1964 – UM RELATO SUBVERSIVO – Capítulo III (2ª parte)

É importante ler antes:

MEMORIAL DA AMAZÔNIA – TRILOGIA

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA e EDUARDO BESOURO (Capítulo II  – completo)

A TURMA DO LIMBO – Capítulo III (1ª parte)

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Capítulo III

1.964 – UM RELATO SUBVERSIVO

…continuação da 1ª parte do C apítulo III

– Não é justo o que vocês estão fazendo comigo. Nunca foi assim. Nunca tive a primazia nas discussões. Quando vocês me deixavam falar primeiro era só pra sacanear depois. Tudo combinado, de caso pensado. Pois bem, eu é que tenho um mundo de perguntas a fazer. Não se trata mais de putaria, leviandade. O que está acontecendo aqui é da maior importância para Altamira, para a Amazônia e para o Brasil.

Essas coisas só se sabem como começam e, às vezes, o resultado final. Progresso, riqueza, desenvolvimento, energia, indústria, universidades, novos horizontes para as gerações futuras. É conhecido, o antes, e previsível o depois, como um moinho. O grão bruto antes e o pão depois. Tudo o que fica no meio é esmagado. Vira pó, farinha. E é essa farinha que vai permitir que haja o pão, o bolo, o espaguete, o brioche. Diante da iguaria quem se lembra da espiga, ou mesmo do grão? Houve um tempo em que cheguei a pensar que havia pé de macarrão. Já adulto foi que descobri que maisena era feita de milho. Não que aceite a teoria da necessidade de quebrar os ovos para fazer omelete, mas tem sido assim em todo o Mundo. Com ou sem violência.

O marasmo, a inércia, até por definição, apenas conduzem ao atraso. Lutar pela permanência do status quo ante é remar contra a maré. O máximo que resta é estarmos preparados para conduzir o processo e amenizar os impactos. Administrar as contradições. Proponho uma postura cartesiana: dividir o objeto do estudo para melhor compreensão. Partir do mais simples para o mais complexo

– Ora não fode Herodes porra! Meu ouvido não é penico, interrompeu impaciente o Helio Miguez. Não é para ouvir essa merda de discurso acadêmico que estamos aqui onde sempre estivemos, desde meninos, na beira do Xingu. Pra ver a banda passar, ninguém precisa da tua opinião. Eu vou tirar o time. Ajudar a Mundica a fazer vinagre de manga dá mais futuro.

Ele, quando estava com raiva, chamava a mãe de Mundica.

– Demora aí, Helio. Foi mal. Passa a régua. Falei merda.

Inexplicavelmente o Eduardo Besouro veio em meu socorro.

– Deca, desde o início, quando começaste a falar bonito, latim e René Descartes, que sacamos que estavas em bundas, querendo ganhar tempo. Só o Helio Miguêz pegou corda. Nem notaste nossa cara de gozação. O Dimas fez menção de contestar, mas dei-lhe um beliscão. Queríamos ver até onde ias chegar. Esse discurso é mais velho de que a posição de cagar. Todo mundo sabe que não é isso que tu pensas. Podes até te empolgar como muitos de nós, mas no fundo, o velho Xingu fala mais alto. Vamos dar um tempo, mudar de assunto. Por enquanto.

– É isso aí, concordou o Afolemado. Pra começar, conta a cagada de como a revolução de sessenta e quatro te apanhou.

– Revolução o caralho. Golpe! Retrucou o Eduardo que não deixava passar nada.

– Tá bom, porra, golpe, mas conta o que sucedeu no dia exato. Antes, agente sabe, depois também, mas está faltando alguma coisa, inclusive da tua passagem por aqui. Não ficou claro, pelo menos para mim, o que aconteceu em Santarém, se foste preso, pegaste porrada, te cagaste, pediste penico. Alimenta, depois voltamos para a Transamazônica, não pensa que vais sair dessa de flosô.

– Vamos lá, mas porra, vê se não interrompe.

– Então não conta. Sem interromper, sem sacanear não tem a menor graça. Estás muito mal acostumado. Ninguém aqui é teu aluno. Falou o Chico Preto.

– Não sou mais professor, aliás, nunca fui. Quebrava o galho para descolar algum.

– Conta, caralho, mas não enrola nem busca muito fundamento. Começa assim: primeiro de abril de mil novecentos e sessenta e quatro.

– Primeiro de abril é o mote perfeito. Podes mentir a vontade. Provocou o Eduardo.

Quis protestar, mas resolvi ignorar. De outra maneira, não seria minha corriola.

***

SANTARÉM

Acordei por volta das seis, seis e meia da manhã, já nem me lembro bem. Era dia dois de abril do ano de mil novecentos e sessenta e quatro. Do lado de fora da porta do meu quartinho acanhado conversavam dois ou três colegas do Banco de Crédito da Amazônia onde trabalhávamos. De um, lembro-me bem. Era o Licurgo Anchieta, vocês conhecem, filho da D. Vanjoca, irmão da Coló e da Lucimar.

Comecei depois de algum tempo em silêncio como para organizar a memória. A corriola, para minha surpresa, permaneceu atenta e também silente. Eu estava numa espécie de transe, olhar vago, perdido, fitando algum ponto perdido no meio do rio Xingu, entre nós e a ilha do Arapujá. Continuei, sem impostação, pompa ou circunstancia. Como se sussurrasse em voz alta.

– Estão procurando pelo André. A polícia militar e o pessoal do Tiro de Guerra estão varejando toda a cidade. Diz-que é ordem expressa de Belém. Alguém falou em voz baixa.

– Mas quando que vão achar, respondeu o Licurgo. Se eu conheço bem esse caboco, uma hora dessas já deve estar muito longe.

Desta vez eu bobeara. Dormi de touca. Soube do golpe militar na noite anterior logo depois da reunião no Ginásio Cristo Rei onde estava acontecendo um congresso de estudantes e eu estava proferindo uma palestra sobre cooperativismo. Resolvi passar pelo hotel. Seria só o tempo arrumar o indispensável, dar fim em documentos e papéis comprometedores e tomar rumo. Sumir do mapa. Sabia que ia sobrar para mim. De uma certa maneira, sempre soube que esse dia ia chegar. Os dirigentes do Partido tinham que ter um aparelho de segurança para quando essa hora chegasse. E tínhamos certeza que chegaria.

As coisas até que estavam correndo bem para o nosso lado. Quase na legalidade e quase no Poder, como dizia o camarada Prestes. Mas, no fundo, sabíamos que a reação não iria entregar a rapadura facilmente. No hotel arrumei a maleta e fui catar os tais documentos comprometedores. Só encontrei uns livrecos nacionalistas do Gondim da Fonseca, do Osni Duarte Pereira, de um pensador argentino que o Partido abominava, mas era um dos meus autores preferidos, chamado José Ingenieros, e um velho, grosso e inchado exemplar de O Capital que nunca conseguia acabar de ler, mas impressionava principalmente as colegas do movimento universitário. Nada de achar os tais documentos comprometedores.

Durante muito tempo imaginei como os faria desaparecer. Pela descarga do sanitário do hotel, nem pensar: vivia entupida. Jogar no rio seria o mesmo que entregar o ouro para o bandido, principalmente se fosse na hora da virada do remanso, quando o verde do Tapajós empurrava o amarelo do Amazonas, tomando conta de toda a orla de Santarém. A cidade inteira iria ver os papéis brancos contrastando com aquele mundo de água verde. Até que seria lindo, plástico, daria um bom ensaio fotográfico, mas eu iria em cana. Fui deixando para resolver depois. Nunca pensei em ser apanhado assim de calça na mão sem sequer um plano para destruir os documentos sigilosos do Partido. Foi aí que me dei conta de que eu não tinha, aliás, nunca tivera documento algum, nem aparelho de segurança e sequer era dirigente. O que eu era mesmo era um pretensioso. Quem iria ligar para mim? Em poucos meses me havia transmutado de universitário para bancário e sindicalista, mas, claro, sem deixar o movimento estudantil. Reassumiria tão logo voltasse à Belém e à Faculdade de Economia. Minha estada em Santarém seria curta, a serviço.

– Ei, cara, tu não estavas na militância revolucionária? Interrompeu o Afolemado. Correu o boato por aqui que estavas em Cuba, na China, sei lá onde, fazendo curso de guerrilha…

– Não interrompe, porra. Interveio o Eduardo. Continua.

Não tomei conhecimento, nem da interrupção, nem da ansiedade do Eduardo. Continuei como se fosse um depoimento. Disso entendia bem.

***

O Jinkings, que era um antigo funcionário do Banco de Crédito da Amazônia e presidente do CGT – Comando Geral dos Trabalhadores, uma semana antes, quando estive em Belém e disse que havia passado no concurso do Banco e estava trabalhando em Santarém, na hora nomeou-me delegado da CONTEC – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Crédito, filiado ao famigerado CGT, no Baixo Amazonas. Peguei o pião na unha. É bom lembrar que foi nomeação-de-boca em uma rápida passada pelo sindicato dos bancários, mas no Partido sempre foi assim, nunca houve esse tipo de expediente formal, sem esquecer que estávamos na ilegalidade. Dirigente mandou, está mandado. E ele era dirigente.

