A MALDIÇÃO DO CACHIMBO DA PAZ

A MALDIÇÃO DO CACHIMBO DA PAZ
André Costa Nunes

Morei uns tempos no Xingu. Exatamente no Rio Iriri, quase na foz do Riozinho do Anfrísio. Tinha então, dezessete para dezoito anos. Havia parado de estudar. Tuberculose. Depois de uma curta temporada em uma casa de repouso no Ceará, aliás, um velho convento de freiras na Serra do Estevão, recomendação do Dr. Cândido Pereira, meu médico em Belém, fui dar com os costados no Seringal Praia. Era preciso completar um ano de tratamento e repouso, diz-que absoluto. Esse tal absolutismo naquela idade não durava três meses.

Na volta do Ceará, com a concordância do médico, eu me deveria recolher a uma fazenda, pois tuberculose é uma doença antissocial. Tudo separado e bem fervido. Dos lençóis às louças. Principalmente as louças. O isolamento no interior era altamente recomendado, uma vez que as famílias procuravam esconder ao máximo a doença. Ia-se ao “tiziologista” quase às escondidas.

O seringal não era exatamente uma fazenda. Tinha, se muito, umas cinquenta cabeças de gado. O suficiente para garantir leite mugido e gemada com mastruz, absolutamente necessários à superalimentação prescrita.

A Farmácia do Povo, que fornecia medicamento para o seringal, aviou a receita. Um verdadeiro arsenal de comprimidos, frascos, seringas e agulhas – não descartáveis, claro – e mais alguns fortificantes que minha mãe receitou ou as comadres sugeriram. Era muita coisa. Estreptomicina, soro para diluir, hidrazida, P.A.S., e não sei mais o
quê. Eram uns comprimidos enormes, tomados a mancheias, mais de vinte por dia.

Como o tratamento durava um ano, tive que interromper os estudos. Tuberculose era excludente. A parte boa foi que não poderia mais ir para a Escola Militar de Agulhas Negras, sonho da minha mãe.

Pois bem, oito meses se haviam passado, desde a descoberta das tais “cavernas com nível líquido no Lobo superior esquerdo” e já tinha até me esquecido que era um “doente”, mas sem esquecer de fazer, religiosamente, a medicação, até por que minha prima Marluce, escalada para tomar conta de mim, não deixava.

Nos primeiros tempos, apenas lia, deitado quase o dia todo em uma rede branca, no alpendre do barracão. Os amigos de infância, filhos dos seringueiros, no fim da tarde, sentavam-se no chão para um dedo de prosa. Mas, depois desse tempo, como se disse, a vida seguia normal, como sempre fora. Banho de rio, pesca de tracajá, canição, caçadas.

Paradoxalmente, foi quando aprendi a fumar. Ainda não exatamente um vício, mas, por distração e prazer. Alguns dos meus amigos, fumavam, mascavam e cheiravam rapé. Sem censura e sem remorso.

Nessa época apareceu por lá um grande sertanista, Chico Meireles, com uma récua de índios recém atraídos desgraçadamente para o, diz-que, amparo do SPI – Serviço de Proteção aos Índios. Com eles veio um “caboco”, com mais ou menos a nossa idade, que fez amizade com o Patoti, nosso companheiro, primo do meu irmão Frizan, que apesar de ser índio xipaia, falava a gíria caiapó. Talvez, por isso mesmo, logo estava fazendo parte da turma. Dizia chamar-se Mburá, ou coisa parecida. Para nós virou Imbuá. Tudo para ele era inusitado. Novidade mesmo. Do isqueiro Zippo do Bicoca, à lanterna de seis elementos do Joca. Não conhecia sequer o sabão. Claro que fazíamos com ele todo tipo de gozação, mas depois de algum tempo, não conseguíamos mais sair sem ele. Aí, já era ele que aprontava todas conosco, inclusive sumir e nos deixar perdidos no mato. Quando já estávamos próximo do apavoramento ele aparecia rindo, pulando e dançando. Com ele não aprendemos nenhuma palavra em caiapó, além das poucas que já sabíamos.

Cedo ele aprendeu todos os palavrões em português e, para nosso desespero, os repetia com a maior naturalidade na frente de todo mundo, até do padre Júlio, quando estava de passagem pelo seringal, batizando e casando por atacado.

