A GRAVATA E O CABANO

A GRAVATA E O CABANO

andre costa nunes


Juro que não tenho nada contra a gravata. Teria menos ainda se morasse em Londres ou Curitiba. Mas convenhamos, em Belém, Manaus, Macapá, Teresina, Santarém é dose pra leão. Mesmo assim é tolerável, justo, elegante, apenas como moda ou modismo.

Cada um tem o direito de se vestir como quiser. Sári, kilt, tanga, penacho, xador, burca, bermuda e, porque, não, paletó e gravata. Alguns há que não dispensam o colete. Gosto não se discute. A liberdade é doce.

Como se disse, as pessoas são livres para se vestir como quiserem, como são os costumes, ou, ao arrepio desses mesmos costumes, enfim, como se sentirem bem. Por isso, usa gravata quem quer, como quer e onde quer.

Mas não é assim. O uso da gravata em muitos lugares públicos é pernosticamente obrigatório.

Em recepções particulares é aceitável. Se a casa é minha eu dito as regras. O Baile do Pierrô da saudosa Eneida de Moraes, no Clube do Remo é emblemático. Só se entrava vestido de pierrô, colombina ou arlequim. Ou traje a rigor. Carnaval.

É desnecessário enumerar as repartições “ditas públicas” nas quais só se é atendido se estiver de paletó e gravata. Isto, a meu ver, significa que não são tão públicas assim.

Até bem pouco tempo, qualquer funcionário público só podia trabalhar de paletó e gravata.

Loja, banco, revenda de carro, imobiliária, escritório metido a besta, também.

Eram folclóricos os paletós dos investigadores de polícia de antigamente. Mal pagos, trabalhando na rua, com paletós que o defunto era maior e qualquer camisa e gravata velhas. Marca registrada. Uniforme. De longe já se sabia quem era.

Gravata vem de croata. Mercenários que usavam lenço no pescoço para que no inverno, o frio não passasse para o peito e, no verão, para enxugar o suor do rosto.

Essa explicação, não tem a menor importância. Entrou no texto como Pilatos no credo.

Já sabemos que essa prática, que cheira a macaquice de imitação, é mero resquício colonial. É particularmente perversa no norte do Brasil, assim, como se disse, de maneira obrigatória.

Ao fim e ao cabo, o paletó e a gravata, pelo menos por essas bandas dos trópicos, no nosso caso específico, Zona Equatorial, Tórrida e Úmida, não pode ter justificativa racional.

Já se falou de elegância, moda etc. que nem sempre precisam ter racionalidade.

Pois bem, o paletó e a gravata são, por aqui, apenas aparatos não republicanos de exclusão social e, praticados sem esta intenção explícita. E com aceitação passiva e pacífica por todas as gentes, afinal, sempre estará ao alcance de todos, o que dá um falso sentimento de hábito democrático.

Mas vale a pena insistir, perverso é quando é obrigatório, para diferenciar um cidadão de outro. Aí é evidente a intenção de separação de condição social, econômica, de casta e, até mesmo étnica. Onde já se viu cabano de terno e gravata?

Se servidor público, em qualquer dos três poderes, a gravata faz parte de uma tal pompa e circunstância que o cargo requer. E isso, convenhamos, é de um saudosismo monárquico e feudal ridículo. Acontece no executivo e no legislativo com freqüência. No judiciário, sempre. Mera imposição de castas.

Em todo o mundo, não sou especialista no assunto, mas apenas observador, os trajes obedecem aos costumes, e esses, ao meio. Assim é com os beduínos, nas areias escaldantes do deserto, com os esquimós, com os africanos, com os asiáticos, com os europeus na Europa, e com os americanos no Norte.

Na Flórida, no verão, vi carteiros, atendentes e até policiais usando bermuda e tênis, enquanto, para não ir longe, em uma repartição policial, de atendimento ao público, aqui mesmo em Belém, na Magalhães Barata, uma placa determina que trajes usar para ser atendido. É expressamente proibido entrar de bermuda.

Em qualquer secretaria da Prefeitura de Marituba, também.

É permitido entrar sem gravata na Câmara Federal. No Senado, não.

Índios e estrangeiros são tolerados. Cabanos, não.

Até há bem pouco tempo, o estudante só podia freqüentar as aulas na faculdade de direito da Ufpa trajando paletó e gravata.

Dizem que o Dr. Helio Castro, uma das figuras mais espetaculares e folclóricas de Belém, de quem eu tenho a honra de dizer que fui amigo, quando acadêmico de direito, resolveu contestar tal determinação dos vetustos catedráticos. Não conseguiu. Teria recorrido aos tribunais, até o STF. Perdeu. Teria concluído o curso trajando fraque e cartola. E bengala. Essa história, assim como muitas outras, careço da confirmação do Ronaldo Passarinho. Mas assim se contam e eu reproduzo. Eu disse, diz-que.

Houve em vários tempos e lugares tentativas de mudar esses hábitos servis.

Li há muito tempo um artigo do Mahatma Gandi pedindo que os indianos não usassem paletó e gravata, até para dar serviço às costureiras locais e, principalmente, frisava, esse era o traje do opressor, que não devia ser homenageado.

Pelo mesmo motivo as autoridades iranianas não usam gravata. Nem na ONU.

A China, por razões talvez outras, como economia de escala, para vestir mais de um bilhão de chineses universalizou o traje Mao. Um slack de tecido grosso, durável, de manga comprida, quatro bolsos e sem gola. Quase militar.

Por aqui, o Presidente Jânio quadros, em raro momento de sobriedade, instituiu o pijânio que em qualquer evento ou circunstância substituiria o paletó. Tratava-se de uma camisa ou bata, de tecido fino, quatro bolsos e manga curta. Ficava entre o safári e uma camisa de pijama.

Juntamente com o idealizador a moda foi apeada do poder. No meu entender, infelizmente. Não a queda do presidente, mas do pijânio, que até que era uma boa idéia.

