DOCE PUTA – Capítulo III (3ª parte)

É importante ler antes:

MEMORIAL DA AMAZÔNIA – TRILOGIA

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA e EDUARDO BESOURO (Capítulo II  – completo)

A TURMA DO LIMBO – Capítulo III (1ª parte)

1964 – UM RELATO SUBVERSIVO – Capítulo III (2ª parte)

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Capítulo III

DOCE PUTA

MARIA DO PERPÉTUO SOCORRO EMMETT

3ª parte do C apítulo III

Praticamente não cheguei a descansar. Tomei um banho frio, com a madrinha Benedita do lado de fora da porta do banheiro tagarelando e contando histórias do marido, o Joca, meu antigo parceiro de caçadas. Contava detalhes de como fora assassinado por pistoleiros, a mando de uns fazendeiros do Igarapé dos Panelas, por causa de uma titica de terra. Uma colônia de, no máximo, vinte e cinco hectares, mas que ficava encravada no meio de uma fazenda em formação de mais de dez mil hectares, grilada por uns capixabas brabos, sócios de um irmão do governador. O marido da juíza e o João do Fausto, dono do cartório, também colaboraram. O delegado e a Polícia Militar, nem se fala.

Fiquei com remorso por não prestar atenção ao relato da velha preta que me criara e, para ela, eu continuava sempre menino, mas esse caso do Joca, sucedido havia mais de três anos, conhecia de cor e salteado, apenas, a descrição da vida que o casal de velhos levava, junto com dois sobrinhos, detalhes da colocação, do igarapé, terreiro varrido, do jardim, da horta cercada de varas para as galinhas não ciscarem, deixava-me com gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Sem graça. Até porque, histórias como essa se contavam aos montes. E não havia muito que se pudesse fazer. No caso do Joca aconteceu tudo na absoluta legalidade. Operação policial de despejo, com ordem judicial e tudo. O título de posse, ainda expedido pela Prefeitura no tempo do João Pezinho fora rasgado e considerado falso. Sumiram todos os registros do cartório. Além de tudo, o Joca seria falsário!

Resistiu à ordem de despejo e foi legitimamente morto com dezoito tiros de vários calibres. Devem ter resistido à prisão, pois foram mortos também, os cachorros, os patos, as galinhas, dois jabotis e até o papagaio falador. Os sobrinhos embrenharam-se na mata e ninguém mais soube deles. Joca morreu nos braços da madrinha Benedita. À época, ele, com setenta e três anos, ela, com setenta.

Engoli em seco e procurei mudar de assunto. Elogiei a toalha limpa, cheirando a oriza, que saí com ela amarrada à cintura. Recusei um velho pijama que nem mais lembrava existir. Aceitei o tamanco. Meu Deus, pensei, ainda existem tamancos para sair do banheiro como antigamente. Eram feitos de marupá. a facão, em Bragança ou nas ilhas do arquipélago do Marajó e vendidos no Ver-o-Peso ou nos portos de lenha do Estreito de Breves.

– Não vais inventar de sair agora. Preparei uma sopa de feijão do jeito que sempre gostaste. Com tutano, bastante couve e jerimum.

– Na volta, madrinha, na volta. Agora vou encontrar o Eduardo para mais um dedo de prosa. Tem tanto assunto para por em dia que a senhora nem imagina.

– Muito cuidado, menino, Altamira não é mais aquela.

– Eu sei, e pare de me chamar de menino, já sou bem crescidinho.

– Só quando casar e tiver filhos. Não me conformo porque isso ainda não aconteceu. Não deve ser por falta de pretendentes, falou meio amuada. Tem tanta moça de família, solteira, prendada por aí. Não é nada bom um homem viver sozinho, sem ter quem ao menos lhe sirva um caribé na doença.

– Perdi o bonde da história, agora não dá mais. E filhos, nessas alturas, pra que? Só se for para ser pai avô. Mas não se preocupe, qualquer dia desses eu acho uma coroa, peidada como eu, que ature meus abusos, e me amigo.

– Vôte! Cruz credo! A velha preta persignou-se. Amigado nem entra nessa casa. Eu não recebo. Se for para amancebar é melhor ficar como está. Tem que ser ca-sa-d-o-do. Onde já se viu, viver em pecado. Deus não se serve disso.

Abracei-a. Ela era rija e miúda. Sua cabeça dava no meu peito. Beijei-a nos cabelos sentindo o tão conhecido cheiro de lavanda, priprioca e óleo de mutamba. Fingiu querer se desvencilhar.

– Madrinha, se tiver que me casar, vai ser com a senhora que está viúva e eu solteiro.

***

Eram oito e meia da noite, quando, no taxi do Panelada, paramos na casa do Eduardo, a velha agência dos Correios, onde morava na parte dos fundos. Ele era o APT – Agente Postal Telegráfico. Funcionário de carreira. Concursado, nunca aceitaria um emprego por indicação política. Rabo preso não era com ele. Buzinamos. Abriu a janela, nu da cintura pra cima.

– Entrem, porra, isso lá é hora de ir à boate, vamos abrir o salão, e as meninas ainda estarão se embonecando.

A casa era no clássico estilo altamirense-nordestino de antigamente. Porta, duas janelas, frontispício baixo, cumeeira transversal, paralela à rua, com duas águas sem calhas, pingando para o quintal e para a calçada. A sala cortada ao meio em toda sua extensão por um balcão de prancha única de madeira grossa, velho e carcomido que há muito não via verniz e, próximo à parede, uma portinhola. Ali, a tampa do balcão em dobradiças, se abria para cima, e é preso à parede por um barbante e uma velha argola. Antes, que eu me lembre, havia um gancho de metal amarelo. A parede do fundo da sala era uma divisória de madeira cheia de escaninhos do chão ao teto, apenas deixando o espaço para a estreita porta que dava acesso ao depósito de encomendas e à casa do Eduardo. A seguir havia a sala de jantar, dois quaros, cozinha e banheiro dando para um xagão que saía em um quintal mal cuidado.