Eu nunca havia feito política sindical antes. Nem depois. O que eu era mesmo era universitário, fazia política estudantil desde secundarista junto à UECSP – União dos Estudantes dos Cursos Secundários do Pará. Nesse tempo fundáramos o NCN – Núcleo Cultural Nacionalista que, presidido por mim, promoveu, na Praça da República, a Primeira Feira do Livro do Pará. Reuníamo-nos em um barracão, no quintal da casa do Luís Alberto Penna de Carvalho. Por lá aparecia, além do Penna, o Pedro Galvão de Lima, o Luiz Moura (o Mourinha, nosso guru intelectual), o Harold Sadalla, o Pedro Lucena, Paulo Toscano, Ruy Souza Filho, José Maria Souza Filho, Nelito Pinto da Silva, Rui Amaral (Cutruca) e outros. Confesso que a grande afluência a essas reuniões devia-se, pelo menos em parte, ao delicioso lanche que Dona Janete, mãe do Luís, pelas mãos de fada da tia Olegária (Lelé),  mandava servir.

Minhas bases universitárias eram a Casa do Estudante, onde morei uns tempos, a Faculdade de Ciências Econômicas, a União Acadêmica Paraense, a Mocidade Trabalhista do PTB – Partido Trabalhista Brasileiro, que emprestava a legenda para nossos candidatos.

Quando não havia tarefa específica, a noite era esticada, começando o papo no Café Central, às vistas do Garcia ou do Maranhão, velhos garçons e cúmplices, depois o Bar do Parque, sob o desvelo do Bananeira, e o clipper de Nazaré para a discussão saideira e a média com pão e manteiga, já com o sol raiando.

– Eu logo vi que essa história da tua adesão ao PTB do Américo Silva tinha coisa. Este merda do Chico veio me contar decepcionado, mas continua, disse o Dimas, barrando o começo de protesto da corriola.

Lembrando-me dessas e de outras, ainda não me dera conta de que o mundo desabara.

Recostei-me na velha cama de solteiro para um breve descanso, até porque, na pacata e pachorrenta Santarém, afora as serestas da praia da Vera Paes e da Maria José (sempre adorei essas coisas santarenas de praia com nome de mulher), à noite, nada mais acontecia depois que fechava o bar Mascote, do Meschedes. Marquei touca, repito. Acordei tarde. Eu havia dormido. A repressão, não.

O Hotel Mocorongo até que era ajeitado. Ainda não era bem um hotel, mas era mais que uma pensão de interior. Um sobrado modernoso sobre o qual se improvisou um terceiro andar acho que de madeira para caber mais quatro ou cinco quartos. Todos com janelas para os fundos e porta para um corredor frontal, paralelo à rua e ao rio, de tal maneira que de lá de cima se podia ver quem entrava ou saía do hotel.

Nesta hora, o Licurgo ouviu o barulho no meu quarto e senti apreensão em sua voz.

– André, és tu?

– Claro, porra, e já ouvi os comentários de vocês, quer dizer que estão atrás de mim! Fui falando e saindo para o corredor com a maleta a tira-colo e arrastando um velho saco encauchado, contendo minha rede, mosquiteiro e cobertor, dos quais não me separava em minhas andanças pelo interior e que ainda estavam sujos da última viagem de serviço ao Arapixuna.

– Corre aqui, chamou alguém que não me lembro agora. Fomos todos para o parapeito da sacada e lá estava o jipe da Polícia Militar. Pronto. Chegara minha hora. O olhar consternado dos amigos dava bem a medida da gravidade da situação.

Ainda olhei pela janela dos fundos do quarto que se abria para o telhado do resto do casarão, talvez procurando infantilmente alguma rota de fuga cinematográfica. Permaneci sentado no saco encauchado com o olhar fixo na grade tosca que protegia a abertura do cimo da escada que levava ao alpendre-corredor onde estávamos. Ninguém falava e não sei quanto tempo isso durou. De repente ouvimos o roncar inconfundível do jipe lá em baixo. Precipitamo-nos para a janela a tempo de o ver levantando poeira no rumo da praça. Respirei fundo, despedi-me dos amigos e desci com meus bregueços. Já na portaria, pedi que encerrassem minha conta. Sem que eu perguntasse, o rapaz, que eventualmente fazia o papel de porteiro e atendente falou com a cabeça baixa procurando, nervoso, numa gaveta, os papéis com minhas notas de despesas:

Eles perguntaram se tinha aqui um hóspede universitário chamado André Avelino. Eu disse que não, que o único André que estava hospedado no hotel era um alto funcionário do Banco de Crédito da Amazônia. Ainda andaram perguntando umas coisas aí para as meninas e foram embora. Mas é o senhor mesmo, não é?

Achei que ele foi muito corajoso. Não devia ter mais do que quinze anos. Não respondi, apenas sorri e dei uma piscadela de cumplicidade, paguei com cheque e saí. Foi a última vez que o vi.

Já na rua, o dia estava muito claro, o céu sem nuvens, segui caminhando ao lado da mureta que margeava a praia sem olhar para as pessoas que passavam pela calçada do lado das casas. Acho que não queria ser reconhecido. Em Santarém dizem que é a única cidade do mundo onde o sol nasce e se põe no rio. Nunca matutei sobre isso. Por uma estranha confusão, não conseguia pensar em nada. Apenas caminhava a esmo. Quando me dei conta, havia passado o trapiche, o Mascote e estava sentado numa calçada alta, os pés balançando para dentro do rio, ao lado de um velho que pescava com linha de mão. Estava com sorte. Dera num cardume de peixes e mal tinha tempo para repor as iscas, creio que miolo de pão ou gololô, que se faz com pirão de farinha.

– Vais bem querer ensinar pra gente a fazer gololô.

Nem respondi.

Peixe pequeno. Pacuzinho ou talvez branquinha. Não notou a minha presença. Foi melhor assim. Ajeitei o saco encauchado em cima da maleta e recostei-me como para apreciar as embarcações que passavam, também sem pressa.

De repente, na rua de trás, já para as bandas do comércio, ouvi vozes nervosas, ordens ininteligíveis e uma correria. O pescador nem se abalou.

Acordei de chofre, como de um sonho às avessas, isto é, direto para dentro de um pesadelo. Dei-me conta da minha real situação: aquela cidade não era a minha (depois passaria a ser, e como!). O único liame que eu tinha com Santarém era o Banco que deveria funcionar normalmente. O gerente, Geraldo Guajaraense Braga Dias, reacionário. Achava que o Jango estava levando o Brasil senão diretamente para o comunismo, pelo menos para uma perigosa e indefinida República Sindicalista. O sub-gerente, Eros Bemergui, com quem fiz boa amizade, era um bancário, contador, muito profissional para se meter com essa coisa de política. Mas pelo menos era pescador, e dos bons, de facho e zagaia.

Não tinha tido tempo ainda de entrar em contato com a base do Partido em Santarém. Se é que havia. Claro, devia haver. Com os sindicatos, já que agora eu era delegado da CONTEC, nem tentei aproximação. Haveria bastante tempo para isso. O importante no momento era consolidar as cooperativas que o Banco vinha abrindo em toda a Amazônia.

Quanto a parentes na cidade, nenhum. Meus amigos estavam todos em Altamira ou em Belém. Aí, aumentou mais minha angústia. O que será que está acontecendo na capital? Eu não tinha rádio ou alguém para me informar. Era no mínimo uma situação de isolamento.

Será que os camaradas organizaram a resistência? Eu tinha que estar lá, ao lado do Humberto, do Dantas, do Jacoud, do Jinkings, do Mariano Klautau, do Chico da Mesbla, do Platilha, do Fiel, do Orlandinho, do João Luiz (que chegara de um curso avançado de marxismo na Universidade Da Amizade Entre os Povos, em Moscou), do Nêgo Lino, do Isidoro, do Costinha, do Walter, do Sá Pereira, do Cruz, da Rosinha Veloso, do Luiz Moura, do Seráfico, do Prestes, não o Cavaleiro da Esperança, a quem um dia o Humberto apresentou-me em um escritório na Cinelândia no Rio de Janeiro, mas o meu camarada da base estudantil. O que teria acontecido com o SLARDES – Primeiro Seminário Latino-americano de Reforma e Democratização do Ensino Superior, que estava acontecendo em Belém, no auditório da Faculdade de Odontologia, na Praça Batista Campos?

Desse acontecimento em particular esperava notícias a qualquer momento, pois ficara sabendo, ainda em Belém, às vésperas da minha viagem, pelo sargento Lima, ajudante de ordens do meu cunhado Iran Loureiro, comandante da Polícia Militar, que eles iriam armar um grupo de filhos de fazendeiros do Marajó para invadir o Seminário. Apressei-me em levar o informe ao Humberto, comunicando-lhe que viajaria no outro dia pela manhã, embora achasse que deveria ficar em Belém onde, diante das circunstâncias, poderia ser mais útil. Humberto achou que eu devia seguir para Santarém, apenas pedindo que antes achasse o Sebastião Hoyos, com quem iria tratar da segurança do Seminário.

