ADORÁVEL SACANA

ADORÁVEL SACANA

 JOSÉ WALDIR DE MATOS TOJAL, SIMPLESMENTE, TOJAL.

Crônica de costumes

  

Viver em Belém, nunca soube muito bem como definir. Houve tempo em que achava que era um felizardo apenas por morar em Belém. Depois viajei, conheci outras cidades, outros viveres, outras gentes, aí, não tive mais dúvida. O país para viver é o Brasil e, no Brasil, Belém do Pará. Masoquismo, talvez, mas não saberia morar em outro lugar.

Não sei se é melhor ou pior, mas que é diferente, ah isso é!

Na juventude passei uns tempos no Rio de Janeiro. Diz-que para estudar. Não estudei. Mas apaixonei-me pelo Rio. Tudo o que era de bom acontecia ali. Copacabana e arredores. E a partir do anoitecer.

A praia ainda era estreita. O calçadão não existia. Era apenas uma simples e linda calçada com aqueles desenhos de pedrinhas em ondas.

Não me lembro de haver tomado um único banho de mar.

Pegar uma praia, isso sim, o que é muito diferente. Aquela fauna amorfa pegando jacaré, não era minha turma. Diziam que eram paulistas e mineiros. Da Zona Norte, talvez. Não sei, mas da corriola de notívagos de Copacabana, não eram. Estes, quando desciam para pegar uma praia, se madrugavam, chegavam no bar às onze (chegar ao bar é horrível, ninguém chega ao bar, chega-se ao teatro, ao ágape, ao sarau, ao boteco, nem pesar). Isso mesmo, no bar. A intenção calhorda era ir à praia. Diz-que pegar um bronze. Havia os mais cínicos que portavam esteira, toalha, barraca e balde. Tudo canalhice, para enganar alguém ou a si próprios. Sabiam que a última coisa que queriam era enfrentar areia quente, bronzeador, jogador de frescobol, menino perdido e vendedor ambulante.

Pegar uma praia é ficar no bar, à sombra, brisa morna, chope gelado, bem tirado, apreciando a natureza balouçante cheia de bundas, peitos e curvas artisticamente desenhadas pelo Criador.

Pegar uma praia é, enfim, um conceito carioca.

E eu, lá. Morador de Belém, caboco de Altamira, da beira do Rio Xingu, tirando uma onda de carioca. Pegando uma praia.

A língua que se falava por lá era uma outra, parecida com a nossa, mas cheia de bossa, na entonação e no maneirismo, assim como que apocopada e chiada, cheia de reticências. As frases não terminavam e ninguém perguntava. Parece que todo mundo entendia. Nunca soube se era erudição, forma superior do vernáculo, telepatia, ou preguiça e escassez de vocabulário. De qualquer maneira, soava muito falso. Carioquês. Eles achavam que era sofisticado, pois sim.

Nessa, eu não embarquei. Já pensou o cabocão de Altamira chegar a Belém com esse papo? Levava samba, quando não, muita dedada.

Algumas moçoilas, novo-ricas, passavam uma temporada no Rio e voltavam exímias no patuá de Copacabana. Imediatamente eram apelidadas de “as falséricas”. Queria conhecer uma falsérica era só pedir para ela dizer: menta. Se dissesse “mienta”, pronto, era!

No Pará era diferente. Sempre foi. O Rio permeou o Sul muito mais do que o Norte. Capital do Império, da República, centro das decisões, sonhou ser Paris, Nova Iorque. Ficou em Miami. O Pará, isolado, sem estradas e apenas um navio misto de carga e passageiros por mês, contentava-se com a língua portuguesa mesclada com o nheengatu. Uma tal Língua Geral sistematizada pelos jesuítas. Até conhecer o Sul Maravilha eu achava que o nosso linguajar era bem bonitinho. Axi, porcaria.

Sempre fui de corriola. Mesmo nas poucas estadas no Rio fiz muitos amigos por lá. Diferentes, já se disse, de Belém. Eles lá achavam que eu inventava os nomes dos amigos de Belém, que tinha uma imaginação fértil: Afolemado, Lulu Burilança, Tojal, Baratinha, Passarinho, Sadala, Sadeck, Cabidela, Pingarilho, Cara de Vaca e Salame.

