BELÉM ALIENADA – Capítulo III (4ª parte)

É importante ler antes:

MEMORIAL DA AMAZÔNIA – TRILOGIA

A ESTRADA PARA SANTARÉM (Capítulo I – completo)

O VÔO DA ANDORINHA e EDUARDO BESOURO (Capítulo II  – completo)

A TURMA DO LIMBO – Capítulo III (1ª parte)

1964 – UM RELATO SUBVERSIVO – Capítulo III (2ª parte)

DOCE PUTA – Capítulo III (3ª parte)

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Capítulo III

BELÉM ALIENADA

4ª parte do C apítulo III

Tempos de cidade grande. Como disse, após o curso primário no GEA – Grupo Escolar de Altamira, único existente no município, a moçada cujos pais tinham alguma posse iam continuar os estudos na Capital. Internatos religiosos. Se homem, colégio de padre: salesiano e marista. Se mulher, colégio de freiras irmãs doroteas, catarinas, salesianas, mas colégios diferentes. E outros. Sempre separados. Colégio que tinha internato, não podia ser misto. Era masculino ou feminino, inclusive no externato.

Comigo não foi assim, minha mãe era meio porralouca, metade do curso primário cursei no Grupo Escolar de Altamira e metade em diversos colégios de Belém. Públicos e particulares. Não aprendi nada. Cheguei à quinta série totalmente analfabeto.

Por essas idas constantes à Capital, a minha infância foi mais cosmopolita do que a da minha turma de Altamira. Do seringal, nem se fala. Belém para mim não tinha segredos, embora meu território fosse o Largo de Nazaré, onde morava, e pouca coisa do entorno. Dois ou três amigos, vizinhos, não mais, até porque, as famílias não viam com bons olhos a minha companhia. Rude, meio selvagem, indisciplinado e não gostava de estudar. Caboco do Xingu.

Aos dez anos fui mandado ao Rio de Janeiro, para casa da Mãe Cora. Uma espécie de pensionato para a moçada do interior que ia cursar o Colégio Militar. Todos, menos eu, do interior do Espírito Santo onde fora professora e veio ao Rio trazendo os próprios filhos para estudar. Quatro meninos e uma menina. A menina morreu ainda moça de tuberculose, quatro chegaram a general do exército e, um, entrou para o Partido Comunista. Cheguei à Vila Isabel, subúrbio da Zona Norte, xucro e analfabeto. Não passei, claro. Fiquei mais um ano, mãe Cora me desemburrando, e foi tudo o que aprendi no ensino fundamental.

No Rio também era alvo de gozação, mas depois de um ano, me achava o próprio carioca, aos onze anos, morcegava bonde, saltava em movimento, quando o cobrador se aproximava.

Fora a moçada de casa, todos mais velhos, também ali, não fiz amigos.

Fui mandado de volta. Ser militar não era minha praia, mas aquele ano estudando no Rio foi toda a minha base, pois aprendi a ler, escrever e, principalmente, gostar de ler. Não sei bem porque, talvez por influência do Arildo, filho da mãe Cora, aquele um, comunista, que aos dezessete anos caiu tuberculoso e foi, por isso, jubilado do Colégio Militar. Para ganhar a vida, já que estava condenado a passar pelo menos um ano de cama, em repouso absoluto, fazia, para uma editora de fundo de quintal, traduções de livrinhos de bolso. Aventuras policiais e faroeste. Traduzia do italiano, do espanhol e do inglês. Não sabia nenhum desses idiomas. Um padre seu amigo, que conseguira o trabalho, também o presenteou com uma máquina de escrever e os dicionários.