Certa vez, na Praia do Cordeiro, pouco abaixo do Barracão, quase na boca do Riozinho, estávamos pescando de linha e o peixe estava escasso que nem beliscava. Talvez por que a lua estivesse a um dia da cheia, mas o que importava mesmo era o papo. Papo de beira não tem fim. Quando tirei da boroca a bolsa de tabaco e comecei a esfarelá-lo na palma da mão, Imbuá ficou me olhando com o cenho franzido. Enrolei o fumo com displicência e imperícia no abade Colomy e acendi o cigarro porronca, mal enjambrado, no tição da fogueira. Ele então fez um gesto indagativo para mim que não entendi. Ambos olhamos para o Patoti,
tradutor oficial da turma. Ele chegou perto do caiapó que explicou em sua língua. Patoti ouviu, ficou pensativo por um segundo, depois caiu na risada:

– O caiapó é mesmo retardado. Ele quer saber por que tu estás fumando, se não é festa e não tem mosquito.

Com esta, em meio a gargalhadas encerramos a pescaria zombando do aparvalhado Imbuá, que também ria sem saber de que.

***

Dez anos depois, talvez menos, nos encontramos em Altamira. Imediatamente, antes de completar os salamaleques de praxe, rumamos para o bar do Mimi. Tanto papo para por em dia pedia cerveja gelada.

Não sei quantas horas passamos no bar, nem quantas garrafas de cerveja rolaram. Ou mesmo cachaça. O assunto, também não me lembro, mas uma observação do Bicoca ficou martelando na minha cabeça.

– Porra André tu fumas pra caralho. Quantas carteiras por dia?

– Cinco, disse quase com orgulho.

Nenhum deles havia fumado tanto, aliás, praticamente não eram fumantes, apenas, exageravam, com dois ou três porroncas nas pescarias, à noite, quando o carapanã sovela do pedral atacava “de turma”, como se dizia por lá.

Essa minha corriola do seringal quase nunca se aventurava em sair de Altamira. Não havia televisão ou cinema. Nem sorvete tinha. Por isso, era difícil, para eles, entender a aura do cigarro que envolvia alguém, pelo menos medianamente cosmopolita como eu. Não dava, até para não parecer pedante, falar dos bares da vida, das boates, onde a freqüência se media pela fumaça que pairava no ar. Café Central e Bar do Parque em Belém. No Rio de Janeiro, o Beco das Garrafas, as gafieiras, Elite e Estudantina, o chope do Amarelinho e do Cabral 1500 e, principalmente o que fazer com as mãos sem um cigarro. Sim, aquela coisa maravilhosa que existia para desinibir o jovem e diminuir a distancia dos ídolos de então.

Hunfrey Bogart, James Dean, Marlon Brando, Vinicius de Moraes. Os charutos do Fidel, do Guevara, do Tom Jobim. As piteiras das divas Marlene Dietrich, o Ajo Azul, Rita Hayworth, a Gilda e por aí vai. Não há nada mais sensual de que uma mulher fumando. É, isso não dá para explicar para minha turma do Xingu.

***

Ontem cheguei de Altamira. Todo ano eu vou por lá e sempre encontro um ou outro da velha guarda. Desta vez estavam todos, ou quase todos. Até o Imbuá que assumiu de vez o nome. Imbuá Caiapó. Isso na nossa velha e boa ortografia portuguesa, mas quando o registraram usaram a língua oficial alienígena, indefinida, das ONGs, dos diz-que antropólogos e da FUNAI, que substituiu o S.P.I., e virou Ymbuah Kayapó. Assim, mesmo com “k” e “y”. Frescura. Piloto de balsa da mineradora Canopus. Aposentado. Também estava lá o Eduardo Besouro, intelectual da turma, professor, que adorava contestar minhas teses. Ele, sem sair de Altamira, sempre foi o mais inteligente e culto de nós todos.

Nem sei quanto tempo se passou desde aquele encontro no bar do Mimi. Foram décadas. Agora, todos avós, e só o Imbuá teimava em não ter cabelos brancos.

– Esse índio filho da puta deve pintar o cabelo escondido, disse o Joca só de sacanagem.

O papo começava a animar quando de repente todo mundo parou. É que eu, instintivamente, havia tirado um cigarro do bolso. Estávamos no gramado em frente ao restaurante Tucunaré, na Rua da Frente.

Fiz pose. Quis botar moral. Bancar o durão. Não deu. Apelei.

– Porra, cara, não. Aqui, não. Já não aguento mais esse tipo de patrulhamento. Parece que todo fumante é leproso. Eu sou viciado, dependente químico, e daí? Não faço mal a ninguém. O cigarro é a única droga que não mexe com a psique do drogado, não altera a sua personalidade e não se conhece um caso de alguém que haja fumado um maço de Free e tenha saído por aí a fazer merda.  As pessoas já olham pra nós com ódio. E isso é no mundo todo, mas aqui, não dá! Há muito que tenho pensado seriamente em mudar para a maconha. É muito melhor aceita, é Cult, tem até marcha, com direito a aplauso e tudo. Dizem que já há mais de duzentos congressistas a favor da liberalização. Até o FHC! Já pensaram quando eu desembarcar aqui e alhures, do alto dos meus setenta três anos, cabeça branca e suspensório retrô, fumando um tremendo tarugo de canábis? No máximo vão dizer: “pô, esse velho é irado”, mas não vão me discriminar. Dá um tempo! Principalmente Patoti e Imbuá. Não esqueçam, seus merdas, que foram os índios que inventaram essa história de fumar. Arrematei meio que rindo amarelo.

