ANTONIETA TATIBITATI – Mulher seringueira

ANTONIETA TATIBITATI

Mulher seringueira

Uriboca, 08.03.011

__________/__________

O telefone tocou.

– Tio André a vovó quer falar com o senhor.

Não reconheci a voz, nem tinha a menor idéia de quem seria essa vó, mas família grande é isso mesmo. Fui aos poucos desanuviando o semblante do aborrecimento por ser interrompido na briga diária com o teclado do computador. Escritor bissexto, preguiçoso e endividado.

– Deca preciso muito de um favorzinho teu. E continuou falando um mundo de coisas que eu não prestava a mínima atenção.

Na primeira palavra, identifiquei a vó.

Antonieta é uma preta velha tatibitati dona do mais engraçado e doce tatibitati do mundo. Preta velha é ótimo. Temos exatamente a mesma idade, setenta e um, para setenta e dois. Sou afrodescendente e ninguém me chama de preto velho. Não, que eu saiba. Talvez até gostasse. Afrodescendente é uma merda.

– Deca, deca, tu estás me ouvindo?

– Repete, Antonieta, a ligação falhou, mas estou troncho de saudade.

– Escuta, menino, e vê se presta atenção. O causo é muito sério. Preciso que sejas minha testemunha na justiça. Já moí e remoí o miolo e só posso contar contigo.

– Claro, falei sério e já com alguma preocupação, mas não podia demonstrar. Não quero nem saber o tamanho da bronca. Estou contigo e não abro.

De novo aquela voz jovem.

– Tio, o crédito do telefone está acabando, podemos ir aí amanhã cedo, levando a intimação? É da Justiça Federal.

– Claro, vou ficar esperando.

Ainda quis pedir o número do telefone para ligar de volta, pois o meu, residencial, não tem bina, quando a ligação caiu.

Passei o resto do dia pensativo. Que caso de Justiça Federal poderia ter aquela criatura simplória, que nunca brigou com ninguém, a pessoa “mais boa” que já conheci, ou mesmo tive notícia?

Antonieta é minha irmã de leite, filha da Mãe Maroca, aquela uma da Brastemp, lembra?  Filha do mestre Agostinho, que veio do Quilombo do Vô Mandinga, no Piauí, irmã do Chico e do Augusto Mário, e de mais um mundo de gente.

Antonieta das travessuras da meninada na corredeira do pedral no rio Iriri. Na boca do Riozinho do Anfrísio. Meu deus como tinha menino. Poucos conheciam a cidade. Cidade que eu falo era Altamira, com sete mil habitantes e que, no verão, ficava a uma semana de viagem. Isso, de baixada. Descendo os rios Iriri e Xingu. Eu adorava malinar com a Antonieta. Pretioca magra, indefesa, doce e ainda por cima tatibitati. As vezes saía no meio da algazarra e ficava em cima da pedra grande, de cócoras, com o queixo  apoiado nos joelhos fazendo cara de amuo. Bastava que um de nós, seus irmãos, fosse lá e coçasse-lhe a cabeça e abria um sorriso de pérolas a contrastar com a pele negra de criança.

Eles todos ficaram no seringal a cumprir a sina de seringueiros. Eu ganhei o mundo. Outra sina deveria ser a minha. Até hoje, passados mais de sessenta anos, ainda não atinei qual fosse, apenas, posso dizer, como Neruda, confesso que vivi.

Corri terras, andei, desandei, mandei, desmandei, fui mandado, escrevi, hoje, apenas escrevo.

Muito cedo, minha memória foi ficando atemporal. Episódios de ontem convivem e interagem com os de hoje e, com certeza, com o que sonho do amanhã. Se não coincidem, não é que haja dado errado, não tem a menor importância, apenas farão parte do novo sonho, que traz na bagagem, cumulativamente todos os outros. E o que é melhor: já nem mais consigo distinguir o sonho vivido do sonho sonhado.

Houve um tempo em que costumava dar nomes aos amigos de infância de acordo com os personagens da literatura na qual aos trambolhões ia tropeçando. Houve mais de uma Capitu, o Rubem Machado era o Capitão Vasco Moscoso do Aragão, velho marinheiro do Jorge Amado, Mestre Agostinho era Ganga Zumba e, não deu outra, Antonieta era a Irene de Manuel Bandeira.

