DOIS MÉDICOS CUBANOS

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DOIS MÉDICOS CUBANOS

Uma crônica oportuna

André Costa Nunes

*Conto, à clef, como me lembro, ou me contaram.

Era coisa de umas cinco horas da tarde. O mês, fevereiro. O sol já se havia quebrado por detrás de Altamira em busca de agasalho para passar a noite. Era a hora em que a turma começava a descer para a beira do rio. Banho, papo e cana. O Xingu estava mais cheio do que de costume para aquela época do ano. Cedo iria tufar o igarapé e desalojar o Seu Otávio Neri, dono da última casa da Rua da Frente. Era ali a parada obrigatória para o primeiro gole no armazém.

Como ainda era ainda cedo, estávamos somente eu, o Pedro da Natalina, o Augusto Mário e o Zé do Mané Paulo. O Zé trouxe a cana, duas ou três garrafas. Cachaça Bem-te-vi engarrafada em Muaná pelo pai do meu amigo Floriano Barbosa. O armazém do Seu Otávio Neri era estratégico, pois como se disse, ficava quase na desembocadura do Igarapé Altamira com o Xinguzão. E tinha porto de lavar roupa nas águas grandes. Mas havia outras vantagens o tal ponto de encontro. Não entrávamos na casa. Ficávamos só no armazém amesendados em cima das caixas de óleo Solarina ou mesmo dos sacos de farinha. Abríamos a garrafa empurrando a rolha para dentro. Aí, para gaiatice do Zé, aparecia o colírio. As filhas do Seu Otávio. Sem que fossem pedidos, já vinham rindo com os copos. A Mocinha, ainda muito nova, mas já um pedaço de mulher, ria com os olhos. Para nós outros, mais velhos, apenas fedelhas.

Ali, em meio a mercadoria que ia abastecer o Seringal, esvaziávamos a primeira garrafa tirando gosto com lascas de jabá crua.

Foi nesse momento que o Pedro da Natalina deu com olhos em uma pilha de sacos de açúcar. De tão melados chegavam a pingar. Naqueles tempos, açúcar enxutinho, branco, desses da Capital era muito raro. Tinha-se que imediatamente tirá-los das sacas e botar nas latas. Latas com tampas de pressão. Aquelas umas em que iam as bolachas de soda da Palmeira. E o Pedro olhando e matutando para um enxame de abelhas que cobria o saco de cima. Prestava a atenção em todas e em cada uma. Pouco demoravam pousadas naquela mina doce e já voavam de volta à colmeia. Não sei porque paramos o conversê e pusemo-nos também a olhar as abelhas, quando o Pedro da Natalina saiu-se com essa:

– Mas assim, até eu faço mel.

***

– André, por onde andas? Estou te procurando há três dias. Chegou a hora. Preciso de tua ajuda.

– Conta comigo, cara, quando?

– Hoje, agora, vem almoçar aqui em casa.

– Mas são sete da matina… tentei ponderar.

– Sei, mas preciso falar contigo antes do almoço, aliás, antes mesmo que eles acordem.

– Eles quem, cara?

– Os médicos cubanos e não me pergunta mais nada, por favor, dá um jeito e vem.

Esse, “por favor” já estava demorando. O meu amigo Newton Bellesi faz o gênero correto, afável, gentil e educado. Não era preciso. Ele sabia que eu ia. Devia-lhe a finesa do tratamento de uma doença braba e extremamente dolorosa. Herpes zoster. O que em Altamira chamamos de cobreiro.

Essa história começara havia pelo menos dois meses. Eu já morava no Uriboca, em Marituba, mas nem sonhava com abrir restaurante. Era apenas a minha casa. Um sítio grande, com igarapé e quase totalmente coberto de floresta. E para que não houvesse dúvida havia uma placa com o criativo nome de Sítio do André. Esse negócio de Terra do Meio muito surgiu depois. Eu estava na maloca da beira do rio lendo algum livro desimportante, quando ele chegou com um sorriso nos lábios e uma garrafa de uísque na mão. Não posso dizer que foi de surpresa, pois ele sempre aparecia, desde o tempo em que eu morava na Duque. Abancou-se, pediu copo e gelo e tira-gosto. Não me lembro mais, acho que era queijo com azeite e pimenta do reino. E pão.

