Vísceras expostas do HAITI – preto só faz merda!

*Fundo musical para melhor leitura deste ensaio.

 

 

 

  

Vísceras expostas do HAITI 

16 de janeiro de 2.010 

Preto só faz merda.
Quando não é na saída, é na entrada.
E quando esta entrada é libertária e conquistada… nem se fala!
O caso do Haiti é emblemático desta constatação. 

  

 Só para não se perder, um breve resumo dos antecedentes. 

  

O Haiti fica no Mar do Caribe. A 80 quilômetros de Cuba, 140 da Base Americana de Guantânamo e, a 900 dos Estados Unidos. Ocupa um terço da ilha Hispaniola, que divide com a República Dominicana. Era a América descoberta por Colombo em 12 de outubro de 1.492. 

  

Em 1664, um tal Msieur Parquet assenhoreou-se da ilha, em nome da França, que,  mercantilista, terceirizou sua exploração à Companhia de São Luiz, sucessora da Companhia das Índias Ocidentais. Aqui, não foi diferente, com as Capitanias Hereditárias. 

  

Nessa época habitavam a tal Ilha os índios tainos ou aruaques ou caribes. Estes, bons navegadores, vieram do Norte da América do Sul, onde hoje se situam a Venezuela, a Colômbia, as antigas Guianas, inclusive, diz-que, há remanescentes no Brasil. Os índios araras, da região de Altamira, mais propriamente, nas imediações da Transamazônica, até o rio Iriri, afluente do Xingu. No Caribe, mesmo, não tem mais. Foram dizimados. Mortos, massacrados, ou, como a história registra, eufemisticamente, deportados, como na “Expulsão Caribenha” da Martinica. 

  

Consta, que índio caribe, ou qualquer índio, de lá ou de cá, nunca foi boa mão-de-obra. Quando escravo tinha a péssimo costume de fugir para a liberdade. 

  

O jeito era mesmo importar africano. Preto. 

  

Aqui vale um esclarecimento quase sempre omitido pela história oficial. Somente a partir daí, da colonização do Novo Mundo, foi que preto virou sinônimo de escravo. O que era muito prático e conveniente. Já vinham todos diferenciados e uniformizados pela cor da pele. Com o tempo, alguns clarearam, mas não adiantava, permanecia o estigma. “Uma gota de sangue”. 

  

Essa importação de gente, não era migração, nem transmudação de escravo ou de propriedade semovente, não. O preto era livre na África. Foi literalmente seqüestrado, desgraçadamente, por seus próprios pares ou sobas, e vendido, agora, sim, já como animal de carga, ou mercadoria para os senhores da América. 

  

Só para a América! 

  

600.000 escravos foram “importados” apenas para o Haiti. Uma titica de território do tamanho da metade da ilha de Marajó. 

  

Deu certo. Sucesso total. As terras do Haiti são férteis. Preto é forte. É trabalhador. Resiste à chibata. Preto não foge. Não tem para onde. Está longe de casa. O sonho, quando sonha, é esperar, sobreviver e resistir ali. Um dia, quem sabe? 

  

O pequeno Haiti tornou-se a Pérola do Caribe. Cana-de-açucar, algodão, depois, café.   Produção maior de que toda a soma das demais colônias francesas na América. Incluindo a Louisiana. Fala-se em que seria responsável, à época, por 51% do PIB da França. Sem falar no pujante e próspero mercado negreiro e bucaneiro. 

  

Tudo ia bem, preto trabalhando, as plantations produzindo, o colonizador enricando e, até algum mestiço créole, ou crioulo, como queiram, sendo alforriado e assumindo posições de mando subalternas, quando, de repente, não mais que de repente, um fato inusitado aconteceu na metrópole. 

  

A queda da Bastilha

Era a Revolução Francesa. 

  

Com tudo que tinha direito. Ao som das clarinetadas da Marselhesa que arrepiam os mais recônditos cabelos, os pretos do Haiti pegaram corda. Liberté, fraternité et égalité. Alons enfant de la patrie, le  jour de gloire est arrivé. 