Irene no Céu.

Irene preta,

Irene boa,

Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no Céu:

-Licença, meu branco

E São Pedro bonachão:

– Entra Irene, você não precisa pedir licença.

***

Fiquei cuíra.

Pela manhã acordei cedo e mandei por a mesa do café na maloca da beira do rio. Rio Uriboca, que nasce bem na frente de casa, aqui na Terra do Meio, e fiquei esperando, com um sentimento indefinido, misto de curiosidade e apreensão. Uma coisa eu tinha certeza, fosse a quizila que fosse, a Antonieta tinha razão. Isso me acalmou um pouco.

De repente, um carro velho desce a ladeira peidando e para perto da churrasqueira. Descem, Antonieta, uma neta e um genro.

Já desceram rindo. De que, não sei, mas naquela família, o riso e o bom humor eram atávicos. Não me lembro de os ver com outro semblante. Pelo menos, pensei, a tal demanda judicial federal, não pode ser tão grave assim.

– Taqui, tio, tá entregue, espero, ou venho apanhar depois?

– Nem uma coisa nem outra, te abanca e vamos tomar café. Aqui tem prosa pra mais de metro. Cancelei todos os compromissos de hoje. Depois do almoço ainda tem a sesta.

– Então eu tenho que ir, a que horas passo para pegar dona Antonieta?

– Se tens que ir, vai. Esquece a Antonieta que à tardinha eu vou deixá-la, isso se ela não quiser ficar pra dormir.

***

Antonieta sentou na cadeira de balanço. Leve, magra, doce, forte, sem rugas e, um que outro fio de cabelo branco. Parece que o relógio da vida dela é muito mais lento do que o meu. Não deve ter ponteiro de segundos. Aquele um, fino, nervoso, que está sempre com pressa e só serve para nos apressar. Se calhar, não tem nem o dos minutos. Que inveja!

– Pois é Deca, lê esse papel, é isso que me deixa avexada, depois a gente pode prosear a vontade.

Era uma intimação para uma audiência na vara não sei das quantas para daí a uma semana e, ela mesma, com toda a naturalidade foi-me esclarecendo.

– Faz tempo que estou tentando uma aposentadoria como mulher do meu finado marido, o Juquinha, que, como tu sabes, era seringueiro do teu pai. O primeiro atrapalho é que eu era casada só no padre. Casamos lá mesmo na Praia, na passagem do padre Júlio, santo homem, que Deus o tenha. Mas agora, querem que eu traga testemunhas de que meu marido era mesmo seringueiro e por quanto tempo. E se eu era mesmo mulher dele, porque o direito é dele, e, na falta dele, eu. E ainda provar a lida dele como um tal de soldado da borracha.

– Sim, perguntei, e qual é a dificuldade?

– A “dificulidade” é esta mesma. Testemunhas. Nós estamos velhos, Deca, só quem tá verde é a nossa lembrança, nosso benquerer. Aquele nosso povo quase todo já morreu. Teu pai, teus irmãos, nossos amigos. E eram tantos. Um magote que não conhecia a maldade do mundo. Lá, agora, tem outro pessoal, tudo bargado, que não respeita gente, não respeita seringueira, castanheira, bicho, nem grota. Nem Deus. O deus deles é pé de pau derrubado, fogo, capim e boi.

Ela ia falando e amiudando os olhos como se estivesse a sorrir. Seu semblante não se modificou nem quando duas lágrimas escorreram pela face escura. Continuou sorrindo, agora calada. Eu, velho tagarela, mas metido a durão, emudeci. O nó da garganta e a voz de falsete iriam trair o machismo renitente das heranças caboclas.

***

Cheguei antes de todo mundo. Justiça Federal. Prédio imponente, recuado, encravado no meio de um quarteirão residencial do bairro do Umarizal. Digo encravado porque foi erguido aproveitando os quintais do velho casario da vizinhança. Aos poucos vão se abrindo espaços para a rua. Quem passa desavisado, nem chega a notar. Eu mesmo passei em frente duas vezes até acertar.

