– Antigamente, continuei, se dizia que a merda era a mesma, o que mudavam eram as moscas, agora é a mesma merda com as mesmas moscas, apenas, mais merda e muito mais mosca. Quanto ao que interessa, está todo mundo fodendo adoidado, desbragadamente. As mulheres, mais. Não sei se melhor, deve ser, pela prática, pois começam, sem nenhum compromisso, muito cedo. Faz tempo, na cidade, que cabaço não conhece pentelho e pentelho nunca viu cabaço.

– E tu pensas que por aqui é diferente? A TV globalizou os costumes, a moda, a violência e a devassidão. Gostei dessa de cabaço não conhecer pentelho. Falou o Dimas soares.

Quase atropelando, o Zé do Mané Paulo, devasso como ele só, arrematou em tom grave, fingindo seriedade e falar escorreito:

– Hás de convir que assim é muito melhor. No nosso tempo foder era na zona, ou para casar. Agora essa juventude não tem esse problema. E o pior é que aqui deu uma praga de veado que só vendo. Cada rapagão bonito, pintoso, atracando de popa. Não se faz mais homem como antigamente.

– Deixa de hipocrisia, seu sacana, estás esquecendo o Buzo, aquele índio gordo, que iniciou todos vocês?

– Tu também, filho da puta.

– Bem, vamos mudar de assunto. A opção sexual de cada um não vem ao caso, senão a gente corre o risco de descambar para o preconceito e isso me dá urticária, me tira do sério.

– Foi só tocar no Buzo que o Deca ficou cheio de dedos

– Mas sim, caralho, e as novidades? Voltou à carga o Pedro do Pepito.

– “Mas sim” não se diz pra homem, falei.

Todo mundo caiu na risada. Só o Sabá do Janga não entendeu e o Dimas Soares se prestou a, didaticamente, explicar:

– Mesmo na zona do meretrício, com a puta mais ratuína, tinha-se que ser cavalheiro. Não se falava em michê, em dinheiro pela transa. Apenas, no final, já vestido, na hora de sair, fazia-se o gesto de puxar a carteira do bolso de trás da calça e, com muito jeito, dizia-se: “mas sim” e ela, invariavelmente, fingindo displicência, como se houvesse feito por amor, “deixa qualquer coisa aí em cima do toalete”.

– Cara, é mesmo, arrematou o Sabá.

– Ta bom, mas vamos ao papo que interessa: o que tu achas dessa coisa toda de Transamazônica, da nossa Altamira fervendo de progresso e grana? As opiniões aqui estão divididas. Vamos lá, alimenta.

Penso ter notado um quê de apreensão no semblante do Eduardo Besouro, mesmo olhando para o chão, como estava.

Ainda tentei tergiversar. Dizer que era muito cedo para uma análise mais profunda, quando fui interrompido pelo Pissirica.

– Não enrola, ninguém aqui tem saco para análise profunda, porra nenhuma. Gostaste ou não gostaste, essa merda é do bem ou do mal, tem ou não tem futuro?

Por um momento tive vontade de gritar todo o entusiasmo, orgulho mesmo, que sentia por tudo o que vira desde que saí de Itaituba ainda na manhã daquele mesmo dia. Os campos, o gado, os caminhões de madeira, as máquinas abrindo estrada interminável, antecipando em gerações o progresso e o isolamento da nossa terra. E tinham pressa. Castanheiras, jatobás, paus d’arco, pequiazeiros, baixões, várzeas, grotas, grotões, igarapés, rios, tudo sucumbia ante a força maior dos bulldozers. Avassaladora. Sem sutilezas. Blitz krieg. Afinal, sempre sonhamos com isso.

De repente, pelo menos para alguns de nós, sentíamo-nos como cachorro de roça que sai latindo atrás do caminhão e, quando o alcança e o carro para, não sabe o que fazer. Senti uma tremenda vergonha por não ser contra. Vergonha, também, não sei porquê, agora me dava conta, da fragilidade de ser a favor. Vergonha do Eduardo, vergonha de mim. A vontade que tinha era de sumir, me dar um tempo. Alguém tinha que me ter avisado daquele papo. Ter-me-ia preparado, ou pelo menos conduzido a conversa em outro sentido. Havia tanta coisa para falar, lembrar, contar, saber.