Eduardo acabara de sair do banho e ainda estava com a toalha enrolada na cintura. Foi na frente, tagarelando, enquanto o seguíamos até a sala de jantar. Apanhou uns copos e uma garrafa de cachaça e deixou-nos à vontade e dirigiu-se ao quarto, sempre resmungando que era muito cedo para chegar ao puteiro.

***

A boate do Tufi ficava no bairro da Brasília, na periferia da cidade, depois do igarapé.

Tomei um susto. “Boite” Danúbio dizia o letreiro de gás neon a piscar embaixo da silhueta de uma perna feminina em animação também luminosa em compasso de can-can.

– Sinto-me em Paris comentou o Eduardo com sarcasmo. Devia se chamar Pigalle.

Antes não tinha nome. Era apenas a boate do Tufi, ou, simplesmente Cachorro Quente. Nunca soube por que, nem perguntei, só sei que lá nunca houve “hot dog”.

Ninguém na porta. Salão vazio. Em um canto da sala alguém puxava uns fios instalando uma caixa de som de pelo menos dois metros de altura. Outro testava, de cima de um tablado, um microfone de pé: alô! Alô! Experiência, alô!

Por fim alguém veio em nosso socorro. Era um dublê de garçonete e rapariga, gorda, simpática, ainda cheia de bobs na cabeça.

– Ainda não abrimos, meu bem, mas querem beber alguma coisa? E, respondendo a uma voz masculina indagadoura que vinha lá dos fundos respondeu com voz esganiçada: Nada, não, é o Eduardo Besouro e o Panelada. E, dirigindo-se a nós explicou:

– É que o Tufi está esperando um pessoal do batalhão que ficou de vir hoje mais cedo. Sabe como é, temos que agradar essa gente.

Decididamente ela não me conhecia. O Eduardo apresentou-me apenas como um amigo de Belém.

Pedimos uma cerveja e três copos e, em seguida, o Panelada perguntou pela Socorro.

– Está terminando de fazer as unhas, mas esperem só um pouco e vocês vão ver. O Tufi importou meia dúzia de meninas de Parintins que é um estouro. Tudo entre quatorze e quinze anos, diz-que no meio tem até cabaço, mas elas não vão fazer salão hoje, só sábado. Isso aqui vai bombar, botar gente pelo ladrão. Elas chegaram hoje, mas já correu a notícia, por isso elas vão se apresentar hoje, só para o delegado, o coronel e seus oficiais, antes do salão abrir.

Os olhos do Panelada brilharam.

O olhar do Eduardo por um instante cruzou com o meu. Viramos o rosto ao mesmo tempo para um lugar indefinido atrás do bar. Quatorze anos. Virgens.

Ficamos sem graça, com goste de merda na boca. Cara de menino que peidou na igreja.

A garçonete interpretou errado nossa postura. Confundiu com entusiasmo.

Não que fôssemos moralistas, até porque, o Hélio Miguez, radical, dizia que todo moralista era hipócrita, sonso, dissimulado e safado. Mesmo que não concordássemos, os exemplos de Altamira, só corroboravam sua tese. Em busca de uma auto-definição pretensamente filosófica, nos dizíamos libertários, quase libertinos. Partidários do amor livre, contra o celibato de padres e freiras, contra qualquer tipo de discriminação. Racial, social, qualquer uma. Abominávamos a prostituição, mas adorávamos as putas. Quem dava por que gostava, não era puta. Era libertária. Do time. As que cobravam, a qualquer título, por necessidade ou filosofia de vida eram putas. Também queridas e respeitadas. Para a corriola o cabaço era um tabu idiota. Mas havia algumas regras e paradigmas. Para os índios, a mulher estava pronta e com discernimento, após a menarca, quer fosse aos nove, dez, onze anos. Estava pronta para transar com quem quisesse, escolhesse ou fosse escolhida, vendida ou trocada. Um primitivismo quase animal. Menstruou está pronta para procriar. Daí pra frente irá sangrar, como qualquer fêmea, pouquíssimas vezes na vida. Sempre estará grávida ou amamentando. Minha mãe era citada como exemplo. Teve vinte e quatro filhos com dois maridos. Quase não teve tempo de menstruar.

Nosso entendimento libertário não era tão machista e devasso.

As mulheres teriam os mesmos direitos que os homens. Livre arbítrio. Podiam vestir-se como quisessem, dar quando e pra quem quisessem, homem ou mulher,  ou, até, não dar nunca. Tinham o direito de evitar filhos, abortar, ou tê-los de um ou vários pais, como a D. Eurídice, mãe do nosso amigo Pissirica. Seis filhos, seis pais. Criou-os sozinha, sem precisar de filho da puta nenhum, como costumava dizer. Esbanjava dignidade. Nenhuma carola desta cidade do D. Clemente apontava-lhe o dedo. E ainda por cima era comunista e chegada às letras.

Pois bem, com tudo isso, a mulher para ser desfrutada, tinha que atingir a idade da razão, do discernimento. E, por sua vez, desfrutar, também. Dar e sentir prazer, via de mão dupla, senão, era sacanagem.