  

Sem ao menos se perguntarem de quem era a tal patrie, os pretos acreditaram. As notícias se espalharam como rastilho de pólvora e, em menos de dois anos, em 1.791, mercê da repressão dos latifundiários, explodiu a maior revolução popular que o Novo Mundo conheceu até os dias de hoje. 

  

Surgiu um líder, eles sempre surgem, Pierre-Dominique Toussaint l’Overture, preto, naturalmente, que, aliando-se a uma parcela da “nova burguesia progressista colonial” de brancos e créoles insatisfeitos com os impostos cada vez mais escorchantes cobrados pela metrópole, derrotou a tropa francesa do Caribe, e conseguiu, em 1.794, que a França decretasse a “emancipação parcial” da colônia. 

  

Essa condescendência de Napoleão, não foi tão condescendente assim. Acontece que desde 1.793, havia entrado em guerra declarada contra Inglaterra e Espanha e, no Caribe, o alvo eram as colônias francesas, principalmente o Haiti, naturalmente. Por causa disso necessitava engrossar seus exércitos com tropa adicional. Aí, de novo, preto Haitiano. Mas não esquecer que foi “emancipação parcial”. Tão falaciosa quanto uma “meia gravidez”. 

  

Em 1.801, acreditando na tal emancipação capenga, l’Overture, ex-escravo, proclamou uma nova constituição para o país. Sem submetê-la a Napoleão, que, a par disso, enviou uma força poderosa de veteranos ao Haiti, a qual logrou “capturar o cabeça dos negros”, como explicitamente determinou o Corço que era sabidamente racista radical. 

  

Usando de um ardil diplomático, l’Overture foi convidado a ir a Paris discutir o imbróglio. Foi preso e morreu na prisão francesa do forte de Joux em 1.803. Sem ver seu país independente, o que ocorreria no ano seguinte. 

  

Enquanto isso, no Haiti, a insurreição tomava força com a adesão em massa dos soldados e oficiais negros e créoles do exército francês. Temiam, com justa razão, a volta da escravatura, desta vez mais feroz, inclusive com expedições punitivas, bem ao feitio daqueles tempos. O mesmo fim dos inconfidentes mineiros que embarcaram na mesma canoa furada do iluminismo e depois da liberté, no latim do libertas quae sera tamem. Tiradentes foi esquartejado e salgado por decreto da rainha D. Maria I de Portugal cognominada de A Piedosa. E ainda não era louca. Dizem que em Portugal há uma mobilização para a canonização dessa santa senhora. Detalhes que a história esqueceu. 

  

Mas este é outro caso a ser contado. E se contará. O certo é que os haitianos comandados por dois desses oficiais negros, pelo nome, não se perca, Jean Jacques Dessalines, antigo general de l’Overture e Henri Cristofe, enfrentaram o poderoso exército de Napoleão. 

  

A importância do Haiti era tamanha, que não foi mandado um pelotãozinho qualquer. O general Leclerc desembarcou com 20.000 soldados. Foi derrotado por Dessalines mercê da bravura de seus comandados e da estratégia militar insuspeitada em um general negro. E, o sucessor de Leclerc, de alta linhagem militar européia, general Rochambeau, teve o mesmo destino. Foi preso e mandado à França coberto de humilhação. Humilhação esta que recaiu sobre todo o poderoso exército de Napoleão. 

  

A luta foi a mais cruenta que se viu no Novo Mundo. O general Leclerc, diz-que, seguindo ordens de Napoleão, ordenou a degola indistintamente de todos os negros, independente de sexo ou idade, em uma atitude totalmente irracional, ilógica, pois botava a perder a “Jóia da Coroa”, a Pérola do Caribe, a galinha dos ovos de ouro. Comportamento que não condiz com a imagem do grande estrategista que dominou a Europa da Ibéria à Rússia. Principalmente quando a guerra sem tréguas no Velho Continente exauria as reservas francesas e dos paises conquistados, a tal ponto, de ter que vender a Lousiana, em 1.803, pela bagatela de 15 milhões de dólares. Falo em bagatela, pois na ocasião, a dívida do Governo Americano chegava aos 500 milhões de dólares. 