***

O traje tradicional do cabano é o calção de lona, lisa ou listrada, com perna abaixo do joelho e amarrada no cós com barbante, cadarço ou embira. Na labuta diária, torso nu. Sem bloqueador solar ou câncer de pele. Acho que tem a ver com aquela cor de coca-cola. No mais, calça de brim, Jeans, camisa de meia.

Manga comprida é traje de ver deus. Missa, culto ou festa do santo padroeiro. Coisa de tradição ditada pelo meio.

Exatamente como os outros povos.

Chamar o cabano de pária seria exagero, mas que ele se considera inferior àquela casta da gravata, com certeza. E o que é pior, os engravatados também pensam assim.

***

Conta-se que o comandante de uma esquadra inglesa a caminho das Ilhas Folklands, almirante não sei o que, diz-que, até que era “sir”, resolveu, em uma fragata fazer uma visita oficial a Belém.

Foi um alvoroço. Até o embaixador de sua majestade teria vindo de Brasília. Esvaziou-se o cais do porto do armazém um ao cinco. Teve navio cargueiro que ficou ao largo, bem longe da tal fragata. Zona de exclusão.

O governador de então, formalista e empavonado, tratou pessoalmente dos preparativos. Era preciso demonstrar que aqui nestes cafundós também tinha uma aristocracia a altura de receber um autêntico lorde inglês.

O tal almirante, dispensando os práticos da barra, entrou pelo delta do Amazonas em noite escura e, com a perfeição de um Vasco Moscoso do Aragão, de Jorge Amado, atracou com maestria no espaço que lhe foi reservado. Britanicamente na hora que marcara para a Capitania do Portos. Sete horas e quarenta e sete minutos da manhã.

Dispensaram-se, é obvio, as formalidades aduaneiras e subiu a bordo, para as boas vindas de praxe, o comandante da IV Distrito Naval e meia dúzia de oficiais superiores.

Às quinze horas deste mesmo dia haveria o grande evento. O nobre almirante iria receber, para um coquetel, as autoridades civis e a imprensa. Não se sabe porque, o arcebispo ficou de fora. Também inexplicável foi a ausência de mulheres, à exceção da mulher do governador. Talvez, com o cargo de primeira dama, fosse considerada autoridade civil.

A Casa Civil do Governo marcou o encontro para as quatorze horas na praça da escadinha do cais do porto.

O convite com o indefectível RSVP exigia passeio completo e escuro, isto é, paletó e gravata.

Isso no calor de Belém, que os locutores esportivos apelidam de canícula. Às duas da tarde!

Eram aproximadamente trinta convidados, até porque, a tal imprensa, resumia-se a um representante de cada jornal e TV.

Três jornais e duas estações de televisão. Emissoras de rádio, não foram convidadas.

Eis que chega, atrasado como sempre, um jornalista, irreverente e desafeto do governador, trajando um safári de gabardine cáqui claro, manga curta.

Viviam-se tempos de ditadura e o Governador fazia parte da nomenklatura como, aliás, todo o estafe de governo. A censura era braba e o jovem jornalista teria aprontado essa de caso pensado.

Até por chegar atrasado chamou a atenção de todos. Imediatamente o Chefe da Casa Civil, de cara amarrada, partiu ao encontro daquela figura bizarra.

Armou-se um princípio de confusão, quando providencialmente o chefe do cerimonial, nervoso, convidou a todos para embarcar na belonave. Depois do governador, é claro.

Quando sua excelência assomou o portaló de honra, fez-se silêncio, e se ouviu um solo de apito fino e trinado, que deve ser a corneta de bordo. O toque certamente tem algum significado de saudação que nenhum dos presentes soube identificar. Inclusive o oficial PM da Casa Militar.

O último a subir a bordo, pela escadinha estreita que deixava passar um por vez, foi o tal jornalista sem gravata. Quando ele entrou desfez-se a guarda formada de recepção e um oficial vendo sua credencial de imprensa foi todo amabilidades falando português escorreito, de Portugal, e o acompanhou cerrando o cortejo rumo à praça dármas. Era um salão à moda de um clube fino cheirando a pub londrino, sobriamente decorado em estilo clássico. As paredes forradas de laminados de cedro e jacarandá ostentavam, sem exagero, fotografias, uma grande tela a óleo da Rainha Elizabeth II e do Almirante Nelson e um quadro de medalhas. Aquele navio participara da invasão da Normandia.

Passado o encantamento com o lugar, o jornalista, até por dever de ofício foi se assenhoreando do ambiente. Esquivando-se dos taifeiros negros, impecáveis, que desfilavam bandejas de canapés, vinho, uísque, coquetel, divisou, em um canto mais afastado, o lorde almirante conversando sabe-se lá o que com o governador e a primeira dama.

De repente sentiu um choque. Choque mesmo, como se tivesse pisado em poraqué. Não queria acreditar no que via e, parecia que só ele se dava conta do inusitado da cena: o lorde almirante e toda a oficialidade britânica trajavam bermuda branca de linho, cinto branco, meia branca soquete, e sapatos brancos tipo mocassim, de couro ou pano. Todos impecavelmente pintados de alvaiade.

Foi a glória. Por essa ele não esperava. Instintivamente pegou um copo da primeira bandeja de crioulo que passou e bebeu de um só gole. Era uísque. Sem gelo. Não notou. Imediatamente caçou com os olhos o oficial que o acompanhara e falava português. Chegou junto, puxou um assunto qualquer, soube que o capitão era do quadro de RP da Armada de origem indiana, mais exatamente de Goa, e outras cositas mas, as quais ele não estava nem prestando atenção. Quando, em uma pausa do capitão, ele observou com displicência estudada:

– Acho que o meu governador deve estar se sentindo agachado. Ele é um prócer do novo regime militar do Brasil, e se o conheço bem ele esperava ser recebido pelos senhores com um traje mais, digamos, formal.

O jovem oficial de relações públicas ficou lívido.

– Como assim, meu senhor, não estou a entender.

– Não ligue pra isso. São idiossincrasias do Poder. Dói, mas passa.