Foram dias de discussão na beira do rio, do igarapé, no bar do Mimi, no sinuca do Salinzinho, ou na calçado do Zé Burlamarqui. Por fim chegou-se a um consenso: dezessete anos. Não sei por quê. No mínimo. Antes era estupro ou pedofilia. Não foi fácil demover alguns canalhocratas empedernidos, ricos em exemplos, principalmente de tempos idos. Não refrescaram sequer minha mãe que aos quatorze anos teve o Heleno, meu irmão mais velho. Aos dezenove enviuvou com cinco filhos e grávida da Sophia. Casou de novo antes de parir. Não me aborreci, apenas elencamos esse caso no rol da exceções, necessárias a qualquer regra. E como surgiram exceções.

***

Socorro apareceu por de trás de uma cortina chinesa de bambu. Logo a reconheci apesar de a luz que vinha do compartimento de onde saíra apenas mostrar-lhe a silhueta. Caminhou direto para nossa mesa, e quando passou pelo tablado, a luz do spot estava sendo testada e foi iluminada, de frente, em toda sua plenitude. Vestia um macacão de malha justo, colado mesmo, nada por baixo, como se fosse uma segunda pele. Negro, com um zíper na frente, branco, largo, aberto, formando um decote não tão exagerado, mas que deixava à mostra parte generosa da curvatura dos seios rijos, nem fartos nem pequenos. Exatamente como me lembrava deles. Aquele colante preto da mesma cor dos cabelos ondulados realçava a pele muito branca, de quem havia muito não sentia os raios do sol. Nesse metier o Astro Rei é a lua. Não pálida, mas cheia de viço. Olhos negros grandes e redondos. Ria antes com os olhos do que com a boca. Lábios grossos e bem desenhados. Carmesim vivo. Riso aberto e pleno de pérolas. Um metro e setenta de altura. Setenta e cinco, se muito. De salto alto era enorme para os padrões da região. Puta por opção e eleição. Sistematicamente recusava todo tipo de proposta de amigação ou mesmo de casamento.

***

Nem sempre foi assim. Lembro-me bem da primeira vez que a vi. Foi no Porto de Vitória. Estávamos, eu, o Eduardo e o Nêgo Chico esperando o navio da linha. Fôramos despachar alguém ou alguma encomenda para Belém. O navio vinha de Santarém. Estávamos na casa do Sílvio Alvarez, em frente ao porto, e único lugar naquela vila modorrenta onde se podia beber uma cerveja gelada e curtir um papo civilizado, quando o Chico entrou esbaforido.

– Acaba de chegar o maior broto que já pintou por essas bandas. Um monumento ao caralho desconhecido. E eu vi a calça dela no navio quando subiu a escada para a primeira classe. Veio de terceira. Repara que ela vai passar por aqui para pegar o caminhão do Maciel.

Fomos todos para a porta. De fato, tinha porte, mas para o meu gosto era magra, desgrenhada e desenxabida e não lhe dava mais, apesar da altura, que uns quinze ou dezesseis anos de idade. Vestido de chita abaixo do joelho escorrido e sem anáguas ou combinação. Carregava um saco cru, sem caucho, leve, denotando poucos pertences. Com desenvoltura jogou-o na carroceria do caminhão, a esta altura já cheio de gente, tralhas e bregueços. Ninguém a ajudou. Ágil, arregaçou o vestido e subiu, sem se importar se estava mostrando as pernas e até os possuídos. Cinema, como se dizia por lá.

Estaria só? Improvável. Não dei maior importância para o sucedido.

Voltei a encontrá-la, já muito tempo depois quando fugia da cana da ditadura. Foi no dançará do seu Almeida, no Bairro do Recreio, aliás, na época, o único bairro de Altamira. E nem se dizia bairro. La Bamba era o nome do mafuá, que o dono insistia não ser puteiro, mas festa de terceira. Aqui cabe uma explicação: Altamira, antes do frege da Transamazônica era uma cidadezinha pacata, mas muito festeira. Toda semana tinha festa, principalmente nas férias, quando a estudantada chegava de Belém. Festa de primeira era para as famílias mais bem postas na sociedade, seringalistas, comerciantes, bancários, colonieiros bem sucedidos, funcionários públicos e que tais. De segunda para o povo mais humilde, empregadas domésticas e subalternos. De terceira era para barqueiros, seringueiros, castanheiros, cassacos, lavadeiras e agricultores pobres. Uma perfeita democracia capitalista. Qualquer um pertencente às classes inferiores que enricasse ou subisse na vida era automaticamente recebido, sem questionamentos, nas festas de primeira e não mais podia freqüentar as dos escalões inferiores. Isso era particularmente rígido para as mulheres. Aos homens era tolerado, mas só de cima para baixo, nunca de baixo para cima.

O La Bamba era um barracão não muito grande. Uns quarenta metros quadrados. Quase todo aberto confinado por um peitoril de um metro de altura, dispensável, a não ser para barrar a entrada de cachorro vadio, que infestava a cidade. Tanto a abertura de baixo do peitoril, quanto o único compartimento da casa, misto de cozinha e depósito eram de pau-a-pique como cerca na vertical. O telhado de olho de babaçu traçado com capricho. O La Bamba era puteiro mesmo. Só não tinha os quartinhos para fazer indecência, o que era feito na capoeira, na beira do rio ou no cemitério. Nunca soube se em outras cidades do interior havia esse hábito de trepar no cemitério.

Festa de primeira terminava cedo. A nossa corriola gostava mesmo era da de segunda e da de terceira e, um pouco abaixo, do La Bamba.