O Bellesi não é do tipo expansivo que vai logo ao assunto. Acho que carece de, por pura elegância, concertar um preâmbulo, começando por outro assunto que não o que viera tratar. A velha conversa de “cerca Lourenço”. Lá pras tantas, quando ele havia bebido duas ou três doses, e eu a metade da garrafa, começou a contar que havia chegado de férias. Fora, conforme disse, com dois ou três casais de amigos, fazer, um périplo pelo Caribe. Quando ele falou périplo, eu pensei, aí vem coisa.

Périplo não é palavra para ser gasta em beira de igarapé!

– Pois é, André, como eu estava dizendo, depois de curtir uma meia dúzia de ilhas paradisíacas, chegamos a um resort na Jamaica. Seriam mais dez dias de “dolce far-niente”. Aí bateu o tédio. Foi quando alguém do nosso grupo chegou com uma novidade que soubera no lobby do hotel. Havia uma promoção para uma semana em Cuba por preço de banana. Uma hora de voo.

– Para resumir, entramos em Cuba pela porta dos fundos. Uma merda. Para começar o avião da Cubana de Aviación era parecido com aqueles turboélices Fockers da Paraense, que a gente batizou de Hirondelle. A estação de passageiros, idem, pior do que a nossa. Em volta da pista só plantação. Acho que era arroz. Chegamos a Havana no meio da tarde. No primeiro dia, descanso e uma espécie de luau lá mesmo na beira da piscina do hotel. No outro dia cedo, aquele ritual chato de passeios programados. Havia uma espécie de gerente que organizava os grupos e roteiros. No segundo dia abordei o tal gerente. Apresentei-me como médico, elogiei, sem convicção, o avanço da medicina cubana e perguntei-lhe se havia a possibilidade da visita a um hospital de referência, mesmo que fosse por instantes.

E, continuou: -Cara, isso fez toda a diferença. Praticamente acampei no hospital. Ao fim da estada programada do pacote abandonei o grupo. Eles voltaram e eu fiquei. Cada detalhe, cada procedimento, eram únicos e a simpatia do pessoal me cativou desde a primeira hora. Abriram todas as portas para mim, sem reservas ou vaidades. Foi quando descobri, dentre outros avanços, um aparelho administrado, para sorte minha, naquele mesmo hospital. Foi amor à primeira vista. Chama-se SUMA – Sistema Ultra Micro-Analítico de Diagnose.

-Desenvolvido por um tal Centro de Ingenieria Genetica y Biotecnologia e operado pelo Centro de Inmunoensayo, acho que de lá mesmo do hospital. É todo computadorizado, compacto, que com uma gota de sangue é capaz de fazer um mundo de exames. Além desses de rotina e outros tantos mais, prevê com antecedência mínima de dez anos a predisposição do paciente a vários tipos de doenças, até de câncer. Inclusive o de mama. Fora um mundo de outras aplicações. Já viste que eu tinha que trazer esse aparelho para o Brasil.

– Quando, entusiasmado, falei das minhas pretensões, a negativa foi peremptória, o que já era de se esperar. Os colegas, embora solícitos, tinham todos os argumentos do mundo. Aduana, de lá e de cá, as certificações de normas técnicas, principalmente quanto a um equipamento de tecnologia completamente desconhecida no Brasil, o fato de em toda Cuba só haver trinta e seis desses aparelhos etc. ainda havia o perigo maior da pirataria.

Pegou fôlego com um gole do escocês e continuou: – Sabes que não desisto facilmente. Conseguiram-me uma reunião com o tal diretor. O gabinete dele era formado por uma antessala e o escritório propriamente dito. Uma desordem total. Nos dois cômodos. Na antessala havia umas dez pessoas discutindo sobre recursos para alguma coisa. Não entendi bulhufas. Parece que procuravam um consenso para falar com o mandachuva. Depois soube que nenhum era médico. Eram todos engenheiros, físicos, bioquímicos e outras maluquices. Ninguém protestou quando lhes passamos a frente. “El diretor General”, Dr. Manoel Limonta, uma figura simpática, sorridente, lá pelos cinquenta anos de idade, pediu desculpa pela desarrumação, recolheu uns livros e plantas das cadeiras para que nos pudéssemos sentar.