Durante todo esse tempo em que estive ausente, proferi palestras, participei de debates, entrevistas em rádio e televisão e sempre me saí bem, pelo menos inteligentemente. Eu acho. Agora, não. Agora era a hora da verdade. Ali, na minha frente, não estavam cliente, platéia, radio-ouvinte, telespectador para influenciar. Vender, o que de melhor eu sabia fazer. Caveat emperor. Ali, repito, havia apenas amigos, simples, mas inteligentes, e eram personagens do tema. Era, ao fim e ao cabo, a vida de cada um e, principalmente de Altamira que idolatrávamos. Sempre dizíamos, orgulhosos, que tínhamos origem. Não aquela ligada a pedigree, posses, herdades, mas a origem comum sempre foi o Xingu, como fado de caruana. Isso era tácito, não discutido ou pactuado, apenas era assim, como se fôssemos donos do rio, e ao mesmo tempo seus súditos. Acontecesse o que acontecesse no futuro, aquele de que fala Kalil Gibran, onde viverão nossos filhos e netos, e que não nos é dado sequer imaginar, o Xingu estaria lá. Perene. Eterno. Liame de seus filhos-vassalos-donos.

***

Minhas infância e juventude sempre foram um híbrido de menino e rapaz de cidade e caboclo do mato. Dos seringais. Com Altamira de permeio que não era nem uma coisa nem outra. Afora as pessoas que a utilizavam como estação de passagem ou abastecimento, indo para aos seringais, ou voltando no rumo de Belém, como o último reduto entre a civilização e mata sem fim, havia os moradores permanentes. Cuidavam do funcionamento da cidade. Cidade pequena, mas com banco, correios, prefeitura, serviço de saúde (quase sempre sem médico, mas com atendimento preventivo eficiente herdado dos americanos), coletoria, porto, comércio e serviços, fora a insipiente colônia agrícola periférica. Essa moçada, como eu dizia, vivia no limbo. Não tinham a menor intimidade com a mata nem com a cidade. Eram peixe fora d’água na cidade grande e, não conheciam uma estrada de seringa. Nunca haviam subido, durante semanas, rios secos empurrando ou puxando embarcação nas cachoeiras. Nunca haviam encarado um “descarreto”, isto é, transportar nas costas toda a mercadoria do reboque nas pedras quentes, sem tênis, é claro, que nos primeiros tempos soltava o couro da planta do pé, até que outro nascesse, grosso, curtido como solado. Por vezes, cinco ou seis descarretos na mesma viagem, que não raro, durava mais de dez dias. E pium, muito pium durante o dia e, à noite, os carapanãs atacavam como se jogassem em nosso rosto punhados de areia, a sugar nosso sangue. Até que a pele da cara, das costas, dos braços, também virassem couro curtido. Aí, já se estava manso. Nunca haviam dormido em rancho no mato ou em ponta de ilha debaixo de um temporal de vento e chuva que, como se dizia por lá, “cada pingo enchia um pote”. O Dilúvio deve ter começado assim. Rain forrest. Eu, sim! Isso tudo e muito mais, mercê da criação do velho Anfrísio.

Embora crianças levadas, jovens sacanas aprontando todas, mesmo nas férias, eram civilizadas. Tinham a hora das refeições, da sesta, do banho com sabonete no banheiro do fundo do quintal, toalha limpa e roupa de brincar de roda na calçada. Missa, novena, catecismo. Banho no rio, só nos finais de semana. Com a presença de um adulto responsável. Isso, no fundo, era ótimo, pois a sacanagem estava, em justamente transgredir essas normas: fugir para encontrar a turma na hora da sesta para a capoeira do Jaburu, passarinhar, tomar banho no igarapé do Ambé e, de vez em quando, comer alguma cabra distraída.          Quando se conseguia dinheiro, alguns trocados, tostões, o bom mesmo era alugar a égua do seu Severo.

Trinta, cinqüenta meninos.

– Seu Severo, a gente quer alugar um cavalo. Vamo brincá de “camoni bói” lá no Jaburu.

– Cavalo, nada, seus cornos. Vocês querem é minha égua. Pensam que eu sou leso? Mas tem uma coisa, se ela aparecer barriguda, vocês vão ter que sustentar o potro. Falava com ar maroto enquanto conferia as moedas. Não havia preço. Era o que se conseguisse. Era isso, ou nada. Ninguém alugava cavalo por lá, só nós. Não se sabe quem inventou essa putaria. Se nossos pais ou o padre descobrissem, estaríamos fritos. Pecado mortal. Nem imagino a penitência. Nem quantas dúzias de bolo de palmatória.

E lá íamos nós atravessando toda a extensão da quarta rua, a rua do seu Besouro. Meia dúzia de meninos montados na égua, uns quatro puxando e trinta tangendo.