***

Uma lembrança puxa outra. O Sebastião Hoyos havia passado por Santarém uns dois dias antes com o camarada deputado Benedicto Monteiro, a essas alturas creio que acumulando a SEVOP – Secretaria de Estado Terras, Viação e Obras Públicas, com a SUPRA – Superintendência do Plano de Reforma Agrária. Bené ainda instou-me a seguir com eles para a região de Monte Alegre e Alenquer, onde pretendia fundar, com minha ajuda, uma cooperativa de “vargeiros”, como eram conhecidos os trabalhadores da várzea que, em condições subumanas, cortavam a juta semi-submersa para depois macerar, descorticar, secar e vender para a indústria de prensagem. Bené era o arauto da reforma agrária. Chegou a fazer um hino: Agora nós vamos pra luta / a terra que é nossa ocupar/ a terra é de quem trabalha/ a história não falha/  nós vamos ganhar…

– Essa, eu me lembro, ensinaste pra nós, e também uma outra do Manoel Pinto da silva, aquele um do edifício.

Não fui, exatamente por causa do Congresso da UECSP, em Santarém, presidida pelo Francisco Coelho, onde, por duas noites eu seria o palestrante.

Na ocasião recordamos como, um ano antes, eu levara o Sebastião Hoyos para o Partido. Ele era meu instrutor de judô na Academia Conde Koma, que funcionava no quartel do Corpo de Bombeiros. Como judoca, era faixa preta, terceiro “dan”. Como profissão, à época, era mestre-de-obras e estava desempregado. Conversávamos muito e eu o considerava muito inteligente. Certa vez, ao fim da aula, levei-o ao Palácio do Governo onde funcionava a SEVOP e o apresentei ao Benedicto Monteiro, então Secretário de Estado, resultado de uma coligação que o Partido fizera na campanha eleitoral – Lott-Jango-Aurélio-e-Newton. Aqueles para presidente e vice e estes para governador e vice. Perdemos o Lott para o Jânio e ganhamos com Jango-Aurélio-e-Newton. Pois bem, Sebastião foi contratado no mesmo dia e, no outro, seguiu para Vila Mãe do Rio, na recém aberta estrada Belém-Brasília. Foi trabalhar com o Dantas, José Dantas Costa, em um projeto qualquer de Colonização e Reforma Agrária.

***

Tinha que estar acontecendo alguma coisa em algum lugar, de preferência em todo o País. Menos comigo. Inerme, impotente e só. Eu, o rio Tapajós, o pescador e o sol, agora já bem mais quente.

– Eu to só anotando. Inerme é bom, comentou o Dimas, em voz baixa.

Será que a UAP havia caído ou estaria resistindo, interditando a avenida São Jerônimo, os velhos alto-falantes-cornetas nas janelas e o microfone de pé no meio da rua com o Pedrão, Pedro Ayres Pontes, lendo algum manifesto, tal como na resistência pela legalidade após a renúncia do Jânio Quadros?

O Rio Grande do Sul não vai render-se assim de graça, não com o Terceiro Exército e a poderosa Brigada Militar do Leonel Brizola. E o Francisco Julião e as Ligas Camponesas? Preciso imediatamente de um rádio de ondas curtas para ouvir a Rádio Farroupilha, a Rádio Havana, até a Voz da América, a PRC-5, qualquer coisa. Da direita ou da esquerda. Tenho que ir embora daqui para algum lugar onde as coisas estejam acontecendo.

– Nunca levei fé nessa coisa de Liga Camponesa, falou sem ser ouvido o Afulemado.

Antes já havia passado por situação que eu achava semelhante, em 61, quando as Forças Armadas tentaram impedir a posse de Jango depois da renúncia do caricato Jânio Quadros. Foram dias de incertezas e de resistência. Pode até ter sido romântica, mas mostrou como o povo brasileiro mobilizado pode resistir ao vilipêndio, ao golpe oportunista dos fascistas de plantão. Ganhamos na resistência e no grito. Quem sabe a esta hora já não se está comemorando a vitória sobre mais uma quartelada da reação hidrófoba? Tinha que estar lá, para lutar, resistir, vencer, comemorar. Dei-me conta, de repente, de como eu tinha capacidade de entrar em devaneios. Era um romântico inveterado, mas, de certa forma o romantismo, o humanismo, o amor no sentido mais amplo, eram o móvel maior do meu pensar socialista. Muito mais do que qualquer teoria econômica, mais valia, economia planificada, infra-estrutura, superestrutura, socialização dos bens de produção ou o que fosse. Não, tudo isso eram ferramentas que coonestavam o romantismo maior: o amor à humanidade. A abolição da exploração do homem pelo homem.

– Eita! Coonestar é foda.

– Quieto, porra, alimenta.

***

Lembro-me que logo nas primeiras aulas de marxismo, no barracão do quintal da casa do pai do camarada Bira, na São Jerônimo, o João Luiz chocou-nos a todos, ao mostrar de maneira crua que havíamos abraçado a ideologia do proletariado e isso implicava em sacrifícios, renúncias, disciplina e ruptura com toda uma formação familiar pequeno-burguesa que herdáramos. Que não tivéssemos ilusão de que quando estivéssemos apanhando da polícia exatamente por defendê-los, que os operários, os excluídos, os famélicos, viessem em nosso socorro. Éramos muito jovens, combatentes, impregnados ainda pela memória da ascensão do povo ao poder nas novas nações socialistas do pré e do pós segunda guerra, dos resistentes, guerrilheiros, da Grande Marcha do Mao levantando e arrebatando as massas pelos territórios por onde passava e, mesmo na derrota, como na Espanha, na década de trinta, as lições de heroísmo embalaram os corações e mentes de toda uma geração. “No pasarán”.

De fato, aquela afirmação crua nos chocou a todos. Deu-nos o que pensar. Amadurecemos. Aprendemos (aprendemos?) que é preciso politizar o povo para que ele se salve a si próprio, e o papel do Partido da Classe Operária há que ser “aprender com a massa para dirigir a massa ao seu destino histórico”. O romantismo, ensinava João Luiz, é um perigoso desvio ideológico. Essa lição eu não aprendi. Acho até que ele devia estar falando de algum outro tipo de conduta nefasta ao ideário revolucionário. Afinal, éramos todos uns românticos, humanistas inveterados, inclusive e principalmente o “professor”. Bem mais tarde o “Che”, provando que era do “time”, cunhou: Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás.

Era visível como nossa conduta mudava em relação aos mais fracos, aos mais humildes e, principalmente, de como ficávamos sem graça quando algum amigo, pai, mãe, tio, menosprezava um subordinado, ou mesmo quando a empregada doméstica comia, na cozinha, refeição diferenciada da nossa. Prato feito.

***

Os “gorilas” estavam tomando conta da nação e eu ali, sem poder fazer nada!

Meti a mão no bolso e constatei que tinha pouco dinheiro, além do talonário de cheques que no interior vale muito pouco, principalmente para quem está fugindo.

O pescador impassível olhava para o rio. Ele, o rio, também alheio ao que estava acontecendo com o mundo, apenas continuava rolando rumo ao mar. Os peixes já não mais beliscavam. O velho pescador sopesou a sacola satisfeito. Deve ter calculado pelo menos uns três quilos de branquinhas e pacus e talvez alguns mandis e começou a enrolar a linha. Olhou-me com ar superior e foi-se embora subindo a rua.

Agora, estava só. Eu e o rio.

Chegara a hora de tomar uma decisão. Do jeito que estava não podia continuar. Talvez devesse voltar para o hotel, trocar de roupa e ir para o Banco, como se nada houvesse acontecido. Esperaria impassível os acontecimentos, até que os meganhas me viessem buscar. Certamente haveria violência e humilhações. Instintivamente comecei a treinar posturas de estoicismo e altivez.

Estava com medo! Um medo danado da prisão. Não do encarceramento em si. Da privação da liberdade? Essa eu tiraria de letra. Os anos de internato em colégio religioso, quase clausura, me haviam acostumado a isso. Fuzilamento, paredón, execução e outros pensamentos dramáticos, confesso hoje, envergonhado, que me ocorreram. Isso também não me dizia grande coisa, mas a tortura… dessa eu tinha verdadeiro pavor. Sabia até meus pontos fracos. Um deles era nervo de dente. Uma broca de dentista sempre deixou-me no maior cagaço.

Entregar-me ou ser preso passivamente atrás de uma escrivaninha velha e carcomida do Banco, ou, ainda, fugir de qualquer maneira, pelo rio ou pelo mato, eram as opções do momento. Esta última alternativa tinha tudo a ver comigo. Tanto pelo meu lado caboclo do Xingu, com toda a intimidade do mundo com rio e mato, como pela formação revolucionária: “Um revolucionário preso é de pouca valia. Morto, de nada vale”, repetia o velho Humberto, recomendando sempre a alternativa do “aparelho de segurança”. Sempre achei que isso valia apenas para os dirigentes e quando o Velho fazia-me essa recomendação, era por pura deferência. Quando fosse ou mesmo me considerasse dirigente, teria um.

