À BEIRA DO XINGU

À BEIRA DO XINGU

andré costa nunes

Havia acabado de chover naquela tarde em Altamira. Chuvinha besta de agosto pra setembro. Nesta época floresce o pau d’árco, que no Sul chamam de Ipê. Explode em copas de cores muito vivas quebrando a imensidão verde da mata. Roxo e amarelo. Mais amarelos do que roxos. É também quando as tartarugas e tracajás sobem às praias para desovar. Exatamente depois de uma chuvinha como essa, os machos, capitaris sobem à praia para, diz-que, com a ponta do rabo, curto, grosso e pontiagudo, traçar um risco delimitando o sítio seguro até onde as fêmeas podem fazer as covas e depositar os ovos. Ali seria o ponto em que as águas do inverno não atingiriam. Pelo menos até a eclosão dos ovos.

Alguns esparsos barcos, pequenos, rabudos, cheios de passageiros, alguns com guarda-chuvas, principalmente mulher barriguda ou com criança verde no colo, cruzam o rio e a tarde, em quase toda a extensão da Rua da Frente.

Vêm do Baixo, da Ilha da Fazenda, embora o movimento maior seja com a Terra dos Assurinins, na margem direita do Xingu, esses não passam por ali. Contornam a parte de cima da Ilha do Arapujá. São voadeiras velozes, e até balsas atravessando carros e gente. Caminhões e carretas de madeireiros. Automóveis. Progresso.

Nunca fiz essa travessia por ali, nem andei de balsa ou voadeira veloz, moderna com capota e poltrona. Não, por qualquer sentimento de aversão ou preconceito, mas talvez por falta de oportunidade. Aquela parte não está nas minhas lembranças, na minha história.

Debrucei-me na mureta ainda molhada do cais à espera do resto da turma. O primeiro a chegar foi o Dimas do Seu Carlos Soares. Logo depois, juntos, vieram o Élio do Miguez, o Sabá do Janga, o Eduardo Besouro e o Zé do Mané Paulo. Sobrenome por lá era desse jeito. Identificava o cabra e a cepa.

Não foi o encontro efusivo da turma de moleques de sempre. Dizíamos que nunca iríamos envelhecer. Até ensaiamos descer lépidos a escada escorregadia, íngreme e estreita colada ao paredão que ia dar na praia ainda larga da seca de verão. Não deu. Era preciso ter cuidado. Os moleques estavam grisalhos. Avós.

– E aí, Deca? – Instigou o Eduardo, quebrando o silêncio.

Deca era eu, seguindo a regra, Deca do Anfrísio. Fiz cara de paisagem, como se tivesse concatenando as idéias. O próprio Eduardo veio em meu socorro.

– Vou encaminhar a discussão e vocês corrijam ou acrescentem o que for relevante.

– “Encaminhar a discussão”  é coisa de comuna ou petista, ainda tentou brincar o Sabá do Janga. Ninguém riu. O Eduardo fez que não ouviu e continuou.

– Sempre sonhamos com o progresso de Altamira. Achamos que a nossa era a geração da transformação. Vocês vibraram, eu, não, quando a ditadura chegou com a Transamazônica. Projeto pronto e acabado. Desenvolvimento. Não fomos ouvidos nem cheirados, mas tudo bem, iríamos sair do isolamento, do marasmo, da pobreza.

Passaram de cambulhada por cima de nós, do povo de Altamira. As máquinas foram recebidas com aplausos e fanfarra. Junto com elas veio a escória republicana da dissolução dos costumes. Gente, muita gente. “Gente sem terra para uma terra sem gente”. “Ocupar para não entregar”. E outras baboseiras em que muitos de nós embarcaram desde a primeira hora. Os novos donos, a ensinar o que sabíamos, tinham nomes, caras e funções definidas. Autoridades. A nova confraria. Empreiteiras, madeireiros, grileiros, pistoleiros, corruptos e corruptores. Gente experiente em comprar gente. Gente disposta a se vender. Como se disse, autoridades.