-Não, meu senhor, isso é sério. Saiba o senhor que esse é o nosso primeiro uniforme para os trópicos. É com ele que recebemos, nas regiões quentes, é claro, Sua Majestade a Rainha. Obrigado pela observação e dê-me só um minutinho que vou já desfazer esse terrível mal-entendido. Disse isso e encaminhou-se para onde no momento estavam o lorde almirante, o governador e agora o embaixador inglês.

O repórter sacana esperou por um momento, imaginando a saia justa do governador, enquanto o oficial RP, depois de uma breve conversa reservada com o Almirante e o embaixador, começou a dar as devidas explicações a sua excelência.

Não demorou muito e o olhar do governador cruzou com o seu como um raio. Se o fosse, de fato, ele estaria fulminado. Apenas, em resposta, levantou um brinde, agora uma taça de champanhe e, lentamente foi-se encaminhando para a escada da saída.

Houve quem o visse ainda na praça da escadinha assobiando Para não dizer que não falei de flores.

Epílogo

Mesmo curupira e cabano convicto vou continuar, eventualmente, a usar paletó e gravata. Se puder, Armani, Prada ou Ermenegildo Zegna. Por vaidade, para me sentir elegante, mais bonito, importante. Ou, tristeza maior, para ser recebido por outro cidadão que deveria ser igual a mim, mas tem o poder de exigir de outro cidadão, o uso de paletó e gravata.

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XINGU – Vivo que te quero verde

XINGU  – Vivo que te quero verde

Gostaria que vocês assistissem a esses trailers de um longa metragem que
se fez sobre o Xingu, Belo Monte e, consequentemente à Terra do
Meio. Àquela outra, primitiva, que inspirou este curupira.

Antes, Terra do Meio era apenas a mesopotâmia entre os rios Xingu e Iriri.
Hoje esse conceito estendeu-se para todo o Vale do Xingu.

Quando da minha infância e adolescência aprendi a amar cada curva do rio,
cada pedra, cachoeira e castanheira. E todas as gentes.

Naquela época decidi que iria ganhar o mundo e, quando ficasse velho,
voltaria. Para ficar. Contar aos curumins, netos dos velhos companheiros,
mil histórias vividas e inventadas. Papo de beira, de rancho, de praia, de
pedral.

Não deu. Simplesmente porque decidi que não vou ficar velho.

Há quem diga que eu romanceio os argumentos em prol das minhas bandeiras.
Que bom. É isso que minimamente sei fazer. Sou escritor e romancista e esta
é minha arma. Como a música está para o compositor, a poesia para o poeta,
a tela para o pintor. É a minha maneira de sentir, de lutar, de sonhar,
sofrer, viver. Ser feliz e alegre, senão com o momento, mas pelo futuro
melhor que virá inexoravelmente como todas as enchentes e verões dos rios
sem barragem.

Peço, pois, que assistam a este pequeno vídeo do youtube. Reflitam,
comentem e, se puderem colaborem.

Obrigado,

andré costa nunes

…e, para quem quer ver o filme completo…aqui:

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NAMORAR É PRECISO

SEM TARDAR

Namorar é preciso
O Terra do Meio te espera
Como quem vive na primavera
Do teu amor necessito
Do teu amor estou convencido
Quem me dera beijar
Tua boca sem tardar
Vamos ao paraíso
Vamos, eu preciso
Ao Terra do Meio namorar

______________/\______________

Amanhã, terça-feira, é, diz-que, o Dia dos Namorados e, é claro,
das namoradas. Os americanos chamam de Valentine’s Day e comemoram a data em 14 de Fevereiro. Não sei porque, mas são uns bobos. Primeiro, Fevereiro é mês do Carnaval, intocável. Segundo, Junho é mês de folia, é mês de todos os Santos, e dia 12 é véspera do Antônio, o Santo casamenteiro!

O certo é que…

NAMORAR É PRECISO
andré costa nunes

Gente, a melhor coisa da vida é namorar.

Vão por mim que sei das coisas. Aliás, dizem que o diabo é sabido, não
é porque é diabo, mas porque é velho.

O namoro é melhor que o orgasmo.
O orgasmo é, mal comparado, claro, como a campa do colégio, que
anuncia o fim do recreio.

O bom é o recreio!

São os prolegômenos. É a petição inicial, diria o doutor Lafayette.
É o momento de mundiação, em que as pessoas, todas, ficam mais belas,
maravilhosamente bobas É o mais próximo possível que se pode chegar do
nirvana.

O mundo, as gentes, os corações e as mentes são a oficina dos meus
devaneios e sonhos.
Romântico e humanista inveterado, não consigo imaginar um povo onde as
pessoas não namorem. Apenas casam. Acasalam. Procriam. Dizem que é
cultural, que há que se respeitar. Dizem também que na antiguidade era
assim. Sei, não, não moro lá e não sou tão antigo assim.

Namorar não tem contra-indicação, idade ou “interação medicamentosa”.

Vai bem com perfume, rosas, vinho, champanhe, caipirinha, licor de
flor de jamburana (made in, diz-que, Uriboca), carinho, com o velho
cartão de Cupido com flecha, coração, e tudo o mais. Vai bem com lua,
sol, chuva, praia, praça, igarapé, piscina, cinema. Poesia.

Vai muito bem com música.

Quem namora não faz a guerra. Está de bem com a vida.

Acho, até, que não devia haver marido e mulher. Esposo e esposa,
então, é a cafonice personificada.

Só devia haver namorada e namorado.
Por toda a vida.

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A MENINA CARIOCA E O PATO DO SÍTIO

A menina carioca e o pato do sítio

andré costa nunes

Estava eu posto em sossego… Assim se começava a contar um causo antigamente. Causo escrito, formal, porque causo contado mesmo, daqueles que se contam no terreiro, à sombra da mangueira, ou de tardinha na beira do rio começa diferente:

 Eu tava quieto no meu canto… Tudo isso é modo de falar, sestro. Até eu, caboco assumido, uso bastante, mas quem me conhece sabe que, mesmo preto velho (preto velho é ótimo, se fosse com maiúscula seria melhor ainda), aliás, mulato, não consigo ficar sossegado, muito menos quieto. Principalmente depois que aos setenta, resolvi abrir o Restaurante Rural Terra do Meio.