Quarto ou quinto andar, não me lembro bem. Mandam-me para uma sala de espera. Começo, mentalmente, a repassar minha fala. Completamente neófito na matéria achei que era barbada. Esta, a Antonieta iria ganhar fácil. Tratava-se de melhorar a aposentadoria ínfima que recebia por idade. Soldado da borracha tem pensão diferenciada. É pouco, mas é.

Um filme passava na minha cabeça. Conhecia o marido dela, o Juquinha, antes e depois de casar. Ele era seringueiro do meu pai no Alto Riozinho. Antes e depois de casar. Antonieta casou com treze anos. Nem sei se chegou a cursar ou teve que largar a escola do barracão sem se alfabetizar.

Ela vivia dizendo que sua existência salvou minha vida. E é verdade. Quando cheguei ao seringal tinha cinquenta dias de nascido. Minha mãe secou. No Iriri não havia vaca nem cabra. Não me dei bem com leite de castanha. Mãe Maroca havia parido a Antonieta. Leite para encher um pote. Pronto! Escapei.

Todos os anos, eu passava pelo menos dois meses no seringal. Era tempo de rever a minha turma. Crianças. Pescarias, tracajás, corredeiras, praias, canoas, caçadas, cangapé, histórias mil. De índio, de cobra grande, de mapinguari. Cresci, minha turma cresceu. Virei ‘doutor’, diz-que. Eles, seringueiros, mateiros, barqueiros, gateiros, carpinas, pilotos. Continuamos a nos encontrar. Todos os anos. Parecia que pouco mudava. Crianças, jovens, pais, mães, avós. Meio que dispersos na carreira do rio, mas sempre sem nos perder de vista.

Toda vez que ia ao seringal, inventava um “dever de ofício” qualquer e visitava todas as colocações. Um pequeno estoque de presentes para os curumins. Invariavelmente, para não errar, bola e boneca. E caramelo. E para a turma, cigarro de carteira. Qualquer marca. Quando eu chegava, era feriado nacional. Ninguém ia cortar seringa ou quebrar castanha. Um, dois ou três dias. A corriola que morava por perto, até quatro horas de remo, também vinha. Cachaça e mentira. Da cidade e do mato.

Para chegar à colocação da Antonieta eram três dias de motor Riozinho acima. Era a última. Primeiro o Umarizal, depois a Macambira. As que mais produziam. Quase duas toneladas por fábrico que o Antônio fazia sozinho.

Meu Deus, somente agora, nesta sala de espera, asséptica e refrigerada, me dou conta: sozinho, uma ova. Antonieta fazia toda a diferença. Era o Fute. O marido, justiça se lhe faça, muito trabalhador, levantava antes de o sol nascer. Tomava café com frito, botava a garrafa térmica e a lata de farofa na boroca, espingarda a tiracolo, o facão e as tralhas de seringueiro, e rumava para estrada de seringa, de ubá, ainda no escuro, alumiando o caminho com uma poronga na cabeça. Poronga, para quem não sabe, é uma lamparina sujigada em um suporte de tiras de lata à moda de um boné, mal comparado às modernas lanternas de cabeça usadas nas minas de carvão.

Voltava do mato perto das duas da tarde.

Começava o segundo tempo. Trazia o leite de seringa em um grande saco encauchado. Às costas no jamaxim. Trinta e cinco, quarenta latas. A medida era a lata de banha de dois quilos. Ia para o defumador e despejava tudo em uma grande “bacia da rubi”, herança dos americanos do tempo da guerra. Esse rubi era corruptela de “Rubber Reserve Corporation”. Ali, em uma vara comprida e bem roliça, na boca do forno em cone, despejava o leite que coagulava em contato com a fumaça quente e espessa. A fumaça tinha que ser espessa, produzida por cavaco de madeira oleaginosa ou, de preferência, coco babaçu, abundante na região. Fazíamos graça com o trocadilho infame: o Xingu é rico porque o babaçu abunda.

Como se disse, era muito trabalhador, o Juquinha. Duas toneladas de borracha fina, quando a média do seringal não chegava a oitocentos quilos.

Outros seringueiros chegavam a ter inveja. Da Antonieta.

