CÍRIO CABANO

Há três anos, um amigo, creio, como desafio, ou mesmo, de pura sacanagem pediu-me que escrevesse um artigo sobre a grande festa dos peraenses, o Cirio de Nazaré para a Revista Veja, Edicão Especial. Claro que ele sabia das minhas convicções. O que ele não sabia é que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

 Escrevi com fé. Com o coração de paraense do tamanho da Amazônia. Paraense de hoje, de ontem, de sempre.

Cabano.

Em tempo: Na Veja mudaram o título para “O Estado de Nossa Senhora de Nazaré”. Sabe como é editor, mas até que eu gostei.

______________/

     

CÍRIO CABANO

Paraense, ateu. Filosoficamente, materialista. Devoto de Nossa Senhora de Nazaré. Este último atributo, no mês de outubro, transcende os demais. É inerente ao ser paraense.

Durante algum tempo, no auge do obscurantismo ideológico da juventude, ainda tentei renegar, mas romântico inveterado, há muito deixei de remar contra a maré. Mergulhei de cabeça no paraensismo, o que não existe sem açaí, tacacá, Ver-o-Peso, marés, rios e ilhas. Canoas e torço nu. Sem camisa. Sem a devoção à Virgem de Nazaré.

 E isso tudo, à imagem do próprio Rio Amazonas, como em um caudal, desagua em Belém, no segundo domingo de outubro. A colossal procissão do Círio, com milhares, fala-se até em milhões de romeiros, diz-que, começa na catedral da Sé e termina cinco ou seis quilômetros depois na Basílica de Nazaré, mas um olhar atento vai além.

Vê que a romaria começa em cada furo, rio, igarapé, ilha ou beiradão.

Canoas, ubás, caxiris, barcos, a motor, vela ou remo. Começa nas palafitas e barrancos. Nos quintais das cidades, no porco cevado, no patarrão, no ralar da mandioca, no tipiti, e no moer da folha de maniva. Matéria prima para o almoço do Círio. Maniçoba e pato no tucupi. Farto e generoso. Para a família, para os amigos, e quem mais chegar.

Começa no vestido de chita com babados, decote comportado e comprimento a baixo dos joelhos. Calça e camisa de manga comprida, novas, as únicas mudas de roupa compradas no ano, mas estreadas no Dia da Festa. Sapatos, sandálias, baixas ou de salto, tênis?

Nenhum. Acompanhar o Círio de Nazaré se vai descalço. Naturalmente.

 Começa com banho-de-cheiro. Vinde-cá, priprioca, patichouli, orisa, pau-cheiroso, chama, pau-rosa, catinga-de-mulata. E se vem de todos os cantos do Estado Pará que em outubro se transmuda para além das fronteiras geopolíticas. Invade o Maranhão, o Amazonas, o Amapá. É como se fosse o Estado de Nossa Senhora de Nazaré. Esse é o núcleo central tangido pelas águas, senhora de todos os destinos.

Essa é a procissão cabana de antes da estrada, do asfalto, do ônibus, do avião, do arranha-céu, do apartamento, do estacionamento proibido.  

Essa nova tribo do fast food também é bem-vinda. Por adesão, é claro, afinal, no manto da Virgem e no coração cabano há sempre espaço de sobra. Apenas há que aderir ao espírito secular do Círio. Ficar mundiado pelo bom e pelo bem. Sentir-se igual. Caminhar descalço.

É por tudo isso, pelo peso dessa enorme bagagem da cultura paraense, que, todos os anos, quando passa a berlinda da Santa, este velho comunista se emociona e chora.

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
Esse post foi publicado em Permeios. Bookmark o link permanente.

2 respostas para CÍRIO CABANO

  1. Maria Lucia disse:

    Um texto lindo desses devia ser lido por todos os brasileiros!
    Contado assim do seu jeito fica fácil entender de que somos nós brasileiros feitos. Um pouco de espírito desaranhado, um desconcerto, uma imaginação. Um descompromisso com o acertado.
    Valeu, André – e como!- conhecer o seu blog!
    Daqui do Rio de Janeiro seguem os meus sinceros parabéns pela sua escrita viva e desabrida.
    Um abraço.
    Maria Lucia

  2. silvia disse:

    obrigada tio, tu sempre me emocionas, longe então, tô uma manteiga derretida.
    lembro de ti, no Círio de 83, qdo morei c vcs no Ed. Metrópole, sentar-se na cama, visivelmente tocado, com aquela multidão aclamando a santa na sua chegada à Basílica.
    isso, trago vivo em minha memória. pensei: olha só! mas ele não é ateu?!?!?!?
    saudades e amor eternos da sobrinha aqui, tão desgarrada, mas com o pensamento sempre em vocês. beijos p minha tia e meus primos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s