  

Apenas a anexação desse território da Lousiana, mais que dobrou o tamanho dos Estados Unidos de então. Compreendia os atuais estados de Louisiana – Kansas –  Arkansas – Minessota – Iowa – Dakota do Norte – Dakota do Sul – Missouri – Wyoming – Oklahoma –  Montana e quase todo o Colorado. 

*** 

Após a vitória heróica, em 1.804, Dessalines proclamou a independência do Haiti, agora, sim, com a abolição total da escravatura, e a expulsão dos senhores de escravo das grandes plantações, já devastadas pela guerra. 

  

Dessalines foi, à época, reconhecido como o Grande General, comparável a Jorge Washington e ao próprio Napoleão Bonaparte. 

  

O Haiti foi a primeira nação do mundo, em todos os tempos, a abolir, em todos os seus territórios, a escravatura! Galardão que a Inglaterra atribui indevidamente a si mesma. – Isso quase um século antes da assinatura da Lei áurea no Brasil. 

  

No Haiti aconteceu a única rebelião de escravos vitoriosa na história da humanidade! 

  

O Haiti foi a primeira nação independente da América Latina! 

  

Vale a pena lembrar, só para nos situarmos, dialeticamente, no tempo e no espaço, isto é, na história, que nenhuma revolução no mundo, até então, cogitara de abolir a escravidão em todos os seus territórios. Sem exceção. E aí se incluam, a própria Revolução Francesa e, mesmo, tempos depois: – a Inconfidência Mineira – a Revolução Farroupilha – a Cabanagem e, pasmem, o próprio Libertador Simon Bolívar, que sequer considerou, em seus propósitos, a libertação dos escravos

  

Isso, depois de receber a ajuda das parcas economias do povo haitiano, em 1.815, das mãos do governante daquele país, Alexander Sabes Pétion, que em um apelo dramático, no ato da entrega de dinheiro, navios e armas, apenas pediu-lhe que libertasse todos os escravos dos territórios que conquistasse. Este mesmo Haiti devastado, pobre e que estava sofrendo um terrível bloqueio, como se verá mais adiante. 

  

Bolívar esqueceu a promessa e, depois da vitória, presenteou o Haiti com sua espada, como preito de gratidão. E foi só. 

*** 

O grande crime do Haiti, não foi haver-se libertado do jugo francês. Isso não era inédito. Seria até negociável. 

Imperdoável foi a libertação dos escravos! 

*** 

Tal ousadia sempre foi, historicamente, impensável. Desde o grande exemplo de Espártaco no ano 73 a.C., quando Roma prontamente convocou suas legiões, da Gália e Espanha à Romanha, para aniquilar com barbaridade exemplar, os escravos fugitivos. E nem pretos eram. Talvez, alguns núbios, mas como se disse, antes da América, a cor da pele era irrelevante para o mister de cativo. 

  

Consta que a economia de Roma custou a recuperar-se da perda de milhares de trabalhadores escravos tendo que, para tal, aumentar muito os tributos em todo o Império. Não importava, desde que servisse de exemplo para os pósteros. 

  

Pois bem, voltemos para 1.804. O Haiti independente e os pretos livres. 

  

Pânico em todas as nações escravagistas do mundo, principalmente na América do Norte, Espanha e, logicamente, na França. Ah! E depois, também, na Inglaterra. 

  

Concertou-se uma poderosa armada daquelas nações apavoradas com o inusitado da situação. 

  

Operou-se o grande bloqueio ao pequeno país. O termo exato talvez seja sufoco. Não deixar respirar, transpirar, tugir ou mugir. Impedir, a qualquer custo, que transparecesse às populações dos continentes americanos, do Norte, do Meio ou do Sul, ou mesmo das ilhas vizinhas, que uma turba de escravos havia logrado libertar-se e constituir-se em nação independente. Até as notícias que vazavam tinham que ser depreciativas. Imagem do caos, da fome e da barbárie. Aliás, este era o escopo precípuo do cerco americano, francês, espanhol e inglês ao Haiti. 

  

Vale lembrar que à época, os Estados Unidos viviam em permanente estado de beligerância com a Espanha, com a França e com a Inglaterra. Menos na questão do Haiti. 