O silêncio continuou por um tempo. Menos de trinta segundos, acho, mas pareceu uma eternidade, até que o “professor” Eduardo falou. Didático, sem censura, pausadamente, como é seu costume de sempre falar:

– Deca, pára com isso. Esse papo até que é bonitinho para fazer graça. Conversa de botequim. Mas se estiveres falando sério, não estarás respeitando nossa inteligência. Somos solidários contigo, e sabemos o que é uma dependência química. Faz tempo que acompanhamos tuas peripécias e sempre achamos que não chegarias vivo ao final do ano. Não falo das malárias e das tuberculoses. Isso é pinto. Curou, tá curado. Falo do exagero do teu cigarro que é droga de uso contínuo. Soubemos que há uns quatro anos tiveste uma isquemia cerebral lá em São Paulo. Ano passado, aqui na Transamazônica tiveste uma trombose na perna. Além de enfisema, fazes coleção de safenas, mamárias e stents. Quando falas assim estás sendo irresponsável, pois, como escritor és formador de opinião, e não é todo mundo que tem um bom plano de saúde e um filho pneumologista para segurar as pontas. Lamentar não é repreender, censurar. O teu amigo mais novo, aqui, o é há mais de meio século.

De repente ele parou como que engasgado. Tomou um copo de cerveja, forçou uma risada e continuou agora em tom menos solene:

– Ah! E essa história dos índios e do tabaco foi no fundo a grande lição que a humanidade não entendeu. Foram dizimados, quase extintos pelo fumo.

– Com essa, agora eu pirei. Pára, professor. É muita viagem. Acho que quem está dando de pau na canabis és tu, falou o Bicoca.

A tensão arrefeceu e fiquei aliviado por não mais ser o assunto do papo.

– Essa eu quero ouvir, falei.

– Pensa bem, os índios descobriram a maravilha do tabaco, concordam? Pois é, mas nunca se ouviu falar de índio viciado, dependente químico, como esse porra aqui. Tabaco nunca matou índio ou índia. Nunca ninguém viu curumim fumando. Pois é, a morte veio de maneira indireta, por portas e travessas. Fez uma pausa e continuou. Foram dizimados porque fumaram o cachimbo da paz com o invasor. Talvez houvesse sido de caso pensado. Vingança. Maldição!

Pedimos a conta, acendi outro cigarro. Ninguém falou, apenas, senti em todos a quase certeza que na próxima reunião haveria pelo menos um desfalque.

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Em postagem no blog Flanar, minha querida amiga, Marise Morbach, deu-me a honra de transcrever este artigo por lá. E, o que também muito me honra, foi comentado pelo médico pneumologista, Roger Normando, assim

Marise,

A bem da verdade, uma aula de tisiologia e pneumologia contemporânea que poderia muito bem ser a abertura de qualquer congresso médico por essas imediações das ciências. A fala do André trepida em mim, em nós. Tenho lido esse autor com certa intensidade por iniciação do próprio André-Filho, o pneumologista, por quem tenho admiração profissional e pelo fato de trabalharmos muito próximos. Enviarei este texto a todos os pneumologistas do Brasil, no sentido de que seja possível dar uma aula de Tabagismo, Enfisema, Tuberculose e Câncer de Pulmão apenas contando causos e mais causos.

sexta-feira, setembro 07, 2012 9:34:00 PM

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Jamburana desgraçada!!! – by, Citadino Kane

O cartunista André Abreu sabe o que é Jamburana, olha a tirinha acima.

André Abreu é cartunista de mão-cheia, eu, ele, J.Bosco e Elias Pinto experimentamos juntos a famigeradaJamburana e o resultado foi muito louco…

Encontrei com o velho e bom Xamã André Nunes andando pela 28 de setembro no Comércio e sinceramente não tive como justificar a minha ausência no Terra-do-Meio. 
André Nunes é o nosso Xamã dos Xipaias, ele recebeu dos sacerdotes da tribo a missão de produzir a bebida que liga um mundo ao outro mundo… Obrigado André por permitir conhecer essa outra dimensão, é uma experiência muito louca.

Xipaias é uma tribo antiga do Xingú.

 

Mais? Então, vá aqui no Blog do Pedro Nelito!