 Pois bem, vamos ao causo, que muita conversa acaba o saco de farinha.

Faz algum tempo, eu estava quieto no meu canto no sítio, no Uriboca, na beira do rio, onde moro, tabaqueando um sucedido qualquer com meu amigo Maraca, quando o sossego foi quebrado por um táxi velho aqui de Marituba. Já chegou fazendo barulho e se peidando todo. Acho que só táxi do interior para caber tanta gente. Quatro adultos e uns cinco meninos. O mais velho devia ter uns nove anos.

Era o meu filho Pedro com os filhos, trazendo minha sobrinha que mora Rio de Janeiro, e sua prole.

Alegria geral. A meninada solta na buraqueira e a mãe, carioca, a tentar por um pouco de ordem na debandada.

– Meninos, sosseguem, vão primeiro dar um beijo no tivô. Tivô em carioquês e um acrônimo de tio com avô. Frescura. Por aqui tio é tio e primo é primo.

Já os filhos do Pedro, cabocos de Marituba e de Apicum Açu, no Maranhão, vieram pedir a benção.

 Amelinha, a tal sobrinha carioca, às voltas com a Maria Cláudia, que havia perdido o sapato e pisava no terreiro com os pezinhos tronchos como papagaio na areia quente.

– Tio, ela nunca andou descalça. Nunca pisou na grama.

Notei que ela estava mesmo preocupada. Fez menção de sair para achar a tal sandália perdida, quando resolvi intervir como antigamente. Politicamente incorreto como é meu feitio. Já se disse que não sou tio de novela.

 – Para, porra! Deixa a menina se soltar. Vá minha filha, o pé logo se acostuma e pra criança, aqui, tudo é permitido.

 Olhei sério para a Amelinha e ela, sobrinha de antigamente, não contestou. Por um tempo fiquei matutando. Quatro para cinco anos e nunca pisara na grama…

 E o papo continuou. Era muito assunto. Minha irmã, a Sophia (assim mesmo, com ph), estava morando com ela e estavam de mudança para Brasília, essas coisas.

Quando demos fé, a Maria Cláudia já estava íntima do terreiro, correndo e se esbaldando. O fute. Achou uma ninhada de patos. Corria atrás dos patinhos e da pata mãe, na maior intimidade.

 Quando passou por perto de onde estávamos, parou esbaforida, afogueada, pegou minha mão, beijou e disse:

 – Obrigada tivô, eu nunca tinha visto um pato pessoalmente.

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CORAGEM DE MAMAR EM ONÇA.03

CORAGEM DE MAMAR EM ONÇA.03
andré costa nunes

De repente se passaram três anos.
Dia 30 de maio faz três anos que abrimos o Terra do Meio Restaurante Rural.

Não cabe o lugar comum “parece que foi ontem”. Não. Foram três anos,
mesmo. Nunca trabalhei tanto e com tanto prazer. Por vezes me
descobria menino. Adolescente, pleno de juventude e tesão. Lato sensu,
claro. Mas que passou rápido, passou. Aliás, como tudo que é
imensamente gostoso.

Tipo assim… orgasmo!

É claro que nem tudo foram flores. Houve tempo de angústias, de
solidão. Cheguei a fechar por uns dias. Odiei-me por isso, mas já me
esqueci. A porção boa, romântica, picaresca, prevaleceu. Esbanjou.

Empreender com ousadia, irresponsabilidade, partir pro foda-se, com
poesia, a perseguir um sonho é a minha cara.

E o pior, ou melhor, é que este certamente não será o último. Outros
sonhos estão permanentemente em gestação. Se terei tempo de pari-los,
é irrelevante. O sonhar é a essência.

Durante esse tempo não abri mão das minhas bandeiras. Velhas
bandeiras, novas lutas. O majestoso Xingu, o singelo Uriboca. Aquele a
espernear contra as grandes empreiteiras. O Uriboca e o Uriboquinha, frágeis, pequenos,
a lutarem contra a Máfia do Lixo.

Se por vezes pareci fraco, acovardado, terá sido apenas síndrome de I-Juca Pirama, como a dizer “me aguardem”. Don Quixote e o Curupira são
meus ícones.

Eu e a Esther agradecemos o apoio, as críticas, os elogios, os papos, não, os longos papos na beira do lago, à sombra da palha. Agredecimentos de montão, que não caberiam aqui, a toda galera do Facebook, do Twitter, do site do restaurante e deste blog.

Enfim, o Terra do Meio, como aquela outra, mesopotâmica, entre os rios
Xingu e Iriri, da minha paixão e da qual sou oriundo, tem uma única
missão:

FAZER AS PESSOAS FELIZES.

Tipo Assim…

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Largatudoevemtimborapracá!

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DIAS DAS MÃES – TERRA DO MEIO

DIA DAS MÃES

Domingo, dia 13, é Dia das Mães. Sábado também. Otimista incorrigível, acredito em casa cheia de amigos. É bom fazer reserva.

Ah, e tem maloca nova!

www.terradomeio.com.br

Obrigado,

André Costa Nunes
fone – 3277 2975

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À BEIRA DO XINGU

À BEIRA DO XINGU

andré costa nunes

Havia acabado de chover naquela tarde em Altamira. Chuvinha besta de agosto pra setembro. Nesta época floresce o pau d’árco, que no Sul chamam de Ipê. Explode em copas de cores muito vivas quebrando a imensidão verde da mata. Roxo e amarelo. Mais amarelos do que roxos. É também quando as tartarugas e tracajás sobem às praias para desovar. Exatamente depois de uma chuvinha como essa, os machos, capitaris sobem à praia para, diz-que, com a ponta do rabo, curto, grosso e pontiagudo, traçar um risco delimitando o sítio seguro até onde as fêmeas podem fazer as covas e depositar os ovos. Ali seria o ponto em que as águas do inverno não atingiriam. Pelo menos até a eclosão dos ovos.