A égua era mansa e já estava acostumada. Se deixasse, ela ia sozinha para o barranco da capoeira do Jaburu, entre os igarapés Altamira e Ambé.

Quando chegava lá, já tinha menino esperando, na fila, para traçar a égua. Ela, dócil, mal chegava e já se posicionava com o traseiro no lugar de sempre. E já ia levantando o rabo de banda deixando o xibiu a mostra. Quem acabasse de comer a besta, e esse acabar era determinado em segundos pela gritaria da turma: tá bom. Já chega! Quem terminasse, como ia dizendo, ia segurar o cabresto para o próximo e, depois, de novo para o rabo da cobrinha.

Era coisa de menino mesmo. Nenhum nunca tinha tido um orgasmo sequer. Era pura sacanagem. Acho até que e hediondez do que hoje é considerada a zoofilia, devia ser revista, considerar, como atenuante, a iniciação sexual da meninada do interior.

Não sei como ou quando acabou. Dizem, eu não estava lá, que foi com o primeiro orgasmo. Teria acontecido com o Eduardo. De repente ele começou a rir e chorar ao mesmo tempo, assustando todos. E, aí, acabou a brincadeira.

Esse era o perfil da corriola de Altamira. Do limbo. Nem da mata, nem da cidade grande. Quanto a mim, por meu lado, era um híbrido com tripla personalidade. Perpassando como igual, essa turma, do Gropo Escolar de Altamira, mas também a turma da caçada, do rio, dos barqueiros, das cachoeiras, da mata, do seringal, e as de Belém e do Rio de Janeiro. Belém dos colégios Suíço-Brasileiro, do Ipiranga, do Salesiano, do Marista, do Barão do Rio Branco. Da Festa de Nazaré, dos cinemas, Poeira, Iracema, Moderno, Olympia. Da turma do Largo de Nazaré, do tubo da Quatorze. Miguel Cohen, Eduardo Câmara (Dudu), Luiz Guilherme Chaves, Paulinho Pontes Souza, Zuzu e Zezé.

Estudar que é bom, nem pensar. Péssimo aluno. Em Altamira ou em Belém. Acho que era discriminado pelos professores e colegas dos colégios primários mais bem postos na sociedade da capital.

Não me lembro de ter feito nenhum amigo de fé ali naquela época. Caboclo rabugento e, desde cedo, brigão, não era bem o perfil das professoras alemãs do Suíço e do Ipiranga e, além de tudo, burro. Nada de aprender a ler e escrever. Só sabia fazer conta. E de cabeça. Não conseguia organizar as parcelas na soma e diminuição e os fatores na multiplicação. Escrevia os números em linha e dava direto o resultado. As professoras alemãs não aceitavam. Diziam que eu colava o resultado. Chorava de raiva.

Aprendi a fazer conta assim, com meu pai, ele mesmo um semi-analfabeto, que teria inventado o método, creio por pura necessidade de sobrevivência. Lembrei-me de velho ditado de Altamira que depois reencontrei em Sagarana. “O sapo pula, não é de boniteza, mas por precisão”. Multiplicar por cinco era o mesmo que achar a metade, ou dividir por dois. Por vinte e cinco era só tirar a metade dessa outra metade. Por nove bastava acrescentar um zero, ou andar com a vírgula e tirar o número. E por aí ia, com mais um sem número de macetes. Nunca consegui convencer ninguém. Nem professora, nem colega, mas para mim era fácil. Natural. Só fui desemburrar quando, aos dez anos, minha mãe mandou-me estudar no Rio de Janeiro. Diz-que para prestar o concurso de admissão ao Colégio Militar, na Tijuca. Como não podia deixar de ser, não deu certo, mas um ano inteiro na casa da Mãe Cora, uma professora capixaba, sogra da minha irmã Sophia, fez a diferença. Esse ano foi toda a minha base para os cursos ginasial e científico e para o vestibular à universidade. Desembarquei no Rio aos dez anos de idade! É bem verdade que nessa época também comecei a ler. Por influência do Arildo, filho da Mãe Cora, então com dezessete anos, um intelectual comunista, tuberculoso. Passei a ler qualquer coisa que me caísse às mãos. Era compulsivo. E foi só.