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PARAGUAI: UM GOLPE DE MESTRE

Paraguai: Um golpe de mestre

andré costa nunes
andre@terradomeio.com.br

Vamos começar pelo final. As elites paraguaias descobriram a pólvora. Descobriram o golpe de um e noventa e nove.

Nesses tempos cibernéticos de evolução em progressão exponencial nada mais antiquado de que botar tropas e tanques nas ruas fazer declarações bombásticas de salvação nacional e outras baboseiras mais.

Basta comprar vinte e nove senadores!

Quer coisa mais baratinha? Uma verdadeira pechincha para as multinacionais Monsanto, Cargill, latifundiários e quejandos.

Um país inteiro a preço de banana. Sem disparar um tiro. Sem prisões, desaparecidos ou tortura, a não ser aquela parte da população, aliás, a maior parte, que chamam lá de excluídos, campesinos, pobres, pueblo.

Mas esses não contam. Nunca souberam o que era bom para sua própria pátria.

Importam mesmo são os vinte e nove senadores.

O Bial os chamaria de “nossos heróis”.

Não me espantaria se os PIGs da América Latina e, mesmo, a anglossaxônica os chamassem de “Os vinte e nove de Esparta”.

De qualquer maneira foi uma lição de criatividade. Simples como tudo que funciona.

Golpe de mestre. Esperteza. Malandragem. Canalhice.

É preciso ficar velhaco, por as barbas de molho ou, como se dizia antigamente, e bota antigamente nisso, aqui d’El Rei, tem mouros à costa, porque se a moda pega…

***

O Paraguai é um país pequeno e pobre. Muito pobre. Tem a mesma população do Estado do Pará que tem mais de três vezes o seu tamanho, aliás, essas comparações devem ficar por aí. População e área. Até porque, o Pará consegue ser muito mais pobre, o povo vive pior e tem o dobro de analfabetos.

O país não tem indústrias, gás, petróleo, ou qualquer outro mineral em exploração significativa. Vive do contrabando para o Brasil, do tráfico de drogas, armas, e de duas grandes hidrelétricas de parceria. Itaipu, com o Brasil, e Yaciretá, com a Argentina. O rebanho bovino é menos da metade do existente no município de São Félix do Xingu, aqui, no Pará.

O resto é o grande latifúndio de grileiros paraguaios, brasileiros e brasiguiaos. Farinha do mesmo saco. Saco de soja. Experimental. Transgênica.

Ao fim e ao cabo, a mesma comandita a dividir o país e as gentes.

Gente sofrida, bonita, lutadora, sonhadora, orgulhosa de ser guarani.

Eles não merecem, não com a nossa conivência ou, mesmo, indiferença, mais esse golpe. Agora, para gáudio dos golpistas de plantão, daqui e de alhures, diz-que, constitucional.

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A GRAVATA E O CABANO

A GRAVATA E O CABANO

andre costa nunes


Juro que não tenho nada contra a gravata. Teria menos ainda se morasse em Londres ou Curitiba. Mas convenhamos, em Belém, Manaus, Macapá, Teresina, Santarém é dose pra leão. Mesmo assim é tolerável, justo, elegante, apenas como moda ou modismo.

Cada um tem o direito de se vestir como quiser. Sári, kilt, tanga, penacho, xador, burca, bermuda e, porque, não, paletó e gravata. Alguns há que não dispensam o colete. Gosto não se discute. A liberdade é doce.

Como se disse, as pessoas são livres para se vestir como quiserem, como são os costumes, ou, ao arrepio desses mesmos costumes, enfim, como se sentirem bem. Por isso, usa gravata quem quer, como quer e onde quer.

Mas não é assim. O uso da gravata em muitos lugares públicos é pernosticamente obrigatório.

Em recepções particulares é aceitável. Se a casa é minha eu dito as regras. O Baile do Pierrô da saudosa Eneida de Moraes, no Clube do Remo é emblemático. Só se entrava vestido de pierrô, colombina ou arlequim. Ou traje a rigor. Carnaval.

É desnecessário enumerar as repartições “ditas públicas” nas quais só se é atendido se estiver de paletó e gravata. Isto, a meu ver, significa que não são tão públicas assim.

Até bem pouco tempo, qualquer funcionário público só podia trabalhar de paletó e gravata.

Loja, banco, revenda de carro, imobiliária, escritório metido a besta, também.

Eram folclóricos os paletós dos investigadores de polícia de antigamente. Mal pagos, trabalhando na rua, com paletós que o defunto era maior e qualquer camisa e gravata velhas. Marca registrada. Uniforme. De longe já se sabia quem era.

Gravata vem de croata. Mercenários que usavam lenço no pescoço para que no inverno, o frio não passasse para o peito e, no verão, para enxugar o suor do rosto.