Antonio quando acordava, muito cedo, já encontrava o café e o frito prontos. Antonieta acordara antes do muito cedo. Vezes sem conta de noite dormida aos pedaços. Quem tem curumim novo, costuma-se dizer por lá, dorme como os cachorros, um pouco de cada vez. Não me lembro de ter ido àquela casa que não encontrasse um bruguelo. Com o passar do tempo, as filhas mais velhas cuidavam dos bacorinhos.

Antonieta cuidava da criançada, da criação, da roupa, da cozinha, lavrava castanha para fazer leite e óleo e, principalmente, coletava coco babaçu para o defumador. Nem sempre perto. Certo dia, quando cheguei, ela estava vindo do mato carregando às costas um jamaxim de coco. Corri para ajudar a apeá-lo. Não fiz cara feia, mas me arrependi da graça. Pesava certamente mais de setenta quilos. Minha coluna sempre foi meu calcanhar de Aquiles. Não sei de onde tirava tanta força e determinação com um corpo tão esguio.

Na maioria das vezes, quando não estava muito barriguda ou amamentando acompanhava o marido na estrada de seringa. Acompanhar é modo de dizer, pois carregava toda a tralha na ida e dividia o peso do látex coletado na volta. Principalmente quando havia ameaço de índio. Nessas ocasiões, juntavam as crianças todas em uma colocação próxima que tivesse barraqueiro e a mulher encarava a parada de igual para igual com o homem. Inclusive na espingarda.

Não me lembro uma única vez de tê-la visto parada. Mesmo na hora da prosa, da qual ela participava ativamente. Estava sempre a fazer alguma coisa. Se no terreiro, ciscando as folhas com vassoura de garrancho, se na beira do rio, lavando roupa, tratando peixe ou dando banho em menino.

Não por outra que seringueiro solteiro produzia a metade do casado.

Antonieta, se fosse no tempo da escravatura, aquela outra, valia seu peso em ouro.

Quando comecei a escrever esta crônica, me dei conta que era o Dia Internacional da Mulher. 8 de março. Século XXI e eu aqui tentando provar na Justiça Federal que o Juquinha, aliás, João Alves de Souza, havia sido seringueiro e que a Antonieta, sua dependente, faria jus a uma mísera pensão.

Ninguém vê, meu Deus, que Antonieta o é, por definição?  Quem é dependente de quem? Nesta sociedade seringueira não há sócio majoritário. Não deveria ser pelos méritos do marido, que inegavelmente os tinha, que Antonieta faria jus a alguma coisa. Ela, e todas as mulheres de seringueiros que conheci.

Mulheres seringueiras.

A chegada da Antonieta quebrou o ritmo do devaneio. Chegou trazendo mais uma testemunha, a Maria Bacabeira. De repente entrei em sintonia com o mundo real.

– Oi Deca, estava com medo. Pensei que não vinhas, tatibitateou à guisa de saudação.

– Estás nervosa, perguntei.

– Um pouco.

– Fica tranqüila. Vai ser mole. Estou com a fala na ponta da língua e com a pasta cheia de documentos. Encontrei, no cofre da Vicência, em Altamira, o livro de conta-corrente do seringal. A letra desenhada do Zé Caixeiro, o assentamento das compras do teu pai, e de toda aquela corriola. Quase um século.

Nesse momento chegou um senhor, de terno e gravata, e ela me apresentou como seu advogado. Deveria ser o defensor público.

Permanecemos calados, quando uma funcionária veio me avisar que eu seria o primeiro a depor.

Não vou descrever a sala de audiência porque todo mundo já viu uma. Pelo menos no cinema ou na tv.

A juíza me pareceu simpática, educada, elegante e bonita. Não vou dizer competente porque desde que inventaram concurso público que quem não o é não senta ali.

Ao meu lado o defensor. À minha frente a acusação, promotor, advogado do diabo, o que seja.

Feitas as recomendações e advertências de praxe. Começaram a perguntar e eu a responder, procurando sempre evitar a conotação romântica que imprimo em todos os meus relatos. A solenidade da ocasião não era azada para devaneios. Acho que não consegui. Mas ao fim e ao cabo, testemunhei sobre a vida da Antonieta da qual agora vocês compartilham. Contei como sei contar. Contei porque vi, porque vivi, e, parodiando Rafael Garcia Márquez, que bom que vivi para contar.