Com extrema rapidez tracei um plano. Simples e talvez inconseqüente: chamaria um garoto desses que perambulam pela beira do rio para tomar conta de minhas coisas e sairia pelo comércio que começava logo na rua de trás e, apostando que a notícia da minha busca ainda não houvesse corrido, entraria na Casa Moraes que sempre tinha de um tudo e, com cheque (funcionário do Banco tinha crédito quase ilimitado no comércio de Santarém, principalmente nos mais fortes), compraria o máximo de mantimentos possível, inclusive e principalmente um potente rádio Transglobe com umas cinco cargas de pilhas e embarcaria no primeiro barco que descesse o Amazonas e me levasse para o mais perto possível da foz do Rio Xingu. Com alguma sorte, talvez até chegasse a Porto de Mós ou mesmo a alguma fazenda do Michel Silva, para as bandas do Aquiqui, que me ligaria com o Xingu ou o Jarucu. Estaria em casa. Duvi-de-o-dó que alguém me pegasse. Depois… era apenas depois. Daria um jeito mais tarde de engajar-me à resistência.

Pronto! Eu era outro homem. Estava de novo na luta. Mesmo que me prendessem daí a dez minutos, aviando-me em qualquer comércio, não seria a mesma coisa. Não teria sido passivamente e, o pior, contemplativo, vendo o rio passar, chorando sobre o leite derramado, com pena de mim mesmo como até há pouco. Mas continuava encagaçado. Determinado, mas encagaçado.

***

– André de minhalma, o que é que estás fazendo aí fora desse jeito? Entra logo em casa, menino, não vês que estão te caçando por aí? Alguém te viu?

Era a Sueli, mulher do meu amigo Agiz Bechir Elias, do Banco do Brasil. Bonitinha, pequena, feições finas, delicada, muito mais nova do que eu, mas sempre com ar de mãezona, protetora e sempre preocupada com todos nós. Havia me esquecido por completo que estava bem em frente à casa deles, no Caisinho, debruçada sobre o Tapajós, onde passávamos noites a fio jogando canastra ou batalha naval e a Sueli, quando não estava jogando, servia-nos café com bolo e por pura ingenuidade dava palpites errados entregando o jogo do marido.

Fui entrando e ela logo fechou a porta atrás de mim e falando baixo, chamou a empregada:

– Vai correndo lá no Banco e diz pro Agiz que o André está aqui. Não deixa ninguém mais ouvir.

Hoje, lembro-me, não sem emoção, de como estavam preocupados comigo. O Agiz logo chegou trazendo mais um ou dois amigos. Do Suíço lembro bem.

Enquanto tomava café, a Sueli escarafunchava minhas coisas para ver se nada me faltava. Quando abriu o saco com a rede, fez cara de nojo e foi tirando peça por peça, pegando com as pontas dos dedos, resmungando algo como “isto está imundo”. Ainda quis retrucar que não daria tempo de lavar e enxugar, pois estava de partida a qualquer momento, mas ela já tinha ido lá dentro e voltava, sobraçando rede e cobertor dos seus, novos e cheirosos. Acho que ainda do enxoval de casamento. Permaneci calado e agradecido. Acho que nunca os devolvi.

Creio que foi o Suíço quem tomou a dianteira e perguntou-me o que pretendia fazer. Vale dizer que o Suíço era o Grão-Mestre da maçonaria local. Sóbrio, respeitável e confiável como nos bons velhos tempos da maçonaria. À época andavam tentando levar-me para a “irmandade”, ele, o Agiz e o Geraldo gerente do Banco, todos, claro, também maçons.

– Isso não ia dar certo. Ateu não entra na maçonaria.

De novo ignorei o comentário.

Contei-lhes os meus planos e ao final, o Agiz foi mais objetivo:

– Tens dinheiro?

– Ninharia, respondi, mas tenho o talão de cheques com umas cinco folhas.

– Deixa isso pra lá. Fica aqui em casa que nós vamos ao Banco falar com o Geraldo, ver o que se pode fazer. Não convém que andes zanzando por aí. É muito arriscado.

Neste momento, bateram na porta, já agora fechada com tranca. Era o André Teixeira, também da corriola. Ficou comigo tentando puxar qualquer assunto que não fosse o que estava sucedendo. Nenhum deles comungava da minha ideologia, nem mesmo eram de esquerda. Também não faziam o perfil da direita. Eram apenas gente. Simples, honestos e amigos. Sem frescuras nem rapapés. E eu que cheguei a pensar que estava só e em terra estranha…

Não me contive:

– Xará, pára com esse papo de cerca Lourenço e me conta como estão as coisas.

– Pretas, xará, mais do que podes imaginar. O governo não se sustenta e acho até que a estas horas já deve estar em debandada. O que já tem de comuna preso não está no gibi. Até por aqui tem chegado avião com soldado. Diz-que atrás do Bené e de ti. O Bené se embrenhou pelas matas de Alenquer.

– Espera aí, cara, e a resistência? O povo não está resistindo? Isso é golpe!

– Acorda, André, o povo está contra vocês. Vocês extrapolaram. Esse país estava à beira da anarquia e, de mais a mais, o clero fez a cabeça do povo. O que tem de beata acendendo vela e rezando o terço em ação de graças pela derrota do comunismo ateu…

O André Teixeira ainda continuou com os relatos que andara ouvindo no rádio. Os jornais de Belém ainda não haviam chegado.

Sueli olhava para mim a ponto de chorar. Eu não mais ouvia o que o amigo dizia. Acho que em um dado momento ele olhou para ela e caiu em si. Mudou de assunto.

Não demorou muito e os amigos “bodes” voltaram. Traziam mais um. O médico, doutor Alfredo Machado. Não era maçom. Era “rosa-cruz” e muito se respeitavam. Faço essas observações para registrar o quanto se levava a sério essas sociedades secretas naqueles tempos para aquelas bandas.

– Pronto, falou o Agiz. Até que não foi difícil. O Geraldo e o Eros estavam preocupados contigo. Dinheiro não é mais problema. Sacaram o saldo da tua conta-corrente, o que aliás não era grande coisa, mas, com as diárias que tinhas acumuladas, dá uma boa grana. Ele ainda está vendo se libera por aqui mesmo um empréstimo da CAPAF (Caixa de Aposentadoria e Pensão dos Funcionários). Não vai ser fácil, isso é feito só por Belém, mas ele vai tentar.

– É um risco, arrematei, acho que não devia tentar. Quando isso chegar à Direção Geral, pode comprometê-lo. Pelo que o André Teixeira andou contando há uma ditadura em instalação. Vocês não sabem o que isso representa, como certas pessoas revelam todo seu oportunismo e mesquinhez. O cargo de gerente de uma agência importante, como Santarém, é também político e muito disputado. Isso pode pesar contra ele. Logo ele, que sempre se contrapôs a mim. Repito: o Geraldo está correndo um grande risco.

– Isso não é problema teu. Ninguém aqui é ingênuo. Ou tu pensas que eu também não corro riscos? Sou funcionário novo do Banco do Brasil, recém-casado, começando a vida e uma família. Ora não fode André, todos nós aqui estamos no fogo. Isso é coisa de “irmão” e de cunhada. Coisa que não podes entender. Agora, vê se assinas logo esses papéis e uma folha de cheque em branco, para aliviar o lado do pessoal do Banco.

Assinei os papéis de caixa e contas-correntes de movimentação interna do Banco, com os quais nunca tive a menor intimidade, e havia para assinar também duas folhas de papel brancas. Vacilei, levantei a cabeça e dei com o olhar do Suíço que apenas uma vez acenou aprovando com a cabeça. Assinei, com vergonha pela vacilação.

Não me lembro bem agora como ou quem foi fazer as compras para minha viagem rumo ao Xingu. Só consigo lembrar-me do rádio chinfrim, não o Transglobe, que pegava apenas três pilhas médias, e dois cadernos e dois lápis, com os quais fazia anotações quase que diárias. Não era bem um diário, apenas observações esparsas ao sabor dos humores da ocasião.

– Cadê esses cadernos, perguntou o Eduardo.

– Joguei no meio do rio. Foi a última coisa que fiz com lucidez antes de voltar fodido para Santarém.

– Fodido? Como assim? Insistiu.

– Agüenta, porra, ouve o resto. Aonde é que eu estava mesmo?

– Na casa do judeu da beira do cais. Falou o Élio com insuspeitada paciência.

Retomei o fio da meada.

Ninguém me foi deixar à porta. O momento não era para bota-foras.

***

Dali mesmo do Caisinho, segui no rumo de cima margeando o rio. Sem ser notado, creio, que por usar um chapéu de palha e haver guardado os óculos de armação grossa e quadrada que era minha característica mais marcante à época. Passei pela praça da matriz, pela frente do clube, do Banco de Crédito da Amazônia, da igreja, depois do mercado e, ao longo da praia, segui procurando um barco. Pequeno, que pudesse fretar, longe dos barcos de passageiros, onde seria reconhecido e delatado no primeiro porto. Agora, minhas “posses” permitiam-me esse luxo. Em duas ou três tentativas, encontrei-o. Não mais do que cinco ou seis toneladas. Cinco ou seis metros de comprimento, motor pequeno e “um certo Pedro”: barqueiro-piloto-motorista-proprietário.

Perfeito, melhor não poderia ser. O acerto foi rápido. A proposta de aluguel até que foi razoável, só teve regateio para não despertar suspeitas. Seria, pelo menos foi o que lhe disse, uma semana pescando e descansando sem rumo. Pediu-me um adiantamento (esse eu não regateei), para deixar com a família que morava perto e, em pouco mais de duas horas (angustiantes), estávamos navegando. Um pouco mais acima, atracamos no terminal de petróleo do I.B.Sabbá e o Pedro, de olhos arregalados, viu-me mandar embarcar cinco tambores de óleo diesel, quase mil litros, e dois tamboretes de vinte litros de óleo lubrificante. Abriu um sorriso quando lhe disse que o que sobrasse seria seu.