Os do Rio: Bob, Denis, Baby, Billi, Ronnie, Bubby, Tony, Ray. Diminutivos inglesados

No Pará, Antonio é Tonico, no Rio é Tony, quando não, Anthony. Raimundo ou Raimunda são, por aqui, Mundico, Mundinho, Mundica, Dico, Dica, Diquinho, Mundoca. Maria é Maroca, Maroquinha. José é Zé, Zeca, Zecão, Zefa, Zefinha. No Rio virou Jô. Se o Billi Blanco (William Blanco de Abrunhosa Trindade, compositor paraense, ícone da bossa-nova) tivesse ficado por aqui teria sido Abrunhosa. Talvez até Bronha.

Nem sempre foi assim. Lá era como cá, mas sabe como é, primeiro queriam ser franceses, depois americanos, e o velho e bom português brasileiro foi ficando démodé (olha aí). Agora, então, forçando a barra com fashion, delivery, drive thru, acho que não tem mais volta.

Minha corriola é paraense, desabrida, de humor fácil. Tem, também, os snobs, ou esnobes, quase sempre novos-ricos, sin nobilitatis, mas são minoria e terminam esnobados.

O boteco, a praia, a beira do rio, ou do igarapé são os cenários perfeitos para essa tribo. De cada um se poderia falar dias seguidos, sem tédio, mas vamos por partes:

Apresento-lhes José Waldir de Matos Tojal, pelo nome, não se perca, daqui para frente cognominado Tojal (claro, que Tojal só poderia ser cognome, mas não é).

Tojal era um nordestino, das Alagoas que aportou por aqui, não se sabe exatamente como, nem quando, mas faz muito tempo. Não se tem notícia de pai, mãe, tio ou qualquer parente que haja deixado por lá, apenas, amigos, alias, um amigo, Zé Cariri, de quem se falará mais adiante. Para nós outros, não fizeram falta. Tojal sozinho bastava. Excedia.

Menino pobre, idos de mil, novecentos e cinqüenta, ele e Zé Cariri, vendiam galinha no cais do porto, principalmente para navios estrangeiros que aportavam em Maceió em busca de sal e açúcar.

Saíam no trem cargueiro pelo sertão comprando galo, capote, galinha e capão. Todo mundo no porto gostava daqueles moleques gaiatos levando nos ombros, em pau de carga, as galinhas penduradas pelos pés. Pau-de-galinha.

Um belo dia, em um paneiro, o Zé Cariri teve a idéia de levar uma preguiça recebida em um encontro de contas. Ofereceram o bicho ao cozinheiro de um cargueiro grego. Não tinham a menor esperança de se ver livres daquela inutilidade. Zé Cariri havia, sem muita convicção, ensaiado uma lábia, de que era uma iguaria deliciosa, ensopada com jerimum. Sabia que não ia colar, mas tinham que tentar. Antes que o Zé falasse, Tojal se adiantou, piscando para o intérprete:

– Meu senhor, isso é uma fera pra pegar rato em porão de navio.

A novidade se espalhou pelo porto e, a partir desse dia, abandonaram as galinhas e passaram a vender preguiça para todos os navios estrangeiros. Russos, alemães, japoneses, ingleses que raramente voltavam a Maceió.

Consta que quase acabam com as preguiças do sertão de Alagoas.

O tipo físico do Tojal era indefinido, ou indefinível. Por assim dizer, comum. Nem alto, nem baixo, branco de cabelo ruim. Nem gordo, nem magro, mais para magro, mas cultivava uma barriga displicente de cerveja, chope ou uísque. Se tivesse que defini-lo, em uma única palavra, esta seria: nordestino.

Mendell, se vivo fosse, diria ser o Nordeste Brasileiro, o laboratório por excelência a comprovar, em humanos, sua teoria, ou, pirado de vez.

Muitos anos depois, já se vê que o mundo é pequeno, em plena Avenida Presidente Vargas, no centro de Belém, Tojal, bem sucedido na vida, pode-se até dizer, rico, encontrou Zé Cariri. Foi um encontro emocionado, emocionante e cômico. Pareciam os mesmos meninos dos caminhos pedregosos da caatinga e das areias da Pajuçara.