Socorro se destacava das outras. Nem todas raparigas e, nisso, residia a diferença que o seu Julio Almeida alardeava. Muito branca, altura acima da média, contrastava das demais. Caboclas, índias, pretas, gazas nordestinas e todos os maravilhosos e variados matizes que essa miscigenação veio fazendo nas ultimas gerações. Moças novas, por vezes sem peito formado, mentindo sobre a idade e fingindo experiência que estavam longe de ter. Algumas, putas velhas, gordas, risonhas, faziam sucesso com os seringueiros e os mais embriagados. Estas, sim, experientes, servis, maternais, tratavam sempre os clientes por meu bem ou meu amor. Todos os anos, depois da safra da borracha e da castanha, muitas saíam casadas ou amigadas para os seringais dos altos rios e dos socavões dos igarapés. Um velho sapato para um pé troncho. Invariavelmente tornavam-se boas esposas, mães respeitadas e, principalmente, companheiras. Os patrões, seringalistas, discretamente incentivavam esse costume. O seringueiro que tinha mulher produzia mais, não baixava para Altamira para gastar o saldo nos puteiros e curando gonorréia no posto do SESP – benzetacil – gastava tudo no armazém do barracão. Chita, fustão, sandália, fitilho, perfume, sabonete, linha, agulha, panela, prato, colher. Põe na conta. E, ainda por cima, no inverno, época das chuvas, quando não se cortava seringa emendava para a safra da castanha. Mais saldo para gastar no barracão.

Havia também as putas que não queriam se amigar, ou mesmo casar. Esperavam enricar com a exploração do corpo, mas essa era outra fauna. Não era a de Altamira daqueles tempos. Putas de garimpo.

Não reconheci a Socorro. Já nem me lembrava mais daquela menina espichada subindo de qualquer jeito na carroceria do caminhão, que logo imaginei gasguita, só para completar o quadro.

Éramos uns cinco que chegamos para a alegria do seu Almeida, com a casa cheia de mulher e pouco homem. Mulher não gasta. Faz os homens gastar.

Lembro agora, que estavam comigo, o Chico Preto, o Dimas Soares, o Nhôca, o Capiroto e não sei quem mais. Seu Almeida, solícito, com um gesto brusco fez levantar umas três moças que estavam em duas mesas para nos dar o lugar.

– Que é isso seu Julio, deixe as meninas, sem elas este bar não tem a menor graça, falou o Dimas que não admitia descortesia com mulher. Fosse quem fosse.

– Deca, olha quem está aqui, a Socorro. Sussurrou alto o Chico ao meu ouvido.

– Quem é esta uma já, perguntei imitando o sotaque do Nhôca que era de Vitória.

O Chico bem que tentou lembrar-me daquela manhã no Porto de Vitória quando ela chegara de Santarém. Deu um branco. Jurava que eu não estava lá. Como não me lembrar de uma fêmea desse tamanho, com esses olhos, essa boca? Antes de a noite findar iria me lembrar e como!

Enquanto nos serviam cerveja apenas fria de uma velha geladeira a querosene, o Chico levantou-se e foi à cata da Socorro que estava no terreiro conversando com outras raparigas e fingia nos ignorar.

– Pronto, Deca. Está aqui. Agora vais me dizer que não te lembras.

– Claro, cara, como é que ia esquecer a moça mais bonita de Santarém? Menti deslavadamente, mas nessas ocasiões, sempre se mente. Sente conosco, princesa, arrematei.

***

Daí para frente apenas mais uma ou duas vezes voltei ao La Bamba. Encontrávamo-nos em qualquer lugar. Na rua, na praça, nas praias, na beira do rio, do igarapé, até na igreja. Poucas vezes na casa dela ou na minha. Andávamos escandalosamente de mãos dadas na rua. Foi por esse tempo que o Tufi abriu a boate. Cachorro quente. Nunca soube o porquê desse nome. Mas essa era assumidamente puteiro. Para a inauguração trouxe até garotas de Belém. A casa era refinada, toda fechada, sem janelas, pouca luz, e colorida. A música era hi-fi de uma eletrola de móvel de madeira. Pau marfim, pé de palito. A tampa abria para cima e era automática. Trocava sozinha dez discos. Dez “longuepleis”. Depois, muito depois, na reforma, quando virou Danúbio foi que entrou música ao vivo. O conjunto do Silvino, que o Eduardo batizou de Os Assassinos do Ritmo. Pura maldade, mas eu ainda preferia a eletrola de pé de palito.

Pois bem, com os novos tempos, a casa foi ampliada e reformada. Não foi bem uma reforma qualquer. O Tufi fez uma outra casa. Grande, espaçosa, projetada por arquiteto da Capital, iluminação planejada e uma parafernália de som de última geração trazida de contrabando da Zona Franca de Manaus, como também, o sistema de refrigeração central. Eram tempos de Transamazônica, de muito dinheiro ganho fácil nas asas da corrupção, das empreiteiras, dos grileiros, da Sudam e, como fecho da desgraça, tempos de pistoleiros. Altamira tornou-se a Meca dos matadores de aluguel. Muitos elegeram a cidade como coito seguro e só aceitavam encomenda para outros lugares, inclusive Rio, São Paulo e Nordeste, mas principalmente, Belém e o Sul do Pará, que pareciam padecer da mesma febre. Profissionais que não deixavam rastros. Com o tempo muitos se tornaram fazendeiros e madeireiros. E outros tantos madeireiros e fazendeiros e policiais tomaram para si o mister da pistolagem. Por interesse próprio, corporativo ou de aluguel. Era fácil e havia a certeza da impunidade.

O Tufi demonstrou grande competência como empresário e proxeneta. Conseguiu fazer do Danúbio território neutro. Nunca ninguém foi executado em seus salões. Talvez porque, tacitamente, os atores considerassem profanação, atividade essencial, ou mesmo, a freqüência, com raras exceções, fosse exclusiva de um dos lados da contenda. O lado mais forte. Como diria meu amigo Lulu Burilança, filósofo da gandaia: Boi preto só anda com boi preto.

