O marqueteiro

O MARQUETEIRO

André Costa Nunes

25.10.010

 

O candidato não é um produto!

 

Antes, fosse.

 

Sou profissional de marketing há tanto tempo, que já até perdi a conta. Trinta, quarenta anos, ou mais. Aceito, com relutância, ser chamado de marqueteiro. Considero pejorativo. Aliás, acho que hoje em dia todo mundo acha a mesma coisa, principalmente em época de eleições.

 

Aviso aos navegantes: essa coisa “eleitoral” que está nas ruas, na tv, nos jornais e nas rádios, não é marketing.

 

Marketing é aquela atividade essencial que está por trás de todo produto ou serviço e que torna a vida moderna exequível. É invisível. Vive da satisfação das pessoas, de resultados. É o elo entre a produção e o consumidor. É via de mão dupla. Necessita de métodos, ética, conhecimento, suor e toda a criatividade do mundo.

 

Quando você pede, na lanchonete, o seu refrigerante preferido, e ele está à mão, não é por acaso. Há todo um exército de profissionais por trás para que isso aconteça.

 

Assim é também com o shampoo, o sabonete, a cerveja, o chocolate, o cinema, o teatro, a viagem de férias, enfim, tudo o mais que nos rodeia. É o que chamamos de marketing-mix, ou, se preferir, composto de marketing.

 

Publicidade, design, venda, distribuição, RP, assessoria de imprensa, decoração, vitrinismo. Isso é apenas uma pálida idéia do que acontece e é, porque tem que ser, imperceptível.

 

Por outro lado, cada uma dessas atividades tem seu próprio mix, que se abre em uma reação em cadeia interminável, mas rigorosamente harmônica.

 

Costumo abstrair o termo serviço. Para mim, só há produto. Tangível e intangível. Desta maneira, o que vi na campanha eleitoral para presidente da República e para governador do Estado foge a todo o entendimento que tenho de ética, moral e profissionalismo de mercado.

 

Até concordo que uma pessoa, um candidato, não é simplesmente um produto, mas você há de convir que é bem pior, do ponto de vista do consumidor final.

 

Não tem bula, não exibe a formula, não tem sac, não é amparado pela Lei de Defesa do Consumidor, não se aceita devolução e não tem garantia de funcionamento.

 

Se fosse encarado simplesmente como um produto, sua campanha publicitária, teria minimamente que seguir as regras do CONAR. Não se exaltam as qualidades de um produto, salvo execráveis exceções, apenas desancando os defeitos do concorrente. Reais e imaginários. Acho até, que para continuar assim, caberia a determinação de um horário mais avançado, em que as crianças e mesmo os jovens estivessem dormindo, para não influenciar negativamente em sua formação de caráter.

 

Não é bem isso que queremos ensinar aos nossos filhos no trato com os colegas de colégio na primeira disputa que surgir, e vai surgir, no esporte, no grêmio escolar, no namoro.

 

Sou um profissional de marketing, repito, não sei fazer publicidade, assessoria de imprensa e outras coisas mais, imprescindíveis ao sucesso do produto, mas costumo brigar, e brigar bonito pelo meu produto, pela imagem da empresa que o vende ou fabrica, e jogo limpo. Minha arena é o mercado e não gostaria de ser confundido com um marqueteiro qualquer.

 

Tenho esperança de que esta seja a última campanha eleitoral neste nível, deste quilate. Tenho certeza que os colegas que atuaram de alguma maneira no processo pensam o mesmo.

 

Seria uma injustiça julgar-nos por isso que está aí.

 

O marketing ainda é essencial para o mundo da livre escolha, e do estilo de vida que o povo exige e merece. Para todos. Sem preconceitos.

Com ética.

 

andré@terradomeio.com.br




“TERRA DO MEIO”
Um lugar para ser feliz

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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5 respostas para O marqueteiro

  1. Pedro Ayres disse:

    Caro André

    Pelo que li em tuas crônicas, deves ser aquele companheiro que dividia um quarto lá no porão da Casa do Estudante. Gostei bastante do que li e soube. Aliás, é sobre esse passado que gostaria de ter maiores informações, pois, como estou com 72 anos e com alguns problemas de saúde, estou pensando seriamente em escrever sobre o que fiz, vi e vivi. O Pará, como não poderia deixar de ser, é a chave de tudo.
    Assim, caso posssas, gostaria de ter cópias daquela papagaiada que o Jarbas fez lá no sindicato da Petrobrás, bem antes do golpe. Em que se falava sobre um plano guerrilheiro(sic) para a região. Preciso de dados mais exatos, pois, a minha memória pode me p;regar peças.
    André, ao leres o meu perfil que está no blog, saberás um pouco do que fiz. O resto poderás saber aos poucos.
    Um grande abraço do companheiro e velho amigo
    Pedro Ayres

    • André Costa Nunes disse:

      Carssimo Pedro, alis, Pedro Ayres Pontes,

      No imaginas como andamos te caando por todo esse Brasil. Agora, no vamos mais te perder de vista. Depois te conto o resto,

      Um abrao,

      andre costa nunes

      • Pedro Ayres disse:

        Caro Amigo e Companheiro André
        É ótimo saber que ainda tem gente daquele período, gente que se preservou e garantiu a continuidade de uma memória de lutas. Volta e meia tento lembrar daquela Belém dos idos de 1960 – dos papos na Casa do Estudante, do vovô Humberto, dos amigos do Café Central, das lides políticas.
        Como paraense, aculturado entre quatro modos de olhar o mundo- o marajoara, o homem do baixo-amazonas, o judeu fugitivo e o cristão quase sacrílego – sempre procurei compreender o meu mundo não com a crueza da lógica racionalista, mas, acima de tudo, pelas cores e belezas da imaginação. É impossível fugir desse modo de ser e agir. A própria natureza quase que nos obriga a fazer com que o fantástico e a imaginação tenham a justa preeminência. Hoje em dia, infelizmente, muito dessa magia cultural está a ser destruída. E neste processo de destruição cultural, fica difícil crer e aceitar viver no fabuloso mundo das mitologias indígenas e daquele sincretismo fantasioso que são as lendas herdadas da Europa.
        Como a modernidade ainda não tinha destruído àquela lógica fabular e o pouco avanço técnico existente ainda trazia o imagístico estético de dois belos momentos, da Art Nouveau e da Art Deco, era possível sentir a Amazônia, não como um mundo a ser descoberto e explorado materialmente, mas, o conjunto de vários universos mágicos. E por falar nisso, em 2001 estive em Belém por pouco tempo, porém tempo mais do que suficiente para me entristecer com a decadência estética e ética de uma antiga bela cidade. Não houve retrato na parede e nem a clássica recherche du temps perdu que me fizessem lembrar a cordialíssima cidade que deixei em 1962. De nada adiantou flanar pela Conselheiro, tudo estava em ruínas, ora física, ora de abandono afetivo.
        Assim, vamos aos poucos botando o papo em dia.
        Um grande abraço
        Pedro Ayres

  2. Pedro Nelito disse:

    André,
    Gostaria de ter falado pessoalmente pra ti o quanto o teu texto ressaltou o que vinha refletindo sobre esse tema – marketing. Não acrescentarei mais nada, não sou marketeiro, mas fiquei incomodado, muito incomodado com o nível…
    Lendo tuas linhas, meu coração se enche de esperança… Obrigado meu amigo André!

  3. Marrodsan disse:

    Seo André… não imaginas o quanto preciso fazer a mesma explicação aos meus alunos….

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