Tojal só tinha, no dia, um último compromisso, entregar um documento, ali mesmo, próximo de onde estavam, no Edifício Palácio do Rádio, décimo andar. Seguiam abraçados, mãos nos ombros, como antigamente e não se usam mais. Uma alegria só. Dois moleques grisalhos.

Foi rápido, no escritório do Dr. Moraes. Décimo andar. Chamaram, impacientes, o elevador. Era fim de tarde. Precisavam urgentemente de um bar. Tinham tanto a dizer e a ouvir… quando, por fim, o elevador chegou. Tojal se lembrou da velha sacanagem do amigo: mania de pegar na bunda. Zé foi mais esperto e logo postou-se no fundo da cabine. Tojal procurou distância, junto à porta, mas começou a entrar gente, e ele teve que se aproximar da zona de perigo. Não pensou duas vezes, botou as mãos para trás, defendendo a própria bunda e encostou. Para se certificar que estava na vantagem patolou a mão no pau do amigo. Ainda ficou, segundo conta, amolegando. Lá pelo terceiro andar, olhou para trás e não era o Zé Cariri, que estava de lado, rindo contido. Não mais havia tempo para explicações. A porta do elevador abriu-se no térreo e Tojal saiu apressado pela avenida sem olhar nem para os lados. Zé Cariri, às gargalhadas, quase a se mijar.

Tojal alardeava, de pura gaiatice, um azar que estava longe de ter. Dizia, por exemplo, que tudo de ruim só acontecia com ele e com o Botafogo do Rio de Janeiro.

Um dia, no meio de um porre, pegou corda de uma certa corriola de maranhenses mais fanática e, antes que se desse conta, ou mesmo passado a carraspana, viu-se em pleno Estádio do Maracanã. Ele torcia pelo Botafogo que jogava com um tal MAC – Maranhão Atlético Clube. Como não havia mais de uma centena de torcedores naquela imensidão de estádio, não se sentiu sequer na torcida errada. E, já que estava lá, não custava nada torcer pelo seu clube. Uma covardia. O Fogão, como chamava, jogando pelo empate e, em casa, não tinha a menor graça.

O Maranhão Atlético Clube ganhou. Um a zero. Ele nunca se perdoou. A culpa fora dele.

Em seu escritório de representações, um bangalô simpático na esquina da Avenida Generalíssimo Deodoro (acho que só em Belém chamam o Marechal Deodoro da Fonseca de generalíssimo) com a Antônio Barreto havia, na entrada, um portão de ferro. Daqueles sanfonados, que chamam de pantográficos. Dois cadeados. Logicamente duas chaves no chaveiro do Tojal. Cinqüenta por cento de chances de pegar a chave certa na primeira tentativa. Pois bem, em dez anos, não acertou uma única vez. Diz-que tentava enganar o azar trocando rapidamente a chave já na boca da fechadura do cadeado, e nada, pegava a errada.

Dessas histórias de azar o Tojal tinha pelo menos uma centena.

***

Atrapalhado, sem ser trapalhão, Tojal foi o melhor vendedor que conheci. Aliava técnica a empatia. Por mais que as coisas estivessem pretas, as nuvens carregadas, encontrar com Tojal era uma injeção de ânimo. Ele nem precisava falar, coisas assim, como, “isso é uma fase”, “vai melhorar” e outros lugares comuns, que não convencem o aflito, nem aliviam angústia. Bastava olhar para o sacanocrata e as rugas se desfaziam do cenho e, quando se dava conta, estava-se em um bar, às gargalhadas das histórias que contava. A maioria na primeira pessoa do singular. Havia acontecido com ele. E ninguém duvidava.

Há muito tempo, acho que quando chegou por aqui, veio como vendedor, que naqueles tempos chamava-se pracista, ou caixeiro-viajante, de uma multinacional qualquer. Gessi-Lever, Eucalol, Gillette, ou coisa parecida. Seu território abrangia os estados do Pará, Amapá e Amazonas. Além das capitais, tinha que, pelo menos três vezes por ano, fazer a praça das principais cidades do interior. Pouco andava de carro. Muito de barco e de avião. O avião que eu falo era teço-teco monomotor, catalina (hidroavião) da Panair ou DC3 da Cruzeiro do Sul ou da PTA – Paraense Transportes Aéreos. As pistas de pouso eram de cascalho a levantar nuvens de poeiras, ou, os rios, se catalina.