Socorro passou a freqüentar e depois morar na “Boite Danúbio”.

Quando ia a Altamira, e ia sempre, eu era exclusivo dela. Ela não era exclusivamente minha. Isso me incomodava um pouco, não que fosse civilizadamente acordado na minha fase existencialista, mais para Sartre de que para Kierkegaarde. No fundo acho que tinha medo que de outra maneira ela não aceitasse. O canalha do Zé do Mané Paulo dizia que é melhor dividir o filé com fritas de que comer sozinho jabá com chibé.

Foi em uma dessas idas que o Dr. Élio, juiz de direito de Altamira, havia determinado horário para as prostitutas saírem à rua, para não chocar as famílias. Durante a semana, só depois das nove da noite, hora em que apagava a luz da prefeitura e, aos sábados pela manhã, até o meio dia, para ir às compras e fazer a feira.

Quando desci do batelão que pegava os passageiros no meio do rio, onde apoitava o avião catalina da Panair, na rampa do seu Meirelles, inusualmente, toda a corriola estava lá para me receber. Logo vi que ali tinha coisa. Não era saudade ou prestígio. Era só para contar a última sacanagem do juiz e ver a minha reação. Nenhuma, eu já sabia, e dei o troco. Concordei com a medida moralizadora, que bem que Altamira estava precisando, senão, aonde iríamos parar? Isso aqui já estava parecendo Sodoma ou Gomorra.

Claro que me cobriram de porrada. Neste mesmo dia fui à novena das sete com a Socorro e passei na frente da casa do juiz. Foi quando, como já contei, que a apresentei a ele como minha noiva.

***

Antes, a Socorro morava na Quarta Rua, quase a ultima casa, no limite onde a água do igarapé chegava em anos de grande cheia. Era a passagem obrigatória das lavadeiras com suas grandes trouxas. Às vezes, ao raiar do dia, quando estava saindo, elas estavam passando. Soltavam piadas e eu fazia graça, quando não as acompanhava para um banho de água gelada para curar a ressaca.

A casa dela era de um único cômodo. Tudo muito arrumado e asseado. Era dela mesmo. O banheiro, no fundo do quintal, sempre com duas latas de querosene com água, uma coité à guisa de saboneteira. Ela comprava água do Cabrinha, que era o aguadeiro, cinco latas de vinte litros por dia. Uma especial, para beber, apanhada, diz-que, do meio do rio, no fio da correnteza. Pote com tampa e púcaro. Uma mesa coberta por uma toalha enviesada de crochê, e uma cadeira, dois vasos de plantas, um candeeiro Aladim de manga comprida, fogareiro de barro, duas panelas e um papeiro, bem brilhando de areados, um prato de louça e duas tigelas esmaltadas. Mas o inusitado mesmo era um rádio a válvulas, ondas curtas, alimentado por uma bateria pesada de seis volts. Voz da América, Rádio Nacional, Rádio Havana, Cuba e PRC 5, Rádio Clube do Pará. Com direito a muito zunido e chiado.

No primeiro dia em que entrei quase me emocionei. Não havia cama. Rede branca de varanda de renda. Duas caixas de madeira, de embalar sabão, faziam as vezes de toalete. Tudo forrado com panos de saco de açúcar, muito limpos e bordados com ponto em cruz, um bem desenhado monograma: MPS. O mesmo, com as toalhas de banho, também de saco. Nem de longe se pareciam com as toalhas enormes e felpudas das putas de Belém. Uma estante de duas tábuas penduradas por corda de rede aos caibros do telhado de palha esgarçada. A moda de um trapézio balouçante. Uma dúzia de revistinhas, Contos Magazine e uns cinco livros de M. Delly, um autor, ou autora, açucarada, muito em moda na primeira metade do século vinte. Afora, é claro, os indefectíveis almanaques do Capivarol e do Biotonico Fontoura. Aos poucos aos livrecos de M. Delly, foram-se acrescentando outros da chamada Literatura Cor-de-rosa, Coleção Biblioteca das Moças. Berta Ruck, Henry Ardel e, principalmente Elinor Glyn, pseudônimo de Elinor Sutherland, autora de contos eróticos, que inventou o “it” como tradução de sexualidade, atração sexual, ou, como queiram, sex appeal. Nada que se comparasse às pornografias de Adelaide Carraro, ou, a assumidamente lésbica, Cassandra Rios. Depois veio Monteiro Lobato, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Distoievski e, aí, já o vírus do hábito da leitura.

A visão da Socorro tinha o condão de iluminar-me o astral. Ela sabia disso. Os outros também.

Cada vez que a via, estava mais exuberante, madura, consciente, senhora de si, independente. O dono da Casa não mandava nela e ela não queria mandar em ninguém. Dava lucro e, porque não dizer, um toque de classe à boate. Também ninguém suspeitava de onde ela tirara essa postura e esse touch of class. Talvez fosse inato, mas era diferenciada também na vida privada. Até porque afora o lugarejo de onde viera, o Arapixuna, só conhecera Santarém, e de passagem.

Ainda criança virou babá de, como dizia, duas pestes, filhos de um casal de turcos compradores de pele de gato. Por vezes, também servindo ao patrão. Com eles veio para Altamira no navio Imediato Carepa, do SNAAPP. Eles na primeira, ela na terceira classe. Apesar de possuir o mais requintado budoar da Casa e uns bons cobres no Banco do Brasil, mantinha intacto o velho casebre da Quarta Rua, onde passava, quase reclusa, os domingos, que o movimento era fraco, e as segundas-feiras, quando a casa não tinha função. Nesses dias, e só então, costumava assobiar. Muito afinada, parecia trinar. Velhas cantigas de roda, ou de Catulo da Paixão Cearense. Nunca as modernidades da boate. Isso, de certa maneira, intrigava-me. Onde diabos teria aprendido Constança, A flor do maracujá, Senhor da floresta e, mais surpreendente ainda, Dixie.