O resultado foi a desconstrução. O latifúndio, os grileiros, os madeireiros, os corruptos, os corruptores, o desmatamento. Tudo isso escoltado e coonestado por prefeitos, deputados, senadores, governadores, juízes, cartorários et caterva. E a Sudam. Ah! A Sudam. Essa merece ser contada em um capítulo a parte. E se contará. Um monumento à rapinagem e à impunidade. E a dissolução dos costumes ganhou. A mata perdeu. A Amazônia perdeu. Perdemos nós.

Por fim, mas não menos importante,  esse processo sombrio, trouxe uma semente de amanhã. Os colonos. Desassistidos e desvalidos. Os que resistiram à volúpia da grilagem latifundiária e conseguiram ficar e amanhar a terra. Foi muito difícil, mas o trabalho honesto está vencendo e, não pela pata do boi, do correntão ou da moto-serra. A região se prepara para ser o maior produtor de cacau orgânico do Brasil. A engrenagem desta economia primária criou uma nova geração de agricultores, estudantes, professores, doutores, empresários. Do bem, do bom, do belo. A decisão de pais renitentes que conseguiram ficar no trabalho duro, as caminhadas de léguas em busca das primeiras letras, deu frutos.

Mas ainda não o poder.

Este pertence às estruturas carcomidas de um sistema que acreditávamos agonizante. Por si e por seus beleguins. A hora era de reconstruir: mais dia, menos dia, essa nova geração haveria de assumir as rédeas do próprio destino. Vitória, Brasil Novo, Uruará, Souzel, Altamira, São Félix, enfim, o Vale do Xingu.

De repente, não mais que de repente, BELO MONTE. A grande hidrelétrica a estrangular o Rio e sujigar as gentes.

Houve um tempo, logo que anunciaram o projeto, em que chegamos a nos ufanar. Orgulho besta de colonizado. Quando a ficha caiu, Inez era morta.

  Mais uma vez o Xingu e mais uma geração serão sacrificados em holocausto ao desenvolvimento, diz-que, do Brasil. Eu disse diz-que. E nem se deram ao trabalho de nos convencer. Ficou o entendimento de que o interesse maior era das empreiteiras e de suas tenebrosas circunstâncias. Da outra vez era a ditadura. Agora, em pleno Estado Democrático de Direto. Vai começar tudo outra vez.

E chegará o dia em que, o capitari buscará, com seu rabo grosso e pontiagudo aquela praia, a mesma praia que, por 10, 30, 100 anos indicou o caminho para que as suas crias fossem depositadas e gestadas e não mais a encontrará, inundada que está pela grande barragem.

Agora, cadê praia? cadê ovos? cadê vida?

Não houve discussão. Ninguém contestou, ou sequer acrescentou palavra, apenas, o Élio, quando se levantou, balbuciou para si mesmo: – É isso aí.

Os seis, agora bem mais velhos, subiram devagar a escada do cais. Silentes, com um gosto amargo na boca e um sorriso amarelo, despediram-se apenas com um aceno.

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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11 respostas para À BEIRA DO XINGU

  1. Odineia de Sousa Borges disse:

    André, moro em Altamira e sou apaixonada por tudo que vc escreve. Estou fazendo o meu tcc na área de memória e identidade e pretendo usar teus textos como referência. Um grande abraço. Odineia Borges

  2. O desembargador Souza Prudente vetou, ainda ontem, a construção de Belo Monte, prezado André. É uma arrojada brecada. Acompanhemos o curso do papel jurídico, embora o fluxo do nosso Xingu tenha tenha sido violentamente alterado.

    Soube pelo Lafa de que está adoentado, conterrâneo. O que que é isso? Levante, Homem. Saia da cama; venha embarcar na nossa canoa. Venha, logo, venha, venha. Em outubro, quando eu passar por Belém, esticarei as pernas em direção ao seu Terra do Meio. Topa conversar comigo?