No princípio, com um lápis de ponta bem fina, escrevia em cima de cada palavra, a tradução literal, até o fim do livro, depois lia buscando o sentido. Eu era encarregado de afinar as pontas de uma infinidade de lápis antes de ir à escola. Quando chegava já estavam rombudas de novo. Em poucos meses quase não consultava os dicionários. Traduzia correntemente nos três idiomas, mas era incapaz de pronunciar uma única palavra. Eu lia aquela baboseira datilografada, já traduzida, pelo menos dois por semana. Ele achava que eu era tão rude, que se entendesse, todo mundo entenderia. Daí para Monteiro Lobato, Daniel Defoe, Julio Verne e José de Alencar, Dumas foi um pulo. Lembro-me agora, que quando voltei ao Pará, mesmo em casa, só lia escondido. Principalmente quando fui para o internato salesiano onde certas leituras ditas profanas eram terminantemente proibidas. E ainda havia um tal de index librorum prohibitorum, do qual eu só precisava saber o prohibitorum.

No internato, salesiano e marista, fiz meus primeiros amigos da capital. Mesmo muito novo, entrei para a categoria dos maiores. Alguma liderança surgiu em função do atletismo, arremesso de peso, disco, natação e vôlei. E porradeiro. Tudo a ver com o cabocão do Xingu. E assim fui me distinguindo. Estudar estava definitivamente fora de cogitação. Notas péssimas. Continuava lendo. Tudo que me caia às mãos. A biblioteca do Grêmio Nazareno Albino de Souza Cruz, do Marista, era infinitamente mais liberal de que a salesiana de onde vinha. Não que os irmãos se preocupassem com isso, mas um rico senhor português, acho que ex-aluno, fez a doação, inclusive as ricas estantes de madeira trabalhadas com vidro bizotado. O filantropo deve ter distribuído várias delas por aí. Soube depois que esse seu Albino tinha uma fábrica de cigarros, a Souza Cruz, naturalmente, e que a teria vendido para a Britsh Amarican Tobacco Company. Morreu sem botar um sequer na boca, dizem.

Com esses costumes considerados incongruentes de atleta e ledor, conquistei a simpatia da maioria dos irmãos maristas, que não eram padres, mas religiosos educadores com origem na França, portanto de mentes muito mais abertas e eram incrivelmente jovens e, alguns, cultos. Quando descobri a denominação original, Les Petittes Frères de Marie, foi uma delícia de gozação. Os Irmãozinhos de Maria, mais afrescalhado não podia ser. Não eram. Quase todos daqueles tempos deixaram a batina, constituíram família, e muitos continuaram educadores lecionando no Colégio.

Como disse, por essa época fiz meus primeiros amigos de Belém. A maioria já intelectual. E o foram para toda a vida. Eram tempos de iniciação política. Contestação de valores, algum maniqueísmo, esquerda, direita, primeiros passos existencialistas e, principalmente éramos a geração do pós guerra. Ainda havia as viúvas, inconscientes ou não, do nazi-fascismo traduzido principalmente pelas elites eclesiásticas, militares, latifundiárias, prepotentes, racistas, em fim: direita. Essa era nossa visão, embalada pelo teatro de Bertold Brecht, cinema francês, italiano, russo. E isso tudo começando antes dos dezoito anos de idade. Entrei para o Partido Comunista do Brasil aos dezesseis ou dezessete.

Nesse período foram muitas as idas ao Xingu. Altamira e Seringal Praia de São José. Rio Iriri e Riozinho do Anfrísio. Chamávamos apenas de Praia e Riozinho, que é enorme, subíamos vários dias de embarcação a motor.

Aí já estavam definidas minhas corriolas: do seringal das pescarias, caçadas, forrós, lamparinas, assombrações, bicho do fundo, curupira, mapinguari, capelobo, arco, flecha, pedral, cachoeira, corredeira, medo de índio, de cobra grande e de onça. Da mata que era maior de que Deus. Dizia-se, por diversos motivos, principalmente nas querelas e injustiças: Deus é Grande, mas a mata é maior. Ainda o Seringal do Chico da Maroca, do Chico Capivara, do Sabá da Natália, ah Natália da nossa tesão. Antonia Roxinha.