Essa explicação, não tem a menor importância. Entrou no texto como Pilatos no credo.

Já sabemos que essa prática, que cheira a macaquice de imitação, é mero resquício colonial. É particularmente perversa no norte do Brasil, assim, como se disse, de maneira obrigatória.

Ao fim e ao cabo, o paletó e a gravata, pelo menos por essas bandas dos trópicos, no nosso caso específico, Zona Equatorial, Tórrida e Úmida, não pode ter justificativa racional.

Já se falou de elegância, moda etc. que nem sempre precisam ter racionalidade.

Pois bem, o paletó e a gravata são, por aqui, apenas aparatos não republicanos de exclusão social e, praticados sem esta intenção explícita. E com aceitação passiva e pacífica por todas as gentes, afinal, sempre estará ao alcance de todos, o que dá um falso sentimento de hábito democrático.

Mas vale a pena insistir, perverso é quando é obrigatório, para diferenciar um cidadão de outro. Aí é evidente a intenção de separação de condição social, econômica, de casta e, até mesmo étnica. Onde já se viu cabano de terno e gravata?

Se servidor público, em qualquer dos três poderes, a gravata faz parte de uma tal pompa e circunstância que o cargo requer. E isso, convenhamos, é de um saudosismo monárquico e feudal ridículo. Acontece no executivo e no legislativo com freqüência. No judiciário, sempre. Mera imposição de castas.

Em todo o mundo, não sou especialista no assunto, mas apenas observador, os trajes obedecem aos costumes, e esses, ao meio. Assim é com os beduínos, nas areias escaldantes do deserto, com os esquimós, com os africanos, com os asiáticos, com os europeus na Europa, e com os americanos no Norte.

Na Flórida, no verão, vi carteiros, atendentes e até policiais usando bermuda e tênis, enquanto, para não ir longe, em uma repartição policial, de atendimento ao público, aqui mesmo em Belém, na Magalhães Barata, uma placa determina que trajes usar para ser atendido. É expressamente proibido entrar de bermuda.

Em qualquer secretaria da Prefeitura de Marituba, também.

É permitido entrar sem gravata na Câmara Federal. No Senado, não.

Índios e estrangeiros são tolerados. Cabanos, não.

Até há bem pouco tempo, o estudante só podia freqüentar as aulas na faculdade de direito da Ufpa trajando paletó e gravata.

Dizem que o Dr. Helio Castro, uma das figuras mais espetaculares e folclóricas de Belém, de quem eu tenho a honra de dizer que fui amigo, quando acadêmico de direito, resolveu contestar tal determinação dos vetustos catedráticos. Não conseguiu. Teria recorrido aos tribunais, até o STF. Perdeu. Teria concluído o curso trajando fraque e cartola. E bengala. Essa história, assim como muitas outras, careço da confirmação do Ronaldo Passarinho. Mas assim se contam e eu reproduzo. Eu disse, diz-que.

Houve em vários tempos e lugares tentativas de mudar esses hábitos servis.

Li há muito tempo um artigo do Mahatma Gandi pedindo que os indianos não usassem paletó e gravata, até para dar serviço às costureiras locais e, principalmente, frisava, esse era o traje do opressor, que não devia ser homenageado.

Pelo mesmo motivo as autoridades iranianas não usam gravata. Nem na ONU.

A China, por razões talvez outras, como economia de escala, para vestir mais de um bilhão de chineses universalizou o traje Mao. Um slack de tecido grosso, durável, de manga comprida, quatro bolsos e sem gola. Quase militar.

Por aqui, o Presidente Jânio quadros, em raro momento de sobriedade, instituiu o pijânio que em qualquer evento ou circunstância substituiria o paletó. Tratava-se de uma camisa ou bata, de tecido fino, quatro bolsos e manga curta. Ficava entre o safári e uma camisa de pijama.

Juntamente com o idealizador a moda foi apeada do poder. No meu entender, infelizmente. Não a queda do presidente, mas do pijânio, que até que era uma boa idéia.

***

O traje tradicional do cabano é o calção de lona, lisa ou listrada, com perna abaixo do joelho e amarrada no cós com barbante, cadarço ou embira. Na labuta diária, torso nu. Sem bloqueador solar ou câncer de pele. Acho que tem a ver com aquela cor de coca-cola. No mais, calça de brim, Jeans, camisa de meia.

Manga comprida é traje de ver deus. Missa, culto ou festa do santo padroeiro. Coisa de tradição ditada pelo meio.

Exatamente como os outros povos.

Chamar o cabano de pária seria exagero, mas que ele se considera inferior àquela casta da gravata, com certeza. E o que é pior, os engravatados também pensam assim.