  

Primeiramente o motivo alegado foi cobrar a indenização por perdas e danos causados à França pelas expropriações, principalmente dos escravos considerados “ativos comerciais” semoventes, aí se acrescentando duas gerações de pretos a nascer, como “lucros cessantes”. 

  

O montante, na conta de chegar, foi a exorbitância de 150 milhões de francos, depois baixados para 90 milhões e, efetivamente pagos, ao final, por juros compostos, 680 milhões. 

  

O bloqueio que se seguiu, pelos motivos que já vimos, de sufocar a ousadia dos pretos de querer ser livres, durou exatos sessenta anos. Sessenta anos, repito, ad perpetuam rei memoriam

  

Só então o governo americano reconheceu a independência do Haiti. 

 *** 

Tal estratégia, como não podia deixar de ser, deu certo. Os objetivos colimados foram alcançados em toda sua plenitude: a desorganização da infraestrutura econômica, isto é, a produção. Toda a exportação, em regime de cotas, destinava-se ao pagamento da dívida externa, a tal indenização, comprometendo até a agricultura familiar, que também tinha cota a ser cumprida na sua parcela do pagamento da dívida imposta como o preço pela independência. 

  

O Haiti passou a ser o exemplo cabal da superioridade do capitalismo. Capitalismo branco. Até porque, acreditava-se, e ainda há quem acredite, que, pelos desígnios da Divina Providência, a raça branca é superior. Preto no comando, não pode dar certo. Assim foi dito e assim se acreditou, inclusive no Brasil. 

*** 

Haitianismo passou a ser sinônimo de caos, de baderna, de peste, doença contagiosa

  

Era apenas um vocábulo solertemente disseminado e que ficou corrente no século XIX. Tão comum e arraigado no linguajar das gentes, de todo o mundo, que muita vez, já nem se sabiam mais a origem do termo. Assim como, inocentemente, mas burramente, se diz judiar. 

  

Por tudo isso, o Haiti seguia livre, preto, pobre, fraco. Como se dizia à época, o vizinho que ninguém queria ter

  

A seguir, relato apenas os acontecimentos posteriores à história contada, que dá conta de como uma situação ruim, sempre pode piorar. Conto a história como ela me foi contada, sem fazer juízo de valor. Não com imparcialidade, pois este não é o meu feitio. Sempre ponho a alma de permeio quando sinto pelo menos a fumaça da injustiça praticada contra o ser humano. Não importam os motivos. Ideológicos, religiosos, econômicos. 

  

Os Estados Unidos acreditavam, e ainda acreditam, que são predestinados a colonizar o mundo. Acreditam, mesmo, sem cabotinismo, que têm essa missão divina. Isso, nos séculos XIX e XX, era patente em corolários e doutrinas. Explicitados no “Destino Manifesto” e na Doutrina Monroe: a América para os americanos. Tal expressão, dúbia é altamente conveniente, pois, sendo os Estados Unidos a única nação do mundo que não tem nome próprio, intitulam-se apenas americanos e, obviamente, a América é seu país. 

*** 

*Vale relembrar, antes de continuarmos, dois pequenos, entre muitos, detalhes, expressados nas seguintes ‘imagens’, que, por si, explicam-se:  

 Esta pintura (cerca 1872) de John Gast chamada Progresso Americano é uma representação alegórica do Destino Manifesto. Na cena, uma mulher angelical, algumas vezes identificada como Colúmbia, (uma personificação dos Estados Unidos do século XIX) carregando a luz da “civilização” juntamente a colonizadores americanos, prendendo cabos telégrafo por onde passa. Há também Índios Americanos e animais selvagens do oeste “oficialmente” sendo afugentados pela personagem. (Fonte: Wikipedia) 

“A marcha da raça dos Anglo-saxões é para frente.
Eles precisam, consequentemente, cumprir o seu destino – espalhar para longe e mais amplamente os grandes princípios do autogoverno.
E quem irá dizer quão distante eles prosseguirão neste trabalho?”
E.D.Adams – administration papers, séc. 18 

 *** 

Palavras* do General Smerdley Darlington Burtler: 

  

Burtler foi o mais jovem e mais condecorado general dos fuzileiros americanos em toda a história da corporação e escreveu um livro: WAR IS A RACKET ( A guerra é uma extorsão). 