– Demora um pouco aí, -interrompi o Bellesi. – Esse Limonta, não me é estranho, deve ser descendente de um Albertinho Limonta da radionovela “O direito de Nascer”, lá mesmo de Cuba, brinquei só para quebrar a solenidade do relato.

– Tá, não sei do que estás falando, mas deixa-me continuar. Ele já sabia qual era o assunto. O seu semblante era de absoluta incredulidade.

– Então você é o Dr. Newton Bellesi da CLIMEP, no Brasil, a sua clínica é muito conceituada, é um prazer recebê-lo aqui, e uma honra saber do seu interesse por nossas pesquisas e avanços tecnológicos.

– Sabe André, de início espantei-me com seu conhecimento sobre a minha clínica aqui em Belém, mas de pronto lembrei-me da imensidão de formulários que tive que preencher aquando da minha admissão no hospital.

– Pois é, Professor, agradeço pelas palavras generosas a respeito da nossa atividade na Amazônia, mas apenas fazemos o máximo que podemos, dentro, é claro, das nossas limitações. É inegável o conceito mundial dos senhores no desenvolvimento de vacinas e imunologia. E, exatamente vacina e imunologia, são a minha paixão. De certa maneira a razão de eu estar aqui.

– Obrigado Doutor, mas somos colegas, e dispensamos o termo “senhores”, por todos os motivos do mundo. Trate-me por você, camarada, companheiro ou, apenas colega.

– Disse isso rindo de maneira bonachona. Levantou-se, pegou de um armário uma garrafa de rum e quatro copos que trouxe em uma só mão, enfiando, sem cerimônia, os dedos para segurá-los. Não me perguntou se queria e, depois de servir abriu uma caixa de charutos enormes e, aí, sim perguntou se eu fumava. Recusei o charuto, fedorento, mas bebi o rum. Todos fumaram. O que amenizou o ambiente foi que as seis janelas da sala estavam escancaradas. Ainda hoje acho que essa atitude é para chocar o visitante.

– Cara, encurta esse papo, porque o uísque esta acabando e estou cuíra para saber o desfecho. Trouxeste ou não trouxeste a porra do aparelho? Perguntei.

– Claro que não trouxe. Antes mesmo da entrevista ele sabia tudo sobre mim e as minhas intensões, até porque, desde o início, não escondi de ninguém. Mas usei de toda a minha capacidade de argumentação e, especialmente naquele dia estava inspirado. Fui quase melodramático.

– E?

– E nada, mas acho que conquistei sua simpatia e consegui pelo menos a promessa de que iria estudar o assunto.

– É, vamos torcer.

– Quando puderes, passa lá pela clínica para traçarmos uma estratégia de cartas, telex, presente, o que for e, de mais a mais, deves ter também teus contatos, no Brasil e quem sabe, até na Ilha.

Essa última parte falou rindo, para fazer blague. Ou, não. Se o foi, não colou. Não os tinha. Nem aqui, nem lá.

***

Cheguei à casa do Bellesi antes das oito. Era relativamente perto de casa. Menos de dez quilômetros. Um conjunto habitacional bucólico, estilo colonial americano, gramado, alamedas arborizadas, sem muros, de chalés de madeira, portas e janelas teladas, simples, mas bonitinhos. Havia sido, de fato, de uma missão evangélica americana. Instituto Linguístico ou coisa parecida. Uma área enorme até com campo de aviação. Nunca soube bem para que servia. Ele, antes mesmo de eu bater, veio me receber à porta e já me convidando para a mesa do café. Os homens já haviam acordado e lá já estavam.

Depois das apresentações e dos salamaleques de praxe, um dedo de prosa e lá fomos para o escritório da CLIMEP. O assunto era o tal SUMA. Não sei ou me lembro como se desenrolou a negociação, até porque, logo senti, que eu, leigo, estava sobrando.