Alguns esparsos barcos, pequenos, rabudos, cheios de passageiros, alguns com guarda-chuvas, principalmente mulher barriguda ou com criança verde no colo, cruzam o rio e a tarde, em quase toda a extensão da Rua da Frente.

Vêm do Baixo, da Ilha da Fazenda, embora o movimento maior seja com a Terra dos Assurinins, na margem direita do Xingu, esses não passam por ali. Contornam a parte de cima da Ilha do Arapujá. São voadeiras velozes, e até balsas atravessando carros e gente. Caminhões e carretas de madeireiros. Automóveis. Progresso.

Nunca fiz essa travessia por ali, nem andei de balsa ou voadeira veloz, moderna com capota e poltrona. Não, por qualquer sentimento de aversão ou preconceito, mas talvez por falta de oportunidade. Aquela parte não está nas minhas lembranças, na minha história.

Debrucei-me na mureta ainda molhada do cais à espera do resto da turma. O primeiro a chegar foi o Dimas do Seu Carlos Soares. Logo depois, juntos, vieram o Élio do Miguez, o Sabá do Janga, o Eduardo Besouro e o Zé do Mané Paulo. Sobrenome por lá era desse jeito. Identificava o cabra e a cepa.

Não foi o encontro efusivo da turma de moleques de sempre. Dizíamos que nunca iríamos envelhecer. Até ensaiamos descer lépidos a escada escorregadia, íngreme e estreita colada ao paredão que ia dar na praia ainda larga da seca de verão. Não deu. Era preciso ter cuidado. Os moleques estavam grisalhos. Avós.

– E aí, Deca? – Instigou o Eduardo, quebrando o silêncio.

Deca era eu, seguindo a regra, Deca do Anfrísio. Fiz cara de paisagem, como se tivesse concatenando as idéias. O próprio Eduardo veio em meu socorro.

– Vou encaminhar a discussão e vocês corrijam ou acrescentem o que for relevante.

– “Encaminhar a discussão”  é coisa de comuna ou petista, ainda tentou brincar o Sabá do Janga. Ninguém riu. O Eduardo fez que não ouviu e continuou.

– Sempre sonhamos com o progresso de Altamira. Achamos que a nossa era a geração da transformação. Vocês vibraram, eu, não, quando a ditadura chegou com a Transamazônica. Projeto pronto e acabado. Desenvolvimento. Não fomos ouvidos nem cheirados, mas tudo bem, iríamos sair do isolamento, do marasmo, da pobreza.

Passaram de cambulhada por cima de nós, do povo de Altamira. As máquinas foram recebidas com aplausos e fanfarra. Junto com elas veio a escória republicana da dissolução dos costumes. Gente, muita gente. “Gente sem terra para uma terra sem gente”. “Ocupar para não entregar”. E outras baboseiras em que muitos de nós embarcaram desde a primeira hora. Os novos donos, a ensinar o que sabíamos, tinham nomes, caras e funções definidas. Autoridades. A nova confraria. Empreiteiras, madeireiros, grileiros, pistoleiros, corruptos e corruptores. Gente experiente em comprar gente. Gente disposta a se vender. Como se disse, autoridades.

O resultado foi a desconstrução. O latifúndio, os grileiros, os madeireiros, os corruptos, os corruptores, o desmatamento. Tudo isso escoltado e coonestado por prefeitos, deputados, senadores, governadores, juízes, cartorários et caterva. E a Sudam. Ah! A Sudam. Essa merece ser contada em um capítulo a parte. E se contará. Um monumento à rapinagem e à impunidade. E a dissolução dos costumes ganhou. A mata perdeu. A Amazônia perdeu. Perdemos nós.

Por fim, mas não menos importante,  esse processo sombrio, trouxe uma semente de amanhã. Os colonos. Desassistidos e desvalidos. Os que resistiram à volúpia da grilagem latifundiária e conseguiram ficar e amanhar a terra. Foi muito difícil, mas o trabalho honesto está vencendo e, não pela pata do boi, do correntão ou da moto-serra. A região se prepara para ser o maior produtor de cacau orgânico do Brasil. A engrenagem desta economia primária criou uma nova geração de agricultores, estudantes, professores, doutores, empresários. Do bem, do bom, do belo. A decisão de pais renitentes que conseguiram ficar no trabalho duro, as caminhadas de léguas em busca das primeiras letras, deu frutos.

Mas ainda não o poder.

Este pertence às estruturas carcomidas de um sistema que acreditávamos agonizante. Por si e por seus beleguins. A hora era de reconstruir: mais dia, menos dia, essa nova geração haveria de assumir as rédeas do próprio destino. Vitória, Brasil Novo, Uruará, Souzel, Altamira, São Félix, enfim, o Vale do Xingu.

De repente, não mais que de repente, BELO MONTE. A grande hidrelétrica a estrangular o Rio e sujigar as gentes.

Houve um tempo, logo que anunciaram o projeto, em que chegamos a nos ufanar. Orgulho besta de colonizado. Quando a ficha caiu, Inez era morta.

  Mais uma vez o Xingu e mais uma geração serão sacrificados em holocausto ao desenvolvimento, diz-que, do Brasil. Eu disse diz-que. E nem se deram ao trabalho de nos convencer. Ficou o entendimento de que o interesse maior era das empreiteiras e de suas tenebrosas circunstâncias. Da outra vez era a ditadura. Agora, em pleno Estado Democrático de Direto. Vai começar tudo outra vez.

E chegará o dia em que, o capitari buscará, com seu rabo grosso e pontiagudo aquela praia, a mesma praia que, por 10, 30, 100 anos indicou o caminho para que as suas crias fossem depositadas e gestadas e não mais a encontrará, inundada que está pela grande barragem.

Agora, cadê praia? cadê ovos? cadê vida?

Não houve discussão. Ninguém contestou, ou sequer acrescentou palavra, apenas, o Élio, quando se levantou, balbuciou para si mesmo: – É isso aí.

Os seis, agora bem mais velhos, subiram devagar a escada do cais. Silentes, com um gosto amargo na boca e um sorriso amarelo, despediram-se apenas com um aceno.