As redes, nos barcos, os vôos nos aviões de antes da segunda guerra e as pensões das cidadezinhas eram, decididamente, o cenário ideal para suas histórias.

***

O DC3 da Cruzeiro levantou vôo do aeroporto de Val-de-Cans em Belém, às seis da manhã com destino a Letícia já em território peruano. Dois dias de viagem. O primeiro era gasto só na rota de Belém a Manaus, onde pernoitava, pois a aeronave não tinha autonomia ou instrumentos para vôo noturno. Mas Tojal ia descer na terceira ou quarta escala. Bem ali. Umas seis ou sete horas de viagem. Portel, Altamira, Santarém, Monte Alegre.

Em Portel embarcou uma freira da Congregação dos Adoradores do Preciosíssimo Sangue de Cristo. Sentou-se ao lado do Tojal, que, solícito, cedeu-lhe a janela, pois era a primeira vez que ela viajava de avião. Nessa primeira etapa, poucos passageiros, Tojal ia folheando, protegida das vista dos outros e da aeromoça, por um jornal, uma revista sueca de sacanagem. Sexo, não só explícito, como escancarado. Antes de pousar em Portel, onde todos saltavam para esticar as pernas, dobrou o jornal e o guardou na bolsinha atrás do assento da frente. Esqueceu.

A estação de passageiros era, como, aliás, quase todas, mero barraco coberto com palha esgarçada de ubim, esteios e caibros roliços, chão de barro pisado. Barraco para sombra.

Três caixas de madeira de embalar sabão e duas latas vazias de querosene Jacaré, faziam as vezes de balcão e lanchonete. Pencas de banana, pupunha e pão doce com garapa de cana. Um pote e um púcaro. E, esparsas moscas a zumbir e sendo espantadas a chicotadas displicentes, por um galho de mato qualquer.

Tojal, nordestino de boa cepa, fartou-se com as iguarias e ainda levou para bordo uma penca de bananas.

Atrasou-se para o embarque. Foi o ultimo, já com os motores do velho DC 3 sendo acionado, peidando fumaça antes de pegar. Quando chegou ao seu acento, já com o avião rumando para a cabeceira da pista viu que a freirinha acabara de pegar o jornal com a tal revista sueca de sacanagem dentro. Só chegou a ver a capa. Foi o suficiente. Quinze minutos de lição de moral da tal irmã que teimava em falar alto chamando a atenção dos passageiros mais próximos que sem saber do sucedido, já o olhavam de cara feia. Tojal tirou o saco de enjôo que os aviões de antigamente disponibilizavam para os passageiros junto com as instruções de emergência na tal bolsa do encosto da poltrona da frente e, fingindo-se enjoado, foi ao banheiro. Voltou fazendo cara de lívido, de quem não está passando bem. E a freira lá, com a revista na mão, esperando para mais uma sessão de descompostura.

Antes que ela recomeçasse, Tojal pegou o saco de enjôo que trazia à mão e começou a fingir escandalosamente que estava vomitando. Quando fez uma pausa na sessão de vômitos respirou fundo e, nordestinamente comentou – pronto! Perdi toda a merenda que comi em Portel, isso não é justo. Em seguida tirou uma colher, dessas de plástico, de avião, do bolso, e se danou a comer, com sofreguidão, as bananas que, no banheiro, havia amassado no tal saco de enjôo.

Primeiramente a freira, depois, quase todo o avião pôs-se a vomitar as tripas até que pousasse em Altamira.

De outra feita, conta o sacanocrata, veio de São Paulo um supervisor da matriz. Um paranaense de quase dois metros de altura. Até que era boa gente e veio impressionado com os resultados das vendas do território, mas tinha que acompanhá-lo em pelo menos uma das viagens para fazer a praça. Tojal decidiu que fariam a rota do Baixo Amazonas em uma semana até Manaus onde permaneceriam por cinco dias incluindo um final de semana para esbórnia.