Nesse mesmo dia entramos no Lago Grande da Franca. Era tempo de águas grandes e várzeas inundadas. Logo no segundo dia, as pilhas secaram. As minhas e as da lanterna do Pedro. Até ali, as notícias eram terríveis. Das emissoras nacionais e estrangeiras. Mesmo com a Rádio Havana exortando à resistência, falando em revolta popular etc., eu sabia que os próximos tempos seriam duros.

Isolamento total. O Pedro, que apelidara de capitão Vasco Moscoso do Aragão, personagem do Jorge Amado e também apelido do Rubem Machado, velho amigo, meu e do Agiz, morador do Hotel Mocorongo, vendedor nato, que tinha ido a Santarém a mando da Norte Melhoramentos para vender títulos do São Raimundo Esporte Clube, sob a presidência do prefeito Everaldo Martins, ainda sugeriu que aportássemos na Vila Curuai, para comprar pilhas e foquitos (lampadinhas de lanterna). Ou, pelo menos, para dormir uma noite no enxuto. Nessa época chovia todo dia o dia todo. Os tesos e barrancos, onde parávamos à noite para dormir, de tão encharcados, quase não dava para acender fogueira. Só o conseguíamos a peso de muito óleo. Às vezes tínhamos que nos fazer ao largo, sem barulho, para podermos dormir um pouco por causa dos carapanãs que pareciam querer sugar nossa última gota de sangue. A Sueli ficara com meu mosquiteiro para lavar…

O Comandante Vasco, a essas alturas, já estava politizado. Era esquerda radical, chamava-me de camarada e aos militares de gorilas. Só ainda não aceitava esse negócio de reforma agrária. Havia recebido umas terras de herança, várzea alta, umas quinhentas braças, ali perto, para os lados da Fazenda Maicuru, do Governo Federal, e já tinha umas boas sementes de vaquinhas. Búfalas, de boa cepa, a partir de ternos leiloados pelo próprio Governo Federal e financiadas pelo Banco. Em no máximo dez anos pretendia mudar-se para a “fazenda”. Não, essa terra, ninguém ia dividir. Concordei com ele.

De certa feita, noite escura e chuvosa, estávamos acampados em um teso, quando uma lancha branca, diferente, apontou em nossa direção. Eu me encontrava nessa hora atrás de uma moita aliviando o intestino. Já perto, um farol potente iluminou tudo. Deu para divisar gente fardada na proa do barco. Foi quando vi o Pedro, com extrema ligeireza, pulando para trás de um tronco, com a espingarda na mão. Imediatamente saí de onde estava, com as calças na mão, todo melado de merda, pedindo aos berros para que ele se aquietasse. Pois bem, a lancha era mesmo esquisita, o pessoal estava fardado, mas eram apenas mata-mosquitos de um desses órgãos de combate à malária. Estavam sem óleo lubrificante, viram nosso barco e vieram pedir um litro que desse para chegar a Santarém. Ainda nos deixaram uma lata de bolacha e um pacote enorme de leite americano da Aliança Para o Progresso. Passado o susto, ríamos à-toa tomando banho à noite e na chuva, ainda mais quando o Pedro lembrou que a espingarda não tinha cartucho. Ele esquecera de comprar.

***

Nessa noite senti os primeiros sintomas da sezão. A malária me pegara e era das brabas. Impaludismo e tuberculose eram meus velhos conhecidos. Nem havíamos nos lembrado de pedir aos homens da malária um pouco de quinino para nosso uso.

Daí a três dias acho que o Pedro pensou que eu ia morrer. Quando dava a tremedeira, ele encostava o barco e fazia um chá de qualquer coisa amarga, quase sempre de cidreira braba e me fazia beber bem quente. Era horrível, pois dizia que só fazia efeito sem açúcar. A doença foi num crescendo e daí a dois dias consenti que me levasse para Santarém.

Nos meus delírios imaginava que aquele barquinho e o Capitão Vasco Moscoso do Aragão seriam capazes de levar-me para fora do Brasil. Subindo, até a Bolívia, Peru, Colômbia ou Venezuela. Descendo, até a Guiana Francesa, contornando o Amapá.

Aportamos exatamente na rampa do Caisinho. Permaneci no barco tremendo de frio e febre. O Pedro foi bater à porta do Agiz.

Quem primeiro saiu foi a Sueli. Depois o Agiz, seguido pelo André Teixeira e mais um amigo que não me lembro agora. Os detalhes desse momento permanecem embaralhados na minha memória. Lembro-me de um táxi e, depois, já internado na clínica do doutor Alfredo Machado. Um tubo de soro, o Suíço e a cara bonachona do médico:

– Escapaste fedendo. Mais um dia e terias batido as botas. Estava sem febre, mas fraco, muito fraco.

Permaneci internado por mais três dias. É bom dizer que esses lapsos de dias podem não ser precisos. Com o tempo, a memória costuma pregar peças.

Uma das dificuldades de erradicação da malária é a impressão que se tem de estar curado logo que se tomam as primeiras doses do medicamento. Sentia-me muito bem. Sabia também que a clínica estava sempre vigiada pela polícia e o doutor Machado recusava-se terminantemente a me entregar. Falava em no mínimo quinze dias de internação.

Acertei com um enfermeiro, que também era motorista do jipe da clínica. Aproveitando uma ausência do médico, fugi em baixo das trouxas de roupa suja.

Já na rua, perto do cemitério, saltei e saí no rumo da agência da Panair, apenas confiando na sorte. Creio que cansara de resistir.

Nesse perambular, ouço alguém gritando meu nome. Virei-me de repente, alegre, pois tinha que ser amigo: chamara-me de Deca, meu apelido de infância. Era meu velho companheiro de Altamira, Nilson dos Santos Né. Brigão, forte, leal, a caminho do garimpo no Tapajós.

Não sabia e nem queria saber o que estava acontecendo no mundo e “nem se chamava Raimundo”. Paramos em uma birosca, tomou a primeira ou segunda do dia e, antes que insistisse para que bebesse também, contei-lhe com vagar minha odisséia. Não pensou duas vezes:

– Fica aqui, que nesta merda de boteco escondido, ninguém vem te procurar. Deixa que eu vou à Panair comprar tua passagem. Não discute. Pede uma cerveja, faz que bebe e me espera.

Menos de meia hora depois, estava de volta, rindo e entregando-me a passagem.

– Estás doido? Perguntei quando vi que o bilhete estava em seu próprio nome.

– Deixa de frescura, Deca, toma minha carteira de identidade, até que pareces comigo, principalmente por causa dos óculos e essa porra está mesmo se despedaçando, ninguém vai notar.

– E tu, como vais te atar?

– No garimpo do Crepori, para onde vou, quem é que vai pedir essas coisas? Ainda faltam mais de três horas para o avião chegar. Fica aqui que eu já volto.

Não demorou e ele chegou num jipe com o Eládio Pedrosa, que fora prefeito de Altamira e no momento fazia as vezes de Capitão dos Portos em Santarém. O Nilson enfiou-me no carro e disse que ia aproveitar a cerveja que a essas horas já devia estar quente.

– Seu Eládio, o senhor está louco? Seu emprego está em jogo, o senhor tem família, deixe que eu me viro.

– Nem pensa nisso. Quando o Nilson chegou com a notícia, a Elza e a minha sogra só faltaram ter um troço. Se eu chegar sem ti, nem vão me deixar entrar em casa.

Assim, mais uma família amiga acolheu-me, em uma terra que considerava estranha.

Depois de tomar café com bolo e muita história contada aos solavancos, pela metade, por toda hora ser interrompido com mais perguntas, chegou o momento de tentar pegar o Catalina da Panair rumo a Altamira.

Não sei como, chegou o Suíço em um táxi para levar-me ao aeroporto.

Deixou-me nas imediações. Como bagagem, apenas uma boroca com dinheiro, escova de dentes, pente, barbeador e dois lenços.

***

A febre recomeçara e já fazia arder os olhos.

Demorou talvez uma hora a espera para o embarque. Pareceu uma eternidade. O velho aeroporto era por demais acanhado. Barulhento. Gente que chegara atrasada brigava por causa de vaga. Até que apareceu um oficial da Aeronáutica, talvez major ou capitão, e os ânimos serenaram. Os tempos eram deles, pensei. Procurei não levantar a vista. Fomos chamados para o embarque. Avisaram-nos para ter em mãos o cartão de embarque e a cédula de identidade. A febre continuava. Felizmente ainda não passara para a tremedeira da sezão. Seria um vexame. Chegou minha vez. O oficial estava postado do lado de fora, já a meio caminho para o avião. Mostrei meus documentos. Ele olhando para minha identidade perguntou meu nome, como fazia com todo mundo.

– Nilson dos Santos Né. Falei com o máximo de segurança que pude arrancar de minhas parcas forças no momento.

Depois de folhear algumas fichas e fotos, devolveu-me os documentos e, sem levantar a vista, disse:

– Pode embarcar, seu André.