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TERRA DO MEIO: Feliz todos os dias

Dois de janeiro de 2012, primeira Segunda-feira do ano, como de tradição, teve a Confraternização de Fim de Ano do Restaurante Rural TERRA DO MEIO.

Aproveitamos, logo, para agradecer a companhia de todos os clientes, amigos e parentes que foram nos visitar em 2011. Valeu!

Esta Confraternização é dos funcionários, é da comunidade Terradomeioense. Ali estão os bisnetos, netos, filhos, sobrinhos, maridos e mulheres, pais, mães de todos os que nos acompanham, há mais de 40 anos, às margens desse lago que encanta.

Teve brindes, sorteios, danças, bingo, amigo invisível e alegria.

E alegria da molecada, que é sempre o melhor!

FELIZ 2012!

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Cartas do Xingu – Delenda Altamira – 1

CARTAS DO XINGU

Delenda Altamira – 1

André Costa Nunes

14.11.2.011

Tocar um restaurante rural na periferia de Belém, mesmo na beira do rio Uriboquinha, em meio a floresta, pássaros, gente boa, papos sem fim, banho de igarapé, licor de jamburana, é tudo de bom. Mas cansa. Ainda mais aos setenta e dois anos de idade.

Dizem que o homem para se sentir realizado tem que fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Ditado besta, mas tenho quatro filhos, plantei muitas árvores, escrevi poucos livros. Meia dúzia, se muito. Continuo escrevendo livros, plantando árvores e colhendo netos. E, como disse, tocando o Restaurante Rural Terra do Meio, em Marituba. Mas longe de me sentir realizado.

Em meio a estes devaneios bate o telefone. Era a professora Ivonete, aliás, Doutora Netinha, para os íntimos e para todo mundo, da Universidade Federal do Pará, convidando-me para proferir a palestra de abertura da Semana de Literatura no auditório do Campus de Altamira. Mandaria as passagens. O tema seria a Historia e histórias de Altamira no ano de seu centenário. Caiu a sopa no mel.

Desde que saiu a sentença irreversível(?) para a construção da hidrelétrica de Belo Monte que planejo uma viagem ao Xingu, mais exatamente a Altamira, com incursões necessárias rio acima e rio abaixo e Transamazônica. Não exatamente viagem sentimental como sempre faço para rever parentes, amigos de hoje e de sempre, o rio, a Ilha do Arapujá, as praias, as cachoeiras, a lua. Faz dez dias que estou aqui. Era lua cheia quando cheguei.

A minha gente, o rio, as praias, a lua, tudo no lugar. Como sempre. Apenas o velho casarão da família, o Meu Sossego, fora demolido pelo novo proprietário, o senhor Silvério Fernandes, rico empresário financiado da Sudam e vice-prefeito de Altamira. Teria ouvido um boato que pretendiam tombar como patrimônio histórico. Ele se adiantou e o “tombou” antes. Estava no seu direito. Acho até que nem precisava se incomodar com isso, não faz o perfil da administração municipal, “desenvolvimentista”, andar se preocupando com essas coisas.

Desta vez queria sentir o pulsar da cidade. As notícias que chegavam até mim eram desencontradas e inverossímeis. Nitidamente passionais. Compreensivelmente passionais. O Xingu é assim mesmo, mundia as pessoas, que logo se arvoram em suas guardiãs. Claro que não devia ser assim. Conheço bem esse povo. Qualquer coisinha faz logo um estardalhaço.

Por isso vim e estou aqui há dez dias. Agora posso começar a contar o que vi e ouvi. E garanto a vocês: é bem pior!

Não vou fazer relatórios chatos, circunstaciados, técnicos ou analíticos, até porque, não sei fazer. Faltam-me talento e arte. Vou apenas escrever cartas procurando fugir dos adjetivos e abordando o substantivo. Da maneira mais simples que a minha compreensão puder alcançar.

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O caso da venda do terreno da OAB, Ordem dos Advogados do Brasil

Sucintamente, só para rememorar: a prefeitura deu um terreno para a OAB construir sua sede. A OAB o vendeu.

A verdade há que ser sempre o fato, por exemplo: o copo quebrou. Se foi o vento que derrubou, se foi o menino traquinas que esbarrou, não muda a verdade primária e insofismável. O copo quebrou.

Do mesmo modo, a prefeitura pobre de Altamira, em nome de um povo pobre deu um terreno para a OAB construir sua sede. A OAB não construiu sequer um quartinho e o pôs a venda.

Se foi vendido para um diretor da Ordem, para o João ou para a Norte Energia, por trinta mil, trezentos, ou três milhões de moedas é irrelevante, no meu entender. São questões adjetivas. O substantivo é que, mesmo “legal”, e disso os doutores entendem muito bem, é imoral, torpe, injusto, apropriar-se de um bem público de um povo de todo carente, apenas para especulação imobiliária.

Isso, sabemos nós, e os “doutores” mais ainda, chama-se patrimonialismo definido por Weber. A prática espúria, antirrepublicana da transferência do patrimônio público para propriedade privada. É, acima de tudo, herança absolutista desde sempre que permanece indelével na legislação do século XXI. Não sei se o doutor Claudio Lamachia previu isso quando escreveu a Missão Constitucional da OAB. Se o fez esqueceu de mandar uma cópia para o Pará.

Essa historinha da OAB, não tem nada a ver com o motivo maior das cartas que me propus escrever, mas era uma questão não digerida, uma espinha atravessada na garganta. Não que eu tenha a mínima esperança que a Ordem tenha a decência de devolver ao povo de Altamira o patrimônio “legalmente esbulhado”, se é que tal figura existe, ou mesmo, quem sabe, por ser uma entidade rica e poderosa, construir uma creche, uma praça, uma biblioteca.

Não fora a OAB a vanguarda da Justiça, por vezes várias antecessora da lei, e se poderia invocar em sua defesa que tal prática é useira e vezeira ou, no seu próprio dialeto, consuetudinária. Aqui e alhures.