Altamira, Santarém, Monte Alegre, uma beleza. O tal supervisor estava encantado com o domínio que o pracista tinha do mercado e o relacionamento com os clientes, mas o Tojal a cada dia ficava mais encucado e prestando atenção ao comportamento do “chefe”. Já estavam no quinto dia de viagem e o homem nada de tomar banho. Mesmo com o calor infernal que assola a linha do Equador, o máximo que havia visto era o grandalhão fazer, mal e porcamente, um asseio na pia do banheiro do hotel. Hotel de segunda, já se vê, mas todos de gente conhecida, amiga, pois as pensões do interior não têm a impessoalidade dos hotéis da capital. Depois do tal asseio, as toalhas pareciam panos de chão. Tojal morria de vergonha. Tinha que agüentar. Ossos do ofício. Mais uma escala em Parintins e logo estariam e Manaus. Hotel Amazonas. Aí, talvez, até conseguisse quartos separados.

Por fim, Manaus. Hotel lotado. Mesmo quarto. O supervisor sempre acordava mais cedo e ocupava o banheiro enquanto Tojal aproveitava para dormir mais um pouco.

Logo no outro dia, na capital do Amazonas, Tojal acordou e, pela porta entreaberta do banheiro, viu quando o homem da matriz pegou sua escova, dele, Tojal. Escovou os dentes e, calmamente, enxugou-a na mesma toalha imunda que usara na véspera, e a colocou no lugar.

Com o estômago revirando e com ânsias de vômito, Tojal ainda conseguiu fingir que dormia. Demorou deitado mais uns vinte minutos maquinando o troco, e nisso ele era mestre. Quando levantou, de bom humor, cantarolando, entrou no banheiro, deixando, displicente, mas propositalmente, a porta escancarada.

Lavou o rosto, fez a barba e, antes do banho pegou a dita escova, botou uma dose generosa de creme de barbear Bozzano e, enquanto o companheiro olhava intrigado, com um pé no vaso sanitário abriu a bunda e começou a escovar o anus.

– O que é isso, Tojal! Estás doido? Com toda calma Tojal respondeu.

– Não, parceiro. É que eu sofro de hemorroida e o médico me recomendou essa massagem anal pelo menos duas vezes ao dia e eu trago esta escova só pra isso. E continuou assobiando um tango argentino.

***

A sala do Tojal ficava no segundo andar do bangalô, no final da escada. No andar térreo era a administração. Ninguém se fazia anunciar. Ia entrando e se abancando em frente a sua mesa. Quando queria falar reservadamente com algum cliente, ele é que saía e ia para a sacada.

Nos fins de tarde, lá pelas seis horas, havia sempre meia dúzia de amigos que por lá passavam para o happy qualquer coisa. Dizia sempre que era a melhor hora do dia. Os bancos e os cartórios estavam fechados e os fiscais não apareciam para as mordidas costumeiras. Abria uma garrafa de uísque e, pasmem, em meio a duplicatas, notas fiscais, três telefones e muito riso e irreverência, a esvaziávamos, bebendo na tampinha que passava de mão em mão.

Em uma dessas vezes, estava o Anfrísio, prefeito de Altamira, sacanocrata, de quem também se falará depois, e, um deputado federal amigo da turma e candidato a prefeito de um município do interior interrompendo seu mandato ainda a meio em Brasília. Em um determinado momento, do nada, sem que nem porque, Tojal virou-se para o Anfrísio e perguntou.

– Anfrisão, quanto ganha um prefeito de Altamira?

– Seis mil, respondeu. E, virando-se para o deputado:

– Quanto ganha um deputado federal?

– Doze mil, respondeu o Deputado, ao que o Tojal completou:

-fora passagens, mordomias, apartamento em Brasília, verba de gabinete e o escambau, tá vendo colega, se eu fosse autoridade, primeiro eu prendia o cabra, depois perguntava porque ele queria trocar isso, por aquilo.

– Ei, Tojal, sou eu, teu amigo.

– Desculpa, colega, foi mau, é só beber um pouquinho que me dano a falar merda.

…pano rápido!

andré costa nunes

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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21 respostas para ADORÁVEL SACANA

  1. Rodrigo Fonseca disse:

    Opa meu pai e meu tio estudarm no GBPA nos anos 50 tbm. Mas não utilizam internet . Eles são de Paty e só sabem falar sobre o GBPA , professor Jorge, necrotério de Porfílio, do Capitão …

    Meu pai : Carlos Roberto de Lima Fonseca
    Meu tio : Paulo Cesar Fonseca

    Ele eram filhos do chefe da estação de trem de Paty.