Ainda no caminho do avião, olhei para uma cerquinha baixa que ladeava o campo por trás da estação de passageiros e vi a figura serena do Suíço acenando e fazendo um gesto de aprovação com o polegar levantado.

Até hoje nunca achei explicação para o episódio. Nunca fiquei sabendo se a maçonaria teve algo a ver com isso. Também nunca me disseram.

***

A viagem do Catalina àquela hora do dia, início da tarde, durante a estação das chuvas era sempre de muita turbulência. Não me lembro se após uma hora e meia ou duas horas, riscávamos as águas verdes espelhadas do rio Xingu. Poucos passageiros, asas altas e muito grandes. Voava lento e era desengonçado. Nós o chamávamos de pata-choca. Depois da amerissagem, ficava amarrado a uma bóia no meio do rio à espera do batelão a remo trazendo passageiros e cargas. Soube depois que aquele seria o último vôo da Panair, que teria suas atividades suspensas. Depois voltaria a voar, mas também, por pouco tempo.

Quando saltei em Altamira, senti que estava em casa. A realidade depois mostrou que não seria bem assim. As pessoas com quem cruzava parece que já me esperavam ou imaginavam que, mais dia menos dia, eu por lá chegaria em busca de refúgio.

Subi a rampa do seu Meirelles, cumprimentei os amigos que formavam sempre o mesmo grupo à chegada do avião, que era o acontecimento da cidade três vezes por semana, e, como não tinha bagagem, segui a pé pela rua da frente e já a parentada reconheceu-me e veio ao meu encontro.

– Ei, porra, pula essa, não esquece que nós estávamos lá, pelo menos o Elio, o Dimas e eu. Estavas com febre e tremendo. Chegamos a pensar que era medo, mas continua.

Com o olhar fito no rio continuei como se não fosse interrompido. Este relato sempre repetia para mim mesmo, como para não esquecer detalhes de situações, datas e nomes. Sabia que um dia teria que dar algum testemunho para a história. Mesmo infinitesimal, desimportante, mas acima de tudo teria que ser verdedeiro.

Era nosso hóspede o juiz de direito da comarca, doutor Humberto Castro. Dormíamos no mesmo quarto. O meu quarto. Pouco conversávamos, mas fizemos boa amizade. Nunca falamos sobre minha situação, que a cada dia ficava mais precária.

Andava livremente pela cidade, visitava e recebia as visitas dos amigos, prefeito e delegado. Principalmente depois que o Damasceno, telegrafista dos Correios e da estação-rádio da Panair, chegou para uma partida de pif-paf e foi logo anunciando em alto e bom som, sem pedir segredo:

– Pronto, acabo de dar pane no motor do Correio e da Panair e o Maninho fez o mesmo com a fonia do DER. Agora, sem telégrafo, radiofonia ou avião, ordem de prisão pra ti, só pelo navio da linha, daqui a uns quinze dias. Temos muito tempo para jogar baralho tranqüilamente.

Essa tranqüilidade era só aparente, fogo de monturo. As ratazanas oportunistas se preparavam para tirar proveito da Nova Ordem que se instalara. Era preciso inserir Altamira no contexto nacional. Afinal, houvera uma “revolução” para acabar com os comunistas e os corruptos. Estes, os corruptos, podiam esperar, afinal de contas o Aurélio ainda estava no poder, seu vice-governador, o Newton Miranda (era filho de Altamira e elegera também o irmão e ex- prefeito, José Burlamaqui de Miranda, que por sua vez elegera o atual prefeito, José do Rego Azevedo). Restava a campanha contra os comunistas, isto é, eu. Daí para a missa de ação de graças pela salvação do Brasil das garras do comunismo ateu e para a tardia “marcha da família com Deus pela liberdade”, foi um passo.

A procissão fez uma parada na esquina do SESP – Serviço Especial de Saúde Pública, perto de minha casa (pelo menos tiveram o escrúpulo de evitar passar pela nossa porta) e, de longe, dava para ouvir os discursos inflamados do Deodoro Evangelista e da Maria Alcina, funcionária dos Correios (depois demitida e recolhida ao Presídio por roubo), exigindo a imediata prisão “dos” subversivos.

– Nesse dia, cara, quase sobra pra nós, principalmente para o Élio e a mamãe, que era comuna como tu. Falou o Humberto Pissirica.

Certo dia, por essa mesma época, eu estava na casa da Waldice, quando, por acaso, pousou, só para abastecer, um DC3 da FAB vindo da base de Caximbo rumo a Belém. Alguém, acho até que foi o Evangelista, caguetou que havia um perigoso subversivo escondido na cidade. Deram toda a ficha. O comandante, um capitão linha dura, resolveu mostrar serviço. Atrasaria, por uma ou duas horas a viagem, mas levaria o comuna.

Imediatamente requisitou o jipe da prefeitura que levava um doente para pegar o mesmo avião  para tratamento em Belém.

O Zé Leque, motorista da prefeitura, meu amigo, não ouvira a delação, portanto, nem desconfiava da missão. Apenas obedecia a “autoridade”, aliás, naqueles tempos, até uma vassoura fardada era autoridade.

Embarcaram, o capitão e dois cabos.

Zé Leque, gaiato e falante, até para agradar foi puxando assunto, mas os militares o tempo todo monossilábicos. Não davam papo, até que o Zé perguntou:

– Vocês estão indo para a prefeitura? o prefeito viajou. Está em Belém e o vice pras colônias.

– Sabe onde mora um tal de André Nunes? Perguntou o capitão, discretamente lendo um pedaço de papel pautado rasgado de algum velho caderno escolar.

– Qeuem, o Deca do Anfrísio? Claro que sei, mas ele não está em casa, logo cedo eu vi ele na casa da Waldice do Tonico, em frente à prefeitura.

De fato eu estava lá mexendo nas panelas da Waldice que me havia convidado, a mim e ao Damasceno do correio, para almoçar uma jabota no leite da castanha.

Waldice pesada, de sete meses.

– Naquele tempo, eu só me lembro dela barriguda. Chegou a ter dois filhos no mesmo ano. Lembrou o Chico.

Quando, esbaforido entrou o Pedro da Natalina, sóbrio, o que era muito raro naquela época, “sussurrando” rouco, lívido, gago, aos gritos:

– Co-cor-re Deca, os alemães estão vindo aí pra te prender. Disse apenas isso e montou de volta na bicicleta e desabalou ladeira a baixo no rumo do igarapé.

Nem o damasceno nem a waldice atinaram, no momento, para a gravidde do alerta. Essa história de chamar qualquer inimigo de alemão, era coisa nossa, da corriola. Vocês se lembram quando num ataque de frescura o Eduardo quis trocar por “aqui d’del rey há mouros à costa”, e levou um samba? Acho que foi no sinuca do Salinzinho.

– Continua, porra. Falou o Dimas.

Para mim, eternamente na rota de fuga, estava tudo dito. Pensei em escapar pelo quintal, quando pela janela, vi o jipe, sem capota e com o pára-brisa arriado e os “homens” com macacão de campanha. Não dava mais tempo. Waldice também viu. Nos entreolhamos e todos entenderam. Damasceno, aos peidos, escafedeu-se pelo portão da frente. Ainda foi instado se ele era eu, mas o Zé foi rápido: esse é o Damasceno, telegrafista.

Enquanto isso, muito rapidamente, a Waldice me puxou pela mão para o quarto, tirou o filho do berço, deu-me para segurar, sacou o colchão fino com recheio de capim, pregado ao estrado e ordenou enérgica:

– Entra aí e te abaixa.

Ainda tentei argumentar, mas ela cortou, firme.

– Entra, porra!

E naquela posição ridícula, ela botou, de qualquer maneira, estrado, colchão e menino, já bem pesadinho, mas sem chorar.

O Zé Leque, ainda no meio do caminho, entendeu a fria que tinha me colocado e tratou de dar umas voltas na cidade, se fez de desentendido e ainda levou os soldados até o Meu Sossego, onde eu, obviamente não estava. Levou um esporro e, finalmente rumou para a casa do Tonico.

Mal a Waldice pousou a criança, e bateram à porta. Palmas, tímidas e a voz sumida do Zé.

– Seu Tonico, dona Waldice!

Ela apareceu, imediatamente, abrindo a porta, esfregando a barriga, com cara de dor e quase chorando. O capitão adiantou-se e, quase cortês, mas firme, disse ao que veio.

– Desculpe, minha senhora, mas o seu André Nunes está aí?

– Não, senhor. Saiu faz tempo, respondeu com o mesmo cenho franzido de dor.

– Nós podemos entrar?

– Entre, a casa é sua. Acho que vou parir aqui mesmo, agora.

Não levaram nem um minuto vasculhando a casa. Para mim, uma hora.

– Vamos, não posso fazer vôo noturno.

O capitão estava apavorado com a possibilidade de partejar a sacana da Waldice ali mesmo no pátio. É uma artista. Para arrematar ainda gritou para o pobre do Zé Leque.

– Zé passa no SMER e diz para o Tonico que estou parindo.

Depois que o jipe arrancou, levantando poeira, ela caiu na risada e, sem pressa foi entrando no quarto e eu gritei abafado.

– Tira esse filho da puta desse moleque daqui. Ele ta com diarréia e me cagou todo.

