O SAQUEIRO DO VER-O-PESO

Nunca descobri de onde ele saía. Bastava encostar na pedra do talho do peixe para ele aparecer. Risonho, gazo, sarará. Eu era o seu freguês e ele meu saqueiro. Patrão tô aqui. Quer que carregue? Sabia o modelo e a cor do meu carro e onde costumava estacionar. Sempre perguntava pelo meu filho.

Precavido carregava dois tipos de saco. Um, de papel de saco de cimento que ele mesmo colava de madrugada, envolto em outro, de plástico. Este um vendia por cinqüenta centavos. Outro, mais bem acabado e resistente, a modo sacola com alça, costurado, de saca de ração, um real.

Mundoca! ouvi alguém chamar. Nunca mais me esqueci. Há mais de seis anos que Mundoca é meu saqueiro. Não sei exatamente quantos anos tinha aquele tempo. Se doze aparentava oito. Já risonho, olho miúdo, transparente, apertado quando ria.

– Quer que carregue, patrão?

Queria. Deixava que carregasse uma alça da sacola, embora pela minha estatura sustentasse quase todo o peso. Só para que ganhasse mais uns trocados.

Havia, e ainda há, muitos meninos e meninas vendendo de um tudo no Ver-o-Peso. Saco e sacola, cheiro-verde, limão casca fina, chicória, alfavaca, enfim, tempero de peixe, mas tem que caber na mão.

De uns tempos para cá notei que uma menina sempre acompanhava Mundoca. Magricela, comprida, cor de coca-cola. Os olhos, dois caroços de açaí maduros. Cabelos negros lisos como talas. Recatada, um paço atrás, equilibrando cinco limões em cada mão. Os dez por um real. Nunca me oferecia, mas eu sempre comprava. Nessas horas, Mundoca me olhava amiudando os olhos de satisfação.

Custou a cair a ficha. Depois, reparei que o que os dois ganhavam ia para um caixa único, assim como quem traça um intento comum.

Romântico incorrigível, sem esboçar qualquer intenção de interferir, curti, enternecido, o desenrolar dos acontecimentos.

A barriga começou a crescer e, de esguelha, várias vezes, vi o Mundoca acariciando aquele ventre de menina.

Um dia, sábado, cheguei tarde, por volta das onze horas, maré alta de março. Daquelas que alagam tudo. Mercado, lojas e ruas. Só deu tempo de pegar o cofo de caranguejo que havia encomendado ao Marapanim e sair quase correndo chapinhando rumo ao carro estacionado mais acima.

Os dois, ela já beirando o oitavo mês, rindo e fazendo gozação do meu sapato novo encharcado, carregavam aquela espécie de cesto mal ajambrado. Por fim, chegamos ao carro. Estafado, acendi um cigarro e ele puxou assunto:

– Seu filho chegou bem mais cedo do que o senhor. Antes da maré alta. Ele sempre vem às sextas.

Eu não sabia que meu filho também fora mundiado pelo Ver-o-Peso.

– Isso é muito bom, disse, passando a mão na barriga dela –  pelo menos ele, ou ela, quando crescer já tem mais um freguês no mercado.

Os dois sorriam com os olhos. Sem dizer palavra, fui andando para a beira do grande rio.

Pus os óculos escuros para que não notassem minhas lágrimas.

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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6 respostas para O SAQUEIRO DO VER-O-PESO

  1. charles de paula disse:

    (massificando)

  2. charles de paula disse:

    Sem dúvida resgartar a realidade amazônica, simples, verdadeira e singela, faz de vc um grande defensor do homem amazônida, cultuando seus valores e recriando conceitos e massicando o cotidiano caboclo. Parabéns, vc consegue tirar lágrimas de um militar por acidente de percurso e um escritor frustrado por falta de coragem.

  3. Céli disse:

    A emoção tomou conta, um pouco de tristeza, um pouco de ironia, um pouco de indignação, uma pitada de alegria. Mas as coisas não vão deixar de ser assim, essa constante fluidez de vidas… é ver-o-peso é ver-a-vida.

    • andre costa nunes disse:

      Querida Céli,

      Obrigado pela honra que nos dás comparecendo a este blog.
      Como deves ter notado temos posições “firmes” politica, ideológica, filosófica etc.. Todas perfeitamente mutáveis ao sabor do convencimento democrático. Do embate de idéias. Coisa de livre pensador.
      Não temos maiores ilusões que um blog de literatura. Maior ou menor, mas acima de tudo romântico inveterado.

      Mais uma vez,

      Obrigado,

      andre costa nunes

  4. Pedro Nelito disse:

    O Mundoca…
    Fiquei emocionado, meu amigo.
    abraços

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