  

“Eu ajudei a fazer o México, especialmente Tampico, seguro para os interesses das empresas de petróleo americanas, em 1914. Eu ajudei a fazer do Haiti e de Cuba lugares decentes para que os rapazes do National City Bank arrecadassem rendimentos. Eu ajudei a estuprar meia dúzia de repúblicas da América Central em prol dos lucros de Wall Street. O registro de extorsões é grande. Eu ajudei a purificar a Nicarágua para a casa bancária internacional dos Brown Brothers em 1909-1912 (onde eu tinha ouvido esse nome antes?). Eu trouxe luz na República Dominicana para os interesses dos usineiros americanos em 1916. Na China, eu ajudei para que a Standard Oil seguisse seu caminho sem ser molestada. 

Durante aqueles anos, eu participei de uma expansão da extorsão. Olhando para trás, sinto que poderia ter dado a Al Capone umas poucas sugestões. O melhor que ele pôde fazer foi operar suas extorsões em três distritos. Eu operei em três continentes.” 

* Transcrito de um discurso do general em 1933 

  

Não é a intenção deste breve ensaio enveredar pela história das intervenções americanas pelo mundo, notadamente na América Latina, por conta do tal “Destino Manifesto”. Atenhamo-nos apenas ao caso do Haiti. 

  

1.891 – Invasão americana no Haiti – Motivo declarado: recusa da permissão de exploração da Floresta de Mole Saint-Nicolas para fazer carvão vegetal para a siderurgia americana. Repito: carvão vegetal mesmo, aquele de fazer churrasco. É bem verdade que antes propuseram compra ou arrendamento. 

  

1.910 – A banca de Wall Street comprou ações do Banco Haitiano. 

  

1.915 – Os marines desembarcam no Haiti alegando, não sei como, espírito humanitário e a Doutrina Monroe, para cobrar a dívida dos banqueiros de Wall Street. 

  

Ocuparam diretamente o país até 1.934 (20 anos!) quando retiram o grosso de suas tropas, mas permanecendo com a administração direta das finanças, portos e alfândega até 1.947. Motivos estratégicos na defesa do Canal do Panamá e cobrar ainda os “restos a pagar” do tal empréstimo de 1.910. 

  

A partir daí deixam governantes ditadores títeres, corrompidos, e treinaram, eles mesmos, uma guarda pessoal do eventual governante ditador, poderosa e arbitrária para sufocar qualquer manifestação de oposição. 

  

Daí para François Duvalier, o Papa Doc (1.957), Jean Claude Duvalier, o Baby Doc (1.971) e a terrível polícia Ton-Ton Macoute (bicho-papão), foi um pulo. 

  

O resto é a história dos nossos dias. O país mais pobre do continente americano que sofreu um terrível cataclismo, um dos maiores que a humanidade  já viu, pelo menos para essas bandas, e que vem sendo julgado impiedosamente como responsável pelo estado de penúria em que se encontra. 

  

Este terremoto eviscerou o Haiti mostrou suas entranhas que não são diferentes das outras tantas mundo a fora. Uns mais outros menos. 

fonte: The Boston Global

Muito cronista, em vôo rasante, vê, apenas um bando de negros desesperados, como se fora um povo que, por incúria, indolência de raça inferior traçou o próprio destino. 

  

Vitimologia, talvez? 

*** 

Considerações finais de uma crônica inacabada. 

  

Essa história que contei pela metade, apressado, quase divagando, daqui da placidez do Terra do Meio, à beira do igarapé do Uriboca encravado na floresta amazônica, onde moro, não é um libelo contra a selvageria do colonialismo e imperialismo dos séculos XVIII, XIX, XX e, por incrível que pareça, remanescente no terceiro milênio. Com outras maneiras, com outros métodos. E, mutatis mutandi, da mesma maneira, com os mesmos métodos. 

  

A história não pode ser analisada de modo linear. Julgar comportamentos passados pelos valores do presente. 