  2. Aos colegas do GBPA 3a e 4a série do ginasial ano 1958/59, Lembrança festa de formatura no salão nobre onde era nosso refeitorio nos dias normais do internato, disciplina rigida comandada pelo Capitão Zenóbio da Costa e pela diretora Dona Zuleide, Fui o aluno apelidado de Little Richard # 87, colegas de turma mais chegados eram Ferrugem,Bahiano. Cara de cavalo, Trajano, Macário,Caveirinha,Vareta e a galera que fugia para o puteiro em 3 Rios depois do toque de recolher para regressar ao amanhecer sem ser notado pelo vigilante do alojamento. Lembraça aos queridos colegas que roubavam latas de leite condensado do armario da cozínha e assaltavam os armários dos colegas nos dias de saida programada, para roubar roupas de marcas famosas. Fomos todos moleques adolescentes felizes, rejeitados pela familia porque eramos super dotados de sabedoria e inteligência, por esse motivo fomos colocados todos juntos no melhor INTERNATO MILITAR do planeta. Lugar privilegiado com fardamento,boa alimentação,muita disciplina militar, grito de guerra, missa cantada aos domingos, cavalgada, campo de futebol, quadra poli-esportiva e visitação nos finais de semana pelos familiares que jamais souberam o que estavamos aprontan-do. Recentemente estive no GBPA, que hoje é chamado de Arcozelo Palace Hotel, A arquitetura continua a mesma, quem não se lembra da entrada., Os arcos da varanda principal, onde todos os dias pela manhã entravamos em forma para ouvir o famoso BI “Boletim Interno” e ordens do dia. Sinto saudade de todos. especialmente do nosso grande educador e de sua maravilhosa equipe CAPITÃO ZENÓBIO DA COSTA. Sou, Luiz Augusto Moreira Lima.(LITTLE RICHARD) E-Mail – augustopetrobras@yahoo.com. Sds.

    • Iracê Braga disse:

      NÃO SEI SE ME LEMBRO DE VCS. FUI DA TURMA DE 1957, PEGUEI O TREM NA CENTRAL DO BRASIL COM 13 ANOS E FUI EMBORA PRA PATY DO ALFERES, COLÉGIO MILITAR COMANDADO PELO CAPITÃO PAULO ZENÓBIO DA COSTA, QUE ENT. DAS CHARRETES; DO FUTEBAL; DOS BANHOS DE PISCINA; DAS AULAS DE FÍSICA ENTREGAVA COM O TEMPO A UM ALUNO DE APELIDO MARROQUINO QUE SÓ SABIA DAR CASCUDOS, CASCUDOS ESSES QUE FAZIAM COM QUE OS ALUNOS O TEMIAM, POIS CHEGAVAMOS A MIJAR DE TANTA DOR, E NÃO PODIA RECLAMAR, POIS, NOS FINAIS DE SEMANA PASSAVAMOS NA CADEIAA OU NO QUARTO ESCURO. ME LEMBRO DAS FUGIDAS PARA ARCOZELO PELO MORRO, CHEIO DE MICUIM PARA VER OS CAVALOS DE GUERRA FUDEREM, DO DINHEIRO DE PAPEL QUE ERAM TROCADOS PELAS NOSSAS MESADAS, DAS PORRADAS QUE ACONTECIAM NOS FUNDOS DA IGREJINHA. FUGIMOS POR DUAS VEZES MAIS FOMOS CAPTURADOS NO CAMINHO PRA CASA E O CASTIGO FOI SEVERO. SÓ
      PRECISAMOS URGENTE MARCAR UM ENCONTRO COM EX-ALUNOS E JOGAR MUITA CONVERSA FORA. POSSO OFERECER A CASA NUM FINAL DE SEMANA PRA CURTIR AQUELES MOMENTOS, A CASA É GRANDE, PRECISA QUE CADA UM TRAGA SEU JOGO DE CAMA, TOALHA DE BANHO, ESCOVA DE DENTE, ETC … EU MORO SOZINHO, MAIS HÁ 500 MTS. MORAM MEU FILHO DE 30 ANOS QUE É ADVOGADO E PARCEIRO