***

Conta-se que o comandante de uma esquadra inglesa a caminho das Ilhas Folklands, almirante não sei o que, diz-que, até que era “sir”, resolveu, em uma fragata fazer uma visita oficial a Belém.

Foi um alvoroço. Até o embaixador de sua majestade teria vindo de Brasília. Esvaziou-se o cais do porto do armazém um ao cinco. Teve navio cargueiro que ficou ao largo, bem longe da tal fragata. Zona de exclusão.

O governador de então, formalista e empavonado, tratou pessoalmente dos preparativos. Era preciso demonstrar que aqui nestes cafundós também tinha uma aristocracia a altura de receber um autêntico lorde inglês.

O tal almirante, dispensando os práticos da barra, entrou pelo delta do Amazonas em noite escura e, com a perfeição de um Vasco Moscoso do Aragão, de Jorge Amado, atracou com maestria no espaço que lhe foi reservado. Britanicamente na hora que marcara para a Capitania do Portos. Sete horas e quarenta e sete minutos da manhã.

Dispensaram-se, é obvio, as formalidades aduaneiras e subiu a bordo, para as boas vindas de praxe, o comandante da IV Distrito Naval e meia dúzia de oficiais superiores.

Às quinze horas deste mesmo dia haveria o grande evento. O nobre almirante iria receber, para um coquetel, as autoridades civis e a imprensa. Não se sabe porque, o arcebispo ficou de fora. Também inexplicável foi a ausência de mulheres, à exceção da mulher do governador. Talvez, com o cargo de primeira dama, fosse considerada autoridade civil.

A Casa Civil do Governo marcou o encontro para as quatorze horas na praça da escadinha do cais do porto.

O convite com o indefectível RSVP exigia passeio completo e escuro, isto é, paletó e gravata.

Isso no calor de Belém, que os locutores esportivos apelidam de canícula. Às duas da tarde!

Eram aproximadamente trinta convidados, até porque, a tal imprensa, resumia-se a um representante de cada jornal e TV.

Três jornais e duas estações de televisão. Emissoras de rádio, não foram convidadas.

Eis que chega, atrasado como sempre, um jornalista, irreverente e desafeto do governador, trajando um safári de gabardine cáqui claro, manga curta.

Viviam-se tempos de ditadura e o Governador fazia parte da nomenklatura como, aliás, todo o estafe de governo. A censura era braba e o jovem jornalista teria aprontado essa de caso pensado.

Até por chegar atrasado chamou a atenção de todos. Imediatamente o Chefe da Casa Civil, de cara amarrada, partiu ao encontro daquela figura bizarra.

Armou-se um princípio de confusão, quando providencialmente o chefe do cerimonial, nervoso, convidou a todos para embarcar na belonave. Depois do governador, é claro.

Quando sua excelência assomou o portaló de honra, fez-se silêncio, e se ouviu um solo de apito fino e trinado, que deve ser a corneta de bordo. O toque certamente tem algum significado de saudação que nenhum dos presentes soube identificar. Inclusive o oficial PM da Casa Militar.

O último a subir a bordo, pela escadinha estreita que deixava passar um por vez, foi o tal jornalista sem gravata. Quando ele entrou desfez-se a guarda formada de recepção e um oficial vendo sua credencial de imprensa foi todo amabilidades falando português escorreito, de Portugal, e o acompanhou cerrando o cortejo rumo à praça dármas. Era um salão à moda de um clube fino cheirando a pub londrino, sobriamente decorado em estilo clássico. As paredes forradas de laminados de cedro e jacarandá ostentavam, sem exagero, fotografias, uma grande tela a óleo da Rainha Elizabeth II e do Almirante Nelson e um quadro de medalhas. Aquele navio participara da invasão da Normandia.

Passado o encantamento com o lugar, o jornalista, até por dever de ofício foi se assenhoreando do ambiente. Esquivando-se dos taifeiros negros, impecáveis, que desfilavam bandejas de canapés, vinho, uísque, coquetel, divisou, em um canto mais afastado, o lorde almirante conversando sabe-se lá o que com o governador e a primeira dama.

De repente sentiu um choque. Choque mesmo, como se tivesse pisado em poraqué. Não queria acreditar no que via e, parecia que só ele se dava conta do inusitado da cena: o lorde almirante e toda a oficialidade britânica trajavam bermuda branca de linho, cinto branco, meia branca soquete, e sapatos brancos tipo mocassim, de couro ou pano. Todos impecavelmente pintados de alvaiade.

