O Cabo Ramalho e a Sociedade Paraense de Oftalmologia

Herança da Ditadura?

O Cabo Ramalho e a Sociedade Paraense de Oftalmologia

Na estrada do Mosqueiro, antes de Santa Bárbara, no Posto da Polícia Rodoviária Estadual, somos instados a parar no acostamento por meia dúzia de soldados, devidamente embalados. À nossa frente, outros dez carros esperavam a vez para as explicações à autoridade.

Conformados, enquanto esperávamos, ainda comentamos a atitude louvável dos policiais – “se todos agissem assim, aumentaria muito a segurança nas estradas…”

Meu amigo Manoel estava na direção. Na verdade fazendo-me um favor, pois minha coluna estava particularmente cruel naquele dia.

Meu amigo, sexagenário, tem cabelos totalmente grisalhos, como os meus, mas sendo branco e sardento, aparenta mais idade. Sou, pelo menos, dez anos mais velho. Uma das poucas vantagens do ser mulato, aliás, só conheço esta.

O carro, um Fiat Uno Mille, sem ar, trava, ou vidro elétrico, o que ele diz ser frescura, penduricalhos que só servem para dar dor de cabeça e aumentar o preço. Não concordo, mas como ele vive no interior, onde não há peças ou manutenção, vai ver que tem razão. Enfim, o carrinho é bem sambado, mas valente, e com manutenção impecável. Nisso, o Manoel é caprichoso.

Chega nossa vez.

– Documentos do veículo.

Em ordem.

– Habilitação.

Idem.

E assim foi passando pelo extintor, luz de freio, alta, baixa, pisca-pisca, e o escambau. Só faltou a carteirinha do Neópolis, mas desconfio que ele a tinha.

A autoridade balançou a cabeça inconformado e passou a examinar a carteira de habilitação. Pai, mãe, e hã hã! Eureka!

– Aqui diz: lentes corretoras. Cadê os óculos?

Tremi, meu amigo, dez vezes mais diligente que eu, vacilara.

Qual o que. Com toda a calma e a tranqüilidade dos justos fitou a autoridade e, mansamente falou:

– Uso lentes de contacto, quer ver? E fez aquele gesto de ajudar a arregalar o olho com o indicador e o polegar.

A autoridade deu um passo atrás e, carrancudo, como toda a autoridade deve ser, sentenciou.

– O senhor está sem óculos e, como não posso ver a tal lente vou multá-lo e o senhor, em 15 dias, pode recorrer.

Ninguém argumentou. Ele nos mandou esperar e dirigiu-se ao escritório do Posto Policial.

Passado aquele átimo de tempo de pura bobeira, ou mesmo estupefação, saí do carro e dirigi-me ao soldado mais próximo que estava atendendo outro cliente.

– Amigo, com licença, quem é o chefe?

– É ele mesmo. O comandante é o Cabo Ramalho que estava lhe atendendo. Vá lá. Converse com ele. Não é bicho de sete cabeças. Durante a semana metade dos carros que passam por aqui têm alguma irregularidade, principalmente se a placa for de cidade do interior.

Nos poucos segundos que percorri os vinte metros que nos separavam do escritório do comandante fui pensando em mil argumentos, e, nisso, até que me saio bem. Confesso que pensei até em besteira, afinal eu devia isso ao amigo que apenas estava fazendo-me um favor.

Abri a porta do escritório. O cabo/comandante estava sentado, sério, e sequer dignou-se a olhar na minha direção, apenas fitava o talonário de multas em cima da mesa.

De repente esqueci toda a argumentação que treinara no caminho e, com sensação de alívio, por não haver cedido a tentação de propor a tal besteira, perguntei.

– Já lavrou a multa?

– Ainda não.

– Pois faça que eu espero.

Demorou mais que o esperado, por fim, quando chegamos ao nosso Fiat, a fila de carro no acostamento estava maior, naturalmente.

Lembrei-me do que ouvira do outro policial. Metade deve ser multada. O Detran vai faturar alto hoje, pensei.

– O senhor vai assinar? Perguntou a autoridade.

Manoel assinou sem pestanejar.

Ficamos em silêncio por um bom tempo. Pelo menos até a cidade de Santa Bárbara, onde entraríamos. Não sei no que meu amigo estava pensando. Eu, por meu lado, até que fiquei aliviado. Vai que o comandante levasse o caso a sério, como manda, não sei se a lei, mas pelo menos o bom senso, e ele não o deixasse mais dirigir? É, porque se estava convencido que o condutor não enxergava bem, e por isso foi multado, deveria, pelo menos sugerir a troca de motorista. No caso, eu. Aí, ia dar-se a merda. Também uso lente de contato. Só no olho esquerdo.

Se a autoridade, com alguma razão achasse que eu estava de gozação, iríamos presos. Se, na hipótese mais lúcida, até pela nossa idade, usasse do mesmo critério anterior, o carro até hoje estaria lá.

Manoel não vai recorrer da multa. Acha que não vale a pena, até porque, não tem tempo. No mesmo dia iria dormir em Terra Alta e lá passaria pelo menos uns dez dias cuidando da mãe, provecta e enferma.

É justo, por motivos mais do que óbvios, que eu insista em pagar essa multa.

Há! Ainda tenho que justificar o título e o subtítulo.

Alguns comentaristas mais superficiais atribuem a violência policial de agora, como a tortura, abuso de autoridade, sadismo etc. à herança da ditadura. Bobagem, os mais velhos sabem que existia antes, durante, e depois. É bem verdade, que no durante era mais brabo. Eu não poderia sequer fazer este relato.

Quanto à Sociedade Paraense de Oftalmologia, vai aqui, um conselho despretensioso, mas sensato, que pessoalmente darei à minha oculista, a competente doutora Emília Girard Cazeta:

Evitem receitar lentes de contato a seus pacientes. Vai que em alguma estrada da vida eles encontrem um cabo Ramalho e dá-se a melódia. E a culpa terá sido de vocês.

Quanto ao Manoel já resolveu a questão da maneira mais prosaica possível. Vai passar no primeiro camelô e comprar um par de óculos.

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O lobo e o cordeiro

Um lobo viu um cordeiro bebendo no rio e quis devorá-lo através de um motivo bem fundamentado. Assim, colocou-se mais acima e depois acusou-o de turvar a água e não permitir-lhe beber. O cordeiro disse que bebia com o extremo do lábio e, além disso, não é possível do lado de baixo turvar a água do lado de cima. O lobo, falhando na acusação, disse: “Mas no ano passado você injuriou meu pai”. E quando o cordeiro respondeu que nessa época nem tinha nascido, o lobo disse: “Se você tem justificativas de mais, não te comerei de menos”.

A fábula mostra que para aqueles cujo propósito é injusto, nenhuma justificativa tem valor. Contra a força, não há argumentos.

(Esopo 620 – 560 AC)

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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Uma resposta para O Cabo Ramalho e a Sociedade Paraense de Oftalmologia

  1. Meu prezado, André
    Obrigado pela deliciosa história.
    Abs

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