    Receba o meu abraço e o desejo de saúde para o corpo, porque a mente está tinindo, com certeza.

  3. Francisco Sidou disse:

    Caro André,
    Brilhante o teu artigo à Beira do Xingu. Me diga, quando sai a edição revista e ampliada do Riozinho, certamente com um apêndice dedicado à Cachoeira de opróbios de Belo Monte? A imagem do capitari demarcando terreno para a desova das fêmeas é poética. Merece um documentário antes da destruição da vida naquelas paradisíascas paragens. Um abraço do Francisco Sidou

    • André Costa Nunes disse:

      Caro Francisco, aliás, Francisco Sidou, afinal, não és um Chico qualquer. Tua “rodagem” e coerência ao longo de todo este tempo em que nos conhecemos, merece, pelo menos, um apreço especial. Precisamos urgentemente marcar um papo para passar a limpo os causos acumulados.
      Quanto aos livros, devo lançar ou cometer dois deles até o fim do ano e, mais dois em finalização.
      Obrigado e um abraço,
      andré

  4. Jader Gardeline disse:

    Meu nobre amigo, pobre País que nao encherga um palmo a frente… O amanhã! Nunca fui contra o desenvolvimento, a necessidade de energia para o desenvolvimento! mas a esse preço?

  5. valdemiro a. m. gomes disse:

    André nasceu livre e na próxima passagem terá seu riozinho “com uma banda correndo pra cima e outra correndo pra baixo”. Afinal “ninguém nasce mau, … até assurinim, tudo nasce igual” e mais digo, tudo vira pó. Gostaria de ver teu livro “A batalha do riozinho do Anfrisio” em um filme. Aqui fica a semente para outros regarem. Parabéns, Paz e saúde. Valdemiro
    em tempo: continua válido a proposta de um fim de tarde para um concerto de piano e/ou violinos, na terra do meio.

    • André Costa Nunes disse:

      Caríssimo Valdemiro,
      Não sei como, morando na mesma cidade, no mesmo bairro, amigo dos mesmos amigos, custei tanto a te encontrar.
      Se ficar a escrever mais a teu respeito, corre o risco da bajulação vulgar, o que não combina com este velho comuna, caboco do Xingu. Mesmo assim, eu que não creio, agradeço aos céus por existir gente como tu.
      Precisamos urgentemente nos encontrar, da maneira mais informal e casual possível, de preferência acerca de uma Periquita (garrafa) para atualizarmos os causos acumulados. Dispenso o havana, mas levarei minha tabacurana.
      Troncho de saudades,
      Um abraço do tamanho do Xingu,
      andre

      • valdemiro a. m. gomes disse:

        Caro André
        Só agora, de Lisboa, fui despertado pela tua resposta. Agenda dia 23 próximo. Periquita X genipapo. Um abraço do tamanho do Atlântico. Valdemiro

  6. Maximiana Helia Charone Loureiro de lencastre disse:

    Eu grito, se preciso for, subo e desço a escada com bandeiras nas mãos. Conheço bem essa realidade. Ainda estou viva e alguns dos nossos amigos, do lugar onde estão, sentem a angustia (será que no Céu, existe angústia?) de ver novamente a terra que os viu nascer e morrer, dividida ao bel prazer da Democrácia… é democrácia mesmo. Ainda não sabemos o verdadeiro sentido da Democracia. Mas a verdade é que neste País democrático de Direito, não temos o Direito Democrático de Reclamar. Reclamar pelos nossos rios, pelas nossas praias, pelos nossos castanhais, pelo nosso cacau, pelos animais que habitam nossa abençoada terra ROXA, E por nós mesmos que vamos ficar órfãos de um pedaço do rincão que nos viu nascer.
    Maximiana (Maxi)

  7. Graça disse:

    E nós uma vez mais embarcando nesse rio de mentiras e corrupção que desagua na Cachoeira de Nissa Esperança!!!

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