      E A MÃE DELE QUE NÃO SE METE EM P…. NENHUMA .
      TENHO MESA DE SINUCA OFICIAL, BARALHO PRA JOGAR UM CARTEADO, LOCAL PRÓXIMO PARA PESCARIA, CHURRASQUEIRA E ESPAÇO PARA FAZER MUITA SACANAGEM, POIS O CALÇADÃO NOS FINAIS DE SEMANA LOTA . ISSO É EM SEPETIBA/RJ . ACHO QUE NO PRIMEIRO MOMENTO TRAZER A ESPOSA OU A NAMORADA É COMPLICADO, ACHO QUE NÃO VAI SE DIVERETIR MUITO . HOJE EU ESTGOU COM 70 ANOS, AINDA FODO MUIIIIIIIIIIIIIIIIIITO0000000000, TOMO VIAGRA, CIALIS E PRAMIL, TÁ RINDO PORQUE …. ATGIRA A PRIMEIRA PEDRA .
      MEU EMAIL : iracebraga@hotmail.com ou iracebraga@yahoo.com.br
      …Tel. ( 21 ) 8679.4313 0u 8406.1084 os dois são da OI , o da residência eu dou pelo email OK Caso isso avance vamos criar a Associação de ex-alunos do Colégio Militar Ginasio Barão de Paty do Alferes
      Ass. Iracê Braga ex-aluno da turma de 1957

  3. André, amigo é BRITAMIS não tenho palavras, obrigado pela carinhosa lembrança do nosso amigo Waldir de Matos Tojal, ha!….com dois “Ts”.
    Um forte abraço.
    Marionaldo de Sousa BRITO.

  4. luiz sergio cunnha disse:

    meu nome é luiz sergio cunha e estudei no GBPA nos anos de 1957/1958.
    quando entrei no ginásio, recebi o número 55, que tinha sido de um garoto que foi expulso porque foi pego dando o rabo e tive que me impor. me lembro do bracinho e seu irmão maurício, do gonzaguinha, do galo do baiano, do 25, do dentinho, do pipoca que soltou gamexame na ual de inglês do professor charles e que me valeu uma expulsão revogada, do jerry, do gaúcho do 188, dos garçons, vítor e bitinha, de dona conceição, do professor leôncio, pereira, mario de história e geografia que dava notas por letras equivalentes a palavra pernambuco.
    era o centro-avante do time da escola e me lembro do ananias, do gaúcho, do ivan, que ra botafoguense como eu,
    me lembro da invasão de miguel pereira, da enfermaria e do xarope bromil, das encomendas, dos emplastamentos e da figura do feijão, inspetor que ficava louco quando o chamavamos assim.
    saí antes de terminar e o capitão não queria me deixar transferir para o metropoloitano, pois seria o aluno comandante da 4ª série, mas fui para o metropolitano no meyer.
    me lembro dos roubos de tomate, dos tiros de espingarda de sol, dos cavalos no domingo, onde o cara branca guarany era o preferido de todos.;
    me lembro da caça aos vagalumes, em especial a um maior que chamavamos de joão qualquer coisa , que não me lembro.
    me lembro das rixas no futebol com o pessoal de vassouras e das vezes em que joguei no time azul e branco de governador portela, centro-avante com 14 anos.

    me lembro das brincadeiras de pegar na piscina e nas saídas para o cinema nas 4ª e sábados, nas quais entrava de graça pois era um dfos que carregavam a braçadeira de inspeção.

    me lembro da caça aos preás no lago seco, das formaturas aos domingos e das missas.

    um abraço a todos.

    meu e-mail é lscunha@terra.com.br

    • Olá Luiz Sérgio. Sou o 586 do externato, filho do Farid que foi dono da empresa de ônibus que os ônibus naquela época eram terríveis. Lembro-me de você e de todos os demais. Lembro-me do Professores Heloina, Izolda, Yolanda. O Maurício era o 221 e o Bracinho 222 que tinha manía de dar porrada em quem sentava na frente dele, batendo com o cotoco do braço. Bons tempos. Hoje moro em São Paulo. Foi bom encontrá-lo e lembrar-me dos bons tempos. Lembro-me de AnfrIzio, de Costa Leite, carregando a Bandeira do Brasil no sete de setembro e dos irmãos do Pará, do Americano e outros mais. Não tenho contato com êkes, mas deixaram grande saudade.
      Abração .
      Farid Tamer Junior.