O colchão era fino, recheio de capim, e aquela merda quente fedorenta escorrendo pelo meu cangote.

– É, sacana, mas esse filho da puta salvou tua vida.

– E a jabota? Perguntou às gargalhadas o Nhôca.

Em vista disso, o Frizan, meu irmão, achou mais prudente mandar-me em uma viagem à Boca do Rio, àquelas alturas já São Félix do Xingu, arriar uma carga de castanha, na esperança de que as coisas se acalmassem nesse meio tempo.

Era uma fuga. Mais uma. Essa sabia a covardia. Angustiava-me o sentimento de impotência, o desejo recôndito de que as coisas ficassem como estavam, que o golpe não houvesse acontecido. Agora sabia bem o que houvera, como acontecera, a invasão da UAP, a prisão dos amigos, camaradas ou não.

***

Foi na descida do Rio Fresco, próximo à localidade de Boca do Rio, recém transformada em município pelo Newton Miranda com o nome de São Félix do Xingu, que peguei no rádio pela PRC-5, às oito horas da noite, a mensagem de Dona Francisquinha, minha mãe, para o Frizan, dizendo que podiam mandar a encomenda (eu!) pelo primeiro vôo, que seria recebida no aeroporto.

Nesse meio tempo, a Panair voltara a operar. Por pouco tempo. De novo embarquei no seu derradeiro vôo. Desta vez, definitivo.

Desembarquei no aeroporto de Val-de-Cans, onde meu cunhado Irã Loureiro, ainda Comandante de Polícia Militar e acumulando a Chefia de Polícia, deveria esperar-me.

Fui o último a saltar do avião. Desconfiado, tenso, nervos em frangalhos, dirigi-me à estação de passageiros, tentando, no meio de tanto soldado, que naquela hora lotava o aeroporto, reconhecer o Irã. Nada. Estava só no meio da pista, quando um amigo, repórter da PRC-5, o Édson Salame, aproximou-se com um enorme transmissor “portátil”.

– André, estás louco? Que é que vieste fazer em Belém? Olha como está isso de soldado. É tudo para te prender. O Edir, que tu achas que é teu amigo, mandou-me aqui só para cobrir tua prisão.

– Mas… – tentei esboçar algumas palavras que não saíam pelo nervosismo e pelo medo.

– Não tem mas nenhum, me dá tua bagagem que eu levo pra tua casa e sai pelo lado, ali pelo hangar da Paraense. Ih, não dá mais tempo. – Agora, ele também nervoso. – Faz de conta que não me conheces. – E fingindo falar no tal transmissor: Alô stúdio, alô, stúdio.

É que, nesse momento, vimos aproximar-se, diretamente em nossa direção, um sargento, embalado, portando uma metralhadora.

Soltei a valise no asfalto, remexi nos bolsos e encontrei um velho canivete “corneta” que usava para migar tabaco. Não sei exatamente o que se passava pela minha cabeça. Foram muitos dias de tensão por matas e rios a minar-me os nervos e o discernimento. Talvez fosse só um gesto. Talvez quisesse reagir. Sentia na mente, toda a coragem do mundo, apenas o corpo não obedecia. Não era visível, mas as pernas e o queixo tremiam e a voz não saía. Estava lívido.

– Porra, André, é sacanagem, cara! – quase gritou o Salame.

Quando chegou mais perto, reconheci o sargento, velho amigo que fora interno comigo no Colégio do Carmo.

– O que está acontecendo, André, estás precisando de alguma coisa?

O Salame pensou rápido e respondeu por mim:

– O André está passando mal. Esta merda desse Catalina jogou pra caralho, quase cai, e esse porra tem pavor de avião.

Fui levado para uma sala, espécie de ambulatório, onde serviram-me água com açúcar e coramina. Já refeito, enquanto esperava pela escolta salvadora do Iran, mesmo sem grande necessidade, até por medida de precaução, fui ao sanitário que era formado por uma divisória parede-meia, por sobre a qual, pelo lado de fora, trepado em um banco, ainda tive que suportar os mungangos de gozação do Salame fazendo gestos indecentes com as mãos… top, top. Quis a morte. De vergonha e raiva.

***

Depois de algum tempo escondido pela família (um irmão major do Exército, cochado do General Décio Escobar, grande prócer “revolucionário”, um cunhado também major e o Iran, coronel comissionado e ainda Comandante da Polícia Militar), comecei a sair pela cidade, ainda que de maneira tímida.

Foram dias difíceis. Nos primeiros tempos eu não era bem-vindo, compreensivelmente, pelas famílias dos amigos a quem visitava. Namorar, então, teria que ser duplamente às escondidas. Até 1968, as coisas foram mais ou menos abrandando-se. Minha atividade política resumia-se a quase nada.

Vez por outra, tinha que comparecer a QG do Exército na Praça da Bandeira, onde um senhor, Coronel Décio, só de sacanagem, marcava um depoimento, invariavelmente para as sete horas da manhã e me atendia depois das oito da noite.

***

Ensaiei uma incursão pelo campo empresarial. Tudo começou com um escritório imobiliário, na sala de casa. O engenheiro Angenor Penna de Carvalho, para me ajudar, deu-me um de seus empreendimentos para vender. A mim e a seu filho Luís Alberto, velho amigo de colégio e do NCN. Um edifício de escritórios na 13 de Maio, então valorizado centro comercial. Em menos de um mês vendemos tudo. Menos por nossa capacidade e mais pelo conceito da construtora Penna de Carvalho & Pinheiro de Souza. Ali acabou a “imobiliária”. Apesar do sucesso, nenhum outro construtor teria a coragem do doutor Angenor.

***

O dinheiro curto, não dava para ficar parado: por influência do camarada Albertino Santos, gerente do Banco em Capanema, consegui uma cota de cimento da fábrica daquela cidade. Com ajuda de um caminhão baú de meu pai, que aguardava o inverno para ser embarcado para Altamira, virei distribuidor de cimento.

De novo um amigo dileto veio em meu socorro: o prussiano oficial da reserva do Exército e acadêmico de Direito Ruy Guilherme de Souza Filho que, por vezes, não poucas, ia a Capanema e de lá trazia meia carga de cimento e meia de mantimentos que o Albertino arrecadava e mandava para distribuição pelas famílias de alguns camaradas presos.

O cômico da situação era que invariavelmente o caminhão era seguido por um jipe do Exército e o Ruy Guilherme dirigia-se a eles, se cabos ou sargentos, com voz de comando, de oficial para subordinado. Certa vez, na Quatorze de Março, a Sinhá, companheira do José Maria Platilha, muito gorda, não conseguia carregar o saco com a mercadoria que lhe cabia, quando de dentro do baú, ouviu-se a voz incisiva do Ruy passando uma descompostura no sargento que impassível olhava a cena. Daí em diante, contávamos sempre com mais um ajudante que só pedia para que nada disséssemos aos seus superiores.

***

Quase ao mesmo tempo inventei uma “fábrica” de parques infantis e móveis hospitalares no quintal de casa, no Largo de Nazaré. O Humberto, recém saído da cadeia, recomendou-me o camarada Walter Holanda, metalúrgico competente e com larga experiência no ramo. Logo tornou-se gerente industrial. No princípio, chefiando só a ele mesmo. Depois, à medida que os camaradas iam saindo da cadeia, eram admitidos nos diversos cargos, como operários ou na direção administrativa. Maquinário, nenhum. Apenas as ferramentas particulares que o Walter trouxera. Os desenhos técnicos e “artísticos” dos produtos para produção e venda, foram feitos pelo Irmão Porfírio (depois Felipe), meu ex-professor do Colégio Nazaré (Marista) e, outra vez, pelo incansável e correto Luís Alberto Penna de Carvalho.

O nome da “empresa” era Central Park Ltda. Nos primeiros tempos os negócios iam bem. Ou quase. Pelas diversas gerências, criadas para abrigar os camaradas, passaram, que eu me lembre, o Raimundo Jinkings, por pouco tempo, o Sá Pereira, o Mariano Klautau de Araújo, o José Dantas Costa e, ainda, o José Maria Platilha, na contabilidade.

Um jovem advogado, Edílson Silva, abriu-nos as portas para venda de parques à Prefeitura de Belém. Aí, o barracão do quintal do Largo de Nazaré ficou pequeno. Mudamo-nos para um galpão na José Bonifácio, no Guamá.

Nesse meio tempo o Antônio Jorge Abelém, advogado e comerciante bem sucedido, arrebanhava e patrocinava a turma de advogados em um escritório acanhado da rua Manoel Barata, com móveis arrematados de algum leilão onde as escrivaninhas dos “doutores” não eram mais do que carteiras escolares. A precariedade das instalações era compensada pelo entusiasmo e competência da turma. Era, de qualquer maneira, um ganha-pão digno. O Abelém foi um gigante.

Pouco tempo depois, mudaram-se para o Edifício Antônio Velho e lá mesmo fundaram uma agência de propaganda – a Equipe Publicidade. A empresa mais alegre que conheci. João de Jesus Paes Loureiro, José Seráfico de Carvalho, Leonildes Silva, Gabriel Leal e Ronaldo Barata eram os criadores, redatores e quase tudo o mais. O desenhista era o Paulo Ronaldo, depois radialista e deputado.