Corriolas estanques. Os causos do seringal não faziam sucesso na capital. O humor sutil, ingênuo, caboclo, por vezes ferino era totalmente sem graça para a turma da cidade. Que tinha que ser fácil, direto, escrachado, importado, do rádio e, depois, da televisão. Contado em segundos. Houve quem dissesse que se os dez mandamentos houvessem sido anunciados no horário nobre da TV, ficavam só em quatro ou cinco. No Xingu, de bubuia na corredeira do pedral, tínhamos todo o tempo do mundo. Fora o relógio grande do barracão, com suas badaladas irritantes a cada quinze minutos, não me lembro de ter visto outro relógio por lá. Claro que devia haver no fundo de algum baú ou saco encauchado, até porque, se tinha que dar corda todo dia. Pra quê?

***

Mestre Agostinho, marido da Mãe Maroca, era um preto enorme, empertigado, rijo, hoje, acredito que beirasse o metro e noventa, mas naquela época, me perecia com mais de dois. O homem mais corajoso da carreira do rio. Nasceu e se criou no Quilombo do Vô Mandinga, pras bandas do Piauí. Escondido, do mundo, ele e sua gente, por mais de um século, com medo dos capitães do mato, caçadores de escravos fugidos. Quando descobriu que a escravidão há muito tinha sido abolida meteu o pé no mato e depois de muito perambular veio dar com os costados neste outro fim de mundo, mas livre e feliz.

Carpinteiro naval. Fazia de canoa e remo a embarcação grande de cinqüenta toneladas. De cabo a rabo. Ia ao mato, escolhia a árvore, pau d’arco ou pequiá, derrubava de machado, com precisão. Dependendo da grossura, às vezes, demorava mais de um dia. Dizia-se que marcava com uma cruz onde o pau ia cair. Taciturno, Mestre Agostinho não era chegado a muita prosa. Sua palavra era um tiro. Por tudo isso, quando naquela noite, ele chegou de baixo de chuva, tremendo de febre, ninguém duvidou da sua história:

– Eu estava pescando, homem, peixe de couro, quando lá pra perto da meia noite, homem, dei num cardume de surubim, homem. Fez uma pausa, a estas alturas a casa da mãe Maroca já estava cheia de gente ao redor da rede em que Mestre Agostinho se sentara, tremendo de frio, enrolado em um cobertor de lã. Tomou um gole de café forte e continuou, sempre com o sestro característico de intercalar frases com a palavra homem.

– Já tinha matado uns quantos peixes, homem, podia vir embora, mas a ganância não deixava. O céu, até então estrelado, relampeou e no mesmo instante o pau caiu a folha. Um toró horrível. As estrelas se apagaram e o negrume da noite baixou. Não se via nada, homem. A febre atacou também do nada. Foi tudo junto, no mesmo instante que Ele saiu das profundas do meio de um enorme rebojo de escuma e, sem se segurar em nada, sentou na popa da canoa. Parou de novo para enxugar o suor que já embebia a toalha que a Zuza, filha do Dodô Capivara trouxera na cabeça para aliviar da chuva.

Todo mundo tinha um mundo de perguntas a fazer: se o Bicho era feio, se tinha pé de cabra, se tinha rabo, se botava fogo pelas ventas. Ninguém perguntou nada. O silêncio só era quebrado pelo barulho da chuva na palha do telhado. Maria Cunhã desfiava um terço, de boca aberta, sem mexer sequer os lábios nas Aves Marias, atropelando os Padres Nossos. Depois de outro gole de café, as mãos pararam de tremer e Mestre Agostinho continuou:

– Eu logo vi de Quem se tratava. Virei para frente para não encarar o Coisa Ruim, pois eu sempre soube que Ele não gosta de ser encarado. Comecei a encomendar a alma e a rezar, em voz alta, um responso para o glorioso São Raimundo Nonato. Rezava e eu mesmo respondia cantando pelo coro. Mesmo cantado eu perguntava o que ele queria e, repetia sempre: o sangue de Jesus tem poder! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para Sempre seja louvado. Continuava perguntando o que Ele queria. E Ele calado. De repente me lembrei que podia ser a Iara, protetora dos peixes e do rio.