Até posso entender a atitude singular do advogado que vem para este fim de mundo, zona de fronteira, para se dar bem. Enricar. Pior seria, reconheço, sem eles, mas a Entidade OAB é outra coisa. Um dia se haverá de contar sua luta em defesa das liberdades democráticas. De seus posicionamentos justos contra o Poder, mesmo ao arrepio de convicções e interesses pessoais de seus dirigentes. Enfraquecer a OAB é dar munição aos inimigos do povo. É enfraquecer a democracia.

É madrugada. Chove forte sobre o Xingu, mesmo assim, logo cedo, devo encarar a Transamazônica até Belo Monte para entrevistar o seu Ferreirinha. Ele tem mais de noventa anos e teria, diz-que, acompanhado Jimmi nas peripécias de esconder o filho do David Rockfeller pescando no beiradão do Baixo Xingu. Mas isso é outra história.

Amanhã ou depois cometerei outra missiva da série “Delenda Altamira”.

André Costa Nunes 

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AS BAIXADAS DE BELÉM

AS BAIXADAS DE BELÉM

Do Marajó, do Nilo, de Miami, do Mekong.

Entendamos como baixadas, as terras inundáveis por rios, lagos e mares. Várzea baixa, várzea alta, igapós, baixões, praias e mangues. Fiquemos apenas com os rios. Rios da Bacia Amazônica.

As baixadas fazem parte do rio. São sua área de escape. Seu leito quando as águas se avolumam. Quer pelas cheias sazonais, quer, se próximas ao mar, pelo fluxo das marés. É, digamos, o leito expandido. É nessas águas rasas, quentes, densamente vegetadas, ricas em húmus e plancto, que ocorre a reprodução dos peixes. Onde nasce a vida. Quando as águas refluem, o rio volta para sua calha deixando fértil a terra que ocupou. Normalmente, por igual período, sobe e desce. Comportado. Seguindo as regras que não fez. Só sabe que é assim. E sempre funcionou, desde que o mundo existe como conhecemos.

A ocupação humana das baixadas, tanto para exploração econômica, quando para habitar, só pode acontecer, por empréstimo, ou por esbulho. Também sempre foi assim, repito,  ao longo da história.

 Por esbulho, com grandes obras de engenharia. Cidade do México, a Tenochtitlán dos astecas, a Holanda, o Aterro do Flamengo, a Nova Copacabana, Miami City, Narita, Dubai, o porto de Belém por Percival Farqhuar etc.

Por empréstimo, para morar, só com palafita, como foi no lago de Zurique, na Suíça, na França, em Veneza, no Laos, na China, em Brunei, na Ilha das Onças, em Vila Maiuatá, Afuá, Arumanduba e outras menos importantes. No Amazonas, desde o Marañon até o Marajó.

Alguns povos, simplesmente flutuam. Em ilhas de junco no lago Titicaca ou em sampanas asiáticas.

A ocupação das baixadas de Belém é recente. Primeiro por empréstimo depois por esbulho.

 Esbulho perverso, burro, pobre, excludente, sem qualquer planejamento ou obra de engenharia.

Antes, se ocuparam os tesos e terras altas a partir do Forte do Presépio. Contornavam-se as baixadas. Os igarapés eram as vias por onde os ribeirinhos entravam com suas canoas para negociar, quase sempre por escambo, sua produção nas feiras que se formavam nos barrancos das terras firmes.

À entrada desses canais ficavam as “guritas” coletoras dos impostos. Quando a canoa entrava demandando as feiras, a mercadoria era inventariada. Açaí, azeite de patauá, cumaru, cacau, copaíba, farinha, peixe seco, caça fresca e seca, galinha, pato, marreca, mixira. Deixava em garantia os remos, as falcas e o velame. Assim, desarvorada percorria os igarapés apenas movida a vara. De porto em porto vendendo seu produto.

A prática do escambo, exigia negociação na saída, junto ao coletor dos impostos e do dízimo clerical.

Até se pensou que Belém, na época da borracha, estava pronta para ser uma Veneza Tropical. A malha de canais era perfeita.

Esta feição, com alguma concessão à modernidade, permaneceu assim até quase os nossos dias. Segunda metade do século vinte. Os habitantes tradicionais de Belém, as elites, o clero, comerciantes, militares e funcionários públicos seguiam o estilo português de casa de pedra e cal, adobe e divisórias de taipa. Em terra firme, naturalmente. Pela mesma tradição e origem, os imigrantes nordestinos, ainda poucos, seguiam-lhe o padrão. Pode-se até dizer que, obedecendo à hierarquia vigente, a ocupação era democrática. Os tesos comportavam também ex-escravos, empregados subalternos e despossuídos, de qualquer cultura, não cabana, ribeirinha do Baixo. Da cultura da palafita.

A beirada, o baixão, depois que Farhquar tirou os trapiches da frente de Belém foi ocupado, pouco antes e além do Arsenal de Marinha, por ribeirinhos do estuário do Amazonas. Baixo Tocantins – Baião, Bujaru, Igarapé-Miri, Maiuatá, Acará, Abaetetuba, Amapá – e Marajó, furos e ilhas, que para cá trouxeram seus costumes e tradições, inclusive o hábito de viver e conviver no alagado. Mal comparado teria sido assim também com os holandeses que preferiram fundar Recife nos manguezais da foz dos rios Capibaribe e Beberibe, ao invés das terras altas de Olinda bem ao lado.

 Os ribeirinhos cabanos trouxeram seus costumes de morar em palafitas, em casas leves, cobertas de palha de buçu ou ubim e assoalhadas de paxiúba. Trouxeram também seu patuá, seus hábitos alimentares a base de açaí, farinha, peixe seco e camarão. O tucupi, que até meados do século dezenove, era desconhecido em Belém. E assim se assentaram na orla da maré. Se muito entraram terá sido seguindo os igarapés e furos que ornavam a cidade. O resto, tirante os tesos, era a várzea baixa dos capinzais alagadiços sem fim.

Só para nos situarmos no tempo estamos falando já, da segunda metade do século vinte, quando esses mesmos capinzais garantiam a produção das vacarias. Diz-que a “bacia leiteira” de Belém.