Quando terminei, a palavra foi dada ao defensor para perguntas.

Sem perguntas. Depois para promotor, acusador, ou o que fosse.

– Pelo seu relato deduz-se que o senhor tem muito apreço pela Dona Antônia. Foi amamentado pela mãe dela. Pode-se dizer mesmo que tem grande amizade. O senhor confirma isso? Esta afirmação está correta?

– Sim senhor.

– Meritíssima peço a impugnação da testemunha. Sem mais perguntas.

***

.

Não mais vi a Antonieta desde o dia da tal audiência. Saí antes de terminada a sessão. Vaguei um pouco pela rua Quatorze de Março, com gosto de cabo de guarda-chuva na boca, até encontrar o primeiro boteco.

A cachaça entrou quadrada. Só foi descer redonda lá pela terceira ou quarta dose.

Essa atitude do doutor promotor, defensor do Estado, com certeza estará coerente com a práxis jurídica. A gente até vê nos filmes – “o Estado da Califórnia, ou mesmo, o povo da Califórnia contra o fulano ou fulana de tal” –  O povo do Pará contra Irene. Antonieta. Impensável. Devem chamar a isso, dever de ofício. Mesmo não querendo, tem que fazer. Não sei. Essa não é a minha praia. Sei que o Vaticano fazia muito isso nos processos de canonização. Advogado do Diabo. Claro, que não é o caso. Ninguém quer canonizar a Antonieta, mas o cidadão promotor deve estar calejado de ouvir falso testemunho e, pelo sim pelo não, faz seu papel. Automática e  burocraticamente, dentro da lei.

Não tem nada a ver, mas não sei por que, essas atitudes me remetem a outros tempos em que se dizia “obediência devida”. Isso é apenas uma ilação tola divorciada dos atuais ventos democráticos. Mas que lembra, lembra.

Antes de ir para a audiência eu havia passado uma vista superficial na tal lei do soldado da borracha e, está lá, com todas as letras. A lei fala em soldado, seringueiro. Dois substantivos masculinos. Até porque,  soldada, seringueira, substantivos femininos, têm significados completamente diferentes.

A lei não foi feita para elas, e, sim, para eles.

É excludente, mesmo. Não é apenas um caso de gênero, semântica, exegese, hermenêutica, ou o escambau. Trata-se de provar, primeiro, que o marido, ou companheiro foi soldado da borracha, depois, que era sua dependente. Coadjuvante. É como se elas não existissem, ou fossem transparentes, brumas que a história não registrou.

***

Esta crônica de uma história inacabada, contada no Dia Internacional da Mulher, no mínimo, há que ser um testemunho que elas existiram, e no papel principal, e eu as vi, com esses olhos que a terra há de comer!

Registre-se, pois, neste dia, a homenagem deste escriba bissexto, a todas as mulheres seringueiras.

Antonieta, Maria Cunhã, Josefa Mutamba, Maria do Galo, Albertina, Bernadete, Maria de Lurdes, a Uda, também filha do Mestre Agostinho e da Mãe Maroca, a Zuza do Alfredo, filha do Dodô Capivara, a Raimunda do Didi, a Ilda do Candeia, a madrinha Benedita do Joca, a Vicência da Perna Torta, a Regina Bacabeira, as Ibiriba – dona Losinha e as duas filhas, Maria e Luzia, – que eram, elas mesmas, o Cão em figura de gente para trabalhar. E muitas outras.

Milhares de outras.

Todas Irenes.

Por mim, nenhuma delas precisaria pedir licença para entrar no Céu.

 

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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2 respostas para ANTONIETA TATIBITATI – Mulher seringueira

  1. Adelina disse:

    André querido:

    Antonieta não precisa de licança pra entrar no céu, mas precisa provar que existe pra sobreviver nesta terra. E quanto ao nosso causídico, deve ter feito concurso, mas deve ser reprovado sempre que tentar ser gente.

    Beijão

  2. Graça Garcia disse:

    Como também fui criada com leite “emprestado” fiquei comovida pelo relato. A minha Antonieta chamava-se MARGARIDA – flor mais bela do jardim de minha infância.

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