Foi a glória. Por essa ele não esperava. Instintivamente pegou um copo da primeira bandeja de crioulo que passou e bebeu de um só gole. Era uísque. Sem gelo. Não notou. Imediatamente caçou com os olhos o oficial que o acompanhara e falava português. Chegou junto, puxou um assunto qualquer, soube que o capitão era do quadro de RP da Armada de origem indiana, mais exatamente de Goa, e outras cositas mas, as quais ele não estava nem prestando atenção. Quando, em uma pausa do capitão, ele observou com displicência estudada:

– Acho que o meu governador deve estar se sentindo agachado. Ele é um prócer do novo regime militar do Brasil, e se o conheço bem ele esperava ser recebido pelos senhores com um traje mais, digamos, formal.

O jovem oficial de relações públicas ficou lívido.

– Como assim, meu senhor, não estou a entender.

– Não ligue pra isso. São idiossincrasias do Poder. Dói, mas passa.

-Não, meu senhor, isso é sério. Saiba o senhor que esse é o nosso primeiro uniforme para os trópicos. É com ele que recebemos, nas regiões quentes, é claro, Sua Majestade a Rainha. Obrigado pela observação e dê-me só um minutinho que vou já desfazer esse terrível mal-entendido. Disse isso e encaminhou-se para onde no momento estavam o lorde almirante, o governador e agora o embaixador inglês.

O repórter sacana esperou por um momento, imaginando a saia justa do governador, enquanto o oficial RP, depois de uma breve conversa reservada com o Almirante e o embaixador, começou a dar as devidas explicações a sua excelência.

Não demorou muito e o olhar do governador cruzou com o seu como um raio. Se o fosse, de fato, ele estaria fulminado. Apenas, em resposta, levantou um brinde, agora uma taça de champanhe e, lentamente foi-se encaminhando para a escada da saída.

Houve quem o visse ainda na praça da escadinha assobiando Para não dizer que não falei de flores.

Epílogo

Mesmo curupira e cabano convicto vou continuar, eventualmente, a usar paletó e gravata. Se puder, Armani, Prada ou Ermenegildo Zegna. Por vaidade, para me sentir elegante, mais bonito, importante. Ou, tristeza maior, para ser recebido por outro cidadão que deveria ser igual a mim, mas tem o poder de exigir de outro cidadão, o uso de paletó e gravata.

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XINGU – Vivo que te quero verde

XINGU  – Vivo que te quero verde

Gostaria que vocês assistissem a esses trailers de um longa metragem que
se fez sobre o Xingu, Belo Monte e, consequentemente à Terra do
Meio. Àquela outra, primitiva, que inspirou este curupira.

Antes, Terra do Meio era apenas a mesopotâmia entre os rios Xingu e Iriri.
Hoje esse conceito estendeu-se para todo o Vale do Xingu.

Quando da minha infância e adolescência aprendi a amar cada curva do rio,
cada pedra, cachoeira e castanheira. E todas as gentes.

Naquela época decidi que iria ganhar o mundo e, quando ficasse velho,
voltaria. Para ficar. Contar aos curumins, netos dos velhos companheiros,
mil histórias vividas e inventadas. Papo de beira, de rancho, de praia, de
pedral.

Não deu. Simplesmente porque decidi que não vou ficar velho.

Há quem diga que eu romanceio os argumentos em prol das minhas bandeiras.
Que bom. É isso que minimamente sei fazer. Sou escritor e romancista e esta
é minha arma. Como a música está para o compositor, a poesia para o poeta,
a tela para o pintor. É a minha maneira de sentir, de lutar, de sonhar,
sofrer, viver. Ser feliz e alegre, senão com o momento, mas pelo futuro
melhor que virá inexoravelmente como todas as enchentes e verões dos rios
sem barragem.

Peço, pois, que assistam a este pequeno vídeo do youtube. Reflitam,
comentem e, se puderem colaborem.

Obrigado,

andré costa nunes

…e, para quem quer ver o filme completo…aqui:

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NAMORAR É PRECISO

SEM TARDAR

Namorar é preciso
O Terra do Meio te espera
Como quem vive na primavera
Do teu amor necessito
Do teu amor estou convencido
Quem me dera beijar
Tua boca sem tardar
Vamos ao paraíso
Vamos, eu preciso
Ao Terra do Meio namorar

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Amanhã, terça-feira, é, diz-que, o Dia dos Namorados e, é claro,
das namoradas. Os americanos chamam de Valentine’s Day e comemoram a data em 14 de Fevereiro. Não sei porque, mas são uns bobos. Primeiro, Fevereiro é mês do Carnaval, intocável. Segundo, Junho é mês de folia, é mês de todos os Santos, e dia 12 é véspera do Antônio, o Santo casamenteiro!

O certo é que…

NAMORAR É PRECISO
andré costa nunes

Gente, a melhor coisa da vida é namorar.

Vão por mim que sei das coisas. Aliás, dizem que o diabo é sabido, não
é porque é diabo, mas porque é velho.