A conta maior da Equipe, logicamente, era o Central Park, para quem criaram um simpático símbolo: estranhamente um boneco de neve com cachecol e tudo, chamado Dom Parquito. Havia também, que me lembre no momento, a conta das Lojas Capri e pelo menos um comercial da loja Uirapuru.

O Central Park, como não podia deixar de ser, sempre em dificuldades, conseguiu uma breve sobrevida, graças a uma licitação do Ministério da Educação que pretendia suprir de parques infantis todos os municípios brasileiros. Normalmente as indústrias de São Paulo e Paraná açambarcariam tudo se não fosse a interferência do ministro Jarbas Passarinho, que mandou dividir a concorrência por região e nós ganhamos o Pará e Amapá. Foi um quinhão mínimo, mas valioso na época.

Voltando aos primórdios de minha volta a Belém: na maior cara-de-pau, apresentei-me ao Banco, para surpresa geral. Reaças alvoroçados e alguns colegas trânsfugas, oportunistas, a toda hora tramavam minha demissão. Foram dias de muita tensão e perseguição. Um diretor do Banco, depois deputado federal, Camilo Montenegro Duarte, conseguiu segurar-me por algum tempo, mas depois foi cassado com base no AI-5 e aconteceu o inevitável.

O que sucedeu depois, ou mesmo durante, é outra história. Isso é coisa para se contar em outra ocasião. E se contará.

***

Durante muito tempo nutri inconscientemente um sentimento de culpa por não haver sido preso. Muitos dos meus amigos o foram e eu não fui!

Como tive inveja da bofetada que o Seráfico levou do coronel José Lopes de Oliveira!

Eu deveria estar no ISLARDES naquela “noite dos cristais”. Na UAP, quando foi invadida.

Depois, concluí e a história provou: também estavam certos os que fugiram ou pelo menos tentaram.

A regra geral das ditaduras quando se instalam no Poder. É a exacerbação do fascismo. A face sádica das pessoas permeia toda a cadeia de comando. “De caporal a general”. Sem ter que ir longe, atravessar oceanos ou escarafunchar tempos idos, os exemplos das ditaduras recentes no Brasil, na Argentina e no Chile servem para provar que a fuga ao algoz é um direito e um dever. A resistência é feita pelos que sobreviveram e só quem sobreviveu pode e deve contar a sua verdade para a história.

– Vou pegar um gancho nesse teu discurso que já estava ficando chato. Tomaste um ar de quem estava falando para uma platéia de estudantes. Disse o Eduardo. E continuou – vamos parar de vez de falar dessa merda de ditadura, não pegaste porrada, nem nada, então, não és herói. Herói de ditadura, só com tortura. E tem mais, a postura fascista é inerente a todo soldado, desde que a humanidade se organizou em arremedo de Estado.

– Pára de falar merda, Eduardo, interrompeu Seu Coisa amuado, meu filho é soldado, está servindo no Batalhão de Selva e ele não é fascista porra nenhuma.

Armou-se a habitual confusão com todo mundo querendo falar ao mesmo tempo, inclusive eu, quando o Eduardo levantou a voz, o que não era do seu costume.

– Não é nada disso, porra. Não particulariza. Estou falando do exército instituição. Claro que posso estar dizendo merda, mas pelos nossos estatutos, como tese para discussão, é válida. Pelo menos entre nós nunca houve censura. Podia-se falar qualquer besteira.

– É, mas quando sou eu, vocês depois ficam sacaneando, eu disse.

– Sacanear, vale. Papo sem gozação é coisa da União Pia das Filhas de Maria. Falou, com ar maroto, o Hélio Miguez, mas só depois. Sacanear antes é censura, concordo com o Eduardo, até porque essa tese é nova. Vai, cara, alimenta, só evita o válido, lúcido e inserido no contexto, que é coisa de velho da esquerda festiva.

– E também não vale a modernagem burra de “enquanto” e “a nível de”, e, se falar gerundismo, leva dedada, foi a vez do Dimas.

De novo a balburdia se instalou em meio às gargalhadas, principalmente pela rememoração do saravá de dedadas que não ouvíamos desde a adolescência.

– Pensa bem. Soldado não tem que pensar, deduzir, optar. É o princípio da hierarquia. A tal da obediência devida. É cega. É como na Igreja. Democracia na igreja, não existe e não pode existir, e não é de hoje: Roma locuta, causa finita. O Papa falou, tá falado. E é assim em todas as religiões e exércitos. Em todos os tempos. Na América, na China, no Brasil, em cuba. Foi assim com o exército de Dario, Xerxes, Artaxerxes, as legiões romanas, as hordas de Gengis Can, ou dos faraós. Soldado tem que combater o inimigo e não é ele quem decide quem é. Externo ou interno. Qualquer arremedo de Estado tem chefes e tem lei e tem que ter uma força coercitiva e dissuasiva para manter, internamente, a lei e sua permanência no poder, afinal, a lei foi feita para isso, e, externamente, proteger o Estado soberano. Quando não der, negociar a rendição, mantendo o mínimo de privilégios para a casta dominante. Os exércitos obedecem até o comando de rendição mesmo para tornarem-se escravos ou ser executados. Sempre foi assim. Com hebreus, mouros, egípcios, franceses, alemães, incas, astecas. Não aconteceu com o índio brasileiro, porque nunca tiveram nem aquele arremedo de Estado. Deixando o romantismo de lado, sabemos que o nosso nível civilizatório, à época do descobrimento, estava ainda muito longe disso. Estávamos na idade da pedra polida. Éramos antropófagos. Mal balbuciávamos, umas poucas palavras. A sistematização da língua veio com o colonizador, principalmente os jesuítas. Língua geral ou nheengatu teria sido um belo e novo idioma. Inteligente, culto, semasiológico, gerado no ventre dos mosteiros que eram os repositórios do saber de então. Não, um dialeto qualquer, localizado, patoá, mas uma língua, falada agora, por quase duzentos milhões de pessoas.

Quando os portugueses chegaram, simplesmente com o domínio do aço, foi um choque tecnológico de mais de cinco mil anos. A pólvora, então, nem tem graça. Não houve guerra declarada, portanto, não houve rendição. Não tinha quem falasse em nome da tribo e, se o fizesse, não seria obedecido. Cacique, tuxaua, ou capitão, nunca mandou em ninguém. Nem em curumim. Esse poder de mando é recente e foi outorgado pelo estado brasileiro, ou pela igreja, que, ao fim e ao cabo, eram a mesma coisa.

– Para, cara. O mal é que embolas alhos com bugalhos. Vamos organizar essa suruba. Essa história de índio, colonização, língua, a gente vê depois. Quer dizer que o exército é uma merda e nunca deveria existir. E daí, como é que ia ser, mas não enrola. Eu não conhecia este teu lado anarquista. Interrompeu o Pedro Pepito.

– Anarquista, porra nenhuma, mas respeito. Agora vamos ao tema. Primeiro, por exército entenda-se, também marinha, aeronáutica e tudo o mais, enfim, militar. Depois, a corporação em si, não é para cheirar ou feder, assim como a polícia, mas vira e mexe, estão a feder e a cheirar. A corporação é fundamental em uma democracia, até porque é ela quem respalda o poder, e se o poder é do povo, as instituições estão a serviço deste mesmo povo, mas se é uma ditadura é claro que o soldado, sem questionar, vai se voltar contra o povo.

– Porra, Eduardo, para com essa fixação de ditadura, falei.

– Já parei, se te incomoda, mas me deixa concluir. Não precisa ser a ditadura clássica, basta o poder ser ilegítimo, oligarca, pseudo-democrata, e lá estão as instituições a serviço do grupelho. Isso vale para os três poderes, legislativo, judiciário e executivo, principalmente numa cleptocracia como a que vivemos.

Estava escurecendo e esta última parte do “discurso” do Eduardo foi atípica. Quase monótona. Não que fosse de todo desinteressante, mas não houve discussão. Teria sido pelo adiantado da hora ou a idade estava pesando na disposição contestatória da corriola. De qualquer maneira despedimo-nos prometendo nos encontrar mais tarde na boate do Tufi. Só ficou o Eduardo para uma cerveja gelada no Tucunaré, a essas horas já com as mesas no gramado do calçadão, junto à mureta debruçada sobre o rio.

Meu xará, André, filho do Augusto Mario, garçom do restaurante, sem que pedíssemos, chegou com duas cervejas. Uma delas naquelas capas de isopor para não esquentar. Quatro copos, dois para nós, um para ele e outro para o meu sobrinho Zé Minhoca que vinha chegando, rindo, como é do seu costume. Desde criança que sempre me lembro dele assim, de bom humor, de bem com a vida.

Daí para a frente a conversa mudou para pescaria, caçada, e notícias da família. Ele querendo saber da parentada dispersa pelo mundo e eu dos primos e sobrinhos, aos montes que permaneciam naquela babel.

Lá para as tantas, quando ficamos sós, o Eduardo falou, de maneira quase inaudível.

– É, amigo, acho que só nós dois vamos às putas hoje à noite.

Uma lua monumental, cor de fogo, começou a botar o cocoruto do outro lado do Xingu, por cima da sombra da mata da Ilha do Arapujá e, até que ela se mostrasse por inteiro, como que mundiados, não dissemos palavra.

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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