O que restou do causo, pelo menos do meu lado, foram dias de muito papo com dois cubanos extremamente simpáticos, o médico René e o engenheiro de medicina (não sei o que é isso) Félix. Conversamos sobre o Brasil e Cuba, papo regado a, pelo menos, cinco grades de Cerpinha por dia e, para desespero do Bellesi, fumando enormes e deliciosos charutos, cubanos, naturalmente.

Em meio a um mundo de perguntas e respostas e divagações ideológicas, a estas alturas já nos tratando por camaradas, meu interesse, em um dado momento, foi a questão do avanço da medicina e, principalmente de como essa conquista se transformou em saúde pública, com índices impressionantes, internacionalmente reconhecidos. E, de mais a mais, Cuba é um país pobre e essas coisas são onerosas, e não se resolvem da noite para o dia. É preciso pelo menos uma geração para se conscientizar o povo e montar a infraestrutura básica para que aconteça. O caso do índice de mortalidade infantil é emblemático. Quando toquei neste assunto, o semblante do René se modificou. Do bonachão campeão da Cerpinha e do charuto, de repente ficou sério. Não sisudo, mas sério, sóbrio, até meio sonhador.

– Nada é fácil em educação e saúde pública. É preciso mobilizar o povo e comprometimento e determinação dos governantes. Não movimentos, campanhas sazonais, pontuais, mas política de Estado. Comprometimento e determinação revolucionária. Senti de perto alguns exemplos. Quando me formei fui fazer especialização na França e na Tcheco-Eslováquia. Quando voltei, a mobilização, que começara muito antes, estava no auge. Especialmente no tocante à saúde preventiva e mortalidade infantil. Fui designado para um hospital do interior, na “Sierra”, eu bem que queria ficar próximo à praia, mas não deu. Acabei me acostumando e casando lá mesmo com uma nativa.

– Pois bem, na frente de todo hospital do país havia uma enorme placa de cento e cinquenta metros quadrados, onde se registravam, em letras e números enormes há quantos dias não morria uma criança ali. No meu hospital não foi diferente. As populações das vilas vizinhas visitavam orgulhos, mais à placa do que o hospital. Um belo dia, era inexorável que um dia “teria” que acontecer, morreu uma criança! O colega plantonista, intensivista neonatal chegara atrasado sem uma justificativa plausível. Se ele estivesse lá, provavelmente a criança, mesmo assim teria morrido. Não houve falta de assistência, pois o corpo de enfermagem era muito competente e de mais a mais, havia outros médicos.

– Foi uma comoção na região. Houve até romaria para assistir ao apagamento da placa e aposição do número zero. Teve quem chorasse. Quanto ao colega, embora achássemos que ele deu azar, o regulamento dizia que fora negligente. Voltaria a ser médico, do mesmo hospital, depois de dois anos cortando cana. Já passado o primeiro choque, a vida tinha que voltar à rotina. No dia seguinte, acordei cedo e cheguei ao hospital perto das seis da manhã, já estava chegando à portaria quando ouvi um barulho. Virei-me e vi, no imenso gramado que havia na frente, pousar um helicóptero militar. Dele, o primeiro a saltar foi “El Comandante”!

– Quem, Fidel? Perguntei.

– Ele mesmo. Viera pessoalmente inteirar-se do ocorrido.

O médico cubano com um silêncio ensurdecedor interrompeu o relato.

Ninguém falou, comentou, ou mesmo mudou de assunto.

Naquele momento lembrei-me do Pedro da Natalina no armazém do seu Otávio Neri:

– Mas assim, até eu faço mel…

P.S. Ah! O SUMA não veio.

Sobre André Costa Nunes

Glandeador cansado de 70 anos, mas "peleando barbaridade, con espadin muy corto, pero de frente para el enimigo". * Idade: 69 * Sexo: Masculino * Atividade: Ambiente * Profissão: ESCRITOR E SITIANTE * Local: Marituba : Pará : Bósnia-Herzegovina
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Uma resposta para DOIS MÉDICOS CUBANOS

  1. Pedro Nelito disse:

    Ei André!
    Põe esse negócio para funcionar.
    Estou de volta à blogosfera.
    Saudações socialistas,
    Pedro

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