NOTA CRÍTICA do ‘Causo’

Com muita honra recebi de MONIQUE e NESTOR GUIMARÃES – ela, francesa, professora de pós-graduação em literatura portuguesa e línguas neolatinas da Universidade de Toulouse, França, e ele, diplomata português, secretário consular em Toulose -, por e-mail, uma bela Nota Crítica sobre o conto & causo, MÃE MAROCA E A BRASTEMP.

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MÃE MAROCA E A BRASTEMP
andré costa nunes 07.07.010

Vivia no seringal Praia de São José, em uma casa pouco adiante do barracão. Era casada com o Mestre Agostinho, um preto grande, espadaúdo, de poucas palavras, carpina de mão cheia, nascido e criado em um quilombo lá para as bandas do Rio Parnaíba, no Piauí, de onde arribou, quando soube, já muitos anos depois, da libertação dos escravos no Brasil. Não mais precisava temer os capitães do mato, caçadores de escravos fugidos.

Depois de muita peripécia, não sei por que cargas d’águas, foi dar com os costados naquele outro fim de mundo.

A sede do seringal ficava na confluência do Riozinho do Anfrísio com o Rio Iriri do qual era afluente. Este, por sua vez, tributário do Xingu. Calculando por baixo, a uns mil quilômetros de onde desembocava no Rio Amazonas.

Mestre Agostinho e mãe Maroca tiveram uma dúzia de filhos. As filhas mais velhas, amigas das minhas irmãs e, especialmente dois filhos, lá pelo meio da prole, meus amigos de estripolias. Pescarias, caçadas, canoas, corredeiras, farras, cachaça. Chico e Augusto Mário.

Quando cheguei ao seringal tinha pouco mais de cinqüenta dias de vida. Minha mãe secou, isto é, parou de dar leite. Minha sobrevivência estava no mínimo ameaçada. Naquele tempo, não havia no seringal, nem vaca nem cabra. Leite em pó ou condensado, em plena Segunda Guerra Mundial estavam descartados por todos os motivos imagináveis. Além do que a cidade de Altamira estava a dez dias de viagem.

Mãe Maroca teve uma filha na mesma época, a Antonieta. Leite para amamentar uma creche. Antonieta virou minha irmã de leite e Mãe Maroca, virou Mãe Maroca. Com direito a tomar bênção e tudo.

Sessenta anos mais tarde, em uma das minhas idas a Altamira, fui visitá-la como de costume. Agora, já morando na cidade, depois do falecimento do marido.

Primeiro vieram os filhos. O Chico, gaiato, muito inteligente, logo aprendeu a dirigir, e assumiu o comando dos caminhões. Não muitos. Dois ou três. Virou tratorista rodoviário e sumiu no trecho. Depois veio a Maria Augusta, a Úda, amiga e companheira das minhas irmãs. Carola e eterna zeladora da igreja matriz, do salão paroquial e da casa do bispo. O Augusto Mário deixou de beber, uma pena, fez carreira como piloto das embarcações de uma mineradora. Aposentou-se e, quem diria, descobriu uma insuspeitada vocação para o comércio, e montou uma mercearia na segunda rua, perto da casa da irmã, a Luzia.

Todos, ou quase, conseguiram aposentar-se como seringueiros. Eram chamados, com justiça, “soldados da borracha”.

Quando as multinacionais da indústria de pneus acabaram com o Banco da Borracha, incentivador do extrativismo e monopolista do beneficiamento e regulador do mercado, a atividade acabou. Virou farelo. O preço desabou. A debandada foi geral. Garimpo. Quem renitiu em ficar sentiu o abandono e a miséria em meio à fartura e à opulência da natureza.

Depois vieram os madeireiros e os grileiros da pata do boi com moto-serra e pistoleiros. Mas isto é outra história para se contar, e se contará.

***

Estabelecidos e remediados, em Altamira, os filhos do Mestre Agostinho trouxeram Mãe Maroca.

Morava na casa da Luzia, como se disse, na segunda rua, perto do hospital do SESP e da beira do Rio Xingu, o que amenizou muito o choque da mudança para a cidade. Ali, naquela beira, era o porto das lavadeiras. O local era propício, pois como se sabe, para lavar roupa, o rio tem que ser raso inverno e verão, ter corredeira e a água limpa. Onde não tem pedral, cada uma tem sua tábua de lavar. É uma bancada tosca, de prancha grossa de acapú, com os pés encaixados, sem pregos que enferrugem e possam, quando velhos, manchar ou rasgar as roupas. Quando sem uso, é uma delícia para a criançada mais nova usar como trampolim.