A parte da infância que passei em Belém, no Largo de Nazaré foi muito boa. Como disse, cinema aos domingos, sorvete, que em Altamira não havia, quintais, muitos quintais, grandes, toda casa tinha um, e com fruteiras. Manga, bacupari, genipapo, cajarana, teperebá, goiaba. Os capinzais das vacarias das baixadas que começavam logo ali atrás da basílica. E a praça. Quatro coretos de ferro, nos cantos, e um maior, com colunas grossas, no centro. E tinham porões com portas de grade de ferro. Lúgubres, misteriosos, mas que só servia para guardar as ferramentas do pessoal da limpeza da prefeitura. Isso, só soube muito depois.

A praça não tinha jardim nem grama. Terra batida. E nem podia haver, pois assim estava preparada para a montagem do arraial que todo ano se armava na festa de Nazaré. O cavalinho de massa movido a vapor, caldeira a lenha, o carrossel, as barracas de comidas típicas, os bares, muitos bares, principalmente o Soberano, a princesa Monga que se transformava em gorila, os balões a gás, os cata-ventos de cartolina e roque-roques, os brinquedos de miriti, do que não achava nenhuma graça: as canoas eram fracas, não agüentavam carga de pedra na enxurrada da vala do meio fio em dias de chuva. Todo curso de água que visse e tivesse corredeira com obstáculos transportava-me imediatamente, na imaginação, aos rios Xingu e Iriri. Chegava até a identificar trechos de cachoeiras conhecidas. Jaboti, Caindão, Escalaço, Julião.

Como compartilhar isso com a turma de Belém?

Decididamente, eu era um estranho no ninho.

O chão de terra batida da praça era precioso. Fazia falta por quase um mês da chamada quadra nazarena. Era a arena perfeita para jogar peteca. Bola de gude no Rio, cabeçolinha no Ceará. No Pará, peteca.

A festa em si durava apenas quinze dias. A montagem e desmontagem outros tantos. As regras da peteca eram iguais em Altamira e Belém. A única diferença era na jogada. Em Altamira, o sistema era o “fico”. Jogava-se com a mão parada onde a peteca caísse, em Belém o sistema era a “fussega”. Podia-se estender a mão até onde o braço alcançasse. No mais, era tudo igual. As regras eram combinadas antes. A mais comum era o jogo duro: bate-fica-escapole-deixa, nada e nem salvo, fedeu, morreu (fedeu era quando a peteca ficava dentro do triângulo), nada na minha, tudo na tua, quero limpo, pri, fona, marrai, téo (peteca nova valia dois ou mais téos, isto é, por duas ou mais petecas velhas), havia umas coloridas, rajadas, leitosas chamadas colombianas que eram o sonho de todo menino, não só por caras, mas pela raridade. Mil histórias se contavam em volta das petecas colombianas. Mais adiante contarei algumas.

Histórias de férias para a meninada de Belém resumiam-se ao balneáreo de Mosqueiro que se ia de navio em duas horas de viagem. Belas praias de rio. Fui poucas vezes na infância. Ouvia deles mil histórias de Mosqueiro. Ótimas e banais. Sempre as mesmas. Nunca comentava minhas próprias férias no Xingu. Quer em Altamira, quer no seringal. Ninguém iria entender.

Já rapaz, depois da provação do internato-reclusão no colégio Salesiano, onde, fora as férias, só se saía duas vezes por ano, no domingo de páscoa, depois da procissão, e no dia do Círio de Nazaré. Tinha-se que voltar no mesmo dia até às seis da tarde. Na entrada a revista era rigorosa para saber se não se traziam gibis, livros, ou o que fosse diferente do recomendado por São João Bosco e pelo beato Domingos Sávio. Andei perdendo uns dois ou três bons livros. O padre conselheiro, pela minha idade, apenas balançava a cabeça. Achava que estava de sacanagem com ele. Não podia ter turma, nem conversar com mais de um colega. Mais de dois era “rodinha”, castigo na certa. Ainda xucro, libertário, não fui domado. Expulso, aos doze anos fui, também interno, para o Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré. Era o Paraíso. Podia sair todo final de semana.  Ficar fora de sábado até segunda.

Aí, sim. Amigos, turma, cinema, namoradas, sacanagem. Fui apresentado à zona do meretrício. Sem remorsos.

Continuava péssimo aluno, mas leitor compulsivo. Um ano inteiro sem estudar, aos dezesseis anos, por conta de uma tuberculose, a primeira, com uma esticada para recuperação em um convento transformado em casa de repouso, para isso mesmo, no Ceará, na Serra do Estevão. Era só dormir e ler. Nem fazer indecência podia, por motivos óbvios.