      • Correções de grafia: Anfrízio e eles. Aumentando o time de professores: Tayná de Francês, Alcebíades de Matemática e Cardoso de Ciências, o Sr. maia da biblioteca. E não poderia faltar a tia Ida esposa do capitão.

  5. Abel Paes disse:

    Nunca me esqueci duma aposta que fiz a ele de que não conseguiria me distrair numa conversa de amigos. Não deu outra, perdi!. Ele tinha um poder único em convencer as pessoas, daí a fama de ser uma vendedor extraordinário.
    Saudades de vc padrinho!

  6. Caro Nunes .
    Sou gaúcho e ex-aluno do Colégio Militar Ginásio Barão de Paty do Alferes em Paty do Alferes estado do RJ.Tive como colega de classe dois paraenses , um O Anfrísio Nunes e o outro o Alfredo Hage.Eu e outros ex- alunos das turmas de 1957 , 1958 e 1959, estamos tentando entrar em contato com estas pessoas. Em seu blog vc cita o Anfrísio como seu amigo.Será que vc podia me dar notícias dele ? Caso ele tenha um e-mail será que poderia ser passado para mim? hoje todos nós estamos sessentões e gostaríamos de nos encontrar mais uma vez.Desde já agradeço antecipadamente a atenção . Um forte Tríplice e Fraternal Abraço e que o Grande Arquiteto do Universo que é Deus derrame suas bençãos sobre o irmão.
    Cid Juarez Rossi
    E-mail rossi_corretor@yahoo.com.br
    Rua Arno Schuk nº252 – São Leopoldo RS

  7. Simplesmente cativante, André; voltarei com regularidade. A saudade do Pará é grande e a internet torna a distância uma coisinha assim, bem pequenina, ainda mais quando se tem o que bem ler sobre os costumes da terra querida. Abraço.

    • andre costa nunes disse:

      Doralice, eu bem que te disse…

      Obrigado por comparecer neste espaço feito para pessoas como você.

      Espero que goste também das outras postagens.

      Obrigado,

      andre

  8. Melquesedeque Alves Filho disse:

    Camarada André, seu sacana adorável,

    Acabas de me fazer sair de uma puta indignação direto a um puto encantamento. Foi assim: depois de um simples clique do rato larguei a leitura das notícias da absurda morte do Glauco e seu filho vitimados pela violencia que campeia país afora e fui parar no tipoassim folhetim.

    Não deu para não rir.

    Belém, com seu clima vaginal, deve tá toda toda, não é pra menos. Afinal, pra quem vive na Terra do Meio, dizer que Belém é a melhor cidade pra se viver, só pode estar coberto de razão, mas…..Conheces Marituba City?

    • andre costa nunes disse:

      Ave, Melq,

      Obrigado por aparecer por aqui.

      O Terra do Meio te espera para um “papo de beira”.

      Até já,

      andre

  9. Equipe 3 pontos disse:

    Que viagem hein… bom de ler!!!

  10. Tadeu disse:

    André , que maravilha , estou no escritório e ninguém está entendendo nada pois pareço um zé mané rindo sozinho.Billy Blanco = Abrunhosa = Bronha é de rolar no chão.
    Alguma coisa tenho em comum com o Tojal : ser botafoguense e cheio de superstições que não tem nada a ver como a da chave ,todo dia passo pela mesma situação quando chego em casa e só mifú.
    Mais um golaço seu.
    Abs
    Tadeu
    06 de março espero lhe dar um abraço ao vivo e a cores.

  11. Conheci pessoalmente o Tojal, grande pessoa, meu amigo.
    Vc relata perfeitamente o grande camarada que foi esse Tojal, um homem especialmente generoso.

    • andré costa nunes para Osório disse:

      Osório,

      Amigo do Tojal, só pode ser gente boa.

      Vemtimborapracá que dele tenho mais 100.

      Um abraço,

      andré

  12. Querido André, tua crônica é impagável! Perfeita. Vou fazer um post com chamada para cá. Grande beijo! Sarou?

    • andré costa nunes para Frassinete disse:

      Querida Franssinete,

      As margens plácidas do Uriboca e suas encantarias estão a sentir tua falta.

      A Iara, a Matinta o Curupira e até a Borboleta Azul.

      Um abraço,

      andré

  13. Pingback: JOSÉ WALDIR DE MATOS TOJAL, simplesmente, TOJAL « artigo 5º

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