Pronto! Mãe Maroca estava em casa. Todos os dias, trouxa de roupa na cabeça, cedo, descia a barranca suave e ia encontrar-se com as companheiras de causos, água e sabão. Muitas delas, oriundas dos seringais, abraçaram a atividade como profissão, para garantir a subsistência da família. Não era o caso da Mãe Maroca. Só lavava a roupa de casa. Quando a trouxa era grande, sempre havia um neto para levar, seca, e trazer molhada, muito mais pesada, em carro de mão. Mesmo quando não havia roupa para lavar, ela dava um jeito de arranjar, nem que fossem três peças, e com isso passava toda a manhã de conversê com as amigas. Ela era feliz.

A última vez que a vi, com mais de noventa anos, passei primeiro pela beira do rio. Ela não estava lá. Sua banca estava cheia de curumins, filhos e netos das lavadeiras, pulando na água e brincando de cangapé. Passei na mercearia do Augusto Mário. Ele fez a festa de sempre, abriu uma garrafa de cerveja que, para não beber só, naquela hora da manhã, dividi com um freguês eventual.

Augusto Mário estava cheio de novidades para contar. E, logo foi, com seu jeito gaiato de sempre falar, encangando um causo no outro. Aproveitando uma pausa enquanto ele atendia um freguês apressei-me em dizer que tinha que ver a Mãe Maroca e pedir-lhe a benção.

– Vou contigo. Quero te mostrar a maior de todas as novidades. Vais cair duro. Passou rápido um pano no balcão enquanto chamava a Maria para assumir a venda. Virei o resto da cerveja quente que estava no copo e tive que apressar-me porque ele já estava no meio da rua sem parar de falar.

A casa da Luzia era perto. Deixei o velho jipe estacionado onde estava e fui curtindo a tagarelice do amigo.

Mãe Maroca estava na porta. A banca de tacacá da Luzia com os fogareiros de carvão apagados estava coberta por um plástico que um dia foi transparente. A venda de tacacá só começava a partir das quatro. Estavam tirando os talos e sementes do jambu e catando camarão seco. Camarão miúdo e barato vindo de Belém.

Quando entrei, foi aquele espalhafato de sempre. Tomei a bênção, beijei a mão da Mãe Maroca, passei a mão na bunda da Nega Dora que correu atrás de mim com uma enorme colher de pau de mexer o panelão de goma. A casa esbanjava alegria.

Lá pras tantas, impaciente, Augusto Mário pegou-me pelo braço e me puxou na direção do quintal. Foi todo mundo em procissão. Mulher, homem, menino, papagaio, periquito e cachorro. Eu estava cuíra. A novidade devia ser grande.

Logo que atravessamos a sala de jantar, os filhos, depois me contaram, cotizaram-se e construíram para a velha, já muito velha, mas rija e empertigada, uma lavanderia.

Era uma área coberta de brasilit, lajotada, novinha em folha. E, no centro, encostada à parede dos fundos, uma maravilhosa máquina de lavar. Último grito no comércio de Altamira. Vinte prestações iguais. Sem juros. Bastava o neto, André, fazer a programação, colocar a dose certa do sabão em pó, e pronto. Mãe Maroca só tinha que separar as peças, botar na máquina, sentar e esperar seu indefectível cachimbo de coquinho e taquara. Quando tivesse pronta ela avisava. Só faltava passar.

– Tio André, foi um sonho que realizamos, disse a neta com os olhos marejados. Morria de pena de ver a vovó naquele sol, na beira do rio como se fosse uma desvalida. Tinha até vergonha dos colegas de colégio.

A cena era de fato emocionante. Nessa hora, abracei a Mãe Maroca e, ainda surpreso, até por não saber o que dizer, entrei no clima, e demonstrei um entusiasmo sem convicção.

– Égua, cara, já não era sem tempo. E aí, mãe, a senhora não diz nada?

Ela puxou o mocho que estava perto, sentou-se, e ficou calada e pensativa por um tempo. Também ninguém falou, como que esperando pela resposta que não tardou. Fitando a máquina, de costas para a platéia, apenas murmurou, como se falasse para si mesma.

– É, meu filho, o diabo é que ela não tem assunto.

No mês seguinte, no Rio de Janeiro, recebi um telefonema do Augusto Mário. Mãe Maroca havia morrido.

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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2 respostas para NOTA CRÍTICA do ‘Causo’

  1. ARMANDO MALATO disse:

    Meu Caro André
    Você não teria o direito, de brindar somente o casal de franceses, com o Causo da Mãe Maróca, por esta razão, acho ter sido uma feliz idéia sua, ter publicado, mesmo virtualmente, para que seus amigos também pudessem desfrutar dos méritos nativos, que você tem como grande narrador e contador de causos. Continue nos brindando com estas filigranas e a singular caracteristica em suas narrativas (reais) como no livro “O Riozinho”, que lí com muito prazer, de uma só paulada, por ser um tipo de narração hipnotisante. Obrigado por você existir, meu amigo,
    Do seu grande admirador e leitor,

    ARMANDO MALATO

  2. Adelina disse:

    Querido André:

    seu texto dá prazer, transporta a gente pra lá.Dá raiva quando acaba!

    Beijão.

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