O namoro é melhor que o orgasmo.
O orgasmo é, mal comparado, claro, como a campa do colégio, que
anuncia o fim do recreio.

O bom é o recreio!

São os prolegômenos. É a petição inicial, diria o doutor Lafayette.
É o momento de mundiação, em que as pessoas, todas, ficam mais belas,
maravilhosamente bobas É o mais próximo possível que se pode chegar do
nirvana.

O mundo, as gentes, os corações e as mentes são a oficina dos meus
devaneios e sonhos.
Romântico e humanista inveterado, não consigo imaginar um povo onde as
pessoas não namorem. Apenas casam. Acasalam. Procriam. Dizem que é
cultural, que há que se respeitar. Dizem também que na antiguidade era
assim. Sei, não, não moro lá e não sou tão antigo assim.

Namorar não tem contra-indicação, idade ou “interação medicamentosa”.

Vai bem com perfume, rosas, vinho, champanhe, caipirinha, licor de
flor de jamburana (made in, diz-que, Uriboca), carinho, com o velho
cartão de Cupido com flecha, coração, e tudo o mais. Vai bem com lua,
sol, chuva, praia, praça, igarapé, piscina, cinema. Poesia.

Vai muito bem com música.

Quem namora não faz a guerra. Está de bem com a vida.

Acho, até, que não devia haver marido e mulher. Esposo e esposa,
então, é a cafonice personificada.

Só devia haver namorada e namorado.
Por toda a vida.

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A MENINA CARIOCA E O PATO DO SÍTIO

A menina carioca e o pato do sítio

andré costa nunes

Estava eu posto em sossego… Assim se começava a contar um causo antigamente. Causo escrito, formal, porque causo contado mesmo, daqueles que se contam no terreiro, à sombra da mangueira, ou de tardinha na beira do rio começa diferente:

 Eu tava quieto no meu canto… Tudo isso é modo de falar, sestro. Até eu, caboco assumido, uso bastante, mas quem me conhece sabe que, mesmo preto velho (preto velho é ótimo, se fosse com maiúscula seria melhor ainda), aliás, mulato, não consigo ficar sossegado, muito menos quieto. Principalmente depois que aos setenta, resolvi abrir o Restaurante Rural Terra do Meio.

 Pois bem, vamos ao causo, que muita conversa acaba o saco de farinha.

Faz algum tempo, eu estava quieto no meu canto no sítio, no Uriboca, na beira do rio, onde moro, tabaqueando um sucedido qualquer com meu amigo Maraca, quando o sossego foi quebrado por um táxi velho aqui de Marituba. Já chegou fazendo barulho e se peidando todo. Acho que só táxi do interior para caber tanta gente. Quatro adultos e uns cinco meninos. O mais velho devia ter uns nove anos.

Era o meu filho Pedro com os filhos, trazendo minha sobrinha que mora Rio de Janeiro, e sua prole.

Alegria geral. A meninada solta na buraqueira e a mãe, carioca, a tentar por um pouco de ordem na debandada.

– Meninos, sosseguem, vão primeiro dar um beijo no tivô. Tivô em carioquês e um acrônimo de tio com avô. Frescura. Por aqui tio é tio e primo é primo.

Já os filhos do Pedro, cabocos de Marituba e de Apicum Açu, no Maranhão, vieram pedir a benção.

 Amelinha, a tal sobrinha carioca, às voltas com a Maria Cláudia, que havia perdido o sapato e pisava no terreiro com os pezinhos tronchos como papagaio na areia quente.

– Tio, ela nunca andou descalça. Nunca pisou na grama.

Notei que ela estava mesmo preocupada. Fez menção de sair para achar a tal sandália perdida, quando resolvi intervir como antigamente. Politicamente incorreto como é meu feitio. Já se disse que não sou tio de novela.

 – Para, porra! Deixa a menina se soltar. Vá minha filha, o pé logo se acostuma e pra criança, aqui, tudo é permitido.

 Olhei sério para a Amelinha e ela, sobrinha de antigamente, não contestou. Por um tempo fiquei matutando. Quatro para cinco anos e nunca pisara na grama…

 E o papo continuou. Era muito assunto. Minha irmã, a Sophia (assim mesmo, com ph), estava morando com ela e estavam de mudança para Brasília, essas coisas.

Quando demos fé, a Maria Cláudia já estava íntima do terreiro, correndo e se esbaldando. O fute. Achou uma ninhada de patos. Corria atrás dos patinhos e da pata mãe, na maior intimidade.

 Quando passou por perto de onde estávamos, parou esbaforida, afogueada, pegou minha mão, beijou e disse:

 – Obrigada tivô, eu nunca tinha visto um pato pessoalmente.

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