  

As relações de produção, que são a infraestrutura, determinam a superestrutura, isto é, a ética, a moral, o direito. Naturalmente, sem escandalizar ninguém. É consensual. Assim, se a relação de produção é escravocrata, possuir escravo é perfeitamente legal, moral, ético. 

  

Desta maneira, a autolibertação dos escravos no Haiti, terá atropelado a evolução dialética da história. Extemporânea, prematura. 

  

Representou uma ruptura intolerável nas bases de sustentação quer das colônias, quer da primeira nação/república democrática independente do Novo Mundo, os Estados Unidos. Até porque, o conceito de democracia apresentava-se difuso, sem contornos nítidos. Encarnando os ideais da Reforma, do egoísmo capitalista messiânico de um povo que se considerava ungido pela Providência para conquistar o mundo. 

  

Internamente era um conceito avançado de governo. Reinventara-se a democracia excludente dos não brancos, dos despossuídos e de etnias ou religiões exóticas. 

  

Governo democraticamente eleito pelo povo, mas só podia votar e ser votado quem tivesse propriedades. Voto de negros, índios, judeus etc. era apenas impensável. 

  

Talvez fosse a democracia possível com o fim do Iluminismo e a breve volta ao absolutismo na Europa. 

  

Ideologia esta, que, vitoriosa, perpetuou-se, de alguma maneira até os nossos dias. Foi, na verdade, um avanço histórico, desde que relativizado no tempo e no espaço. O voto, qualquer voto, a eleger governante, qualquer que seja, em contraposição à simples hereditariedade ou usurpação da tirania, também, qualquer que seja já é um avanço. 

  

Jose Ortega y Gasset, filósofo espanhol do século XX, nos instiga à reflexão da lenta evolução da humanidade, à luz dos conceitos atuais, com este pensamento lógico, cínico, canalha, mas com certeza instigante: 

  

“Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada.
Porque antes o que se fazia era matar os vencidos.
Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor.”
 

  

Desta maneira há que haver o entendimento de que a ignomínia que se praticou contra o Haiti pela extrema ousadia de libertar os escravos era perfeitamente compatível com sua época. O Haiti nem podia sonhar com aliados. Todas as nações do mundo tinham o mesmo animus em relação às colônias da América. Inglaterra, Portugal, Espanha, Holanda, França, Estados Unidos. E os paises que se foram libertando seguiam o mesmo caminho. Era a infraestrutura econômica, as relações de produção a determinar a política, a moral, o direito. 

  

Mesmo durante o Iluminismo, o Siècle de lumières, seus postulados não diziam respeito às colônias. 

  

Portanto, você que me lê neste momento, quando vir as imagens do povo haitiano baixo à degradação humana provocada pela extrema pobreza e pelo mais devastador terremoto que se tem notícia, quando ouvir na tv a sirene impessoal das parcas ambulâncias e carros de bombeiros pense nesses sons como o badalar de sinos em campanários tombados. E, com profundo respeito, faça suas as palavras de John Donne poeta inglês do século XVI: 

  

“Nenhum homem é uma ilha, isolada em si (…).
A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano.
Por isso, não pergunte por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti”

  

André Costa Nunes

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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19 respostas para Vísceras expostas do HAITI – preto só faz merda!

  1. Marco Antônio Ferreira da Silva disse:

    Excelente texto, já conhecia a triste história do Haiti e seu povo.

  2. Miguel... disse:

    ignorância me da enjoô ¬¬’ O Brasil não vai pra frente por causa de brasileiros como vc! VC É BRASILEIRO VC TEM SANGUE DE NEGRO… so quer gente branca ? vai p europa que até em USA é misto ¬¬’ haha trash

    • André Costa Nunes disse:

      Caro Miguel, antes de mais nada, obrigado pela visita ao blog e pela leitura.
      Você não entendeu a crítica do texto. A ironia contida no artigo é que dá o sabor especial nele. Releia-o, por favor.
      Volte sempre.
      Abraço.

      Ps.: Sou negro.

  3. EU MATO-TE disse:

    EU VOU-TE MATAR ! PRETO DE MERDA!

  4. kerolay disse:

    quais são as curiosidades da idependencia da america espanhola

  5. Márcio enrique disse:

    Dou todo apoio ao João, branco é uma raça podre, quando mais os ricos, só fazem merda no país, e a imprensa, fica vangloriando essa raça.