O tempo foi passando, meses, anos, e as pessoas não notaram a lenta transformação. Dela e do barraco, até porque, a fachada pouco ou nada mudara.

Tinha, como se viu, compulsão pela leitura. Os livros, agora já perto de uma centena, os deixava no barraco, em uma estante de perfis de ferro, refugo da prefeitura, que ela mesmo parafusou e pintou de branco. Uma cama turca de solteiro. Ali, não era lugar de receber clientes, dizia. A casa era a mesma, apenas havia luz, água encanada, banheiro interno com chuveiro quente e piso novo de tábua corrida. O telhado, também novo, mas continuava sendo de palha de olho de babaçu.

Certa vez, perguntei-lhe, só de sacanagem, pois sabia muito bem, de onde diabo ela tirara esse sobrenome Emmett. respondeu sem o menor interesse:

– Sei lá, não faço a menor idéia. Estava na minha certidão de batismo que até hoje é o único documento que tenho e, como já te disse, nunca conheci nenhum parente. Quando me entendi por gente não tinha mais pai nem mãe, aliás, desconfio que eles mesmos desconhecessem. Só sei, por ouvir dizer, no grupo escolar lá de Arapixuna, que eles não tinham eira nem beira, até porque, se tivessem, quando os dois morreram, de sezão, quase ao mesmo tempo, não me teriam dado às freiras que dez anos depois me deram para o turco. Como vês, minha história, antes de Altamira cabe em meia folha de caderno.

***

Certo dia, como fazíamos de vez em quando, estávamos passeando na foz do Igarapé do Ambé, em uma prainha linda, rasa, que chamávamos de Quente-frio, porque era onde as águas revoltas, rápidas, pretas e geladas do Ambé despencavam da serra e encontravam-se com as águas mornas, calmas, muito rasas e verdes do Xingu, resolvi contar-lhe o pouco que sabia a respeito e que ouvi quando morei por uns tempos em Santarém. Seus ancestrais seriam gente graúda por lá na segunda metade do século XIX. Americanos. Se é que foram mesmo seus ancestrais, porque era costume naqueles tempos, de os escravos, agregados e xerimbabos, adotarem os nomes de família dos amos, com o tácito conhecimento destes, até para firmar ascendência, senão, propriedade mesmo, sem remuneração. Era mais prático, mas não constavam da árvore genealógica. Herança estava descartada.

– E onde eu entro nessa?

– Pois é, em meados do século dezenove, houve uma guerra civil nos Estados Unidos, ainda não tão unidos assim. Foi uma loucura total, procurei simplificar, o Sul, das plantações, dos escravos, contra o Norte, das indústrias, do capital.

– Pula essa parte. Até aí eu sei, é a história do O Vento Levou, o Barco das Ilusões e da Cabana do Pai Tomás.

– É, mas não foi tão romântico como se pintam. O Sul representava o atraso, a escravatura, a hegemonia da raça branca, o preconceito. É bem verdade que o Norte também nunca foi nenhuma Pasárgada. A discriminação amplificada permeou toda a nação. Norte e Sul. Passou a haver gueto para tudo quanto era etnia. Preto, judeu, índio, latino, até irlandês.

– E aí,

– E aí, que o Norte ganhou, e, “ai dos vencidos”, nos primeiros tempos os ianques, como eram conhecidos os do Norte, devem ter feito um mundo de barbaridades, como, aliás, faz todo vencedor. Saques, estupros, tortura, assassinatos e, vandalismo puro e simples. O poder discricionário desperta no ser humano o que há de mais torpe, sádico, bestial. É o poder das ditaduras. Na história não se conhecem exceções. Além do que, convencionou-se, não sem uma carrada de razão, que os do Sul eram “do mau”. Também ninguém afirma que os do Norte eram bonzinhos. Só sei, com certeza, que as elites do Sul continuaram a ser maus, agora, religiosa, filosófica e ideologicamente “do mau”. Um dia te falo da Ku Klux Klan.

– Não enrola, essa parte da KKK eu também sei, mas onde eu entro nessa?

– Tu és Emmett. Maria do Perpétuo Socorro Emmett. Com dois emes e dois tes.  Os Emmett eram do Sul, perdedores, perseguidos, devem ter sofrido o pão que o diabo amassou. Principalmente os Emmett.

– Então quer dizer que este carma de sofrer vem de longe. E por que sempre Emmett tem que apanhar mais que os outros? Não, que seja o meu caso, estou muito bem assim.

Senti na Socorro um leve tique de ansiedade. Essa história estava de fato mexendo com ela. Embora eu estivesse procurando ser leve, didático, amenizando as tintas, quase me arrependi de haver começado esta conversa. Não naquele sítio, ermo, que considerávamos só nosso, e que muitas vezes a viu dormir em meus braços até que o sol se pusesse e eu a acordava, soprando levemente seus cabelos. Pelo seu cenho franzido, tentando aparentar indiferença, senti que indelevelmente havia conspurcado nosso santuário.

Ela estava imersa na água, na parte rasa e morna do Quente-frio, apenas com a cabeça fora d’água, os cabelos muito negros escorrendo e contornando o rosto. De tempos em tempos mergulhava, rápido, como que para não perder palavra da narrativa, a essa hora, para mim, já penosa.