– Hum, hum, dessa eu nunca ouvi falar, disse encafifada Mãe Maroca, não sem antes notar que o marido havia perdido o sestro de intercalar as frases com a palavra homem.

Ninguém comentou, nem tirou os olhos do velho preto, afinal, para ninguém ali fazia qualquer diferença.

– Eu devolvo os peixes, disse. Eu sei que peguei mais do que devia. E comecei a jogar os peixes na água, pegando de costas, do fundo da canoa, para não ver Aquilo. Todo meu corpo tremia. A muito custo senti que tinha jogado o último quando vi as borbulhas em volta da canoa e o alívio do peso. Mal e mal remei pra beira e consegui chegar. Louvado seja o Glorioso São Raimundo Nonato.

– Para sempre seja louvado, todos responderam em uníssono.

O velho derreou na rede, exausto, já em sono profundo. Mãe Maroca suspendeu com dificuldade aquelas pernas enormes e as agasalhou na rede e baixou o mosquiteiro.

As pessoas saíram em silêncio, sem ao menos se despedir. Se assunto havia era para outro dia.

Esse episódio do Mestre Agostinho com o tempo caiu no esquecimento do consciente das pessoas, mas como muitos outros, ficou nas mentes e nas verdades.

A Vicência pode até ter atribuído o fato às alucinações freqüentes em quem atinge mais de quarenta graus de febre e, a sezão do impaludismo que se seguiu, e que o deixou prostrado por um bom tempo era indicativo do que se sucedera. Se assim pensou, não disse a ninguém. O imaginário coletivo é sempre mais rico do que uma reles interpretação materialista. Esta, sim, ilógica e fora daquele mundo mágico que, ao mesmo tempo em que impunha respeito, abraçava, provia e abastecia as pessoas e coisas. Rios, pedras, peixes, caça, floresta. Tudo perfeitamente no seu devido lugar como a cumprir função específica. Harmonia.

Esta mitologia sincrética, nada mais é que adaptações de crenças cristãs medievais trazidas pelos iberos na colonização. Seu Deus, deuses, deusas e semi-deuses, como que vistos e só contestados por um Zaratustra redivivo. E a Amazônia era o cenário fértil para que se criassem e proliferassem. Esse saber há que ser visto como os povos da floresta o vêem. Com o respeito devido a qualquer cultura. Como vemos e respeitamos as mitologias grega, romana, nórdica, índica. Nunca com desdém e historinhas de pavor para curumim dormir.

O certo é que com o episódio ficou provado que ali, onde o Riozinho desemboca no Iriri, um pouco abaixo da Praia e da Ilha do Cordeiro, é a morada de um Bicho do Fundo. Mais uma entidade a ser respeitada.

Mais de mês se passou, quando o Chico Capivara, filho de Dodô, em uma noite nem tão escura, mas bem antes da lua sair, foi pescar no mesmo lugar. A canoa era quase um caxiri, pequeno, para uma pessoa, escavada de uma banda de tronco e, no caso, tronco fino, depois alargado no meio, com fogo, à moda de prato oval. Além dele, cabia no máximo uma criança ou os apetrechos de caça e seringa. Caxiri se rema na proa, pois uma quilha talhada, ou mesmo uma tábua amarrada atrás, o faz navegar em linha reta.  Chico até que era valente. Para cobra, onça e índio, mas quando o assunto era assombração, tremia como vara verde.