  6. Lafayette disse:

    Não adianta, pai, explicar para quem não quer entender. Além do que, a cabeça desse João (que nem deve ser o seu nome verdadeiro, já que inventou o email) deve estar impreguinada de racismo. Freud explica.

    Foi lá no meu blog e nem contei conversa com o comentário: lixeira.

    Do jeito que esse João se refere aos brancos e ao Brasil, deve ter uma vida sofrida. Como disse, Freud explica.

    Nem deve ser leitor assíduo de seu blog. É daqueles que cai de paraquedas e, nem ao menos se dá ao trabalho de ler o perfil do autor. IMAGINA QUANDO ELE DESCOBRIR QUE O SENHOR É ‘PRETO’ !!! 🙂🙂🙂

  7. João disse:

    Conteúdo racista. Não sei como ainda é possível que um conteúdo desse esteja no ar.

    • andre costa nunes disse:

      Caríssimo João,

      Você me deu um susto agora.

      Tentei, e pelo jeito não consegui, fazer um libelo contra o racismo e a discriminação e execração de uma Nação cujo único e capital pecado foi ser negra e querer ser livre.

      A única intenção da chamada ou sub título foi provocar a leitura do conteúdo, onde, utilizando-me do jargão racista e odioso, os escravagistas, pretendiam que os negros do Haiti ficassem quietos por mais algumas geracões, que a liberdade viria, mas eles “fizeram a merda” de querer ser livres e, a história contará, escreveram uma nova página nos destinos da Humanidade.

      Isto foi o que eu quiz dizer, e disse.

      Vejo agora, que não fui feliz ao abusar da sutilesa.

      Peço sinceras desculpas, mas creia, sou contra o racismo até a medula, acho até que “todo racista é canalha e, aí, inclua-se também qualquer tipo de discriminação. Não aceito nem piadas.

      Por outro lado gostei de sabe-lo no mesmo time.

      Por favor releia o texto, inclusive os comentários, e corrija-me.

      Obrigado,

      andre costa nunes

      • João disse:

        ( eles “fizeram a merda” de querer ser livres )

        Isso não é racismo, faz um post ai: BRANCO SÓ FAZ MERDA

        Ai você relata toda a merda que branco e rico faz, administrando essa porcaria de país, acidentes de trânsito, compra de armas e financiamento do tráfego, venda de bebida alcólica e cigarro.

  8. Equipe 3 pontos disse:

    Preto, Branco, Amarelo, Jambo… humano é humano e sempre faz cagada, pq, acima da cor, estão os defeitos do bicho que anda de calças, que é o egoísmo.

  9. Oi André! Parabéns pelo texto. Ele nos faz refletir muito sobre um dos maiores autoritarismos que o mundo já conheceu: o dos ataques imperialistas à soberania dos povos que, de diferentes maneiras, perdura até os dias de hoje. Fazer frente à esses ataques contra a raça humana sempre será tarefa de todos os humanismos revolucionários. E como isso me lembra das minhas ainda tropeçadas leituras de “por quem os sinos dobram”, do Hamingway! Afinal, as boas causas da humanidade são as grandes causas de todos nós. “Uma terra sem amos é internacional…”.

    Obs: Cheguei aqui através de uma amiga (Verena) e vi outro por aqui, meu grande camarada Pedro Nelito. Só gente boa nesse blog. Um grande abraço!

  10. Djalma disse:

    Nosso bom e velho amigo

    Espero imensamente que algum americano ou europeu (com letra minuscula mesmo) leia sua cronica-documentário. As distancias geográficas são minimas e as sociais incalculáveis entre os Haitianos e os mais bem sucedidos. Como seria a ajuda que o mundo, dito civilizado, prestaria se uma catástrofe desta fosse, por exemplo, no Liechestenstein? terra de Brancos livres, inteligentes. Creio que toda a ajuda mundial seria dada como já vimos em outros paises que passaram por uma dessas e que não são exatamente pobres e de pretos….pobres. espero que Pérolas como essa continuem escancarando as mazelas dos governos e que num futuro, quem sabe, possamos ver algum ato humano de verdade aos humanos que necessitam dessa ajuda. Um Grande abraço