– Continua, disse quase sussurrando. Por que o tal Emmet era pior que os outros?

– Não disse que era pior, nem melhor que ninguém, apenas a família era mais perseguida porque um tal “Uncle” Emmett, aliás, Daniel Decatur Emmett, foi o autor do hino dos confederados: Dixie, ou Dixie’s Land, Terra de Dixie. O que, ainda hoje, para muita gente, pelo menos para os negros americanos, é de extremo mau gosto.

– Como é? Repete essa parte do hino. Disse levantando-se da água rasa em toda sua nudez. Linda, pura, santa. Repeti, sem entusiasmo, já querendo encerrar a prosa e mundiado pela visão do Paraíso, entrei na água, caminhando lentamente em sua direção. Ela abriu os braços, seus seios túrgidos, compunham o todo harmonioso e belo que tinham o condão de transportar-me ao nirvana. Fizemos amor na água, na praia, na relva, onde deitamos exaustos, de costas, olhando as primeiras estrelas que surgiam no céu ainda não de todo escuro. Pensava em nada. Pensei que ela também.

– E aí?

– Aí, o que?

– Os Emmett.

Virei de lado, rindo, passei a perna direita por cima de suas coxas, que eu sabia macias como pêssegos, mas agora ásperas pelo roçar da areia. Levantei os joelho até sentir os pelos pubianos, fartos, que sobressaiam de suas pernas juntas. Ela também virou de lado, rindo, e ficamos frente a frente, os lábios quase a se tocar, sentindo sua respiração e seu hálito doce. Seus seios roçaram meu peito. Coçou minha cabeça puxando levemente meus cabelos entre os dedos, como era seu jeito de sempre fazer depois do amor, e, agora, não mais tensa, em estado de graça, rindo, sussurrou: E aí?

– E aí, que consta, que este mister Emmett, reuniu outros desesperados, contratou um tal de Coronel Hastings, diz-que uma boa bisca, que tinha um navio de nome Inca, que trabalhara para os dois lados em guerra, diz-que, repito, para quem pagasse mais. Assim, ele levava escravos fugidos para o Norte e contrabandeava negros de Cuba e do Haiti para as plantações de algodão dos estados do Sul. Ganhava dinheiro subtraindo preto para a liberdade e ganhava de novo repondo a mão de obra escrava, barata, vinda do Caribe. Pois bem, este tal Coronel, tirou os olhos da cara dos fugitivos, ficando com quase todas as suas propriedades americanas em troca de duas viagens ao Brasil, nestas alturas, simpatizante da causa sulista, afinal, o Brasil foi o último pais do mundo a abolir a escravatura, pelo menos, formalmente. Devia ser um excelente marinheiro e os passageiros, intimoratos pelo desespero, pois encararam a travessia do Golfo do México e Caribe em plena estação dos furacões, em um barco a vela. Subiu o Amazonas e despejou o pessoal em Santarém.

– Quem mais veio nessa aventura?

– Olha, deve ter vindo muita gente, pois o Inca fez duas viagens, mas consta, que a maioria era gente da pior qualidade que não se criou na Amazônia e logo voltou para a América. Não se soube mais notícias deles, só os que ficaram. Conheço muito descendente desse pessoal que veio na mesma leva que o “teu Emmett”, mas acho que tu és bastarda, assim como eu. Bastardo de avô, de bisavô, tataravô, como a maioria do povo ancestral brasileiro, pois os portugueses não colonizavam com suas famílias. Só vinham varões, por assim dizer, machos. Até porque não eram migrantes, eram conquistadores. Não vinham para trabalhar. Vinham para fazer, trabalhar, primeiro o índio, depois o preto e também o índio. Por seres bastarda, se é que és, não tiveste vez nem espaço na sucessão. Acho que nem teu pai, nem teu avô. E isso tudo aconteceu, mercê dos desígnios da divina providência, para que eu herdasse este tesouro que está aqui ao meu lado, na beira do Xingu.

Agora, já soprava uma brisa, ora morna, ora fria, que subia o rio vinda das bandas das cachoeiras e que deixava arrepiados nossos corpos nus. Não dava para incomodar.

– Deixa de pavulagem e terminha a história, ela falou ainda aos sussurros.

– A história já terminou, até onde eu sei, ficaram por Santarém o pastor Henington, os Stroop, os Wallace, os Franklim, os Wilkens, os Rhome, os Pitt, os Wanghon, os Gennings, os Hendenhall e não sei mais quem.

– Eles compraram ou trouxeram muitos escravos?

– Consta que não. Trazer, não tinha jeito, a não ser alguma mucama mais fiel ou sem opção de subsistência por lá, alguma pretioca babá de criança, enfim, se muito, trouxeram a criadagem de cor. Hábito que haveria de permanecer, naturalmente, na América, tanto no Norte como no Sul, pelo menos durante o próximo século.

– No Brasil também não é diferente, mas como se ataram sem escravos?

– Não era preciso, não, na Calha do Amazonas. O povo mameluco ribeirinho, do Marajó às Anavilhanas, das várzeas, dos furos, paranás e igarapés estava, como até hoje, ávido para servir a um senhor. Branco, poderoso, se estrangeiro, melhor ainda. Ouvi muitas vezes o ditado que “árvore grande é que dá sombra”, enfim, um pau forte para se encostar. Proteção.

– Pensas mesmo que nosso povo é assim? Passivo, pomba mole?

– Não, longe disso, mas eu tenho uma visão muito particular e clara do comportamento das nossas populações ribeirinha pós genocídio.

– Genocídio? Espantou-se levantando a cabeça do meu braço e fitando-me de cima, estás falando daquela guerra dos americanos? Acho que me distraí e perdi o fio da meada.