Saiu com a canoa um pouco abaixo, já na praia do Cordeiro, onde a correnteza, beirando um barranco, o levou em segundos para a boca do fatídico poção que começava já íngreme desde a beira e engolia umas trinta braças da linha de pesca antes de a chumbada pesada atingir o fundo de gorgulho. Local propício para peixe grande. Peixe de couro. Barba-chata, pirarara, surubim, filhote, fidalgo, trairão e, ‘as vezes, pacu-de-canal, que era como se chamavam as piranhas pretas, grandes, das profundezas, pesando mais de três quilos.

A canoa passava rente à piranheira, árvore esgalhada que teima em crescer na beira do barranco debruçando-se sobre o rio e em noites como aquela tapando a pálida luminosidade das raras estrelas que antecedem a saída da lua, formando uma sombra escura, quase espessa na água cristalina do Iriri. Quando a lua sai é o fim da pescaria. Mesmo de tarrafa fica mais difícil. Nunca atinei por que nem matutei sobre o assunto. Neste exato momento, Chico ouviu um baque leve, surdo, na parte de trás do caxiri. Sentiu o peso, a água quase embeiçou. Ficou paralisado. A história do mestre Agostinho aflorou inteira em um átimo. Arrepiou-se até o último fio de cabelo. O remo escapou-lhe da mão e ele nem fez aquele gesto instintivo de recuperá-lo. Era o fim. Aos poucos conseguiu recuperar a respiração. Olhava fixo para frente. Para lugar nenhum. O Bicho não falava. Eles nunca falam. Só fungam e resfolegam. E ele ouvia o resfolegar apressado, cadenciado e alto.

O Bicho devia estar com raiva. Chorou. Choro impotente dos vencidos. Nada havia a fazer. Não sabia rezar o responso ao Glorioso São Raimundo Nonato. Nem a Ave Maria nem o Padre Nosso. Implorou, com seu jeito rude, a São José da Praia, padroeiro do Seringal, o único de que se lembrou. Conseguiu, gaguejando, timidamente, perguntar o que queria. Prometeu fazer qualquer coisa. Prometeu absurdos impossíveis de cumprir. E o Bicho não respondia, só resfolegava. Esta situação não terá demorado mais do que três minutos, mas para o Chico pareceu uma eternidade. Suava por todos os poros. Notou que perdera o remo. Estava a mercê da correnteza. Quis fazer um esboço amedrontado de remar com a mão, mas imediatamente mudou de idéia. A canoa agora passava perto, não mais de dez metros, de uma língua de praia que ia dar no defumador do Alfredo, seu cunhado.

Reunindo as últimas forças tiradas do cu com anzol, Chico pulou na água e nadou como um desesperado no rumo da praia. Ouviu o baque do bicho na água, e nadava também no seu rumo. E chegou perto. Vinha fungando no seu cangote. Já quase nadando no seco pôs-se de pé, chapinhando, alcançou a areia, afundou o pé em uma cova recente de tracajá e despencou de cara no chão. Fechou os olhos, rendido. O Bicho chegou junto e, ainda resfolegando, lambeu-lhe o rosto… era seu cachorro Pirão. Amigo fiel, sempre o acompanhava. Nas caçadas, na estrada de seringa, no banho do rio, no forró, nas pescarias. Nesse dia, não o chamara. Ele o seguiu pela beira, e quando o caxiri quase raspou o barranco pulou dentro e quedou-se na popa onde era seu lugar de sempre.

Decididamente as histórias do seringal não agradariam à minha turma da Capital.

***

Belém era uma cidade gostosa. As pessoas rapidamente se acostumavam. Do internato para as ruas, muitos amigos, efervescência cultural e política. E muita sacanagem. A palavra de ordem era a irreverência. Por essas e outras eu também não era bem visto no Partidão. O preconceito era inevitável. Burguês, filho de latifundiário. Isso até que não me incomodava, mas há que se registrar a rigidez e a intolerância para com os membros do Partido. O que era tolerado nos simpatizantes era impensável para o militante. Comunista freqüentar puteiro era heresia. Boteco podia e era recomendável. Nunca levei muito a sério essas posturas, mas até que fui um militante disciplinado, por vezes imaturo, mas disciplinado.