Foi por esse tempo, quando voltei do Ceará que entrei para o Partido Comunista. Política estudantil secundarista, vestibular, faculdade de economia, UNE, UAP, DAP/CPC e otras cositas mas. Nessas alturas, corriola. Gente arejada que curtia, sem acreditar nas histórias do Xingu e, eles mesmos protagonizavam histórias outras da cidade que a turma de Altamira achava no mínimo inverossímil.

Morei uns tempos na Casa do Estudante Universitário na Dezesseis de Novembro. Também lá se fazia política. Quarenta machos a maioria porra louca. A moda era uma droga chamada de pervitin, que deixava a moçada acesa, diz-que para estudar. Eram umas pílulas minúsculas, mas com efeito devastador. Ao marinheiro de primeira viagem bastava um comprimido e passava dois dias sem dormir. Depois viciava e não mais fazia efeito. Tinha que ser injetável. Alguns colegas chegavam a tomar mais de dez ampolas na veia por dia.

Naqueles tempos, comunista não se drogava, não era corrupto e não corrompia. Ainda bem que sexo estava liberado, principalmente com as camaradas. Às vezes podia confraternizar com simpatizantes ou mesmo com a reação. Freqüentar puteiros era quase heresia. Nesta parte eu era um herege. Não me lembro de haver transado com uma camarada sequer. Discutir mais valia na cama só podia ser o maior baixa tesão do mundo. Nem a minha corriola era do Partido, nem comunista sequer. Claro que não podiam ser fascistas.

Acredito que por causa da evolução, da maturidade política daquela turma da Casa do Estudante ninguém continuou se drogando. Pelo menos que eu saiba.

O grande exemplo era a atitude do camarada Mao Tse Tung, que durante a Grande Marcha, instado pelos companheiros, sem contestar, jogou fora seu cachimbo de ópio, em que era viciado desde a infância. Naqueles tempos era normal, até no Ocidente, as casas de ópio.

Prestei concurso para o Banco de Crédito da Amazônia. Passei. Deixei a faculdade com medo da nana da ditadura e, como não consegui emprego, virei vendedor.

Todo mundo casou, menos eu e o Eduardo. Tanto a turma de Belém quanto a de Altamira. A do seringal, com a derrocada da borracha e da castanha, esfacelou-se. Baixou, isto é, desceu o rio e juntou-se à de Altamira. Globalizou. Era inexorável.

Nos tempos duros da ditadura, fui demitido do Banco, como não podia deixar de ser.

Mesmo de longe foi com um misto de apreensão e euforia, que, em pleno rigor do regime militar, ouvi as primeiras notícias da construção da Transamazônica. E o marco inicial seria, como foi, exatamente a cidade de Altamira.

Euforia, porque era a realização de um velho sonho desde a fracassada tentativa da estrada para Santarém, de triste memória. Apreensão porque era uma iniciativa da ditadura. Hermética, dona de todas as verdades. Corrupta e refém das grandes empreiteiras. Mas para o bem ou para o mal Altamira ia sair do isolamento. Otimista e romântico inveterado pensei: depois é mais fácil consertar.

Agora, eu que pensei que sabia todas as respostas, começava a balançar.

À primeira vista, empolgava-me com o que vira do avião. Era muito mais do que havia podido sonhar. Uma revolução em tempo recorde. Tamanha transformação costumava acontecer em séculos. Na Europa e na Ásia, em milênios.

De repente Altamira ganhou colégios, com Kumon e tudo, seja lá o que isso queira dizer, universidade, hospitais, um cais de arrimo, estações de TV, rádios, batalhão do Exército, da Polícia Militar, aeroporto decente, avenidas pavimentadas, piscinas mil, restaurantes, iate clube de bacana e até puteiro de luxo. Uns chamam-se boates outros discoteques.

Balancei porque caiu a ficha. Senti que a minha turma estava falando de outra coisa. Outros valores.

continua

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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Uma resposta para A TURMA DO LIMBO – Capítulo III (1ª parte)

  1. tadeu disse:

    André , uma delícia de ler , mesmo que as vezes nem as palavras eu conheça mas de certa maneira sei todas pois o encadeamento gostoso do texto nos explica tudo.
    O mais engraçado de tudo é ver referencia as minhas tias e provavelmente a minha mãe antes de ela se mudar pro Rio ; não , não é pelas putas rsrsrsrs e sim pelas professoras alemãs do Suiço onde tive a sorte de nunca ter estudado pois puxei a rebeldia do meu pai cearense escroto e provavelmente teria sido a vergonha da minha tia-avó Anita Mueller.
    Abraços
    Tadeu Schumann

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