Então, fiquemos entendidos. Os tesos, a parte alta, enxuta era para os “brancos”. A orla alagadiça, para os cabanos. As baixadas do entremeio, capinzal. Vacaria.

O cabano não se queixava, não havia revolta, pois essa mudança para a periferia alagada de Belém representava uma enorme evolução em sua qualidade de vida em se comparando com a mesma palafita isolada e desassistida de onde procedia. Seu único paradigma.

Navegando um pouco no tempo, fazia toda a diferença a luz elétrica, o grupo escolar, o ônibus velho, a Santa Casa de Misericórdia, o pronto socorro, a água gelada, o sorvete, o cinema, depois a tv e, por fim, o emprego. A cidade.

Mas a população de Belém foi crescendo, não mais mercê dos cabanos primeiros, mas de seus descendentes e de toda sorte de gentes migrantes que costumam inchar as cidades. E aí, naturalmente, mas perversamente, como que por gravidade, os não cabanos, por direito de casta, ou, mesmo, costume, ocuparam a terra seca. E, ainda, antes que o povo se desse conta, o Estado, lato sensu, adonou-se de toda a terra enxuta em volta da cidade. Para si e para apaniguados, por simples herança de patrimonialismo feudal.

Assim, foi usurpada dos cidadãos, sem quê nem pra quê, uma área bem maior que a própria cidade. Belém ficou sitiada, por transferência de domínio, pela Amazon River, a Port of  Pará, a Marinha de Guerra, o Exército Brasileiro, a Aeronáutica, com quase todo o Bairro do Marco, Souza, Marambaia, até a estrada de ferro para a vila de Pinheiro, hoje Icoaraci, e além, no rumo do Coqueiro. E, ainda, o Ministério da Agricultura com a granja Santa Lúcia, o Ipean, depois Embrapa, o Ministério da Educação com Ufra e Ufpa.

 O povo despossuído foi literalmente empurrado para o capinzal alagado. As Baixadas!

Agora, não mais por tradição cultural, mas desgraçadamente, por favelização.

“O sapo pula, não é de boniteza, mas por precisão”, diz o velho adágio nordestino.

Aí, já o fato consumado, entra o Poder Público, não com o planejamento, as tais obras de engenharia, saneamento mínimo e condições de “habitabilidade”, como se fez no campus da Universidade Federal, mas com  remendo desrespeitoso, quase escárnio. As ruas eram, algumas ainda o são, pontes mal ajambradas. Estivas. Antes, tal como o usado pelos beiradeiros dos furos e igapós, apenas um tronco de miriti ou dois caules de açaizeiros sustidos por forquilhas e amarrados de cipó ou embira. Depois, pontes mambembes de tábuas de madeira branca.

Com a chegada do “progresso”, essas estivas, foram sendo substituídas por “ruas” aterradas, primeiro, com caroço de açaí e serragem levados em carroças de burro pelos próprios moradores, depois, lixo da limpeza pública. Agora, já em caçambas da prefeitura. E, pasmem, era disputadíssima a benfeitoria. Sem drenagem, sem saneamento. O chorume a escorrer e a se acumular nos quintais, becos, vielas e em baixo das casas palafitas. A convivência com o miasma já não mais incomoda. As pessoas se acostumam. As marés lançantes, em grande parte, equalizava e drenava os dejetos para os rios através de igarapés urbanos transformados em esgotos a céu aberto.

Muito político se elegeu conseguindo este tipo de aterro para seus redutos eleitorais.

A prática de hoje é a mesma. Apenas trocou-se o lixo (?) por terra e, às vezes, com muita sorte, resto de construção. Já é um avanço.

 As cidades nunca pertenceram ao povo, pelo menos o que, modernamente, com um pouco de esforço, hoje entendemos como povo. Povo, com direito à propriedade, sempre foram as elites econômicas e “culturais”. As terras habitáveis pertenciam ao Governo e este se confundia com a figura do governante. E, “justiça” se faça, qualquer cidadão podia requerer o tamanho de terra que quisesse desde que fosse devoluta.

Que não se entenda por cidadão, o cabano, ou, mesmo, o desvalido de qualquer origem. No mais das vezes, essa transferência de propriedade do Estado se fazia para entidades estatais ou privadas, nacionais, ou não, e, principalmente para as grandes famílias que, como vivandeiras, se acercavam do poder. Herança feudal que, de certa forma, persiste até hoje. Sem projeto e sem nenhum escopo de função econômica ou social, que não a especulação imobiliária. Estes terrenos eram, aí, sim, loteados ou fatiados e, sem o mínimo de critério, vendidos para aquele outro povo excluído da cidadania. O Estado, não fora feito para ele. Era simples, assim. Consuetudinário. Legal, moral, ético, piedoso. Essa prática, não raro, estendia-se pela baixada alagada e já ocupada por gerações de despossuidos.

Muitos dos novos proprietários e gestores, não podem ser responsabilizados por esse legado perverso, pelo tal pecado original, mas quem sabe, um pouco de luz sobre o passado, não torne o entendimento mais generoso quanto a função do capital.

Esta é apenas a realidade, que se há de conhecer. Não pretendemos sugerir soluções técnicas. Esta não é nossa praia, mas sabemos que medidas parciais e pontuais, apenas agravam o problema. No máximo adiam-no para um futuro bem próximo.

Acreditamos, também,  que há soluções e profissionais capacitados para enfrentar o desafio. Sabemos que esbarramos na triste realidade de vivermos em uma capital extremamente pobre, de um Estado colonial espoliado. Pobre de recursos, pobre de vontade e pobre de gestão. Povo pobre. Indesejável.

Não precisa necessariamente ser assim. Isto não é um “karma” que tenha que ser aceito com passividade monástica. Os tempos são outros. Ninguém precisa chafurdar no passado para remoer ódios ancestrais, mas precisa sim, conhecer a História, de maneira crítica para corrigir o presente e projetar um futuro mais justo para o povo, que, ao fim e ao cabo, é a razão maior da existência do  Estado Republicano.

por andré costa nunes

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