    • andre costa nunes disse:

      Caro Djalma,

      De repente, mesmo aos poucos, timidamente, já é tempo de levantarmos o véu da história. Essa história que os vencedores, que não somos nós, nos contam e nos impingem.
      Há que saber minimamente como os fatos aconteceram para entender o que hoje acontece. Até para evitar, ou tentar evitar, repetiçoes.
      Sem revanchismo, mas com a determinação de conhecer a História.
      A invençao da web abre uma janela, uma fresta, alternativa paro esse conhecimento, esse debate, sempre salutar.
      Não pretendo ser dono da verdade, apresento minha tese, aberta a qualquer antítese inevitável e, quem sabe chegaremos a uma síntese, que será outra tese… e assim por diante.

      Um abraço,

      andre

  11. Pedro Nelito disse:

    André,
    Meu mano a leitura exige fôlego, fizeste um apanhado espetacular, não omites nada… A navalha (a caneta ou o teclado, ahahaha…) corta a carne da omissão e despeito do Ocidente com os nossos irmãos haitianos, esfregas na cara da indiferença as razões do esquecimento e da depreciação do Haiti.
    Era necessário escrever e escreveste… sobre os esquecidos.
    Pô André! É uma porrada no estômago dos “bacanas”, enquanto Cuba enviava médicos, os EUA enviaram a IV Frota, acho que eles não saem mais de lá.
    Abraços

    • andre costa nunes disse:

      Ave, Professor,

      Obrigado pelo comentário.

      Comecei a escrever esse ensaio, capenga, de pé quebrado, sem grandes pretensões. Depois mandei-o por email a um amigo, grande jornalista, cronista, escritor, e todos os demais adjetivos elogiosos que reservo às pessoas que admiro. Ele tem um blog dos mais acessados do Brasil. Em fim: eu o admiro.

      De bate-pronto ele me respondeu, ainda sem ler o que eu havia escrito. Sei disso, porque a resposta veio em menos de um minuto:

      – Hi! André, eu estive lá, conheço o Haiti. Aquilo é um país que não deu certo.

      Senti um nó na garganta. Se ainda estivesse na minha velha máquina Remington tiraria o papel, com carbono e tudo e jogaria na cesta de lixo, que sempre estava na ilharga de quem escrevia, de boca aberta a esperar por esse tipo de excrecência. Cheguei a “selecionar tudo” e o dedo a se encaminhar ao “del”, quando lembre-me da web.

      Postei por aqui neste tímido espaço (iniciante e insipiente) e gritei boca-de-forno para meia dúzia de três ou quatro blogueiros amigos de grande credibilidade e audiência.

      Você foi o primeiro a acudir.

      Obrigado,

      andre

      • Pedro Ayres disse:

        André,
        ainda que com meses, quase anos de atraso, venho dar a minha opinião. Opinião de quem também conhece o Haiti desde os tempos do Papa Doc. Não é um país que não deu certo. É um país e um povo que ainda estão a pagar pela ousadia de terem conquistado a independência pelas armas, derrotando as tropas napoleônicas e seus aliados americanos. O problema é que, como o sistema capitalista ainda tinha o que crescer nas Américas, o inevitável tinha de existir na figura dos EUA, que se sentiam o próprio sistema, portanto, incapazes de aceitar atos de rebeldia e nem a construção de um país pelas mãos de ex-escravos, negros e mestiços. O resto contas com boa clareza e síntese.
        Só um olhar branco, ainda com sanhas de um capitão-do-mato, poderia dizer que o Haiti é um país que não deu certo. O capitalismo é que não deu certo e nunca foi uma alternativa para o desenvolvimento dos sentimentos de solidariedade e fraternidade. O resto é o resto.
        Um abraço

  12. Rodrigo Ramos disse:

    André, sempre me fazendo enxergar além do óbvio, do normal! Li o texto e percebi por que as coisas vão mal num país como o Haiti. Muita gente precisa saber disso tudo.
    Abraços fraternos cheios de saudades e carinho!

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