– Não, nega, estou falando daqui, mesmo. Da Cabanagem. O que eu penso é que não foi muito diferente do que a história conta em todos os tempos, em todos os lugares.

– Essa, eu quero ouvir.

– Talvez em um outro dia. Está tarde, já é noite e a lua vai demorar a sair. Não te esqueças que viemos de bicicleta.

– Qual é o problema com a hora? Vais dar de mamar? Ou assinar o ponto com a namoradinha? Ou será que tens medo da cobra grande? É, porque, onça e índio, por aqui não tem mais, todo mundo sabe que tua família já cuidou dessas pragas. Falou só para me provocar.

– Hoje estás impossível. Onça, até que eu aceito, mas com índio, o velho Anfrísio sempre confraternizou.

– Principalmente com as índias, ela arrematou rindo. Mas ficas me devendo mais essa.

***

Quando, com uma ponta de ciúme, deitado em sua cama passando em revista ligeiramente as lombadas dos livros, de certa maneira, orgulhoso, pois a maioria não era dos que lhe dera, mas pedidos pelo reembolso postal, perguntei-lhe quantos homens ela já tinha trazido para aquela casa, dormido naquela cama, respondeu séria.

***

– André, sou lúcida e consciente. Tu me ensinaste a ser livre. Essas idéias calam fundo. Os livros que me deste, e eu odiava, pois a cada viagem trazias mais e cobravas a leitura dos antigos, fizeram toda a diferença. Ninguém é dono de mim. Tu e o Eduardo, com ideais libertários, de igualdade socialista, são uns bons filhos da puta. Na minha cama… Só tu vens aqui porque és meu amante, parceiro, sócio e amigo. Nunca falei assim a ninguém. Nem sei mesmo porque estou falando, mas há muito que queria dizer isso para ti e tinha medo de chorar. Quando, nesta mesma casa, me pediste para ser só tua, até casar, mesmo, balancei. Minhas pernas bambearam e caí numa risada convulsiva. Não entendeste. Ficaste magoado interpretando como uma negação. E era. Saíste por aquela porta, com certeza ainda ouvindo minha gargalhada. Quando o jipe arrancou, o riso transformou-se em pranto. Chorei como nunca havia chorado na vida. Não dormi nem comi. No outro dia as lágrimas secaram. Alguma coisa dentro de mim dizia que secaram para sempre. No mesmo dia pegaste o avião e foste embora. Daí em diante serias apenas mais um cliente. O único que não pagava, mas cliente.

Nós dois sabíamos que não era assim, apenas, éramos estúpidos demais para admitir.

***

Socorro, ao aproximar-se de nós, não demonstrou a menor surpresa pela minha presença. De alguma maneira nos deve ter visto chegando.

– Égua! Estás linda e usando o perfume que te dei faz tempo. Disse, levantando-me para abraçá-la.

-Não era bem isso que tinha decorado para dizer-te quando te encontrasse. Temos tanto a nos dizer.

– Mais ainda tenho a te ouvir, disse-me.

Touché!

Neste momento as luzes se apagaram e os Assassinos do Ritmo atacaram e aquela caixa de som gigantesca não deixou mais ninguém ouvir ninguém. Nem aos berros.

Ante o olhar aparvalhado e embevecido do Eduardo, peguei-a pelo braço, fiz um sinal para o Panelada e fomos saindo, no exato momento em que uns quatro carros das polícias civil e militar estavam chegando. Fiz cara de quem não quer graça e entramos no velho Opala. Ela não perguntou aonde íamos, apenas, timidamente, o que não era do seu feitio, ponderou que não poderia ir a nenhum lugar público com aquela roupa. Sussurrei-lhe ao ouvido: soube que aquele juiz veado morreu no ano passado.

– Senti uma ponta de preconceito na maneira como disseste juiz veado. Não vale decepcionar-me. Falou também ao meu ouvido para que o Panelada não ouvisse.

Touché de novo!

Chegamos à porta de casa, e o Tucunaré, que era vizinho, estava lotado. Chegamos chamando a atenção geral e passamos entre as mesas até o Meu Sossego e quase rebentei a aldraba cabeça de leão da velha porta pesada de acapu. Madrinha Benedita abriu a porta assustada. Empurrei as duas para dentro, como um possesso corri de cômodo em cômodo, acendendo todas as lâmpadas da casa. As duas quedaram-se exatamente como as deixara. Peguei com as duas mãos o rosto da madrinha, beijei-lhe no alto da cabeça branca e, olhando bem em seus olhos, balbuciei.

¬ Esta é minha noiva. Vou casar como a senhora queria, agora mesmo, amanhã, depois, o mais rápido que conseguir. No padre e no cartório. Até que a morte nos separe.

A velha preta fez cara de choro. Pegou minha mão e beijou, depois a mão da Socorro e também beijou encostando nossas mãos em seu rosto. Desabou no sofá soluçando. Sentei ao lado enquanto Socorro entrava em busca de um copo d’água.

A cerimônia foi simples e rápida, no cartório da minha amiga Coló, que não aceitou pagamento. A juíza, mercê de uma propina generosa do Pissirica, dispensou os proclamas. As minhas testemunhas, como não podia deixar de ser, foram todos os da minha corriola e as esposas. Algumas torcendo o nariz. As da Socorro foram o Tufi e mais umas três colegas da “boite”. Todas emocionadas enxugando as lágrimas. O vestido da Socorro mandei vir de Belém. Branco de rendas. O buquê de flores de laranjeira. Maior pureza impossível. A noiva mais linda que Altamira já viu.

continua

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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