A MENINA CARIOCA E O PATO DO SÍTIO

A menina carioca e o pato do sítio

andré costa nunes

Estava eu posto em sossego… Assim se começava a contar um causo antigamente. Causo escrito, formal, porque causo contado mesmo, daqueles que se contam no terreiro, à sombra da mangueira, ou de tardinha na beira do rio começa diferente:

 Eu tava quieto no meu canto… Tudo isso é modo de falar, sestro. Até eu, caboco assumido, uso bastante, mas quem me conhece sabe que, mesmo preto velho (preto velho é ótimo, se fosse com maiúscula seria melhor ainda), aliás, mulato, não consigo ficar sossegado, muito menos quieto. Principalmente depois que aos setenta, resolvi abrir o Restaurante Rural Terra do Meio.

 Pois bem, vamos ao causo, que muita conversa acaba o saco de farinha.

Faz algum tempo, eu estava quieto no meu canto no sítio, no Uriboca, na beira do rio, onde moro, tabaqueando um sucedido qualquer com meu amigo Maraca, quando o sossego foi quebrado por um táxi velho aqui de Marituba. Já chegou fazendo barulho e se peidando todo. Acho que só táxi do interior para caber tanta gente. Quatro adultos e uns cinco meninos. O mais velho devia ter uns nove anos.

Era o meu filho Pedro com os filhos, trazendo minha sobrinha que mora Rio de Janeiro, e sua prole.

Alegria geral. A meninada solta na buraqueira e a mãe, carioca, a tentar por um pouco de ordem na debandada.

– Meninos, sosseguem, vão primeiro dar um beijo no tivô. Tivô em carioquês e um acrônimo de tio com avô. Frescura. Por aqui tio é tio e primo é primo.

Já os filhos do Pedro, cabocos de Marituba e de Apicum Açu, no Maranhão, vieram pedir a benção.

 Amelinha, a tal sobrinha carioca, às voltas com a Maria Cláudia, que havia perdido o sapato e pisava no terreiro com os pezinhos tronchos como papagaio na areia quente.

– Tio, ela nunca andou descalça. Nunca pisou na grama.

Notei que ela estava mesmo preocupada. Fez menção de sair para achar a tal sandália perdida, quando resolvi intervir como antigamente. Politicamente incorreto como é meu feitio. Já se disse que não sou tio de novela.

 – Para, porra! Deixa a menina se soltar. Vá minha filha, o pé logo se acostuma e pra criança, aqui, tudo é permitido.

 Olhei sério para a Amelinha e ela, sobrinha de antigamente, não contestou. Por um tempo fiquei matutando. Quatro para cinco anos e nunca pisara na grama…

 E o papo continuou. Era muito assunto. Minha irmã, a Sophia (assim mesmo, com ph), estava morando com ela e estavam de mudança para Brasília, essas coisas.

Quando demos fé, a Maria Cláudia já estava íntima do terreiro, correndo e se esbaldando. O fute. Achou uma ninhada de patos. Corria atrás dos patinhos e da pata mãe, na maior intimidade.

 Quando passou por perto de onde estávamos, parou esbaforida, afogueada, pegou minha mão, beijou e disse:

 – Obrigada tivô, eu nunca tinha visto um pato pessoalmente.

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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2 respostas para A MENINA CARIOCA E O PATO DO SÍTIO

  1. joana disse:

    eita tiozão danado, se eu estou emocionada imagine a amelinha heimmm, meu titio
    cada um molda sua vida da melhor maneira uns ficam afastados pelas circunstancia do dia dia outros mais proximos mas o que quero lhe dizer é que todos amamos e somos agraciados pelo senhor ser nosso tio amigo pai pera la e didinho tb bjs.

  2. Amelia disse:

    puxa, tio, precisava me emocionar assim? Já estou sensível, carente, aí leio teu texto e me transbordo de amor e por amor… e me sinto grande. Obrigada por eternizar a mim, mamãe e Maria Cláudia em um texto teu. Foi realmente um grande prazer e uma grande honra.
    Te amo… te amamos. Obrigada.

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