Na minha corriola de Belém, não havia patrulhamento, ninguém pedia atestado ideológico de ninguém. Principalmente das mulheres. A vida de universitário era boa, agitada e participativa. Fazia-se política estudantil desde o curso secundário. Também política partidária. Desde que ideológica. Direita ou esquerda.

Com o golpe militar e a instalação da ditadura no Brasil as coisas mudaram. Época de medo, de resistência, mas, sobretudo de sobrevivência. A irreverência continuava a tônica.

A intelectualidade de Belém, não se interessava pelo que estava acontecendo no Estado e na Amazônia. A visão sempre foi estreita. Ou exageradamente ampliada para o mundo, para uma tal “correlação de forças” no cenário internacional. O interesse maior sempre foi pelo que sucedia no Rio de Janeiro, Paris, Havana, Nova Iorque ou moscou. Xingu, Araguaia, Tapajós, Nhamundá, Tocantins, Trombetas, nunca foram sequer objeto de discussão mínima em mesa de bar. A não ser que houvesse, mesmo difuso, interesse do imperialismo norte-americano. Impex, ICOMI, Hermann Kahn, depois Ludwig e Jari. Quando muito havia a gabolice dos fazendeiros do Marajó que se achavam sinônimos de riqueza e aristocracia. E quanto a isso não há que culpar a ditadura. Acontecia antes, durante e depois do regime militar. O assunto Amazônia, quando não era tabu, era chato.

Restava a corriola. A turma dos irreverentes. Perdia-se o amigo, o negócio, mas não se perdia a piada.

O mundo desabando no restante do Brasil e Belém vivendo como se não lhe dissesse respeito.

Os estudantes dispersos por uma reforma universitária propositadamente alienante que acabou com o ensino seriado dissolveu turmas e tentou acabar com a convivência acadêmica, berço histórico de lideranças políticas, reformas e contestação. Informação censurada. Sartre já dizia na coletânea que coordenou para o Le Monde sobre a questão israel-árabe: Quando falam os canhões, os intelectuais se calam.

A ordem do dia, para os mais velhos e sofridos, era sobreviver. Resistência, só no bar e em platéias restritas. A poesia, a música de protesto dos exilados, de uma certa maneira acalentava sonhos, esperanças. Mas, “in primo vivere, doppo filosofare”. Era preciso garantir o da feira. Fazer concessões, rir amarelo, engolir em seco. Alguns poucos partisans resistiam às grandes obras e transações que se faziam à socapa. Hidrelétricas, grandes estradas, colonização a toque de caixa, desmatamento, porões. A resistência se dava fora do Pará, nos grandes centros. A guerrilha do Araguaia, no Sul do Estado, não contou com participação ativa, ou apoio dos paraenses de Belém, que sequer tomaram conhecimento. Mesmo os ditos mais informados. Talvez apenas fosse mais cômoda essa passividade alienada e alienante. De repente, falo por mim. Pela minha corriola. Corriola de Belém.

Continua…

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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3 respostas para BELÉM ALIENADA – Capítulo III (4ª parte)

  1. Queridíssimo André, parabéns pelo Blog. Dê uma passada lá no meu que falo da Terra do Meio e do Mandado de Segurança que está na pauta do STF hoje.

  2. Francina disse:

    Tio querido eu ja tinha entrado aqui e até já deixei um recado,mas deixo mais um e muito mais,VOCE ARRAZA!!!!

  3. Equipe 3 pontos disse:

    Tá… tentei e não dá… esse tipo de literatura deve-se ler deitado numa rede com um bom copo de suco de limão geladinho ao lado…. como faço pra comprar o livro… se é que dá? Como disses: Quem vive de direitos autorais é paulo coelho (não gosto) então vou tentar deixar você, alguns reais mais rico!

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